Francisco - Bento: continuidade ou ruptura?

Os gestos e palavras do Papa Francisco mostram claramente a sua relação pessoal de carinho e a sua admiração por Bento XVI, junto a uma evidente mudança de estilo. Mas e o Magistério do Papa Atual? É muito diferente do seu predecessor? Existe algum ponto em comum entre 'a cultura do descarte' e a 'ditadura do relativismo'? Artigo do Vigário Regional do Opus Dei na Argentina, publicado na revista 'Palabra'.

Opus Dei - Francisco - Bento: continuidade ou ruptura?

Já passaram muitos meses desde a eleição de Francisco como sucessor de Bento XVI. A mudança de estilo é bastante evidente, como o foi, em seu tempo, a mudança de imagem do Pontífice na pessoa de São João XXIII, tão diferente de Pio XII, ou a diferença de personalidade entre Paulo VI – mais reservado e intelectual – e o carismático "Papa Bom". Este mesmo fato repetiu-se quando São João Paulo II sucedeu ao recém-elevado aos altares Bem-aventurado Paulo VI – passando pelos trinta e três dias do sorriso do Papa Luciani, que amortizou a mudança– e, por último, quando Bento XVI sucedeu ao santo papa polaco.

As mudanças de estilo dos Papas são parte intrínseca do componente humano da Igreja. Os exemplos das últimas décadas que citamos correspondem a uma das épocas históricas mais positivas para o pontificado romano. Esta diversidade é uma riqueza, pois o estilo de uma pessoa tem muito a ver com sua própria idiossincrasia e com as tradições culturais que existem por trás de uma personalidade. Ultimamente, a Igreja foi enriquecida com a tradição eslava de Karol Wojtyla, a centro-europeia de Joseph Ratzinger e, agora, com a latino-americana de Jorge Mario Bergoglio.

Partindo do ponto de vista do carisma individual, o conhecido jornalista norte-americano John Allen arriscou uma comparação musical: João Paulo II é "rock and roll", Bento XVI, "clássico", e Francisco, "popular". E, claro, longe das diferenças pessoais, sabemos que João Paulo II nomeou bispo e cardeal a Jorge Bergoglio, que Bento se alegra com o seu papado e que, por sua vez, Francisco decorava uma parede de seu simples quarto portenho com um retrato do papa alemão.

É realmente digno de destacar o carinho e a admiração de Francisco por seu predecessor. Permito-me contar uma lembrança pessoal. Em agosto de 2008 acompanhei o então Cardeal Bergoglio em um breve passeio de carro por Buenos Aires. Nesta oportunidade confiou-me que o que mais admirava no Papa Bento era sua humildade e o seu magistério. Recordando estas palavras depois da renúncia do Papa Ratzinger, percebi a profundidade que continham: Bento XVI efetivamente passará para a história precisamente pela sua humildade e pelo seu magistério.

Mudança de estilo e relação pessoal de carinho e admiração em relação a Bento XVI aparecem claramente nas palavras e nos gestos de Francisco. Porém, o que se pode dizer do magistério pontifício atual em relação ao anterior? A cultura do descarte e a ditadura do relativismo possuem algo em comum?

A ditadura do relativismo

Na segunda-feira, 18 de abril de 2005, o Cardeal Joseph Ratzinger presidiu a Santa Missa que dava início ao Conclave para escolher o sucessor do falecido Papa João Paulo II. Em sua homilia, o Decano do Colégio Cardinalício colocou em relevo quais eram as circunstâncias culturais que deveria enfrentar o futuro sucessor de São Pedro – sem saber que nesse momento ele mesmo era o principal destinatário de sua mensagem –. Em um parágrafo afirmava: « Quantos ventos de doutrina conhecemos nestes últimos decênios, quantas correntes ideológicas, quantas modas do pensamento... A pequena barca do pensamento de muitos cristãos foi muitas vezes agitada por estas ondas lançada de um extremo ao outro: do marxismo ao liberalismo, até à libertinagem, ao coletivismo radical; do ateísmo a um vago misticismo religioso; do agnosticismo ao sincretismo e por aí adiante. Cada dia surgem novas seitas e realiza-se quanto diz São Paulo acerca do engano dos homens, da astúcia que tende a levar ao erro (cf. Ef 4, 14). Ter uma fé clara, segundo o Credo da Igreja, muitas vezes é classificado como fundamentalismo. Enquanto o relativismo, isto é, deixar-se levar "aqui e além por qualquer vento de doutrina", aparece como a única atitude à altura dos tempos hodiernos. Vai-se constituindo uma ditadura do relativismo que nada reconhece como definitivo e que deixa como última medida apenas o próprio eu e as suas vontades».

A ditadura do relativismo ou, dito de modo positivo, a necessidade e urgência de recuperar a confiança na possibilidade de alcançar a verdade através da fé e da razão numa sociedade pluralista, foi o ponto central do magistério do pontificado anterior. Os famosos discursos de Ratisbona, Westminster Hall e Bundestag são amostras magníficas deste interesse e preocupação, incorporando a ideia do secularismo sadio como superação do laicismo e do fundamentalismo.

O relativismo é a crise da verdade porque se considera que o ser humano não é capaz de conectar-se ao verdadeiro, à ética universal, a umas ideias básicas compartilháveis por todos, independentemente da história ou da cultura. Isto não é, exclusivamente, um tema de lógica ou filosofia do conhecimento. É uma atitude geral perante o grande desafio da verdade. Esquece-se que Jesus disse: «a verdade vos fará livres» e se considera a verdade como um teto que limita nossas possibilidades e nosso desenvolvimento pessoal ou, no coletivo, nosso florescimento cultural. Nesta perspectiva, a verdade é uma restrição do nosso potencial criativo. No entanto a verdade é necessária para edificar algo duradouro, um ponto firme sobre o qual se desenvolva a criatividade social e individual. Quanto mais firme for essa base, mais alta a construção, mais possibilidades, mais liberdade de projetos, de ideias, de propostas, A verdade, nesta linha, é o fundamento de nosso progresso e de nossa inovação.

Às vezes, corre-se o risco de que a verdade leve a contemplar «a humanidade a partir de um castelo de vidro para julgar e classificar as pessoas» – tomando as palavras de Francisco no encerramento do sínodo sobre a família–. Porém, no discurso não pronunciado em La Sapienza de Roma, Bento XVI reflete com Santo Agostinho sobre o fato de que a verdade teórica – com suas abstrações, juízos e classificações, – por si só leva à tristeza, e que a verdade íntegra consiste no conhecimento do bem, portanto, « A verdade torna-nos bons », e desta maneira, nos introduz na caridade e na acolhida ao próximo.

A cultura do descarte

Francisco, partindo de perspectivas distintas, desenvolveu por seu lado o que ele chama a «cultura do descarte»: uma sociedade que deixa de lado os anciãos, enfermos e jovens, porque centrou sua atenção no próprio eu, exaltando o deus-dinheiro, o deus-prazer e o deus-poder. Na Evangelii Gaudium o afirma sem rodeios: frente à alegria que produz o encontro com Jesus, «o grande risco do mundo atual, com sua múltipla e avassaladora oferta de consumo, é uma tristeza individualista que brota do coração comodista e mesquinho, da busca desordenada de prazeres superficiais, da consciência isolada».

Deste modo, estamos também frente à denúncia de uma ditadura; neste caso, não no âmbito das ideias, mas no material: « A adoração do antigo bezerro de ouro (cf. Ex 32, 1-35) encontrou uma nova e cruel versão no fetichismo do dinheiro e na ditadura duma economia sem rosto e sem um objetivo verdadeiramente humano » (Evangelii Gaudium, 55). Esta ditadura «reduz o ser humano a apenas uma de suas necessidades: o consumo», algo que poderia assimilar-se ao imanente «o eu e as suas vontades » de Bento XVI.

Francisco denuncia o flagelo que sofre a dignidade humana, não no abstrato, mas na carne que sofre dos pobres e excluídos. Dos excluídos do mundo europeu que repele os imigrantes africanos em Lampedusa; dos marginalizados das grandes cidades emergentes que se amontoam em bairros miseráveis, favelas ou barracos; das vítimas das novas formas de escravidão, como o tráfico de pessoas, as crianças soldados ou a triste história daqueles que caem nas garras das drogas. Este grito profético ressoa nos ouvidos do mundo e correm pelos corredores rumores de premio Nobel ao mesmo tempo em que uma enchente de revistas o exalta em suas capas. No entanto, a idolatria do material permanece intacta, pois suas raízes profundas a sustentam em pé.

Em uma entrevista concedida a Henrique Cymerman, Francisco expôs com clareza as consequências sociais destas atitudes idolátricas: «Caímos num pecado de idolatria, a idolatria do dinheiro. A economia move-se pelo afã de ter mais e, paradoxalmente, alimenta-se uma cultura do descartável. Descartam-se os jovens quando se limita a natalidade. Descartam-se também os idosos porque deixaram de servir, não produzem, são uma classe passiva... E descartando os jovens e os idosos, descarta-se o futuro de um povo porque os jovens impulsionam fortemente para frente e porque os idosos nos dão a sabedoria, têm a memória desse povo e devem transmiti-la aos jovens.

[...] Descartamos toda uma geração para manter um sistema econômico que já não se aguenta, um sistema que para sobreviver deve fazer a guerra, como sempre fizeram os grandes impérios. [...] Este pensamento único tira-nos a riqueza da diversidade de pensamento e, portanto, de um diálogo entre as pessoas.

As pessoas são o alimento do sistema. A imagem recorda o filme "Matrix", na qual os seres humanos são utilizados como baterias de uma grande máquina elétrica que alcançou a autoconsciência. Muitos deles vivem em um mundo ilusório, como uma prisão confortável. Max Weber, no princípio do século XX, definiu como jaula de ferro a um mercado carente de valores.

Duas faces de uma mesma realidade

Estas duas ditaduras denunciadas pelos pontífices são, por sua vez, distintos aspectos de uma mesma realidade. Num importante discurso pronunciado nas primeiras semanas de seu pontificado, ao corpo diplomático credenciado ante a Santa Sé, Francisco estabeleceu esta vinculação entre sua preocupação pela pobreza e o magistério sobre a verdade de Bento XVI. Em primeiro lugar afirmava: «Como sabeis, há vários motivos que, ao escolher o meu nome, me levaram a pensar em Francisco de Assis, uma figura bem conhecida mesmo além das fronteiras da Itália e da Europa, inclusive entre os que não professam a fé católica. Um dos primeiros é o amor que Francisco tinha pelos pobres. Ainda há tantos pobres no mundo! E tanto sofrimento passam estas pessoas! A exemplo de Francisco de Assis, a Igreja tem procurado, sempre e em todos os cantos da terra, cuidar e defender quem passa indigência e penso que podereis constatar, em muitos dos vossos países, a obra generosa dos cristãos que se empenham na ajuda aos doentes, aos órfãos, aos sem-abrigo e a quantos são marginalizados, e deste modo trabalham para construir sociedades mais humanas e mais justas».

Após descrever uma vez mais o problema da cultura do descarte, no próximo parágrafo demonstra a ponte com o pontificado precedente: «Mas há ainda outra pobreza: é a pobreza espiritual dos nossos dias, que afeta gravemente também os países considerados mais ricos. É aquilo que o meu Predecessor, o amado e venerado Bento XVI, chama a «ditadura do relativismo», que deixa cada um como medida de si mesmo, colocando em perigo a convivência entre os homens. E assim chego a segunda razão do meu nome. Francisco de Assis diz-nos: trabalhai por edificar a paz. Mas, sem a verdade, não há verdadeira paz. Não pode haver verdadeira paz, se cada um é a medida de si mesmo, se cada um pode reivindicar sempre e só os direitos próprios, sem se importar ao mesmo tempo do bem dos outros, do bem de todos, a começar da natureza comum a todos os seres humanos nesta terra».

Não há paz, não há progresso humano possível, se as pessoas não se preocuparem com o bem estar dos outros. João Paulo II sintetizou-o na histórica frase «a paz é obra da solidariedade», que deu sequência a de seus predecessores Pio XII e Paulo VI, que haviam anunciado «a paz é obra da justiça» e «o desenvolvimento é o novo nome da paz», respectivamente. O raciocínio concatenado do magistério pontifício fundamenta-se no princípio central da dignidade humana: só com a doação de si mesmo aos outros é possível construir um mundo onde triunfe a fraternidade.

Por isso, para poder superar a crise de pobreza e de valores que estamos vivendo há anos, a sociedade atual necessita redescobrir a sua verdade mais profunda: o respeito absoluto pelos direitos humanos de cada pessoa, que é única e irrepetível. Sem esta base, uns instrumentalizarão a outros para seus próprios fins, e os seres humanos serão usados em lugar de respeitados, serão tratados como coisas, que se podem descartar quando não servem mais.

Do meu ponto de vista, o Papa Francisco refere-se permanentemente ao relativismo através de uma proposta superadora que se expressa na denúncia da consequência direta do relativismo: o domínio dos poderosos, a cultura do descarte e da indiferença, a burocratização da fé. Diante disto promove uma cultura do encontro e do compromisso.

Na Evangelii Gaudium constata «um aumento progressivo do relativismo; que provoca uma desorientação generalizada». E mais à frente, explica: «Este relativismo prático é agir como se Deus não existisse, decidir como se os pobres não existissem, sonhar como se os outros não existissem, trabalhar como se aqueles que não receberam o anúncio não existissem». Vive um «come e bebe, divirta-se», fruto obscuro de uma autonomia ilusória que se desliga de qualquer responsabilidade perante os demais. Diante disto, surge com Martin Buber esse grande início caimita [de Caim] da ética que nos lembra que somos os "guardiões de nossos irmãos", que existem laços fraternos que nos unem aos outros, não somos indivíduos isolados, que podemos pensar somente no « próprio eu e as suas vontades ». Estamos chamados à caridade para construir o bem comum, a caritas in veritate – encíclica social de Bento XVI–, a caridade na verdade.

Em resumo, pode-se afirmar que Bento XVI indica que sem um fundamento verdadeiro, o mundo fica órfão de instâncias de apelação e nas mãos dos poderosos: os pobres e os fracos têm as portas da dignidade fechadas para si, não há princípios para apoiar suas reivindicações.

Francisco, em sua própria linguagem, denuncia com força que o verdadeiro nome do relativismo é a cultura do descarte, o triunfo do poder e do dinheiro sobre a dignidade, sobre o verdadeiramente humano, sobre a verdade. São passos de um mesmo processo, duas faces de uma mesma realidade, que nos chama a superar com o amor e a doação, o perdão, a generosidade e a gratuidade.

Para terminar, gostaria de contar um fato interessante. Faz mais ou menos um mês, tive a imensa felicidade de visitar o Papa em Santa Marta. Recebeu-me como um pai recebe a seu filho. Animado pela confiança que reinou nesse cativante encontro, arrisquei-me a pedir-lhe que me confirmasse uma ideia que estamos desenvolvendo junto a outros intelectuais argentinos e se sintetiza em que a cultura do descarte é uma consequência da ditadura do relativismo. Francisco, com um sorriso e com certa ênfase, respondeu-me o seguinte (não são, evidentemente, palavras textuais): «É assim. "Se não há verdade, prevalece em cada um o seu próprio interesse, que produz a consequência nefasta de descartar aos mais fracos». E voltou a fazer referência à desocupação juvenil na Europa, que tanto o preocupa.

Dizem que uma vez o Papa emérito Bento XVI afirmou que ele falava à cabeça e Francisco, ao coração. Unamo-nos aos dois em uma leitura de continuidade, porque é terrível uma pessoa sem cabeça, e mais ainda, sem coração.

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Artigo completo de Mons. Mariano Fazio, Vigário Regional do Opus Dei na Argentina, incluído na edição 619 da Revista Palabra (novembro 2014).