Em um mundo cansado, há razões para a esperança

D. Javier Echevarría esboçou o perfil humano e sobrenatural de Josemaría Escrivá no Congresso 'A grandeza da vida cotidiana': "Todo o seu ser respirava a alegria de quem receberá um tesouro preparado por seu Pai", disse.

Vinte e cinco anos de convivência diária com o Bem-aventurado Josemaría permitem ao atual prelado do Opus Dei esboçar com grande fidelidade o perfil humano e sobrenatural de Josemaría Escrivá. Assim o fez na abertura do congresso celebrado recentemente em Roma.

"Como a chamada a que respondeu fielmente encerra um extraordinário significado na história do mundo e da Igreja, não podemos estranhar que na sua existência brilhem uns dons humanos e sobrenaturais de grande envergadura", disse.

Antes de abordar esses "dons sobrenaturais", D. Echevarría relatou as virtudes humanas que caracterizaram o fundador do Opus Dei. Justificou a ordem da sua exposição recordando — com palavras do Bem-aventurado — "que Deus nos quer muito humanos. Que a cabeça toque o Céu, mas que os pés pisem firme na terra".

Josemaría Escrivá começou a cultivar as virtudes humanas no seu ambiente familiar, onde adquiriu "a educação, o pudor, as boas maneiras. Aprendeu a escutar, a prestar atenção e a ajudar na convivência. Observou a compreensão que se deve ter com os anciãos, com os enfermos e com os pobres, com a consciência de não poder ser indiferente a ninguém".

Neste ponto, D. Javier Echevarría passou aos dons sobrenaturais, ao refletir como as boas maneiras aprendidas no lar se transformaram em verdadeira caridade. "Com o tempo, muitas pessoas sairão do túnel da tristeza ou da solidão, ao comprovar que o Bem-aventurado Josemaría os trata como irmãos, com a mais sincera amizade".

Depois, atribuiu grande parte da capacidade de arrastar do Bem-aventurado Josemaría ao "seu espírito construtivo, à sua alegria contagiosa e à sua capacidade de otimismo"; enfim, à sua esperança. Uma virtude que introduziu em muitas almas ao pregar a santificação do trabalho cotidiano. Josemaría Escrivá demonstrou a compatibilidade das realidades terrenas com as espirituais, que haviam sido radicalmente separadas pela filosofia existencial do século XX. "Imanência e transcendência — resumiu o Prelado — harmonizam-se na sua vivência da esperança cristã".

Unidade de vida é, segundo o Bem-aventurado Josemaría, a arte de tornar compatíveis as ocupações diárias com o trato com Deus: "Responderá a um universitário que se lamenta, especialmente na época de provas, que não pode tornar compatível o estudo intenso com a oração: 'Uma hora de estudo, para um apóstolo moderno, é uma hora de oração'. Um operário ou um empresário com horários angustiantes encontrarão luz nesse conselho factível: 'Coloca um motivo sobrenatural na tua atividade profissional de cada dia, e terás santificado o trabalho'".

Amor à liberdade

D. Echevarría falou também do amor à liberdade que demonstrou o fundador do Opus Dei, componente imprescindível daquele que se abandona em Deus. "Reconheceu a realidade de uma libertação incomparavelmente mais radical do que a sonhada pelas utopias ideológicas, porque é a liberdade para a qual Cristo nos libertou: a liberdade conquistada por Cristo na Cruz". Descobriu, portanto, que "libertando-se das ataduras do egoísmo, uma pessoa se entrega confiadamente nas mãos de seu Pai Deus". De novo, a esperança.

"Esta primazia do livre-arbítrio — disse o Prelado — está na base da grandeza e relevância da existência cotidiana. As decisões que cada um toma todos os dias, nas ocupações correntes ou extraordinárias, transbordam de transcendência humana e sobrenatural".

Nessas vicissitudes, prosseguiu, "alternam-se a alegria e a dor, o êxito aparente e a não menos aparente derrota. Se o filho de Deus as resolve com retidão sobrenatural e perfeição humana, está contribuindo com o bem comum e com a nova evangelização". É então que o cristão deve exercitar diariamente a virtude da fé: "Os fiéis comuns serão assim, repetia o fundador do Opus Dei, 'como uma injeção intravenosa na corrente circulatória da sociedade'. Serão o consolo de Deus e — num mundo cansado — darão razões para a esperança".

Mas o trabalho é o meio que o Bem-aventurado Josemaría apontou como ponto de encontro com Deus. "O programa 'santificar o trabalho, santificar-se com o trabalho e santificar os outros com o trabalho' implica numa profunda renovação do conceito e da realidade do trabalho humano". Pouco sentido teria uma ocupação profissional "se fosse exclusivamente uma realidade econômica ou se faltasse a solidariedade, o serviço real ao próximo".

Uma meta, a santidade no trabalho, que segundo D. Javier Echevarría está ao alcance de todos. "Para a realização de grandes empreendimentos não são necessárias inteligências excelsas: basta o empenho por coroar com perfeição as diversas exigências sobrenaturais e humanas, e o afã de tirar o máximo de rendimento das qualidades que o Criador concede a cada pessoa".