Dez histórias do Papa Francisco antes de ser Papa

Dia 13 de março celebramos mais um ano da eleição do Papa Francisco. E para conhecê-lo mais, transcrevemos dez fragmentos particularmente reveladores extraídos do livro “El Jesuita”, de Sergio Rubín e Francesca Ambrogetti.

Da Igreja e do Papa
Opus Dei - Dez histórias do Papa Francisco antes de ser PapaFoto: Acidigital

Trabalho

“Eu agradeço muito a meu pai ter me mandado trabalhar. O trabalho foi uma das coisas que me mais bem me fizeram na vida; e, particularmente, no laboratório aprendi o bom e o ruim de toda tarefa humana (...). Ali tive uma chefe extraordinária, Esther Balestrino de Careaga, uma paraguaia simpatizante do comunismo que, anos depois, durante a última ditadura, sofreu o sequestro de uma filha e um genro, e depois foi raptada (...) e assassinada. Atualmente está enterrada na Igreja de Santa Cruz. Eu gostava muito dela. (...) Ela me ensinava a seriedade do trabalho. Realmente, devo muito a essa grande mulher”.

(Conversas com Jorge Bergoglio, Sergio Rubín e Francesca Ambrogetti, Verus Editora, 2013)

Vocação

Era 21 de setembro e assim muitos jovens, Jorge Bergoglio - que rondava os dezessete anos - preparava-se para festejar o Dia do Estudante com os seus companheiros. Mas decidiu começar o dia visitando sua paróquia. Era um católico praticante, que frequentava a igreja portenha de San José de Flores. Quando chegou, encontrou um sacerdote que não conhecia e que lhe transmitiu uma grande espiritualidade, de modo que decidiu se confessar com ele.

“Nessa confissão me aconteceu algo estranho, não sei o que foi, mas mudou minha vida; eu diria que fui surpreendido com a guarda baixa”, evoca mais de meio século depois. Na verdade, Bergoglio hoje tem sua interpretação daquela perplexidade: “Foi a surpresa, o estupor de um encontro; percebi que estavam me esperando. Isso é a experiência religiosa: o estupor de encontrar alguém que está nos esperando. A partir desse momento, para mim, Deus é o que está um passo à frente. Você o está buscando, mas Ele o busca primeiro. Queremos encontrá-lo, mas Ele nos encontra primeiro”. “Primeiro, eu contei a meu pai e ele achou bom". "Ele depois contou a minha mãe". "Mas a reação dela foi diferente". "A verdade é que a velha não gostou nem um pouco".

(Conversas com Jorge Bergoglio, Sergio Rubín e Francesca Ambrogetti, Verus Editora, 2013, p. 39-41)

Nova Evangelização

A Igreja, por vir de uma época na qual o modelo cultural a favorecia, acostumou-se a que suas instâncias fossem oferecidas para quem viesse, para quem nos buscasse. Isso funcionava em uma comunidade evangelizada. Mas na atual situação, a Igreja precisa transformar suas estruturas e modos pastorais orientando-os de modo a que sejam missionários. Não podemos permanecer em um estilo ‘clientelista’ que passivamente espera que venha ‘o cliente’, o fiel. Temos que ter estruturas para ir aonde nos necessitam, aonde estão as pessoas, a quem, mesmo desejando não vai se aproximar de estruturas e formas caducas que não atendem às suas expectativas nem à sua sensibilidade.

Temos de ver, com grande criatividade, como nos fazer presentes nos ambientes da sociedade fazendo que as paróquias e instituições sejam instâncias que lancem a esses ambientes. Reavaliar a vida interna da Igreja para sair para o povo fiel de Deus. A conversão pastoral nos chama a passar de uma Igreja ‘reguladora da fé’ a uma Igreja ‘transmissora e facilitadora da fé’.

(Conversas com Jorge Bergoglio, Sergio Rubín e Francesca Ambrogetti, Verus Editora, 2013, p. 67)

Divorciados na Igreja

— O que diria aos divorciados que estão numa nova união?

— Que se integrem à comunidade paroquial, que trabalhem ali, porque há coisas em uma paróquia que eles podem fazer. Que procurem ser parte da comunidade espiritual, que é o que aconselham os documentos pontifícios e o Magistério da Igreja. O Papa apontou que a Igreja os acompanha nessa situação. É verdade que a alguns dói o fato de não poderem comungar. O que é necessário, nesses casos é explicar bem as coisas. Existem casos em que isso é complicado. É uma explicação teológica que alguns sacerdotes expõem muito bem e as pessoas entendem.

(Conversas com Jorge Bergoglio, Sergio Rubín e Francesca Ambrogetti, Verus Editora, 2013, p. 78)

Aborto e direitos da mulher

— Eu situo a batalha contra o aborto na batalha a favor da vida desde a concepção até a morte digna e natural. Isso inclui o cuidado à mãe durante a gravidez, a existência de leis que protejam a mulher no pós-parto, a necessidade de garantir uma alimentação adequada às crianças, como também dar atendimento à saúde ao longo da vida toda, cuidar de nossos avós e não recorrer à eutanásia. Porque também não se deve "matar aos poucos" com uma alimentação insuficiente ou uma educação ausente ou deficiente, que são formas de privar de uma vida plena. Se há uma concepção a respeitar, há uma vida a cuidar.

— Muitos dizem que a oposição ao aborto é uma questão religiosa.

— Que nada. A mulher grávida não leva no ventre uma escova de dentes; nem um tumor. A ciência ensina que desde o momento da concepção, o novo ser tem todo o código genético. É impressionante. Não é, então, uma questão religiosa, e sim claramente moral com base científica, porque estamos na presença de um ser humano.

— Mas a graduação moral de uma mulher que comete um aborto é a mesma de quem o pratica?

— Não falaria de graduação. Mas eu sinto muito mais, não digo dó, mas compaixão, no sentido bíblico da palavra, ou seja, de cuidar e compadecer -se, de uma mulher que comete um aborto sabe-se lá por quais pressões do que por aqueles profissionais, ou não profissionais, que agem por dinheiro e com frieza única. (…) Essa frieza contrasta com os problemas de consciência, o remorso que, depois de uns anos, sentem muitas mulheres que abortaram. Só estando em um confessionário para escutar esses dramas, porque sabem que mataram um filho.

(Conversas com Jorge Bergoglio, Sergio Rubín e Francesca Ambrogetti, Verus Editora, 2013, p. 78-79)

Educação sexual

A Igreja não se opõe à educação sexual. Pessoalmente, acredito que ela deva existir ao longo de todo o crescimento das crianças, adaptada a cada etapa. Na verdade, a Igreja sempre ministrou educação sexual, mas admito que nem sempre o fez de um modo adequado. O que acontece é que atualmente muitos dos que levantam as bandeiras da educação sexual concebem-na separada da pessoa humana. Então, em vez de contarmos com uma lei de educação sexual para a plenitude da pessoa, para o amor, caímos em uma lei para a genitalidade. Essa é a nossa objeção. Não queremos que se degrade a pessoa humana. Só isso.

(Conversas com Jorge Bergoglio, Sergio Rubín e Francesca Ambrogetti, Verus Editora, 2013, p. 79)

Cozinha

— O senhor cozinha atualmente?

— Não, não tenho tempo. Mas, quando vivia no colégio Máximo, de San Miguel, como aos domingos não havia cozinheira, eu cozinhava para os estudantes.

— E cozinha bem?

— Bom, nunca matei ninguém.

(Conversas com Jorge Bergoglio, Sergio Rubín e Francesca Ambrogetti, Verus Editora, 2013, p. 26)

Pingue-pongue de perguntas e respostas

— Como o senhor se apresentaria diante de um grupo que não o conhece?

— Eu sou Jorge Bergoglio, padre. É que gosto de ser padre.

— Um lugar no mundo?

— Buenos Aires.

— Uma pessoa?

— Minha avó.

— Como prefere saber das notícias?

— Lendo os jornais. Ligo o rádio para escutar música clássica.

— O senhor anda muito de metrô. É seu transporte predileto?

— Uso o metrô quase sempre pela rapidez, mas gosto mais de ônibus, porque vejo a rua.

— Já namorou?

— Sim. Era da turma de amigos com quem íamos dançar.

— Por que o namoro acabou?

— Descobri minha vocação religiosa.

— Tem algum parente que também abraçou a vocação religiosa?

— Sim, o filho de minha irmã Marta. Ele é sacerdote jesuíta como eu.

— Algum hobby?

— Quando era jovem colecionava selos. Agora, ler, que gosto muito, e ouvir música.

— Uma obra literária.

— Adoro a poesia de Hölderlin. Também muitas obras da literatura italiana. Já li I promesi sposi umas quatro vezes. Outro tanto A Divina Comedia. Gosto de Dostoievsky e Marechal.

— Borges? O senhor o conheceu.

— Não preciso nem dizer. Além de tudo, Borges tinha a genialidade de falar praticamente de qualquer coisa com naturalidade.

— Borges era agnóstico.

— Um agnóstico que todas as noites rezava o pai-nosso, porque havia prometido a sua mãe, e que morreu assistido religiosamente.

— Uma composição musical.

— Entre as que mais admiro está a "Leonera Overture nº 3", de Beethoven, na versão de Furtwängler. Em meu entender, ele é o melhor regente de algumas de suas sinfonias e das obras de Wagner.

— Gosta de tango?

— Muito. É uma coisa que vem de dentro. Acho que conheço bastante de suas duas fases.

— Sabe dançar tango?

— Sim. Dancei quando jovem, mas prefiro a milonga.

— Seu esporte preferido.

— Quando era jovem, jogava basquete, mas gostava de ir ao estádio ver futebol. Ia a família toda, inclusive minha mãe, que nos acompanhou até 1946, ver o San Lorenzo, nosso time do coração: meus pais eram de Almagro, o bairro do clube.

(Conversas com Jorge Bergoglio, Sergio Rubín e Francesca Ambrogetti, Verus Editora, 2013, p. 101-102)

Nomeação

— [Depois de uma conversa com o Núncio, ele] informou-me: ‘Ah… uma última coisa… Você foi nomeado bispo auxiliar de Buenos Aires e a designação será publicada dia 20…’ Assim, contou-me como se nada fosse.

— E qual foi a sua reação?

— Fiquei paralisado. Como comentei antes, como consequência de um choque, bom ou mau, sempre fico bloqueado.

— Aproveitando, o que sentiu quando escutou diversas vezes seu nome na Capela Sixtina durante os escrutínios para a escolha do sucessor de João Paulo II?

— No início do conclave os cardeais juram guardar segredo; não podemos falar do que acontece ali.

— Pelo menos, diga-nos o que sentiu quando viu seu nome entre os grandes candidatos a Papa.

— Pudor, vergonha. Pensei que os jornalistas estavam loucos.

(Conversas com Jorge Bergoglio, Sergio Rubín e Francesca Ambrogetti, Verus Editora, 2013, p. 106-107)

Dor e ressentimento

A dor, que é também outra chaga, é o campo aberto. O ressentimento é como uma casa lotada, onde vive muita gente amontoada que não tem céu. Ao passo que a dor é como uma favela onde também há amontoamento, mas se vê o céu. Em outras palavras, a dor está aberta à oração, à ternura, à companhia de um amigo, a mil coisas que nos dignificam. Ou seja, a dor é uma situação mais saudável. Assim dita minha experiência.

(Conversas com Jorge Bergoglio, Sergio Rubín e Francesca Ambrogetti, Verus Editora, 2013, p. 121-122)