Atos dos Apóstolos - Deus atua mesmo no meio de aparentes fracassos

Na Audiência de hoje o Santo Padre retomou as catequeses sobre os atos dos Apóstolos, comentando desta vez a viagem de São Paulo de Cesareia a Roma.

Da Igreja e do Papa

Amados irmãos e irmãs, bom dia!

O livro dos Atos dos Apóstolos, na parte final, diz-nos que o Evangelho continua a sua viagem não só por terra mas por mar, num barco que conduz Paulo, prisioneiro, de Cesaréia para Roma (cf. At 27, 1-28, 16), ao coração do Império, para que se realize a palavra do Ressuscitado: «sereis minhas testemunhas... até aos confins do mundo» (At 1, 8). Lede o Livro dos Atos dos Apóstolos e vereis como o Evangelho, com a força do Espírito Santo, chega a todos os povos, se torna universal. Pegai nele. Lede-o.

A navegação encontra condições desfavoráveis logo desde o início. A viagem torna-se perigosa. Paulo aconselha a não prosseguir a navegação, mas o centurião não lhe dá ouvidos e confia no piloto e no armador. A viagem continua e desencadeia-se um vento tão forte que a tripulação perde o controle e deixa o barco ir à deriva.

Quando a morte parece próxima e o desespero invade todos, Paulo intervém e tranquiliza os companheiros dizendo o que ouvimos: «Esta noite, apareceu-me um Anjo de Deus, a quem pertenço e a quem sirvo, e disse-me: “Nada receies, Paulo. É necessário que compareças diante de César e, por isso, Deus concedeu-te a vida de todos quantos navegam contigo”» (At 27, 23-24). Até na provação, Paulo nunca deixa de ser o guardião da vida dos outros e o animador da sua esperança.

Lucas mostra-nos assim que o plano que conduz Paulo a Roma salva não só o Apóstolo, mas também os seus companheiros de viagem, e o naufrágio, de uma situação de infortúnio, transforma-se numa oportunidade providencial para o anúncio do Evangelho.

Ao naufrágio segue-se a chegada à ilha de Malta, cujos habitantes mostram um acolhimento atencioso. Os malteses são bons, são mansuetos, são acolhedores já desde aquela época. Chove e faz frio e eles acendem uma fogueira para garantir algum calor e alívio aos náufragos. Aqui também Paulo, como verdadeiro discípulo de Cristo, se coloca ao serviço para alimentar a fogueira com alguns ramos. Durante estas operações ele é mordido por uma víbora mas não sofre dano algum: as pessoas, vendo isso, dizem: «Com certeza, esse homem é assassino, pois conseguiu salvar-se do mar, mas a justiça divina não o deixa viver». Eles esperaram pelo momento em que ele caísse morto, mas ele não sofreu nenhum dano e até foi confundido — em vez de um malfeitor — com uma divindade. Na verdade, esse benefício vem do Senhor ressuscitado que o assiste, segundo a promessa feita antes de subir ao céu e dirigida aos crentes: «apanharão serpentes com as mãos e, se beberem algum veneno mortal, não sofrerão nenhum mal; hão de impor as mãos aos doentes e eles ficarão curados» (Mc 16, 18). A história diz-nos que a partir daquele momento deixou de haver víboras em Malta: esta é a bênção de Deus pelo acolhimento deste povo muito bondoso.

De fato, para Paulo, a estadia em Malta torna-se uma ocasião propícia para dar “carne” à palavra que ele anuncia e assim exercer um ministério de compaixão na cura dos doentes. E esta é uma lei do Evangelho: quando um crente experimenta a salvação, não a conserva para si mesmo, mas põe-na em circulação. «O bem tende sempre a comunicar-se. Toda a experiência autêntica de verdade e de beleza procura, por si mesma, a sua expansão; e qualquer pessoa que viva uma libertação profunda adquire maior sensibilidade face às necessidades dos outros» (Exort. ap. Evangelii gaudium, 9). Um cristão “provado” pode certamente tornar-se mais próximo daqueles que sofrem porque sabe o que significa o sofrimento, e manter o seu coração aberto e sensível à solidariedade para com os outros.

Paulo ensina-nos a viver as provas aproximando-nos de Cristo, para amadurecer a «convicção de que Deus pode atuar em qualquer circunstância, mesmo no meio de aparentes fracassos» e a «certeza, que a pessoa que se oferece e entrega a Deus por amor, seguramente será fecunda» (ibid., 279). O amor é sempre fecundo, o amor a Deus é sempre fecundo, e se vos deixardes prender pelo Senhor e se receberdes os dons do Senhor, isto permitir-vos-á oferecê-los aos outros. O amor de Deus vai sempre além.

Peçamos hoje ao Senhor que nos ajude a viver todas as provações amparados pela energia da fé; e a ser sensíveis aos muitos náufragos da história que chegam aos nossos litorais exaustos, para que também nós saibamos acolhê-los com aquele amor fraterno que vem do encontro com Jesus. É isto que salva do gelo da indiferença e da desumanidade.