Consagração das famílias dos fiéis do Opus Dei

Desde 1951, no Opus Dei pede-se com especial intensidade à Sagrada Família de Nazaré, no domingo depois do Natal, pelas famílias dos fiéis da Obra.

Opus Dei - Consagração das famílias dos fiéis do Opus Dei

Todos os anos as famílias de todos os fiéis do Opus Dei são consagradas à Sagrada Família de Nazaré. Desde 1951 renova-se anualmente a Consagração feita por São Josemaria, pedindo que Deus encha de bênçãos os pais e irmãos dos membros do Opus Dei e se aproximem da grande família que é a Obra.

O ditado de que o Senhor escreve direito por linhas tortas ficou fortemente gravada na sua memória, como produto de dolorosas experiências pessoais e como expressão de uma lógica divina que nem sempre se harmoniza com o saber humano.

Entre as frases que repetia com frequência, e que procurava inculcar aos seus filhos, há uma especialmente doce e amável, que é a seguinte: devemos aos nossos pais a vida, e noventa por cento da vocação[1]. Além disso, a caridade retamente ordenada conduz ao amor e à prática do quarto mandamento, o dulcíssimo preceito do Decálogo[2].

Na Itália

Pois bem, tinham passado poucas semanas da aprovação definitiva do Opus Dei, quando recomeçaram os ataques que roubavam a paz aos lares e faziam do dulcíssimo preceito um mar de amargura[3]. Eram métodos antigos, já utilizados em Espanha. Em 1950, o fundador acabava de conseguir a aprovação definitiva da Santa Sé e dava por certo que cessariam os ataques à Obra. Mas enganou-se. Passados poucos meses, os antigos acusadores voltaram ao mesmo, semeando a tribulação e o desconcerto entre as famílias dos membros do Opus Dei na Itália. Por trás deste primeiro ataque, veio uma armadilha ainda mais velhaca; e, como esta insídia também fracassou, reorganizaram-se novamente os ataques, que não impediram a rápida e constante expansão da Obra.

Que sintam a Obra como sua

Antes destes acontecimentos, os jovens estudantes que frequentavam o Pensionato viviam felizes ao lado do Padre, que mantinha com as famílias dos seus filhos relações cheias de afeto sobrenatural e humano. O fundador queria que os pais sentissem e se deixassem impregnar pelo ambiente de família que reinava no Opus Dei. Era admirável ver o carinho do fundador que, no meio das suas muitas ocupações e preocupações, procurava fazer com que os pais participassem no calor familiar do Opus Dei, dando-lhes notícias dos seus filhos e pedindo-lhes a sua colaboração e as suas orações, para que sentissem a Obra como algo próprio, porque realmente o era.

As suas cartas revelam claramente esta delicada intimidade no trato com as famílias dos seus filhos. Eis uma carta que escreveu à mãe de Mario Lantini, um ano depois de o filho ter pedido a admissão na Obra:

Ex.ma Senhora:

Recebi a sua amável carta, que lhe agradeço sinceramente, por tudo quanto me diz, em especial pelas suas orações que são, sem dúvida nenhuma, o melhor presente que tanto a senhora como o seu marido podem fazer ao Opus Dei e aos seus membros.

Estou muito contente com a vocação do seu filho Mario, pela qual dou graças a Deus: trabalha sempre com a alegria e o entusiasmo de quem está servindo o Senhor. Ao contemplar o seu filho, penso forçosamente, na bondade dos pais, a quem deve em parte a sua vocação.

Pedindo-lhes que continuem a rezar ao Senhor pelo Opus Dei, cumprimenta-a e a abençoa

Josemescrivá de B.[4]

A resposta de Mons. Montini

Uma vez iniciadas as viagens apostólicas a diversas cidades de Itália, a partir do Pensionato, também aumentou o número de pessoas de Roma que se incorporavam à Obra. Em Abril de 1949, pediu a admissão no Opus Dei um estudante sul-americano, Juan Larrea, cuja família não viu com agrado a decisão do filho[5].Talvez por desconhecimento do que realmente era o Opus Dei, ou porque tal decisão contrariava planos e esperanças familiares. Eis o testemunho de Juan Larrea sobre o acontecido:

“Naquela época, o meu pai era o Embaixador do Equador perante a Santa Sé e disse-me que falasse sobre o assunto com Mons. Montini, Substituto da Secretaria de Estado. Falei com Mons. Montini, a quem contei a minha história, e que, depois de uma prolongada e afetuosa conversa, me disse: darei uma palavra de pacificação a seu pai. Dias depois, recebeu o meu pai e disse-lhe que tinha conversado com Pio XII, que lhe dissera: ‘Diga ao Embaixador que o seu filho em nenhum lugar estará melhor do que no Opus Dei’.

Vinte anos mais tarde, sendo eu Bispo, fiz uma visita a Mons. Montini, que era então o Papa Paulo VI e me recordou amavelmente a audiência descrita”[6].

Juan Larrea (dir) com São Josemaria em Roma

Um episódio doloroso

Diversa era a atitude dos pais que se opunham à decisão tomada pelos filhos em consequência de maquinações de pessoas ciumentas, que atiçavam um descontentamento inicial das famílias, transformando-o em oposição aberta. O fundador acalentava a esperança de que, com o Decreto Primum inter esse tipo de contradição se esfumasse. Mas os fatos não confirmaram esta esperança.

Em Abril de 1949, pediu a admissão na Obra um jovem de vinte e um anos que frequentava Villa Tevere. Chamava-se Umberto Farri. Por desejo do Fundador, partiu para Milão em 1950, regressando a Roma em Novembro de 1951. Nesse meio tempo, seu pai, Francesco Farri, tinha entrado em contacto com os pais de outros estudantes universitários que, tal como seu filho Umberto, tinham pedido a admissão no Opus Dei e frequentavam Villa Tevere. Tudo aconteceu com tal rapidez que, em algumas famílias, o dano causado às relações entre pais e filhos parecia já não ter mais remédio. Em particular quando finalmente, a conselho e com a orientação do padre jesuíta A. Martini, Francesco Farri escreveu uma nota de protesto, dirigida a Sua Santidade Pio XII. O documento trazia a data de 25 de Abril de 1951, e tinha as assinaturas de cinco pais de membros do Opus Dei[7].

O escrito era uma denúncia desmedida e condenatória contra o apostolado do Opus Dei, e um ato de forte pressão sobre o Papa para que fizesse sentir o peso da sua autoridade soberana no momento histórico em que acabava de aprovar definitivamente a Obra, 1950.

Nem uma palavra de recriminação

Qual foi a reação do Padre, ao saber disto? Tal como fizera em 1941, pediu aos seus filhos que se calassem, rezassem, sorrissem e trabalhassem[8]. E os seus filhos, obedientes, seguiram estritamente esta pauta de conduta, silenciando dentro da sua alma os tristes acontecimentos da perseguição. De tal forma que, como relata Mario Lantini, as suas próprias experiências pessoais só saíram à luz quando chegou a sua vez de depor como testemunha no processo de beatificação do fundador, trinta anos mais tarde. “Devo acrescentar”, declara em 1983, “que falo de tudo isto hoje pela primeira vez, e com dor, porque Mons. Escrivá sempre nos proibiu explicitamente, para não faltarmos à caridade, de discutirmos isso nem sequer entre nós, como se diz num ponto de Caminho (n.443): Quando não puderes louvar, cala-te. Por conseguinte, os episódios que vivi não são conhecidos no âmbito da Obra, a não ser pelos interessados, pelo fundador e pelo padre Álvaro, que então Conselheiro da Região de Itália[9]”. Por sua vez, Álvaro del Portillo afirmou não ter ouvido do Padre “uma única palavra de recriminação contra os que o difamavam, nem sequer nos momentos mais duros[10]”.

Colocar sob o patrocínio da Sagrada Família as famílias dos nossos

A reação do Padre foi refugiar-se confiadamente no Senhor. Pegou num papel e escreveu: Colocar sob o patrocínio da Sagrada Família, Jesus, Maria e José, as famílias dos nossos: para que consigam participar do gaudium cum pace da Obra, e obtenham do Senhor afeto pelo Opus Dei[11].

Nesse mesmo ano de 1951, em carta aos seus filhos, recorda momentaneamente o infeliz episódio:

Gostaria agora de contar-vos – escreve – os detalhes da Consagração da Obra e das famílias de cada associada e de cada sócio à Sagrada Família, no dia 14 de Maio deste ano, no oratório – que por esse motivo se chama, desde então, da Sagrada Família – ainda sem paredes, no meio de tábuas e pregos, da armação que sustenta o cimento das vigas e do teto, até que ficou consolidado. Mas conservam-se umas notas precisas, redigidas na altura. Por isso, não me estenderei mais neste aspeto. Comunico-vos que só podia recorrer ao céu, perante as maquinações diabólicas – eram permitidas por Deus! – de certas pessoas sem escrúpulos, que levaram alguns pais de família a assinar um documento cheio de falsidades, e conseguiram que fosse parar às mãos do Santo Padre. Jesus, Maria e José fizeram com que a nuvens da tormenta passassem, sem cair nenhuma granizada: tudo ficou esclarecido[12].

Os efeitos do recurso à Sagrada Família fizeram-se sentir imediatamente. Na mesma semana da apresentação do escrito ao Sumo Pontífice, um dos signatários voltou atrás[13]. Os restantes perceberam rapidamente como era infundada a “situação angustiante” de que se fala na denúncia. Dali por diante, deixaram de colocar obstáculos aos seus filhos, e o Senhor devolveu a paz a essas famílias. A exposição dos agravos feita a Sua Santidade dissolveu-se por falta de peso, e o Padre Josemaria teve a profunda alegria de ver crescer o afeto das famílias dos seus filhos pelo Opus Dei[14].

São Josemaria com uma família na Espanha, 1972.

Todos os anos

Desde 1951, a Consagração é renovada anualmente, pedindo – como reza a fórmula – que Deus encha de bênçãos os pais e os irmãos dos membros do Opus Dei, e que se aproximem da grande família que é a Obra:

“Concedei-lhes, Senhor, que conheçam cada vez melhor o espírito do nosso Opus Dei, a que nos chamaste para teu serviço e nossa santificação; infundi neles um amor grande à nossa Obra; fazei com que compreendam, com luzes cada vez mais claras, a beleza da nossa vocação, para que sintam um santo orgulho de Vos haverdes dignado escolher-nos e para que saibam agradecer a honra que lhes outorgastes. Abençoai especialmente a colaboração que prestam aos nosso trabalho apostólico, e fazei-os participar sempre da alegria e da paz que nos concedeis como prêmio à nossa entrega”[15].

Fragmentos extraídos de “Josemaria Escrivá — Fundador do Opus Dei”. Vol. III. Andrés Vázquez de Prada.



[1] Ensinava aos seus filhos, refere Dom Álvaro del Portillo, que devemos noventa por cento da nossa vocação aos nossos pais. Eles foram, frequentemente, as pessoas que colocaram na nossa vida a semente da fé e da piedade; e devemos-lhes para sempre o fato de nos terem trazido ao mundo, de nos terem educado, de nos terem formado humanamente (são palavras textuais do Fundador: Álvaro del Portillo, Sum. 1340).

[2] Cf. Alejandro Cantero Fariña, Sum. 6670: Teresa Acerbis, Sum. 5005; Fernando Valenciano Polack, Sum. 7146.

[3] Esta foi uma daquelas temporadas de intranquilidade que abarcou os anos das três consagrações do Opus Dei (1951-1952). Em 1971, faria outra consagração, ao Espírito Santo, por motivos diferentes e em diferentes circunstâncias.

[4] Carta a Gioconda Lantini, en EF-490705-1.

[5] D. Juan Larrea Holguín nasceu em Buenos Aires (9-VIII-1927). Pediu a admissão no Opus Dei como numerário em Abril de 1949. Exerceu advocacia antes de ser ordenado sacerdote, a 5-VIII-1962. Consagrado Bispo em 15-VI-1969, foi Bispo Auxiliar de Quito (Equador), Bispo de Ibarra; foi nomeado Arcebispo Coadjutor da arquidiocese de Guayaquil (Equador) a 26-III-1988, e Arcebispo a 7-XII-1989.

[6] Juan Larrea Holguín, Sum. 6026.

[7] No depoimento processual feito em Roma por Umberto Farri, testemunha número 3, que compreende as sessões 2-39 (de Outubro de 1981 a Maio de 1982), não se fala do assunto, pois a testemunha desconhecia então os fatos. Mas os documentos relativos a questão encontravam-se no arquivo privado da família, herdado em 1985 por Umberto Farri. Entre eles, uma cópia fotográfica da nota de denúncia enviada ao Papa (25-IV-1951), junto com as minutas da elaboração das sucessivas redações. Nesse arquivo, conservam-se também as correções autógrafas do texto, feitas pelo P.e A. Martini, S. J., principal conselheiro em todo este assunto, como se pode comprovar pelos originais de treze cartas enviadas pelo P.e Martini a Francesco Farri, todas assinadas, algumas em papel timbrado com endereços de vários centros acadêmicos (cf. Arquivo Farri, pasta Umberto).

[8] Cfr. Francesco Angelicchio, Sum. 3499.

[9] Mario Lantini, Sum. 3572.

[10] Álvaro del Portillo, PR, p. 571. O Fundador não tolerava o menor comentário sobre o tema, como salienta Juan Udaondo, recordando um episódio de que foi protagonista: “Naquela altura, soube que o P.e Jesuíta Bellincampi, coadjutor da Paróquia de São Roberto Bellarmino, de Roma, e assistente do grupo de escoteiros da mesma, tinha se sentido magoado porque alguns dos seus membros frequentavam a casa da Rua de Bruno Buozzi, entre os quais Umberto Farri, Giorgio de Filippi e Salvatore Longo, que tinham pedido a admissão no Opus Dei. O descontentamento levava-o a fazer declarações falsas e caluniosas a respeito da Obra, e do grupo de espanhóis, como lhes chamava. Certo dia, estava sozinho com o fundador e saiu-me um comentário um tanto mordaz acerca do padre Bellincampi. O fundador interrompeu-me secamente, corrigiu-me com energia por não ter sabido viver o espírito que sempre nos tinha ensinado, ou seja, calar, desculpar, reparar e rezar, e aconselhou-me, não só a rezar pelo P.e Bellincampi, mas a pegar nas disciplinas e oferecer por ele um bom número de golpes” (Juan Udaondo Barinagarrementería, Sum. 5034).

[11] AGP, P01 I-1966, p. 27.

[12] Carta 24-XII-1951, n. 260.

[13] A referida pessoa comunicou a Francesco Farri, em carta datada de 27-IV-1951: “Peço-lhe que tenha por bem excluir-me de qualquer atividade e da adesão dada, com a minha assinatura, à nota referente aos nossos filhos e ao Opus Dei”. Cf. Arquivo Farri, pasta Umberto; e as declarações dos filhos dos signatários: RHF, D-15002.

[14] Ibidem.

[15] PR vol. XVII, Documenta Vol. II, Opus Dei (Consagrações), p. 5. A Consagração tem lugar em todos os Centros da Obra no dia da Festa da Sagrada Família.