“Como é ruim estar longe de Deus!” Contam que certa vez São João Paulo disse certa vez a uma pessoa que não se confessava há anos1. Aqueles que não cresceram com a fé ou se afastaram dela nos anos de juventude para redescobri-la mais tarde, sabem bem o que significa esta distância. Quando percebem pela primeira vez que Deus quer se aproximar, pode ser que não o reconheçam ou que o mantenham à distância por orgulho ou preguiça de mudar de vida. Assim que abaixam as armas, porém, experimentam o que escreve o salmista:“Dominus illuminatio mea; o Senhor é a minha luz” (Sl 27, 1). O mundo não muda então; tudo permanece igual, mas tudo se torna diferente. Tudo se torna visível sob o resplendor da luz de Deus.
Querendo ver
Jesus e seus discípulos caminham pelas barulhentas ruas de Jerusalém e pelos caminhos ensolarados da Galileia. Eles encontram pessoas que sentem o ardor do sol na pele, embora não vejam seus raios dourados, e que ouvem apenas o alvoroço das pessoas, sem saber de onde vem ou o porquê. São cegos. Não podem pôr-se a caminho, pois não sabem aonde dirigir seus passos. Provocam a risada dos burlões, o desprezo dos orgulhosos e a compaixão dos irmãos. Suas vidas carecem, literalmente, de perspectiva.
De repente, acontece algo que ninguém pressentia. Alimentada pelas profecias de Isaías, uma pequena chama de fé e de esperança se acende no fundo de um coração: “Então os olhos dos cegos se abrirão” (Is 35, 5). Chegou o tempo do cumprimento. Bartimeu grita com voz forte: “Jesus, Filho de Davi, tem compaixão de mim!” Jesus responde: “que queres que eu te faça?” E ele responde: “Ut videam, que eu veja”. Com as palavras poderosas e simples de Jesus – “Vai, tua fé te salvou!” – Bartimeu começa a enxergar (cf. Mc 10, 46-52).
Avançamos agora vinte séculos: São Josemaria percorre as ruas de Logronho observando fachadas e detalhes arquitetônicos, em busca de inspiração para seu futuro trabalho. O jovem transborda de entusiasmo vital: cresce com o coração e com os olhos bem abertos. Em um dia de inverno, quando a beleza das construções se destaca sobre o branco de uma nevasca, seus olhos se detêm em alguns carmelitas que caminham descalços na neve. As pegadas desses homens revelam uma piedade simples e valente. Outros pedestres vão apagá-las, mas elas ficarão impressas de forma indelével no coração daquele menino.
O que essa experiência desperta nele? As mesmas palavras do cego de Jericó: Domine, ut videam! Ele gritará e rezará como Bartimeu, e como Bartimeu será atendido. Depois de dez longos anos de oração, súplica, clamor e busca, ele verá a tarefa que Deus lhe confiou. Mas aquele dia, 2 de outubro de 1928, não será o último em que rezará com estas palavras, elas permanecerão em seus lábios, prontas para serem repetidas diversas vezes até o fim de sua vida. Sua oração constante para não perder a luz, para não perder a proximidade de Deus, permitirá que ele a leve a muitas almas.
Ao lado da oração fervorosa de Bartimeu e de Josemaria, que estãoquerendo ver,existe, no entanto, a cegueira voluntária: “Mantenha os olhos fechados – parecem dizer alguns a si mesmos – porque na verdade não há nada para ver. Não pense, porque seja lá o que você fizer, não encontrará a verdade, e provavelmente ela nem sequer existe. Por que rezar? De qualquer forma, não há ninguém escutando...” O ceticismo, a crença de que no máximo nos resta a escuridão de uma razão sem fé, constitui um terreno fértil para o desespero, esse estado da alma no qual se extingue qualquer desejo de alcançar uma meta, porque a pessoa já se convenceu de que não há nada a ser encontrado; ou, se houvesse, não está ao nosso alcance.
Antes de curar um cego ou um enfermo, Jesus frequentemente pergunta: “o que queres que eu faça por ti?” Isto nos recorda algo que já sabemos. Jesus só nos cura se aceitamos nossa doença, e se queremos nos curar. Quem crê que já enxerga perfeitamente não pode sair de sua cegueira (cfr. Jo 9, 39-41). Aqueles que preferem manter os olhos fechados ou a cabeça enterrada na areia não têm nada a temer de Jesus: o Senhor pode fazer pouco por eles. Pelo contrário, aqueles que sabem que são cegos acabarão enxergando, embora o milagre demore a se realizar, como aconteceu com aquele outro cego que via árvores andando em vez de pessoas (cfr. Mc 8, 24).
No escuro
A primeira página da Divina Comédia, essa viagem apaixonante pelo inferno, o purgatório e o céu, começa com um breve autorretrato de Dante. Homem maduro, nel mezzo del cammin di nostra vita, o autor atravessa uma selva escura2.Ele tem os olhos bem abertos. Não é cego, e, no entanto, não enxerga muito mais do que o pobre Bartimeu. Para qualquer lado que olhe, seus olhos esbarram sempre na escuridão do bosque. Tropeça, cai. Parece condenado a morrer lá. Como chegou a este lugar? Ele mesmo admite não saber bem, mas o Evangelho dá uma pista.
Jesus nos fala de dez jovens que estavam em um caminho escuro. Cada uma tem uma lâmpada para iluminar o caminho. Cinco delas são prudentes e levaram azeite para manter acesas as lâmpadas até o fim. Cinco são néscias, estabanadas. Absorvidas por muitas coisas esqueceram o azeite. Cai a noite, e as primeiras cinco conseguem avançar, enquanto as outras ficam para traz na escuridão (cf. Mt 25, 1-13).
A selva escura de Dante descreve a experiência de vagar pela vida sem saber exatamente para onde ir. Trata-se de uma escuridão na qual podemos, às vezes, permanecer voluntariamente: “Mantenha a luz apagada, porque quem sabe o que você verá quando a acender...” A própria imperfeição, os próprios pecados, a percepção do mal no mundo... Tudo parece, às vezes, convidar a permanecer na escuridão. É noite, esclarece São João, quando Judas sai da sala da última ceia para trair Jesus (Jo 13, 30). No escuro, o diabo tem melhor acesso às almas. Não é claramente reconhecido como pai da mentira. Permite-se, então, talvez mais facilmente, que a alma se manche, porque afinal mal se vê como foi se sujando. E se alguém aparecer e oferecer uma vela, talvez recuse e prefira deixar tudo às escuras, porque “todo aquele que faz o mal odeia a luz e não vem para a luz, para que as suas obras não sejam reprovadas” (Jo 3, 20). O diabo, pelo contrário parece não acusar; parece que se você o seguir, seus pecados não precisam ser perdoados, pois se dissolverão na escuridão. Mas, embora às vezes escolhamos a escuridão como refúgio, na realidade fomos feitos para a luz.
Jogos de luzes
Da selva escura de Dante passamos a Times Square, Nova York. A experiência é esmagadora. Você se vê cercado por luzes brilhantes que disputam a sua atenção, seu olhar. Restaurantes, cinemas e lojas com uma variedade de ofertas sem limites, palácios sedutores de decadência moral. Seus olhos estão abertos. Você não está cego e nem lhe falta luz. E, no entanto, sua posição não é melhor que a de Bartimeu à beira do caminho, nem a de Dante em sua selva escura. Você vê demais; seu olhar vagueia de um lugar para outro e, quando se detém em algo, não é realmente o que você gostaria de ver, e sim a última coisa que conseguiu capturar sua atenção. Você está cercado de luzes, mas vagueia na penumbra.
Os letreiros luminosos de Times Square já não se encontram apenas num lugar no mapa: piscam no bolso de qualquer um. O inimigo sabe muito bem disso. Como a escuridão não lhe permite atrair as almas para si, ilumina os caminhos com luzes brilhantes, mas efêmeras, e obscurece os caminhos de Deus. A batalha espiritual entre o bem e o mal, entre São Miguel e Lúcifer, entre os filhos da luz e os filhos das trevas, é, afinal de contas, uma batalha para iluminar os caminhos.
Pensemos na história de nossos primeiros pais, que é também a nossa. Deus enfeita o paraíso inteiro com uma formosa luz, e concede a Adão e Eva a liberdade de comerem de todas as árvores, exceto de uma. Chega a serpente e apaga as luzes do jardim: “então não lhes é permitido comer de nenhuma árvore?” “Pelo contrário” – responde Eva – “podemos comer de todas as árvores exceto dessa”. E desta forma, com tanta simplicidade a serpente atrai a atenção deles para a árvore proibida, que fica iluminada no meio do jardim, como se não houvesse outra. Seus frutos parecem agora irresistíveis. E assim mudam o olhar e o desejo de Eva. Ela já não vê o resto do paraíso; mas vê apenas esse fruto atraente, aparentemente repleto de promessas divinas; fica obcecada por ele. E come, e até essa luz se apaga. O paraíso se dissipa. Só voltará a ser visível à luz do Senhor, nosso Salvador (cf. Gn 3, 1-7).
Nós também enfrentamos às vezes escolhas deste tipo: fazer um tempo de oração ou cair no sofá para ver uma série ou ler um romance. Se consideramos as duas coisas diante de Deus, fica claro que a oração é um paraíso cheio de frutos, enquanto a alternativa nos oferece apenas um breve momento de relaxamento e entretenimento, que talvez seja melhor para outra ocasião. No entanto, por que escolhemos tão facilmente a segunda opção? Porque o inimigo e, às vezes, simplesmente nossa própria fragilidade, joga com as luzes: diminui a luz sobre a oração, enquanto a alternativa aparece sob um foco sedutor.
O diabo se veste como anjo de luz (cf. 2 Cor 11, 14) e leva a confundir “trevas por luz e luz por trevas” (Is 5, 20). O Senhor, porém, quer contar com “filhos da luz” (Jo 12, 36) que aprendam a decifrar esse jogo e sobretudo que descubram e difundam a beleza da verdadeira luz: “Filhos de Deus. Portadores da única chama capaz de iluminar os caminhos terrenos das almas, do único fulgor, no qual nunca se poderão dar escuridões, penumbras ou sombras. O Senhor serve-se de nós como tochas, para que essa luz ilumine… De nós depende que muitos não permaneçam em trevas, mas andem por caminhos que levam até à vida eterna”3.
Iluminadores de caminhos
Um olhar para o nosso tempo revela todo o espectro de situações vitais que percorremos. São modos de ver e de viver que as pessoas têm, não de modo isolado, mas simultaneamente, como se fossem camadas. Há aqueles que, talvez por terem recebido uma versão distorcida do Evangelho, não veem além de algumas poucas ideias que parecem explicar a realidade e que, sobretudo, trazem tranquilidade. O fato de que seu conhecimento do mundo ser, em grande parte, adquirido por meio de relações e algoritmos que confirmam sua mentalidade e seu estilo de vida, não facilita a mudança. Ao mesmo tempo, essa enorme praça pública que é a Internet, assim como a emergente inteligência artificial, podem acabar proporcionando descobertas inesperadas.
Ao lado deles também há muitos que, decepcionados pelo relativismo ou por outras ideologias que um dia acolheram, estão procurando, com desejo de luz, de sentido. Mas sua busca se mistura, às vezes, com um certo medo da mesma luz que desejam4, e com a dispersão à qual a hiperconectividade nos submete. Embora o imenso desenvolvimento do mundo digital tenha melhorado notavelmente algumas facetas da vida, também gerou uma oferta ilimitada de possibilidades em todos os níveis – viagens, entretenimento, informação – que pode dificultar as relações pessoais e, em particular, a relação com Deus.
Nós, que queremos seguir e irradiar o Deus que é luz, também somos tentados às vezes pelo falso refúgio da penumbra, ou submetidos a essa dispersão que parece mais forte do que nós: “Distrair-te. – Precisas distrair-te..., abrindo muito os olhos, para que entrem bem as imagens das coisas, ou fechando-os quase, por exigências da tua miopia... Fecha-os de todo! Tem vida interior, e verás, com cor e relevo inesperados, as maravilhas de um mundo melhor, de um mundo novo: e terás intimidade com Deus..., e conhecerás a tua miséria..., e te endeusarás..., com um endeusamento que, aproximando-te de teu Pai, te fará mais irmãos dos teus irmãos, os homens”5.
São Josemaria fala de ter vida interior, de que aconteçam coisas dentro de nós, de modo que as dinâmicas de nossa vida para dentro sejam mais fortes do que as da primeira coisa que acontecer, vendendo-nos alternativas. Esta vida se alimenta com a oração, o silêncio e os sacramentos. Ela também se alimenta da leitura, da escrita, do cinema, da arte, dos podcasts, das conversas... Cada um desses imensos campos nos oferece tanto entretenimento para passar o tempo quanto a possibilidade de dilatar nossa interioridade e de enriquecer nossa experiência do mundo, nossa conversa com os outros e com Deus.
Mostraremos aos outros a beleza do mundo e da vida tal como Deus as está sonhando – isso é o olhar da fé – se nós mesmos descobrirmos essa beleza. O Senhor quer nos fazer ver com seus olhos, mas precisa que queiramos ver. E isso requer resistir às luzes mutáveis, mas efêmeras de um mundo centrado na última moda; procurar a luz das estrelas longe da contaminação do brilho das mil ruas a escolher. Conseguir, por exemplo, passar tempo fazendo só uma coisa: rezando, lendo um livro, assistindo a um filme, conversando com uma pessoa, sem tentar ao mesmo tempo responder a mensagens ou resolver pequenos problemas... Tal escolha da simplicidade permite-nos estar aqui e agora. Porque só quando há presença verdadeira, atenção verdadeira, pode haver epifania, revelação. E então poderemos ser luz que ilumina e aquece.
“Encher o mundo de luz, ser sal e luz: assim descreveu o Senhor a missão dos seus discípulos. Levar até os últimos confins da terra a boa nova do amor de Deus. A isso devem todos os cristãos dedicar a sua vida, de um modo ou de outro”6. Nossa missão é iluminar os verdadeiros caminhos para a humanidade: os caminhos para o único destino que não decepciona, os caminhos para o céu. E há um só caminho, Jesus Cristo, mas também há muitos caminhos dentro do caminho, porque Ele se deixa encontrar de muitas formas. “Se, porém, andamos na luz como ele mesmo está na luz” (1Jo 1,7), iluminaremos caminhos para tantos que antes nem sequer sabiam que esses caminhos existiam. Antes talvez não vissem senão o horizonte do prazer ou do sucesso. Agora veem uma paisagem com uma senda repleta de pessoas alegres e, ao fundo, a luz do sol nascente, o Senhor ressuscitado.
Niko Schonebaum – Carlos Ayxelà
1 Citado em Fernández-Pacheco, J., Amar y ser feliz, Madri, Rialp, 2007, cap. 6.
2 Dante Alighieri, Divina Commedia, Inferno, Canto I. Nel mezzo del cammin de nostra vita (na metade do caminho da vida) é o célebre verso com o qual esta obra-prima da literatura universal começa.
3 São Josemaria, Forja, n. 1; cf. também Carta 6, n. 3.
4 Cfr. Leão XIV, Homilia, 25/12/2025
5 São Josemaria, Caminho, n. 283
6 São Josemaria, É Cristo que passa, n. 147

