Características fundamentais do espírito do Opus Dei

O espírito do Opus Dei, presente na Igreja por vontade divina para fomentar a busca da santidade no meio do mundo e realizar um apostolado amplo e constante, tem quatro aspectos fundamentais, intimamente unidos entre si: a unidade de vida, a santificação do trabalho, a filiação divina e a piedade doutrinal.

Opus Dei - Características fundamentais do espírito do Opus DeiFoto: Valeriia Miller/Pexels

1. Unidade de vida

“Um só Senhor, uma só fé, um só batismo”[1], diz São Paulo para descrever a realidade da vida cristã; e poderia acrescentar-se: a vida do cristão é, e deve ser, uma só vida, única, unitária. No entanto, por causa do pecado, original e pessoal, o homem sente-se dividido, fragmentado, não só nas suas relações com Deus e com os outros, mas dentro de si mesmo. Jesus faz notar com força a propensão humana para a hipocrisia[2], a vida dupla: a tendência a professar uma vida religiosa, a mostrar uma retidão moral, que simplesmente não corresponde à realidade.

Além disso o Senhor ensinou abertamente que o fingimento, a duplicidade, a dissimulação, a falsidade – tudo isto é hipocrisia, falta de unidade de vida – constituem um enorme obstáculo para o apostolado cristão. Sabemos bem que dificilmente a vida de uma pessoa pouco coerente arrasta. A grandeza da vocação cristã aumenta o perigo de se achar, ou agir, diferentemente do que a pessoa realmente é, ao passo que na verdade a única coisa que nós homens podemos dizer, com São Josemaria, é “pauper servus et humilis” [servo pobre e humilde][3].

O fato de que os fiéis da Prelazia vivam com gosto no meio do mundo, inseridos nos complicados vaivéns da sociedade, imersos em situações nada ideais, comprometidos com as mesmas tarefas dos outros cidadãos, em ambientes às vezes pouco de acordo com a fé cristã, requer deles um empenho especial para não se deixarem arrastar para longe do Senhor, pois que sem formação e sem vida contemplativa, não poderiam orientar a Deus as estruturas sociais, nem os frutos do seu trabalho.

“Coepit facere et docere” – Jesus começou a fazer e depois a ensinar: tu e eu temos que dar o testemunho do exemplo, porque não podemos levar uma dupla vida; não podemos ensinar o que não praticamos. Por outras palavras, temos de ensinar aquilo que, pelo menos, lutamos por praticar”[4]. Por isso a formação que se dá no Opus Dei levará “manter sempre – a não perder – o ponto de vista sobrenatural em todas as atividades. Não vivemos uma vida dupla, mas uma unidade de vida, simples e forte, na qual se fundem e compenetram todas as nossas ações”[5].

A luta por conseguir a unidade de vida, contando sempre com a graça de Deus, dirige-se a duas coisas. Primeiro, a reconhecer sinceramente, com a ajuda do exame de consciência feito “conscienciosamente”, e da direção espiritual pessoal, as faltas de coerência, de unidade de vida. E segundo, a luta para superá-las, com perseverança e confiando na graça de Deus, pois afinal de contas só Ele é capaz de recompor novamente o que o pecado quebrou, o que a infidelidade rachou. Em poucas palavras, Para perseverar cristãmente na existência e nos mantermos na graça de Deus, são necessárias a sinceridade de vida e a confiança no Senhor.

2. Santificação do trabalho

Em segundo lugar, a santificação do trabalho, eixo da santificação no meio do mundo, segundo o espírito do Opus Dei, que além disso é, como dizia São Josemaria, condição indispensável para o apostolado. Todos os que pedem a admissão na Obra sabem que têm que trabalhar muito, até ao fim das suas vidas, para morrerem “espremidos como um limão”[6], com perfeição humana e com perfeição cristã.

Além disso é preciso trabalhar bem porque Deus quer que nos ocupemos do mundo que Ele mesmo criou[7], para lhe levar toda a criação[8]: o trabalho é a vocação originária do homem, chamado a aperfeiçoar o mundo e a oferecer essa obra à majestade divina como oferenda grata. Além disso, o Evangelho adverte que o próprio Jesus bene omnia fecit [fez tudo bem][9].

Em primeiro lugar, com perfeição humana; ou seja: com ordem, intensidade, constância, competência e espírito de serviço e de colaboração com os outros, numa palavra, com profissionalismo. “Temos que trabalhar como o melhor dos colegas. E, se for possível, melhor que o melhor. Um homem sem entusiasmo profissional não me serve”[10]. Como cidadãos comuns, que é o que são os fiéis do Opus Dei, procurarão um trabalho profissional concreto; e é aí onde deverão buscar e encontrar a sua realização humana. “O Senhor Deus tomou o homem e o colocou no jardim do Éden para o cultivar e guardar”[11], para que desse fruto e o melhorasse.

E, por outro lado, trabalhamos com perfeição cristã, Colocando Deus em primeiro lugar, pois a vocação profissional é parte essencial da vocação divina destinada a cada homem na terra. Quando se fala da ‘perfeição cristã’, de acordo com o espírito do Opus Dei, entende-se que as virtudes humanas requeridas para um trabalho bem feito ficam repletas de caridade, amor a Deus e ao próximo, levando a prestar atenção às coisas pequenas, dando “vibração de eternidade”[12] a tudo o que nos ocupa, fazendo-o para a glória de Deus.

Com efeito, retificando a intenção, devemos procurar trabalhar só para que o Senhor esteja contente com a nossa tarefa, mesmo que aos olhos do mundo pareça de pouco valor, interiormente desprendidos de qualquer reconhecimento humano: Deo omnis gloria! [para Deus toda a glória!]. Nesta luta por progredir dia a dia, perseverantemente, com vontade e sem vontade, forjamos, com a ajuda do Senhor a unidade de vida. “Meço a eficácia e o valor das obras, pelo grau de santidade que adquirem os instrumentos que as realizam. Com o mesmo vigor com que antes vos convidava a trabalhar e a trabalhar bem, sem medo ao cansaço; com essa mesma insistência, vos convido agora a ter vida interior”[13].

E o fruto direto da unidade de vida e do trabalho santificado será o apostolado. “Não saímos nunca do mesmo: tudo é oração, tudo pode e deve levar-nos a Deus, alimentar esse convívio contínuo com Ele, da manhã até à noite. Todo o trabalho honrado pode ser oração; e todo o trabalho que for oração, é apostolado. Desse modo, a alma se enrijece numa unidade de vida simples e forte”[14]. “Para o cristão, o apostolado é algo congênito: não tem nada de artificial, justaposto, não é externo à sua atividade diária, à sua ocupação profissional. Tenho-o dito sem cessar, desde que o Senhor dispôs que surgisse o Opus Dei. Trata-se de santificar o trabalho ordinário, de santificar-se nessa tarefa e de santificar os outros mediante o exercício da respectiva profissão, permanecendo cada um no seu estado de vida”[15].

“Vos repito agora, minhas filhas e filhos: trabalhai na presença de Deus, sem ambicionar glória humana. Alguns veem no trabalho um meio para conquistar honras, ou para adquirir poder ou riqueza que satisfaça sua ambição pessoal, ou para sentir o orgulho da sua própria capacidade de atuar. Nós, os filhos de Deus no seu Opus Dei não vemos nunca no nosso trabalho profissional algo relacionado com o egoísmo, com a vaidade ou a soberba: vemos somente uma possibilidade de servir a todos os homens por amor a Deus”[16].

3. Filiação divina: presença de Deus, desejo de imitar Jesus Cristo, vida de fé, entrega serena e alegre à Vontade divina

Trabalhamos em todos os momentos por Deus e para Deus. Mas Deus, Criador do céu e da terra, Senhor e Juiz da história, é nosso Pai. Trata-se do terceiro aspecto fundamental do espírito do Opus Dei: a filiação divina. Cristo revelando-se diante dos homens como perfectus Deus, perfectus homo [perfeito Deus, perfeito homem][17], revelou deste modo, no mais profundo do seu ser, que Deus é Pai. Todos os seus atributos, por assim dizer, são paternais: o seu amor, a sua misericórdia, a sua fidelidade, a sua justiça, a sua veracidade, etc.

São muitas as consequências da filiação divina na vida cotidiana. Em primeiro lugar, um espírito de oração contínua, vivido com grande liberdade e em todas as circunstâncias, pois tudo o que é humano interessa ao nosso Pai Deus. “Há mil maneiras de orar... Os filhos de Deus não necessitam de um método, quadriculado e artificial, para se dirigirem a seu Pai. O amor é criativo, engenhoso; se amamos, saberemos descobrir caminhos pessoais, íntimos, que nos conduzam a esse diálogo contínuo com o Senhor”[18].

Depois uma grande confiança em Deus que nos conhece, nos chama, nos perdoa, nos compreende; esta confiança dá-nos uma serenidade e alegria constantes. “A alegria é consequência necessária da filiação divina, de nos sabermos queridos com predileção pelo nosso Pai-Deus, que nos acolhe, nos ajuda e nos perdoa”[19].

“Descansai na filiação divina. Deus é um Pai cheio de ternura, de infinito amor. Chama-o Pai muitas vezes ao dia, e dize-lhe – a sós, no teu coração – que o amas, que o adoras; que sentes o orgulho e a força de ser seu filho”[20].

“A filiação divina empapa toda a nossa vida espiritual, porque nos ensina a procurar, conhecer e amar o nosso Pai do Céu, e assim cumula de esperança a nossa luta interior e nos dá a simplicidade confiante dos filhos pequenos. Mais ainda: precisamente porque somos filhos de Deus, esta realidade leva-nos também a contemplar com amor e com admiração todas as coisas que saíram das mãos de Deus Pai Criador. E deste modo somos contemplativos no meio do mundo, amando o mundo”[21].

Finalmente, o fato de sermos filhos de Deus leva-nos a investir as nossas melhores energias em realizar a missão da Igreja, no nosso caso os apostolados que a Igreja confiou â Obra, e fazê-lo com elegância e constantemente, como algo próprio, algo da nossa família.

O principal caminho para viver cada vez mais conscientemente a filiação divina é a união vital com Cristo, Filho Unigênito do Pai, na oração, no trabalho, no apostolado. São Josemaria caracterizou a vivência da filiação divina como um desejo ardente e sincero, terno e profundo ao mesmo tempo, de imitar Jesus Cristo como irmãos seus, filhos de Deus Pai, e de estar sempre na presença de Deus; filiação que leva a viver vida de fé na Providência, e que facilita a entrega serena e alegre à Vontade divina”[22].

4.Piedade doutrinal

Em quarto e último lugar, a piedade doutrinal. São Josemaria ensinava que a piedade era o remédio dos remédios. O homem apaixonado precisa cultivar uma piedade profunda. Além disso, a piedade é a virtude por excelência dos filhos: “A piedade que nasce da filiação divina é uma atitude profunda da alma, que acaba por informar a existência inteira: está presente em todos os pensamentos, em todos os desejos, em todos os afetos”[23].

Mas o Fundador do Opus Dei insistia também que se tratava de uma piedade “doutrinal”, enfatizando que a santidade sem doutrina não é a santidade que o Senhor quer para os fiéis da Obra. “Deus nos chamou: vocação divina para ser santos. E o que faremos para ser santos? Ser piedosos, e adquirir a doutrina necessária para conhecer bem a Jesus Cristo, e assim amá-lo. Para conhecer bem as coisas de Deus: piedade de crianças e doutrina de teólogos; e vereis como vamos bem”[24].

Portanto, a piedade sem doutrina tornaria a vida de intimidade com Jesus Cristo superficial, meramente exterior e sentimental. Os dois aspectos são necessários ao mesmo tempo, sem descuidar nenhum: doutrina para alimentar a piedade; piedade para vivificar a doutrina. Além disso necessitamos desta piedade doutrinal para alcançar a unidade de vida, para santificar o trabalho, para viver como filhos de Deus. “Não afrouxes, ainda que estejas morrendo de velho, no empenho por te formares mais”[25].

Texto publicado no site https://www.collationes.org

Paul O’Callaghan


Bibliografia básica

1. Unidade de vida

Antonio Aranda Lomeña, La logica dell'unità di vita: L'insegnamento di san Josemaría Escrivá, en “Studi Cattolici”, 48 (2004), pp. 636-644

Ignacio de Celaya Urrutia, Unidad de vida y plenitud cristiana, en “Scripta Theologica”, 13 (1981), pp. 655-674

Alejandro Llano Cifuentes, Universidad y unidad de vida según el Beato Josemaría Escrivá, en “Romana”, 15 (2000), pp. 112-125

Dominique Le Tourneau, Las enseñanzas del Beato Josemaría Escrivá sobre la unidad de vida, en “Scripta Theologica”, 31 (1999), pp. 633-676

2. Filiação divina

São Josemaria, É Cristo que passa, nn. 57-66

Fernando Ocáriz Braña - Ignacio de Celaya Urrutia, Vivir como hijos de Dios: estudios sobre el Beato Josemaría Escrivá, Eunsa, 1993, 2ª ed.

Francisco Fernández Carvajal - Pedro Beteta López, Filhos de Deus.

José Luis Illanes Maestre, Experiencia cristiana y sentido de la filiación divina en san Josemaría Escrivá de Balaguer, “PATH”, 7 (2008), pp. 461-475

3. Santificação do trabalho

João Paulo II, Encíclica Encíclica Laborem exercens, 14-IX-1981

São Josemaría, É Cristo que passa, n. 39-56; Amigos de Deus, n. 55-72.

José Luis Illanes Maestre, A Santificação do trabalho.

Fernando Ocáriz Braña, El concepto de santificación del trabajo, Naturaleza, gracia y gloria, Eunsa, 2000, pp. 263-271

4. Piedade doctrinal

María del Pilar Río, Piedad, doctrina y unidad de vida a la luz de las enseñanzas del Beato Josemaría Escrivá, en P. O'Callaghan (ed.), Figli di Dio nella Chiesa, Edusc, 2004, pp. 271-311


[1] Ef 4, 5.

[2] Cfr. Mt 6 e 23.

[3] São Josemaria, citado em A Vázquez de Prada, O Fundador do Opus Dei, III, Quadrante.

[4] São Josemaria, Forja, n. 694.

[5] São Josemaria, texto tomado da Carta 6/05/1945, n. 25, citado em A. Vázquez de Prada, O Fundador do Opus Dei, II, Quadrante, p. 520.

[6] São Josemaria, citado em Pilar Urbano, O Homem de Villa Tevere, Quadrante, p. 311

[7] Cfr. Gen 1, 27; 2, 15.

[8] Cfr. Jo 12, 32.

[9] Mc 7, 37.

[10] São Josemaria, texto tomado da Carta 15/10/1948, n. 15, citado em A. Vázquez de Prada, O Fundador do Opus Dei, III, Quadrante.

[11] Gen. 2, 15.

[12] São Josemaria, Forja, n. 917.

[13] São Josemaria, texto tomado da Carta 15/10/1948, n. 20, citado en E. Burkhart - J. López, Vida cotidiana y santidad en la enseñanza de São Josemaria. Estudio de Teología espiritual, 3 vols., Rialp, Madrid 2010, III, cap. IX, apartado 5.3.

[14] São Josemaria, É Cristo que passa, n. 10.

[15] São Josemaria, É Cristo que passa, n. 122.

[16] São Josemaria, texto da Carta 15/10/1948, n. 18, citado en E. Burkhart - J. López, Vida cotidiana y santidad en la enseñanza de São Josemaria. Estudio de Teología espiritual, 3 vols., Rialp, Madrid 2010, II, cap. IV, apartado 3.21.

[17] Símbolo Quicumque.

[18] São Josemaria, Amigos de Deus, n. 255.

[19] São Josemaria, Forja, n. 332.

[20] São Josemaria, Sulco, n. 150; cfr. Forja, n. 331.

[21] São Josemaria, É Cristo que passa, n. 65.

[22] São Josemaria, testemunho de Mons. Javier Echevarría, Prelado del Opus Dei, Summarium da Causa de beatificação e canonização. Positio super vita et virtutibus, Roma 1988, citado em A. Vázquez de Prada, O Fundador do Opus Dei, III, Quadrante.

[23] São Josemaria, Sulco, n. 146.

[24] Cfr. São Josemaria, É Cristo que passa, n. 10. Para um estudo da expressão "piedad de niños y doctrina de teólogos", cfr. M. P. Río, Piedad, doctrina y unidad de vida a la luz de las enseñanzas del Beato Josemaría Escrivá, en A.A. V.V., La grandeza de la vida corriente, cit., vol. V/1, pp. 281-292.

[25] São Josemaria, Sulco, n. 538.