1. Introdução: O Mistério da Origem
Muitas vezes, ao abrirmos a Bíblia, temos a impressão de que os textos sagrados surgiram de forma imediata e definitiva. No entanto, os Evangelhos não “caíram prontos do céu”. Eles são o fruto amadurecido de um processo histórico e teológico rigoroso que uniu memória, pregação e redação inspirada.
“Os Evangelhos não apresentam Jesus como uma figura do passado: são palavras atuais, neles Jesus está sempre vivo”
O objetivo deste texto é desvendar o caminho percorrido desde as estradas da Galileia até a fixação dos quatro relatos escritos. Entender esse processo nos permite compreender por que possuímos quatro versões de uma mesma história e como essa pluralidade, longe de ser uma contradição, é a maior riqueza da nossa fé.
2. O Conceito de “Evangelho Quadriforme” e a Metáfora do Cubismo
Desde o século II, Santo Irineu de Lyon utilizou uma expressão magistral: o “Evangelho Quadriforme”. Trata-se de uma única e indivisível pregação da salvação apresentada sob quatro colunas ou pontos de vista.
Para tornar este conceito acessível, podemos recorrer à analogia do Cubismo (movimento artístico). Em uma tela cubista, o objeto central é representado a partir de múltiplos ângulos que se interceptam. Essas diferentes perspectivas não fragmentam a realidade; elas a enriquecem, permitindo uma visão profunda que um único ângulo jamais alcançaria.
- Perspectivas Únicas: Cada evangelista adaptou a pregação às necessidades de sua comunidade. Por exemplo, no relato da cura do paralítico, Marcos (2,4) descreve o teto sendo “escavado”, refletindo as casas rurais da Palestina feitas de barro e palha. Já Lucas (5,19), escrevendo para um público urbano e helenizado, fala em retirar “telhas”, adaptando a cena à realidade arquitetônica de seus leitores.
- Riqueza: Essas variações não são “falsificações”, mas adaptações pedagógicas que mantêm o conteúdo essencial: o poder salvífico de Cristo.
- Unidade na Diversidade: Embora tenhamos quatro livros, a Igreja sempre proclamou um único Evangelho.
3. As Três Etapas da Formação (Dei Verbum 19)
A constituição dogmática Dei Verbum e a instrução Sancta Mater Ecclesia (1964) sistematizam esse processo em três fases fundamentais:
- A Vida e Pregação de Jesus: Os fatos históricos e ensinamentos originais. Jesus ensinava com uma autoridade inédita, utilizando parábolas para capturar o auditório e agindo com poder próprio, sem necessidade das longas orações comuns aos rabinos da época.
- A Tradição Oral (O Kerigma): Após a Páscoa, os Apóstolos tornam-se Arautos (do grego Keryx ). Como o arauto medieval que tocava sua trombeta com roupas coloridas para anunciar as ordens de seu senhor, os Apóstolos proclamavam o “Anúncio” (Kerygma). Eles o faziam sob uma “nova luz”: a compreensão plena da divindade de Cristo revelada na Ressurreição. Eles não apenas repetiam fatos, mas os interpretavam teologicamente.
- A Redação Escrita: Entre os anos 60 e o fim do primeiro século, os evangelistas selecionaram tradições orais e escritas, sintetizando-as para comunidades específicas. O estilo adotado foi o do “preconium” (proclamação), uma forma de escrita que visa despertar a fé, e não apenas relatar uma cronologia fria.
4. O Perfil dos Quatro Evangelistas
Cada evangelista destacou facetas específicas do mistério de Cristo para atingir o coração de seus destinatários.
Evangelista | Público-Alvo | Características Principais | Imagem de Cristo |
Mateus | Judeu-cristãos | Estruturado em 5 grandes discursos; foco no cumprimento das profecias. | O Messias, o novo Moisés e Mestre. |
Marcos | Cristãos em Roma | O “evangelho dos detalhes”; intérprete de Pedro; foca na ação e autoridade. | O Filho de Deus que age com autoridade. |
Lucas | Gentio-cristãos | Ambiente urbano; ênfase na misericórdia, oração e no Espírito Santo. | O Salvador dos humildes, o Profeta e o Senhor (Kyrios). |
João | Comunidade madura | Profundidade teológica; foco na preexistência do Logos. | O Verbo Encarnado e o Absoluto “Eu Sou”. |

5. A Historicidade e a Confiança nos Relatos
A distinção entre o “Jesus da História” e o “Cristo da Fé” não é um abismo, mas um casamento necessário. A pesquisa histórica confirma a “santa humanidade do Senhor”. A abundância documental é esmagadora: o Novo Testamento possui mais de 5.400 manuscritos gregos. Enquanto a Ilíada tem menos de 700 e os Anais de Tácito sobrevivem em apenas alguns poucos, o Evangelho conta com oPapiro de Rylands (P52), datado de apenas 30 a 40 anos após a composição de João.
Além das fontes bíblicas, temos o testemunho de historiadores externos como Flávio Josefo, Tácito, Suetônio e Plínio, o Jovem, que validam a existência e o impacto de Jesus no século I.
A exegese moderna utiliza quatro critérios de fidedignidade:
- Descontinuidade: Palavras como Abba ou Amém eram raras no judaísmo e não foram criadas pela Igreja posterior. O título “Filho do Homem” (de Daniel 7) é o exemplo máximo: Jesus o usou para evitar as “armadilhas” do messianismo político de sua época, embora a Igreja primitiva tenha preferido outros títulos.
- Testemunho Múltiplo: Fatos atestados em diversas fontes independentes.
- Coerência: Conformidade com o núcleo da pregação do Reino.
- Explicação Necessária: Fatos que dão sentido ao conjunto da missão.
- Os Defeitos dos Apóstolos: O fato de os Evangelhos registrarem as falhas e a falta de fé dos próprios líderes da Igreja primitiva é uma prova contundente de que os relatos não são propaganda, mas registros honestos da realidade.
6. Conclusão: O Evangelho como Convite
Embora os evangelistas tenham selecionado e adaptado o conteúdo para seus ouvintes, eles conservaram fielmente a verdade do que Jesus fez e ensinou. A variação entre “telhas” e “barro” no teto do paralítico apenas prova que a Palavra de Deus se encarna na cultura de quem a recebe.
Como aconselhava São Josemaria Escrivá, a leitura do Evangelho exige que sejamos “um personagem a mais” nas cenas. Não estudamos uma doutrina morta; encontramos uma Pessoa viva. Ao meditar sobre esses relatos, tocamos a “perenidade atual do Evangelho”.
Conhecer a história dos Evangelhos é o caminho para fundamentar nossa fé em fatos, lembrando sempre que, na oração e na liturgia, o tempo se desfaz e encontramos o Cristo que é o mesmo ontem, hoje e sempre (Iesus Christus heri et hodie, ipse et in saecula).
Esta guia se baseia na aula “Así nacieron los evangelios”, do professor Bernardo Estrada, disponível no youtube.
Bernardo Estrada é um professor emérito do Departamento de Sagrada Escritura na Pontificia Università della Santa Croce em Roma e autor de extensas pesquisas em exegese, com foco principal no Novo Testamento.

