Álvaro del Portillo e África: uma beatificação solidária

Publicamos um artigo de Jesús Fonseca sobre a beatificação de Álvaro del Portillo. O artigo foi publicado no jornal La Razón em 10 de Abril de 2014.

Na Imprensa

Publicamos um artigo de Jesús Fonseca sobre a beatificação de Álvaro del Portillo. O artigo foi publicado no jornal La Razón em 10 de Abril de 2014.

Descomplicado e simpático; aberto a todos os ramos do saber e muito profissional. Álvaro del Portillo possuía, também, um sentido de humor muito castiço. Disso dá prova esta sua reflexão: «Não podemos enganar-nos, como aquele senhor de quem contam em Itália que comia a massa com os olhos fechados, porque o médico lhe tinha dito que massa… nem vê-la!». Ou, esta outra, brincando com uma pessoa que ia ao Chile: «Diz-lhes que tenho muita vontade de ir vê-los... mas fico com a vontade». Tinha graça. Tinha caráter, mas era essencialmente agradável, muito próximo. Nunca perdia o sorriso. Todos os que conviveram com ele recordam a paz e a tranquilidade que vivia e infundia. Álvaro del Portillo era um homem espontâneo, transbordante de carinho, dessas pessoas que sabem querer e o demonstram. Que vão fazendo o bem a mãos cheias, levando a vida com entusiasmo e alegria, como coisa natural.

«Muito próximo de todos». A frase é de Javier Echevarría, atual prelado do Opus Dei, a pessoa que mais perto esteve dele. Que mais tempo conviveu com este bispo nascido em Madri, que será proclamado beato no próximo dia 27 de Setembro na capital de Espanha. Cabe a D. Javier Echevarría o privilégio de ter acompanhado dois santos, Josemaria Escrivá e Álvaro del Portillo. E de ter impulsionado, juntamente com eles, uma das instituições mais sérias da Igreja universal, mais fiéis ao Papa, o Opus Dei. Javier Echevarría, que não dá ponto sem nó, teve a boa ideia de pedir a todos os que se unirem a esta beatificação um gesto, consistindo numa doação para apoiar quatro projetos na África negra, coordenados por Harambee – uma ONG que nasceu, precisamente, com motivo da canonização de S. Josemaria –, que procura fundar e consolidar instituições africanas para a erradicação da pobreza e para a formação humana. No dia 11 de Março, D. Álvaro, como os do Opus chamam a D. Álvaro del Portillo, teria completado cem anos. Uma boa ocasião para refletir sobre a sua vida, pensamento e sentimentos.

Tenho uma espécie de prazer mórbido em remexer, sempre que posso, na vida de qualquer pessoa que é elevada aos altares, mesmo que nunca antes tenha ouvido falar dela. Que fazia esse senhor, ou essa senhora, de especial para ser santo?.. E, afinal, sempre encontro surpresas que têm a ver com o cotidiano, com o mais humano. Com o dia-a-dia da vida normal e corrente. Porém, há algo que se repete em todos eles. Que quase nunca falta, quer sejam consagrados ou leigos: a capacidade de saber estar cada um no seu lugar; sem fazer coisas estranhas. Sendo úteis aos outros e fazendo-os felizes. Tal é o caso deste bispo nascido na capital de Espanha há cem anos, no dia 11 de Março, concretamente, e que trabalhou até à exaustão pelo Reino de Cristo. Revolvi Roma e Santiago, para encontrar testemunhos de pessoas que conheceram e lidaram com o novo beato.

Li-os cuidadosamente. Foi, sobretudo, divertido e esclarecedor, devido ao espírito amável e forte deste personagem. Termino com o que dele diz Javier Echevarría – seu sucessor –, sustentado em três pés, como um desses tripés que usam os das câmaras de televisão e os paparazis: «heroísmo no quotidiano, sobrenaturalidade humana, extraordinária normalidade na existência corrente, mesmo nas coisas mais ínfimas». Certamente não se pode dizer melhor. Salvador Bernal conta, entre outros episódios e saídas de D. Álvaro del Portillo, este que reflete muito bem o bom senso e o bom humor do novo beato: quando, após ter sido eleito para suceder ao fundador do Opus Dei, decidiu que todas as doações e obséquios que lhe tinham oferecido fossem destinados a trabalhos apostólicos, alguém lhe disse: «obrigado pelo sentido universal que demonstrou». Ao que D. Álvaro imediatamente retorquiu: «Então tu chamas aos ‘tostões’ sentido universal». Bendita espontaneidade de D. Álvaro!