A vocação humana é parte da vocação divina

Transcrevemos aqui alguns trechos da homilia de Mons. Vicente Ancona Lopez, Vigário Regional do Opus Dei no Brasil, pronunciada na Missa em honra de São Josemaria Escrivá, na Catedral da Sé, em São Paulo, no dia 26 de junho de 2010.

O Evangelho da pesca milagrosa, que acaba de ser proclamado, focaliza uma situação que encaixa muito bem com a festa de São Josemaria que hoje celebramos. A irrupção da Pessoa de Jesus Cristo, isto é, de Deus que se fez homem em pleno universo profissional de um grupo de pescadores.

Esses pescadores eram profissionais, como praticamente todos aqui hoje nessa catedral: pessoas que trabalham diariamente e se sustentam com o seu trabalho. Pessoas com mentalidade profissional, cidadãos com direitos e deveres que contribuem para o bem comum. Por essa e outras passagens do Evangelho depreende-se que eles amavam a sua profissão e se esforçavam por ser competentes, por melhorar seu padrão de vida, de suas famílias e contribuir para a melhora da sociedade local.

E esse grupo de trabalhadores é surpreendido pela presença inesperada de Jesus, num dia normal de trabalho, em plena atividade profissional. Acabam de voltar da pesca, após uma noite de esforços sem resultados, e Jesus pede a Pedro que afaste um pouco a sua barca, e sobe na barca, onde pode ser visto e ouvido, prega ao ar livre, no coração do ambiente  profissional e familiar daqueles pescadores.

É interessante observar essa cena nessa perspectiva! Para empregar a linguagem dos documentos mais recentes do Magistério da Igreja, o Evangelho é anunciado no ambiente civil, no meio das estruturas temporais da sociedade. Após terminar a pregação, Jesus Cristo se dirige a esses pescadores e, por assim dizer, se “intromete” nas questões profissionais deles, indicando-lhes que se dirijam ao alto mar para pescar. Eles, depois de relutar, aceitam essa indicação apoiados na autoridade moral de Jesus, e então acontece o milagre.

A própria frase que Jesus dirige a Pedro depois do milagre da pesca é também muito significativa e tem uma clara conexão com a vida profissional daqueles homens: “Doravante serás pescador de homens”. Não lhe pede que deixe de ser pescador, mas que capte e assuma uma nova dimensão dentro da sua vida quotidiana.

E o Evangelho termina dizendo que aqueles homens Pedro, André, Tiago, João e outros companheiros, que continuaram sendo pescadores, tornaram-se seguidores de Jesus de uma forma vocacional, i.e., existencial e incondicional.

Para nós, que hoje celebramos a festa de São Josemaria, essa narração nos encanta, pois tem tudo a ver conosco. Para a imensa maioria, o encontro com o Opus Dei também deu-se assim, através de um contacto profissional. Da conversa com um colega num elevador, num almoço de trabalho, numa troca de e-mails. Em muitos casos foi um convite que nos surpreendeu no nosso próprio ambiente de trabalho: um curso, uma atividade de promoção social, uma aula de doutrina que havia ali no próprio escritório, na repartição pública, no próprio hospital ou no banco.

Também nós, como esses Apóstolos, vimos que, através daquela proposta, o próprio Cristo penetrava no nosso ambiente e ficamos assombrados com as perspectivas que se abriram. Deus, Jesus Cristo, quer interagir conosco e está muito interessado na nossa vida profissional e familiar, desejando “entrar” nela e compartilhar nossos afãs para ajudar-nos a crescer como cristãos.

E aqui está o miolo da mensagem que Nosso Senhor mostrou a São Josemaria no dia 2 de outubro de 1928. Essa é, como dizia o próprio São Josemaria, a finalidade do Opus Dei: “o Opus Dei pretende ajudar a descobrir essa missão divina, mostrando que a vocação humana - a vocação profissional, familiar e social - não se opõe à vocação sobrenatural: pelo contrário, é parte integrante dela.” (Questões Atuais do Cristianismo n. 60).

Deus está interessado! No teu plano de carreira, na tua avaliação profissional, na forma com que você se relaciona com o chefe e os subordinados, nas tuas preocupações econômicas, na situação familiar, nas tuas amizades. É aí, na nossa vocação humana, que se insere a vocação divina, a chamada à santidade! “O Opus Dei tem como missão única e exclusiva a difusão desta mensagem (...) em qualquer ambiente ou profissão.” (Questões Atuais do Cristianismo n. 60).

Descobrir isso foi importante para cada um de nós. Uma das primeiras consequências é ver que Nosso Senhor, mal começamos a conversar com Ele na nossa oração a respeito da nossa vida, quer que também nós naveguemos mar adentro, deseja que tenhamos projetos de melhora e de crescimento pessoal. Como aos pescadores naquela manhã, quando estavam já encerrando o expediente, pediu-lhes um esforço extra, propõe também a nós que sejamos mais esforçados e persistentes. Melhores profissionais. Aí se encaixa a parábola que fala dos talentos que Deus nos deu e que tem que render. Aí se aplica a chamada à santidade em que Cristo nos convida a procurar imitar a perfeição de Deus, procurar a excelência! Aí se vislumbra os trinta anos de trabalho de Jesus e de São José como carpinteiros.

São Josemaria colocava um exemplo: Se alguém comentando a respeito de um filho meu, cuja profissão é ser professor de matemática, dissesse que é um bom filho meu, mas um mau professor de matemática, eu diria que não é um bom filho meu.

E dá para entender! Será que alguém é um bom filho de São Josemaria porque diz que adora a Obra, fala da Obra a toda hora, lê livros espirituais, não perde uma reunião, gosta de fazer convívio e retiro... mas depois não é bom professor, seus alunos tem desempenho fraco, suas aulas são cansativas e sonolentas, é confuso na exposição da matéria...? Não! Não é um bom filho de São Josemaria! Terá que melhorar nesses pontos!

Todos nós temos que assumir metas de crescimento e de coerência cristã! Apesar das nossas fraquezas! E Cristo, através do Opus Dei quer ajudar-nos a melhorar!

Queria apenas mencionar um outro aspecto desse evangelho muito bonito: “Doravante serás pescador de homens!” Os pescadores quando se deparam com aquela pesca abundante e inesperada, pedem ajuda aos companheiros e compartilham aquele sucesso profissional.

O encontro com Cristo na vida profissional, leva ao espírito de equipe. A superar a competitividade egoísta e o isolamento e fomentar a colaboração. Leva também a superar um mero coleguismo formal, para construir verdadeiras amizades com abertura de coração.

Todos podemos abrir-nos mais com os nossos amigos e amigas. Ter conversas a fundo, com sinceridade e veracidade. Falar das nossas alegrias e tristezas, dos nossos ideais. Quebrando o tabu dos respeitos humanos para falar das coisas verdadeiramente íntimas, que são a nossa fé e os nossos grandes valores decorrentes dela, as nossas fraquezas e aspirações. É o apostolado de amizade e confidência.

A todos Jesus diz, e no Opus Dei nós escutamos isto várias vezes: Vinde após mim e farei de vós pescadores de homens. Aproveitemos essa Missa para, com a ajuda de São Josemaria, assumir melhor essa mensagem do Opus Dei na nossa vida profissional:

- Manter a presença de Deus no trabalho com truques humanos, jaculatórias...

- Oferecer o trabalho a Deus pensando no sacrifício da Santa Missa...

- Rezar pelos anjos da guarda dos colegas...

- Pedir luz e ajuda ao Espírito Santo para resolver os problemas complexos do trabalho.

- Viver a caridade e a amabilidade com os colegas, com o chefe e com os funcionários

-Trabalhar querendo servir! Vendo Cristo nos clientes, nos pacientes, nos alunos, nos fregueses.

Dessa forma revivemos a experiência de Nossa Senhora e de São José naqueles 30 anos de vida de trabalho e de família de Cristo em Nazaré. Peçamos filialmente a Nossa Senhora que nos dê forças e nos sustente quando nos sentimos fracos diante dessas propostas e desses projetos. Hoje agradecemos a Deus essa mensagem maravilhosa que Ele confiou a São Josemaria. Amém.