A fase de Ponta Grossa

Experiências da vida comum de uma família. Fernanda é terapeuta ocupacional, mãe de sete filhos e casada com um militar. Pela profissão do marido, muda-se de cidade frequentemente. Neste artigo compartilha algumas iniciativas simples e concretas que surgiram das amizades na cidade onde mora atualmente, no Paraná.

Opus Dei - A fase de Ponta Grossa

Nesse relato quero compartilhar algumas iniciativas simples e bem concretas que surgiram das amizades numa das cidades que moramos no interior do Paraná, Ponta Grossa. Sou esposa de militar e, pela característica da profissão de meu marido, nos mudamos frequentemente de cidade, estado e região desse nosso imenso Brasil. As oportunidades de conhecer muitas pessoas de culturas e costumes regionais diferentes são muitas. No entanto, as passagens das pessoas em nossas vidas não costumam ser muito longas e as amizades que fazemos deixam saudades.

Sendo assim, um cuidado que devemos ter ao conhecer novas pessoas é evitar o relacionamento superficial. Pelo contrário, como estamos sempre “sozinhos”, sem família perto, sempre chegando num lugar novo, costumamos dizer que precisamos sim de amizades muito sólidas para trocarmos ajudas e formarmos uma rede de apoio para a vida.

Ao chegarmos na cidade, eu estava com quatro filhos pequenos. Começamos a morar num apartamento onde já comecei a ter boas amizades e, um tempo depois, fomos para uma vila militar que se assemelha a um condomínio. A característica peculiar de viver numa comunidade assim é que as famílias chegam e saem com muita frequência, vem de longe acompanhando as transferências, com filhos em mudanças constantes de escolas.

Os nossos filhos e os filhos dos vizinhos: catequese familiar

Por meio das crianças que procuravam parceiros para brincadeiras, as mães fomos ficando amigas. Como várias de nós éramos católicas, decidimos criar um grupo de estudo da doutrina para podermos revisar o catecismo e ajudar a passá-lo para os filhos. Esses grupos aconteceram semanalmente na minha casa, mesmo com algumas chegando e outras saindo da cidade.

Os encontros entre mães fizeram surgir a discussão de como transmitir a fé aos nossos filhos, ainda mais aos que estavam na idade de catequese. Mais ainda, nos nossos encontros pensávamos em como fomentar a vida de piedade no seio de nossas famílias e daí surgiam ideias bem concretas.

Uma atividade interessante de se contar aqui foi uma iniciativa que surgiu no mês de maio. A questão era como aumentar a devoção mariana e ensinar isso para os filhos, dividindo experiências que estavam acontecendo em nossas casas. Por sua vez, as crianças, que já brincavam juntas, entenderam que podiam se organizar numa atividade coletiva lúdica e de piedade. Incentivadas pelas mães, montaram um mural com uma imagem de Nossa Senhora e combinaram que fariam muitos atos bons em suas casas e os ofereceriam à Virgem. Para cada uma dessas boas obras, colariam uma estrela dourada no mural e encheriam a Mãe de Jesus com esses muitos presentes. Escolheram deixar o mural na minha casa e, naquele mês de maio, cada vez que tocava a campainha e era uma criança chamando meus filhos para brincar, já traziam algumas estrelinhas nas mãos para colar no mural da Mãe. Contavam para os amigos que uma era “por uma cama bem arrumada”, outra “por não ter brigado com o irmão”, outra “por ter ajudado a mãe em uma tarefa”, etc. E iam dividindo as experiências, colando as estrelinhas e depois seguiam nas suas brincadeiras.

Outra atividade foi a estruturação de uma catequese domiciliar. Na medida em que fomos aprofundando nos estudos de doutrina, fomos nos capacitando para ensinar a nossos filhos e percebendo a demanda e a necessidade de uma educação formal melhorada nesse aspecto. Ainda por termos uma vida muito migrante, a inclusão nos programas de catequese nas paróquias estava prejudicada. Como as Forças Armadas preveem um Ordinariato Militar para atender necessidades espirituais das famílias militares, houve uma oportunidade do nosso grupo se organizar para preparar os filhos em idade adequada para receberem os sacramentos de Primeira Comunhão.

Foram organizados os encontros e confeccionados os materiais para as aulas, adaptando-se o conteúdo que as mães estavam estudando para a linguagem infantil. Muitos textos e roteiros foram retirados do próprio site da Obra; fazendo com isso, que a elaboração do material para o ensino dos filhos aprofundasse ainda mais o conhecimento do Catecismo da Igreja. Os encontros com as crianças aconteciam nas casas das famílias envolvidas.

Foi conversado com o capelão militar e íamos prestando conta para ele do conteúdo transmitido e do nível de preparação das crianças, com a intenção de que ele pudesse ministrar os sacramentos futuramente. Quando ele tomou contato com o material que as famílias estavam elaborando e com o preparo das crianças que ele conheceu, ficou surpreso com a qualidade. Porém, na medida que foi nos acompanhando, foi descobrindo e entendendo que essa iniciativa estava intimamente ligada à formação que recebo do Opus Dei e do nosso típico apostolado de amizade e confidência. (O material na verdade era muito simples, todo de fontes públicas, mas o segredo estava na personalização, pois era pensado pelos pais para os seus próprios filhos).

Família em Forma

E a vida foi seguindo, com mais mudanças dos vizinhos e nossa também. Mudamos de quartel, de casa, de bairro. Com isso, pela demanda que se apresentava, percebemos a necessidade de estruturarmos um novo formato de encontros familiares envolvendo os casais. As necessidades aumentavam, nossa família também aumentava, mas tínhamos nos mudado para um apartamento menor e já não tínhamos condições de propor atividades em casa como vínhamos fazendo.

Surgiu então, com grande apoio de meu marido, a ideia de montarmos um grupo de estudo denominado “Família em Forma”, utilizando uma estrutura fora de casa, de um hotel, e de convidarmos mais gente. A proposta girou em torno do estudo da Exortação Apostólica Pós-Sinodal Amoris Lætitia, do Santo Padre Francisco. A experiência foi rica por nos aproximarmos como casal na elaboração de uma iniciativa apostólica comum e no estudo e discussão de assuntos de família.

Qual a fonte de onde eu bebo? “Cada caminhante siga o seu caminho”.

Nosso Senhor tem muitos planos para cada um de nós e precisamos descobrir quais são eles. A formação que recebo na Obra me dá muita liberdade e clareza para buscar conhecer a Vontade Divina e sempre fomos passando essa ideia para os nossos filhos. Ensinamos a todos que nós batizados, temos muito o que fazer para defender os direitos de Deus na terra, mas temos que perguntar a Ele que nos criou como quer que executemos essa tarefa. Sempre falamos em casa para os filhos, desde a mais tenra idade, que cada um precisa achar o seu caminho para servir a Deus. São Josemaria nos fala sobre isso no ponto 231 de Sulco: Gosto desse lema: “Cada caminhante siga o seu caminho” - aquele que Deus lhe traçou -, com fidelidade, com amor, ainda que custe.

Porém o Senhor nos surpreendeu com um de nossos filhos (o segundo) que descobriu nessa cidade em que moramos sua vocação, tão diferente para nós. Aproximou-se de uma comunidade de vida religiosa e quis experimentar essa vida para si. Travou uma luta em casa para mostrar para nós, seus pais, como estava decidido a experimentá-la fazendo a escolha de se juntar a essa nova família para discernir o seu caminho. Falou sobre a Providência Divina que nos trouxe para essa cidade e para perto dessa comunidade para que Deus pudesse lhe falar; tratou com a diretoria do seu Colégio a possibilidade de transferência educacional e o acerto de bolsas de estudo para os irmãos (pois ele queria se tornar interno da comunidade e completar seus estudos lá, mas pelo número de filhos estudantes, a sua saída da escola poderia prejudicar as bolsas de estudo que alguns irmãos obtinham). Fez tudo isso por iniciativa própria e em oração para que nós, seus pais, pudéssemos entender que não desprezava sua família, mas que estava vendo a possibilidade de ter outra maior a serviço de Deus e nos pedia para que pelo menos o deixássemos viver esse discernimento vocacional.

Não vou dizer que todo esse processo foi fácil. Entregar um filho assim envolve algumas lágrimas e saudades. Mas Deus nos carrega no colo nas trilhas mais tortuosas e vai nos mostrando a grandeza dos seus planos aos poucos. E ao longo dessa caminhada sempre tive no Opus Dei todo o apoio da direção espiritual que me ajudou a perceber todos esses acontecimentos com o olhar de Deus.

A escolha precoce desse filho por um caminho (diferente do meu) para servir a Deus, provocou nos irmãos um intenso e perene autoquestionamento sobre o tema vocacional, onde o assunto na mesa “como Deus espera que eu O sirva e (à sociedade) com minha vida” é recorrente.

Avançar para mares mais profundos

Sou terapeuta ocupacional e amo a minha profissão, mas há muito já tinha feito o exercício de desapego de minha vida profissional, abdicando dela para cuidar da família. Tinha até trabalhado em áreas afins ou na minha própria área em algumas cidades onde tinha passado, ajustando horários de trabalho com as necessidades dos filhos e já tinha passado alguns anos sem trabalhar – sempre atendendo às circunstâncias e necessidades familiares do momento. Por outro lado, também, buscando viver bem o que São Josemaria aconselhava para as pessoas da Obra (dedicar um tempo ao estudo, para melhorar profissionalmente, santificar o trabalho e assim “colocar Cristo no cume de todas as atividades humanas”), nunca parei de estudar assuntos relacionados à minha área, mesmo sem saber se conseguiria ou não atuar nela.

Quando cheguei em Ponta Grossa, eu estava praticando o exercício de estudar alguma coisa da minha área 10 minutos por dia (que era o único tempo que eu percebia que tinha) e, nessa ocasião abriu um concurso público municipal bem na minha área. Como é bem difícil de abrir concurso na minha profissão e mais ainda, coincidir de ser na cidade onde estou temporariamente morando, resolvi prestar e acabei passando em primeiro lugar.

Ressalto que eu já tinha passado em outros bons concursos de minha área profissional, mas nunca pude assumir por perceber que nos contextos da época essa decisão atrapalharia muito a minha família. Porém, dessa vez, uma série de circunstâncias me empurraram literalmente para aceitar o cargo, pois o “desenho” atual da rotina familiar possibilitou conciliar a vida do trabalho com a doméstica, sendo este um fator muito dinâmico que precisa ser revisto sempre.

Fui trabalhar então numa unidade de saúde mental, uma área da Terapia Ocupacional que nunca havia previsto para mim. Porém, de pronto, já gostei muito do trabalho e principalmente das pessoas que ali exerciam suas funções, tão virtuosas e comprometidas com o bem do outro. O foco do nosso serviço envolve tanta humanidade e as pessoas que lá trabalham o fazem tão bem e com tanto profissionalismo que não tem como não “enxergar” os ensinamentos de São Josemaria Escrivá que nos impulsiona a santificar-nos pelo trabalho, o trabalho e os outros através do trabalho.

Ficou muito claro para mim, então, porque Deus me colocou ali, misturada entre histórias horrorosas do mundo das drogas e das piores doenças psíquicas com colegas tão sensíveis e cuidadosas para dar suporte ao sofrimento humano; mas que, talvez por causa desse contato às vezes ficam frágeis e decepcionadas com a vida.

Comecei a procurar ajudar cada uma das pessoas que chegam a mim, ora do lado dos usuários do serviço, ora do lado das colegas de trabalho. Algumas pessoas deste ambiente não compartilham de minha fé, mas sempre podemos ampliar o horizonte da transcendência e cuidar também da dimensão espiritual do ser humano dentre todas as outras. Busco fazer isto ética e profissionalmente com os usuários; mas também com os colegas de trabalho: oferecendo minha amizade, meu sorriso, fazendo-as conhecer minhas histórias, meus sete filhos, enfim, minhas confidências. Fomos nos fazendo amigas de verdade, que admiram e se animam com minha família numerosa e me acompanham nos acontecimentos da vida numa troca de respeito e de aprendizagem que também muito me faz crescer.

A missão continua repaginada

O tempo foi passando e novas amigas fui fazendo: tanto no trabalho, como no meio militar, mas também fora dele que me acompanharam nestes anos e na passagem de vários acontecimentos. Posso dizer que “a fase de Ponta Grossa” está sendo vivida intensamente com nascimento de mais três filhos desde que chegamos no Paraná, saída de casa de dois filhos adolescentes com sonhos grandes de serviço à humanidade, responsabilidades crescentes no trabalho de cujo serviço me tornei coordenadora, cuidado com o cônjuge e apoio às suas responsabilidades profissionais também.

E é no meio das atividades humanas mais triviais e da dinâmica da vida que surgem sempre novas oportunidades de também aprofundar a amizade com Cristo a partir das amizades humanas.

Muitas das inciativas de anos anteriores já relatadas se mantiveram, como por exemplo, os grupos de estudo de formação humana entre amigas. Sempre estou disponível para as que querem me acompanhar no crescimento e na formação humana e espiritual, propondo companhia para formarmos grupos de estudo da Doutrina Católica e de assuntos afins que envolvem temas de Família, Educação, Cultura e outros. Foram muitas experiências nestes anos: encontros periódicos de videochamada no Skype em grupos ou individuais com as amigas que estavam longe e reuniões em casa.

Ano passado (2019), inauguramos um novo modelo que uma amiga minha criou: abertura de um grupo de Whatsapp com qualquer conhecida que se interesse pelos temas que discutimos. Uma amiga chama a outra e divulga nosso link. Neste grupo virtual, discutimos os assuntos que queremos estudar em conjunto e que iremos debater presencialmente. Ainda no grupo virtual, trocamos material de leitura e estudo sobre os temas e marcamos os encontros presenciais nas casas das participantes de acordo com as suas disponibilidades. Quando já éramos cerca de 30 participantes deste grupo virtual, no qual cerca de dez a quinze já conseguiam se manter assíduas nos grupos presenciais, veio a pandemia do Novo Coronavírus (março de 2020). Não esperávamos que este novo modelo de reunião que vínhamos organizando se encaixaria tão bem para este momento, pois o grupo de Whatsapp se manteve fortalecido e servindo como “aperitivo” para a reunião virtual em Web Meeting ao vivo que veio substituir as reuniões em nossas casas. Agora, as amigas de longe e de perto podem se juntar, cada uma do seu lugar, para crescermos juntas na fé e na amizade! Novos tempos exigem novas soluções!