4. O serviço à comunhão

Existe um vínculo íntimo entre o Espírito Santo e a Igreja. O Espírito Santo constrói a Igreja e lhe comunica a verdade.

Quarta-feira, 29 de março de 2006

Queridos irmãos e irmãs!

Na nova série de catequeses, iniciada há poucas semanas, queremos considerar as origens da Igreja para compreender o plano original de Jesus e, assim, entender o essencial da Igreja, que permanece ao longo dos tempos. Desejamos, dessa forma, compreender também o porquê de estarmos na Igreja e como devemos nos comprometer a vivê-la no início de um novo milênio cristão.

Ao considerar a Igreja nascente, podemos descobrir dois aspectos. O primeiro é destacado, em grande medida, por Santo Irineu de Lyon, mártir e grande teólogo do fim do século II, o primeiro a nos oferecer uma teologia de certo modo sistemática. Santo Irineu escreve: “Onde está a Igreja, ali também está o Espírito de Deus; e onde está o Espírito de Deus, ali está a Igreja e todas as graças, porque o Espírito Santo é verdade” (Adversus haereses, III, 24, 1: PG 7, 966). Existe, portanto, um vínculo íntimo entre o Espírito Santo e a Igreja. O Espírito Santo constrói a Igreja e lhe comunica a verdade; infunde, como diz São Paulo, o amor nos corações dos fiéis (cf. Rm 5,5).

Há ainda um segundo aspecto. Esse vínculo profundo com o Espírito não elimina a nossa humanidade, com toda a sua fragilidade. Assim, desde o início, a comunidade dos discípulos conhece não apenas a alegria do Espírito Santo, a graça da verdade e do amor, mas também a prova, constituída sobretudo pelos conflitos em torno das verdades da fé, com as consequentes rupturas da comunhão.

Assim como a comunhão do amor existe desde o princípio e existirá até o fim (cf. 1Jo 1,1ss.), infelizmente também desde o começo existe a divisão. Não devemos nos admirar que ela continue existindo ainda hoje: “Eles saíram do nosso meio, mas não eram dos nossos. Porque, se fossem dos nossos, teriam permanecido conosco; mas isso aconteceu para que ficasse claro que nenhum deles era dos nossos” (1Jo 2,19).

Existe, portanto, sempre o perigo, nas vicissitudes do mundo e também nas fragilidades da Igreja, de perder a fé e, consequentemente, também o amor e a fraternidade. Assim, é um dever precioso de quem crê na Igreja do amor e deseja viver nela reconhecer esse perigo e aceitar que não é possível haver comunhão com quem se afasta da doutrina da salvação (cf. 2Jo 9-11).

O fato de a Igreja nascente estar plenamente consciente dessas tensões possíveis na experiência da comunhão é demonstrado de maneira clara pela Primeira Carta de João. Não há voz no Novo Testamento que se levante com mais vigor para destacar a realidade e o dever do amor fraterno entre os cristãos; mas a mesma voz também se dirige, com grande severidade, aos adversários que antes pertenciam à comunidade e agora já não pertencem mais.

A Igreja do amor é também a Igreja da verdade, entendida antes de tudo como fidelidade ao Evangelho confiado pelo Senhor. A fraternidade cristã nasce do fato de sermos constituídos filhos do mesmo Pai pelo Espírito da verdade: “De fato, todos os que são guiados pelo Espírito de Deus, esses são filhos de Deus” (Rm 8,14). Mas a família dos filhos de Deus, para viver na unidade e na paz, necessita de quem a mantenha na verdade e a conduza com discernimento sábio e competente: essa é precisamente a missão do ministério dos Apóstolos.

E assim chegamos a um ponto importante. A Igreja é toda do Espírito, mas possui uma estrutura: a sucessão apostólica, à qual cabe a responsabilidade de garantir que a Igreja permaneça fiel à verdade recebida de Cristo, da qual também deriva a capacidade de amar.

O primeiro resumo apresentado nos Atos dos Apóstolos expressa com grande clareza a convergência desses valores na vida da Igreja nascente: “Eles eram perseverantes no ensinamento dos Apóstolos, na comunhão fraterna (koinonìa), na fração do pão e nas orações” (At 2,42). A comunhão nasce da fé despertada pela pregação apostólica, alimenta-se pela fração do pão e pela oração, e se manifesta na caridade fraterna e no serviço. Temos aqui a descrição da comunhão da Igreja nascente, na riqueza de seus dinamismos internos e de suas expressões visíveis: o dom da comunhão é preservado e promovido, de modo especial, pelo ministério apostólico, que por sua vez é um dom para toda a comunidade.

Os Apóstolos e seus sucessores são, portanto, os guardiões e as testemunhas autorizadas do depósito da verdade confiado à Igreja, e também os ministros da caridade: dois aspectos que caminham juntos. Eles devem sempre recordar que esse duplo serviço é inseparável e, na realidade, constitui uma única missão: verdade e caridade, reveladas e concedidas pelo Senhor Jesus.

Nesse sentido, seu serviço é, antes de tudo, um serviço de amor. A caridade que devem viver e promover é inseparável da verdade que guardam e transmitem. Verdade e amor são duas faces do mesmo dom, que vem de Deus e que, graças ao ministério apostólico, é conservado na Igreja e chega até nós nos dias de hoje. Também por meio do serviço dos Apóstolos e de seus sucessores, o amor do Deus Trindade chega até nós para nos comunicar a verdade que nos torna livres (cf. Jo 8,32).

Tudo o que vemos na Igreja nascente nos incentiva a rezar pelos sucessores dos Apóstolos, por todos os bispos e pelos sucessores de Pedro, para que sejam verdadeiramente, juntos, guardiões da verdade e da caridade; para que sejam, nesse sentido, autênticos apóstolos de Cristo, a fim de que sua luz — a luz da verdade e da caridade — jamais se apague na Igreja e no mundo.