7. A Sucessão Apostólica

Quarta-feira, 10 de maio de 2006

Queridos irmãos e irmãs!

Nas últimas duas audiências meditamos sobre o que é a Tradição na Igreja e vimos que ela é a presença permanente da palavra e da vida de Jesus no seu povo. Mas a palavra, para estar presente, necessita de uma pessoa, de uma testemunha. E assim nasce essa reciprocidade: por um lado, a palavra necessita da pessoa; por outro, a pessoa, a testemunha, está ligada à palavra que lhe foi confiada e que ela não inventou. Essa reciprocidade entre o conteúdo — a palavra de Deus, a vida do Senhor — e a pessoa que lhe dá continuidade é característica da estrutura da Igreja, e hoje queremos meditar sobre esse aspecto pessoal da Igreja.

O Senhor havia iniciado isso convocando, como vimos, os Doze, nos quais estava representado o futuro Povo de Deus. Na fidelidade ao mandamento recebido do Senhor, primeiro os Doze, depois da sua Ascensão, completam o seu número com a eleição de Matias no lugar de Judas (cf. At 1,15-26) e, depois, associam progressivamente outros às funções que lhes foram confiadas, para que continuem o seu ministério. O próprio Ressuscitado chama Paulo (cf. Gl 1,1), mas Paulo, mesmo tendo sido chamado pelo Senhor, confronta o seu Evangelho com o Evangelho dos Doze (cf. Gl 1,18), preocupa-se em transmitir aquilo que recebeu (cf. 1Cor 11,23; 15,3-4) e, na distribuição das tarefas, é associado aos Apóstolos, juntamente com outros, por exemplo Barnabé (cf. Gl 2,9).

Assim como, no início, a condição de apóstolo nasce de um chamado e de um envio do Ressuscitado, também o posterior chamado e envio de outros acontecerá, pela força do Espírito, por obra daqueles que já foram constituídos no ministério apostólico. Esse é o caminho pelo qual continuará o ministério, que depois, a partir da segunda geração, passará a ser chamado ministério episcopal, o episcopé.

Talvez seja útil explicar brevemente o que significa “bispo”. “Bispo” é a forma portuguesa da palavra grega epíscopos. Essa palavra indica alguém que tem uma visão do alto, alguém que olha com o coração. Assim, o próprio São Pedro, na sua Primeira Carta, chama o Senhor Jesus de “Pastor e Bispo, guarda das vossas almas” (1 Pe 2,25). E, segundo esse modelo do Senhor, que é o primeiro Bispo, guarda e pastor das almas, os sucessores dos Apóstolos passaram a ser chamados sucessivamente de bispos, epíscopoi. A eles foi confiada a função do episcopé.

Essa função própria do bispo foi se desenvolvendo progressivamente, em relação ao seu início, até assumir a forma já claramente confirmada por Inácio de Antioquia, no início do século II (cf. Ad Magnesios, 6,1: PG 5,668), do tríplice ministério de bispo, presbítero e diácono. Trata-se de um desenvolvimento guiado pelo Espírito de Deus, que assiste a Igreja no discernimento das formas autênticas da sucessão apostólica, sempre mais bem definidas entre uma pluralidade de experiências e de formas carismáticas e ministeriais presentes nas comunidades das origens.

Dessa forma, a sucessão na função episcopal apresenta-se como continuidade do ministério apostólico, garantia da perseverança na Tradição apostólica, palavra e vida que o Senhor nos confiou. O vínculo entre o Colégio dos Bispos e a comunidade originária dos Apóstolos deve ser compreendido, antes de tudo, na perspectiva da continuidade histórica.

Como vimos, aos Doze foram depois associados Matias, Paulo, Barnabé e, em seguida, outros, até a formação, na segunda e na terceira geração, do ministério do bispo. Portanto, a continuidade se expressa nessa sucessão histórica. E é na continuidade da sucessão que se encontra a garantia da permanência, na continuidade eclesial, do Colégio apostólico reunido por Cristo. Mas essa continuidade, que vemos primeiramente na continuidade histórica dos ministros, deve ser compreendida também em sentido espiritual, porque a sucessão apostólica no ministério é considerada como lugar privilegiado da ação e da transmissão do Espírito Santo.

Temos um reflexo claro dessas convicções, por exemplo, no seguinte texto de Santo Irineu de Lião (segunda metade do século II): “A tradição dos Apóstolos, manifestada em todo o mundo, mostra-se em cada Igreja a todos os que desejam ver a verdade, e nós podemos enumerar os bispos estabelecidos pelos Apóstolos nas Igrejas e os seus sucessores até nós... Os Apóstolos, de fato, quiseram que aqueles que deixavam como sucessores fossem absolutamente perfeitos e irrepreensíveis em tudo, transmitindo-lhes a própria missão de ensinamento. Se eles a tivessem compreendido corretamente, dela teriam tirado grande proveito; se, ao contrário, falhassem, teriam causado um dano gravíssimo.” (Adversus haereses, III, 3,1: PG 7,848).

Depois, Irineu, indicando essa rede da sucessão apostólica como garantia da permanência na palavra do Senhor, concentra-se naquela Igreja “sumamente antiga e conhecida por todos”, que foi “fundada e constituída em Roma pelos gloriosíssimos Apóstolos Pedro e Paulo”, dando destaque à Tradição da fé, que nela chega até nós por meio dos Apóstolos mediante a sucessão dos bispos.

Dessa forma, para Irineu e para a Igreja universal, a sucessão episcopal da Igreja de Roma torna-se o sinal, o critério e a garantia da transmissão ininterrupta da fé apostólica: “A esta Igreja, por causa da sua peculiar primazia (propter potiorem principalitatem), é necessário que convirjam todas as Igrejas, isto é, os fiéis de todas as partes, porque nela a tradição dos Apóstolos sempre foi preservada...” (Adversus haereses, III, 3,2: PG 7,848). A sucessão apostólica verificada com base na comunhão com a Igreja de Roma é, portanto, o critério da permanência de cada uma das Igrejas na Tradição da comum fé apostólica, que, através desse canal, pôde chegar até nós desde as origens: “Com esta ordem e com esta sucessão chegaram até nós a tradição que existe na Igreja desde os Apóstolos e a pregação da verdade. Esta é a prova mais completa de que uma e única é a fé vivificante dos Apóstolos, que foi conservada e transmitida na verdade.” (Ibid., III, 3,3: PG 7,851).

Segundo esses testemunhos da Igreja antiga, a apostolicidade da comunhão eclesial consiste na fidelidade ao ensinamento e à prática dos Apóstolos, por meio dos quais é garantido o vínculo histórico e espiritual da Igreja com Cristo. A sucessão apostólica do ministério episcopal é o caminho que garante a fiel transmissão do testemunho apostólico. Aquilo que os Apóstolos representam na relação entre o Senhor Jesus e a Igreja das origens, representa-o, de modo análogo, a sucessão ministerial na relação entre a Igreja das origens e a Igreja atual. Não se trata de uma simples sucessão material; é o instrumento histórico do qual o Espírito se serve para tornar presente o Senhor Jesus, Cabeça do seu povo, por meio daqueles que são ordenados para o ministério mediante a imposição das mãos e a oração dos bispos.

Por meio da sucessão apostólica é Cristo quem nos alcança: na palavra dos Apóstolos e dos seus sucessores é Ele quem nos fala; por meio das suas mãos é Ele quem age nos sacramentos; no olhar deles é o seu olhar que nos envolve e nos faz sentir amados, acolhidos no coração de Deus. E também hoje, como no início, o próprio Cristo é o verdadeiro Pastor e Guarda das nossas almas, a quem seguimos com grande confiança, gratidão e alegria.