ABC Nuestro Giuseppe Berdelli español: el último deseo de Don José, un servidor «esencial» (Notícia em espanhol publicada em 4 de abril de 2020).
O Pe. José gostava muito de cantar. Animava desse modo os dias de anos, com os Parabéns a muitos doentes que se encontravam em cuidados paliativos no Hospital de Cuidados Laguna de Madrid.

Uma vez, apareceu vestido de mariachi com um cantor, filho de uma doente internada. Ela faleceu e o Pe. José Ruiz, capelão deste centro de doentes terminais, adotou o rapaz como se fosse um velho amigo. No Natal de cada ano, convidava-o a acompanhá-lo ao hospital para tocarem os corações de cada doente, com as suas canções a duas vozes.
D. José Ruíz, Patrono de la Sonrisa y del buen humor, intercesor de la amabilidad y de la palabra siempre a tiempo, de la broma oportuna y de la reflexión profunda. Capellán de LAGUNA. GRACIAS por todo. Siempre le recordaremos. pic.twitter.com/yj2t3UkcGq
— Hospital de Cuidados Laguna (@HCCLaguna) March 31, 2020
Algo semelhante aconteceu com o seu querido amigo Fermín que morreu há duas semanas por coronavírus. O Pe. José será o Giuseppe Berardelli espanhol. O sacerdote de Casnigo, na diocese italiana de Bérgamo, morreu há alguns dias aos 72 anos, por ceder o seu ventilador a um jovem. O sacerdote italiano morreu por coronavírus, o jovem salvou-se. Mas, no caso de José, o seu amigo não conseguiu vencer o ataque do vírus.
José era o fiel escudeiro de Fermín desde que enviuvou há um mês. Velaram juntos ao pé da cama da doente. O sacerdote não se separou deles. Quando Fermín perdeu a mulher, José acompanhou-o, prestou-lhe o auxílio necessário para ultrapassar a saudade. Em cada chamada, José ouvia. Mas há quinze dias, o coronavírus levou Fermín. Faz hoje uma semana, que o capelão de 80 anos entrou na Clínica Universidad de Navarra, em Madrid. E partiu na terça-feira, 31 de março, acompanhado pela dor de um grupo imenso de profissionais de saúde e outros amigos que não puderam despedir-se dele.
O SACERDOTE ITALIANO MORREU POR CORONAVÍRUS, O JOVEM SALVOU-SE. MAS, NO CASO DE JOSÉ, O SEU AMIGO NÃO CONSEGUIU VENCER O ATAQUE DO VÍRUS.
O Pe. José batizou, casou, desfez-se em atenções na unidade pediátrica e moveu montanhas para cumprir os últimos desejos dos doentes. Com Mateo, doente de ELA, ele juntava o seu ritmo andaluz ao flamengo. Assim, a última grande "festa" do paciente foi vivida com o tablado da Casa Patas encaixado no seu quarto no hospital de Madrid. Mateo despediu-se com a sua "festa", José ficou feliz e apontou, como sempre fazia: "Estou aqui para servir". E serviu de um modo decisivo.
O Pe. José não nasceu com batina. Foi ordenado sacerdote aos 53 anos de idade. Pertencendo ao Opus Dei desde há muito tempo, era engenheiro técnico e um prestigiado empresário, com grande ímpeto inteletual, como recordam os seus colegas.

Mas nos últimos vinte anos da sua vida decidiu que as duas virtudes que os seus amigos destacavam deveriam servir para algo mais: «Ele encontrava sempre a palavra certa, carinhosa, a piada oportuna. Ele, que acompanhava os doentes terminais nas suas últimas horas de vida e tinha muito trabalho, porque só descansava ao sábado, ainda que o sobrecarregassem com problemas sem importância, prestava atenção a cada pessoa em particular com essa alegria contagiosa e discreta que o caracterizava. Ele era um homem incrível», diz Ana, uma colega do Hospital de Cuidados Laguna.
PEGAVA NA MÃO DE CADA DOENTE E SABIA DAR-LHE O QUE PRECISAVA
Pegava na mão de cada doente e sabia dar-lhe o que precisava. Tinha um dom especial para penetrar no íntimo de cada pessoa, sem julgar. Por esse motivo, O Pe. José assistiu a milhares de despedidas, a milhares de velórios.
Instrutor de fim de vida
Antes de se fixar em Laguna, fora capelão geral da Polícia Nacional, onde celebrou os sacramentos e consolou as famílias de vítimas de atentados terroristas. Continuou a ir periodicamente dar palestras aos agentes e discursar sobre assuntos de atualidade.

Além disto, participava em congressos médicos e formava capelães hospitalares para a atenção necessária aos doentes em fim de vida. Ele ensinou «o que é moralmente aceitável e o que é clinicamente viável». No final da sua vida, ninguém duvida que, numa situação menos excecional, «a fila para se despedir dele teria dado a volta à clínica».
No ano passado, ele escreveu um artigo por ocasião da Semana Santa no suplemento «Alfa y Omega». Falava do milagre da «ressurreição» de Jesus Cristo, o que ajudaria muitas pessoas a suportar o peso da sua cruz. Que José Ruiz tenha partido, infetado pela amizade, e tão perto duma data dolorosa, faz sentido.
Nota escrita por uma Assistente Social do Hospital Centro de Cuidados Laguna
Requiem por um homem do Sul
Era um homem andaluz a cheirar a camomila, a torrada acabada de fazer e a churros com quilo e meio de açúcar. Era um homem do Sul que guardava Madrid na alma, uma alma onde cabia um mundo e onde também existia um mundo. As paredes deste lugar ressumam rancheras e Salve-Rainhas cantadas à Virgem del Rocío, destilam sorrisos e ressonares, transbordam de carícias de bom pai que nos chamava por diminutivos, tentando embalar-nos nos braços da proximidade.
As paredes deste lugar soam a um Linares esquecido, forçado e inventado; as paredes deste lugar cheiram a alegria, a tertúlia às 8h30m e a pontualidade. Cheiram a homem bom, generoso, a homem de carácter entregue a cada um dos que por aqui passavam ou partiam pela mão de Deus ao abrigo do Artigo 16, entregue a acompanhar, a aquecer as almas que tinham frio.
Era um homem do Excel dedicado aos outros, dedicado a ensinar o caminho que conduz apenas a um bom Lugar. Era um engenheiro do amor, um homem de perdão e de agradecimento, um homem tocado pelo divino que se detinha no humano; era um bom pastor com a entrega absoluta de nos guiar e de nos dar o nosso lugar, de nos fazer sentir importantes.
Era um homem, um companheiro, também de trabalho; era feito de luz, de um sorriso simples que acolhia com ternura e desbravava caminhos. Era um homem cheio de vida que também enchia a vida. Penetrava até aos ossos, como este sol de hoje, em que os sinos continuam a soar a Requiem, a Requiem por um homem do Sul.
Lourdes Corredera Parra