Como rezar se ainda nunca rezaste

Um guia passo a passo, acompanhado por dois vídeos breves, para quem quiser começar a rezar e não souber por onde começar. O importante é dar o primeiro passo: alguns minutos por dia e o desejo de falar com Deus.

Rezar é falar com Deus, e aprende-se pouco a pouco, como acontece numa amizade, em que a confiança cresce com a convivência. Não são precisas fórmulas nem experiência prévia. Este guia foi pensado para qualquer pessoa que queira aproximar-se da oração, tanto quem já crê e deseja cuidar mais da sua relação com Deus como quem ainda está à procura. Também não é necessário pôr tudo em prática desde o primeiro dia.

Neste artigo poderá encontrar:

• Antes de começar: o que é rezar

• O primeiro tempo de oração, em seis passos

• A oração no dia a dia

• Quando custa

• Uma proposta para a primeira semana


Antes de começar: o que é rezar

Rezar é falar com Jesus como se fala com alguém que nos quer bem. Não exige palavras especiais nem uma concentração perfeita. É contar-lhe a própria vida, escutá-lo e, por vezes, simplesmente estar com ele em silêncio, olhando para ele.

O Papa Leão XIV recordou que, numa época em que a ciência e a técnica parecem ter resposta para tudo, rezar pode ser visto como uma forma de evasão. No entanto, a oração é uma dimensão fundamental da nossa humanidade e «merece ser redescoberta na sua verdade»[1].

O Papa Francisco explicava-o com uma imagem: «quem reza é como o apaixonado»[2], que traz a pessoa amada no coração onde quer que esteja. Por isso a oração tem lugar em qualquer jornada atual.

Para começar, convém ter presentes três aspetos: a fé, porque Deus está sempre presente, vê-te e escuta-te; a abertura, porque se trata de passar um momento com o melhor dos amigos, para falar e também para escutar o que ele queira dizer; e o amor, porque ele nos amou primeiro, e daí nasce o desejo de o procurar.

O primeiro tempo de oração, em seis passos

Estes seis passos podem servir de guia para o primeiro tempo de oração. Dez minutos são um bom ponto de partida, embora cada um possa dedicar-lhe o tempo que conseguir: um pouco menos no início, ou mais à medida que se vai ganhando gosto. O vídeo apresenta-os de forma resumida, e a seguir explicam-se um a um.

1. Escolher um momento e um lugar. Pode ser de manhã, antes de começar a jornada, ao meio-dia ou ao terminar o dia. O lugar pode ser o próprio quarto, uma igreja ou um banco de jardim. Se houver uma capela perto, melhor ainda, porque aí Jesus está realmente presente no sacrário.

2. Reservar um tempo. Dez minutos, por exemplo, representam menos de 1% do dia. Um alarme e ativar o modo “não incomodar” no telemóvel ajudam a que esse momento seja só para Deus.

3. Colocar-se na presença de Deus. Fazer silêncio, por fora e por dentro, e dizer-lhe «Senhor, estou aqui». Também se pode rezar a oração que começa «Meu Senhor e meu Deus, creio firmemente que estás aqui».

4. Contar-lhe o próprio dia. O que alegra e o que pesa, o que correu bem e o que não correu, a família, o trabalho, os planos. A Deus agrada que lho contemos, ainda que já o conheça. A quem não sabia de que falar na oração, são Josemaria aconselhava falar «D'Ele, de ti: alegrias, tristezas, êxitos e fracassos…» (Caminho, n. 91)

5. Ler e escutar. Ler algumas linhas do Novo Testamento ou de um livro de espiritualidade cristã dá mote à conversa. Depois, podemos perguntar-nos o que nos chamou a atenção, que relação tem com a própria vida e o que Deus nos está a dizer. Anotá-lo ajuda a não esquecer. Convém deixar também um momento de silêncio, porque Deus fala «como o murmúrio de uma leve brisa» (1Rs 19, 12).

6. Despedir-se. Agradecer-lhe por esse momento, pedir-lhe que te acompanhe pelo resto do dia e comprometer-te com algo concreto para melhorar nesse mesmo dia.

Se em algum momento não souberes o que dizer, o mais simples é dizê-lo assim a Deus. São Josemaria assegurava que quem começa dizendo «Senhor, não sei fazer oração!» já começou a fazê-la (cf. Caminho, n. 90).

A oração no dia a dia

A oração não termina quando o alarme toca, mas continua na rua, no trabalho, no estudo ou nos transportes. A Deus encontramo-lo hoje, não ontem nem amanhã, e tudo o que acontece ao longo do dia pode tornar-se conversa com Ele[3].

Para manter essa conversa viva, podem usar-se frases breves que podem dizer-se em qualquer momento e lugar. Eis algumas situações e o que se pode dizer a Deus em cada uma delas.

• Ao começar o dia: «Senhor, este dia é teu. Acompanha-me».

• Quando alguma coisa nos alegra: «Obrigado, isto vem de ti».

• Quando alguma coisa custa ou assusta: «Ajuda-me, eu sozinho não consigo».

• Perante um pensamento de raiva ou amargura: «Onde estás, Senhor? E para onde vou eu?».

• Ao cruzarmo-nos com alguém que sofre: «Senhor, cuida desta pessoa».

• Perante alguém de quem não se gosta ou que nos magoou: «Peço-te por ele. Ensina-me a olhá-lo como tu o fazes».

A oração transforma quem reza, porque acalma a raiva, sustenta o afeto, multiplica a alegria e dá força para perdoar. Dá também coragem, pois os problemas deixam de ser obstáculos e tornam-se ocasiões de encontro com Deus. E abre aos outros, porque se reza pelos próprios, por quem não se conhece e também por quem é difícil de amar[4].

Quando custa

Que a oração custe é normal e não significa que se esteja a fazê-la mal. Há dificuldades que todos podemos experimentar, sobretudo no início, e que fazem parte do caminho da oração.

Por vezes parece que “não sentimos nada” e há dias em que, simplesmente, não nos apetece rezar. Mas a oração não se mede pelo que se sente, e ainda que não se note, algo está a acontecer. É suficiente dizer a Deus que se quer estar com Ele. Perseverar então é sinal de amor verdadeiro, e mais vale cinco minutos cada dia do que uma hora por mês.

Outras vezes a cabeça vai para outro lado. Quando nos apercebemos disso, podemos voltar à conversa com Deus sem nos angustiarmos, tantas vezes quantas forem necessárias. Se a distração for uma preocupação, pode tornar-se tema de oração. Também acontece que não se sabe o que dizer. Nesse caso, pode ler-se algum fragmento do Evangelho, escrever num caderno ou no telemóvel.

Pode acontecer, ainda, que alguém se tenha afastado de Deus e sinta vergonha de voltar. Não é preciso esperar ser perfeito, porque Deus olha sempre com ternura e vai ao encontro de quem regressa, e na confissão espera de braços abertos. Também não é necessário comparar-se com quem parece rezar melhor, porque para Deus cada pessoa é única.

O que conta é tentar e voltar a tentar, sem desanimar. Os frutos da oração descobrem-se em pequenos detalhes, como recordar no trabalho alguma coisa de que se falou com Deus, ou pensar perante um acontecimento do dia “isto conto-lhe depois na oração”. Assim, pouco a pouco, a oração vai-se tornando uma conversa contínua com Deus, e aprende-se a ser contemplativo no meio das ocupações de cada dia.

Uma proposta para a primeira semana

Para quem quiser dar o primeiro passo, aqui fica uma sugestão que pode ajudar a transformar a oração num hábito: dez minutos por dia, durante uma semana, com uma pequena proposta diferente para cada dia. Cada pessoa pode adaptá-la ao seu ritmo.

No primeiro dia, podes seguir os seis passos e contar a Deus como correu o teu dia. No segundo, lê uma breve passagem do Evangelho e detém-te numa única frase. No terceiro, agradece a Deus três coisas concretas desse dia. No quarto, reza por alguém em particular, com nome e apelido, e talvez também por uma pessoa com quem tenhas uma relação difícil. No quinto, além desses minutos, dirige-te a Deus noutro momento do dia, por exemplo, enquanto fazes desporto, durante uma pausa ou em casa. No sexto, se for possível, faz esse tempo de oração diante de um sacrário. E, no sétimo, revê com Ele a semana que passou e, se quiseres, procura estabelecer uma hora fixa para a semana seguinte.

Se algum dia não conseguires ter esse encontro com Jesus, não faz mal, porque podes retomá-lo no dia seguinte, a partir do ponto em que ficaste. Cada tentativa conta, e Deus está sempre à tua espera.


[1] Leão XIV, Audiência geral, 5 de agosto de 2026.

[2] Francisco, Audiência geral, 10 de fevereiro de 2021.

[3] Cf. Ibid.

[4] Cf. Ibid.