EM CERTA ocasião, enquanto Jesus e os seus discípulos atravessavam um grande campo semeado, Mateus nos conta que eles sentiram fome (cf. Mt 12, 1). Vendo-se rodeados de alimentos, os apóstolos “arrancavam e comiam as espigas, debulhando-as com as mãos” (Lc 6, 1). A lei judaica permitia colher alguns grãos de trigo com a mão na messe do próximo (cf. Dt 23, 25). A controvérsia surge, no entanto, porque o fazem em um sábado. Ao saberem do acontecimento, os fariseus disseram ao Mestre: “Olha, os teus discípulos estão fazendo o que não é permitido fazer em dia de sábado” (Mt 12, 2).
No livro do Êxodo está escrito que Deus pede ao povo da Aliança: “Guarda o dia de sábado para o santificar” (Ex 20, 8). Por iniciativa divina, o shabbat não foi colocado junto aos preceitos que faziam referência ao culto, mas sim dentro do próprio Decálogo. O texto inspirado explica o motivo do mandamento: “Pois em seis dias o Senhor fez o céu e a terra, o mar e tudo quanto eles contêm, e ao sétimo descansou; por isso o Senhor abençoou o dia de sábado e tornou-o sagrado” (Ex 20, 11). Com o passar do tempo, ao preceito divino do shabbat foram sendo acrescentadas prescrições humanas cada vez mais rigorosas. Na época de Jesus o preceito havia se concretizado a ponto de existir uma classificação de 39 tipos de trabalho proibidos.
Jesus, como autêntico intérprete dos preceitos divinos, responde à queixa dos fariseus sublinhando o verdadeiro – e talvez esquecido – sentido do sábado: o serviço a Deus ou ao próximo. Por isso, a inatividade não deveria ser o critério supremo. Mais do que concentrar-se em uma casuística sobre o que é permitido ou proibido, Cristo convida a focar na razão profunda pela qual Javé estabeleceu o descanso sabático: abster-se de certas ocupações para poder honrar o Senhor com maior disponibilidade. O mandamento relativo ao sábado fazia referência ao misterioso descanso de Deus após a criação e também à salvação de Israel da escravidão no Egito. Por isso podemos dizer que a observância deste dia tem caráter libertador. A intenção da lei divina não era aprisionar as pessoas em inúmeros preceitos, mas libertá-las semanalmente do que é menos importante para que pudessem olhar para Deus e se lembrar de que somos filhos do Criador de todas as coisas e de quem nos liberta de toda a escravidão.
NO CONTEXTO da discussão sobre a questão do sábado, Jesus revela a grandeza da sua identidade. “Ou nunca lestes na Lei, que em dia de sábado, no Templo, os sacerdotes violam o sábado sem contrair culpa alguma? Ora, eu vos digo: aqui está quem é maior do que o Templo” (Mt 12, 5-6). O Templo tinha a máxima dignidade por ser a casa onde habitava Javé. Só o próprio Deus era superior ao Templo. Com estas palavras, Cristo proclama claramente a sua divindade. Ao terminar a conversa, como conclusão, acrescenta: “Porque o Filho do Homem é senhor do sábado” (Mt 12, 8). Considerando que o preceito do sábado tem origem divina, Jesus estava se apresentando implicitamente como Deus: este é o grande acontecimento cristão.
Com as suas palavras o Mestre não pretendia menosprezar o descanso sabático. Sabemos que Jesus cumpria a lei, tanto a religiosa quanto a civil: ia à sinagoga com os seus discípulos todos os sábados, pagava os impostos, peregrinava com os seus parentes ao Templo e celebrava as festas como qualquer judeu devoto. De fato, depois da Ressurreição, os seus discípulos continuaram a ir à sinagoga aos sábados, embora também começassem a se reunir no primeiro dia da semana, fazendo memória de Jesus Ressuscitado. O primeiro dia da semana passou a ser o dia da nova criação e da libertação definitiva.
Com o passar do tempo, na primeira comunidade cristã, o domingo foi substituindo, paulatinamente, o sábado como o dies Domini, o dia do Senhor. O domingo não era um dia qualquer para aqueles cristãos dos primeiros séculos, mas era o próprio centro de suas vidas. Por este motivo, séculos depois, a Igreja estabeleceu o preceito dominical. Assim, os fiéis, abstendo-se de certas atividades que impedem de dar culto a Deus, podem ter “a alegria própria do dia do Senhor e o devido descanso da mente e do corpo”[1]. Jesus “nos entrega o ‘seu dia’ como um dom sempre novo do seu amor. (…) O tempo oferecido a Cristo nunca é um tempo perdido, é antes um tempo ganho para a humanização profunda das nossas relações e da nossa vida”[2].
TESTEMUNHOS do século II contam que os primeiros cristãos se reuniam aos domingos para celebrar a Eucaristia: “No dia que se chama do sol, celebra-se uma reunião de todos os que moram nas cidades ou nos campos, e aí se leem, enquanto o tempo o permite, as memórias dos apóstolos ou os escritos dos profetas (…). Depois àquele que preside aos irmãos é oferecido pão e uma vasilha com água e vinho”[3]. Na Missa do domingo deixamos Deus nos encontrar: ouvimos a sua palavra e alimentamo-nos com o Pão de vida, em comunhão com toda a Igreja. “Recorda-nos também, com o descanso das nossas ocupações, que não somos escravos, mas filhos de um Pai que nos convida constantemente a pôr toda a esperança nele”[4].
Desta maneira, o domingo é realmente o “dia de Cristo” e, ao mesmo tempo, é o “dia do homem”. O repouso próprio desse dia, partilhado com Deus e com toda a Igreja, nos ajuda a renovar as nossas forças para levar a cabo as tarefas da semana. Entregamos a Deus, por meio do sacrifício do seu Filho, todos os acontecimentos da semana que terminou e os da semana que começa. “Sempre entendi o descanso - considerava São Josemaria - como um afastar-se do acontecer diário, nunca como dias de ócio. Descanso significa represar: acumular forças, ideais, planos... Em poucas palavras: mudar de ocupação, para voltar depois - com novos brios - aos afazeres habituais.”[5]. A Virgem Maria, que deve ter participado daquelas primeiras reuniões dominicais, pode interceder por nós para que Deus aumente o nosso desejo de nos alimentarmos do seu Pão e da sua palavra.
[1] Código de Direito Canônico, n. 1247.
[2] São João Paulo II, Dies Domini, n. 7.
[3] São Justino, Apologia, 1, 67.
[4] Francisco, Audiência, 13/12/17.
[5] São Josemaria, Sulco, n. 514.

