NAQUELE TEMPO, Acab, rei de Israel, tinha saído vitorioso de uma difícil campanha militar contra o rei da Síria. Deus o guiou por meio de um profeta e lhe deu a vitória. No entanto, após a vitória, Acab decidiu agir por conta própria, sem contar com Deus. Depois de ser censurado por este comportamento, “o rei de Israel foi para casa triste e indignado” (1 Rs 20, 43). Não compreende que o seu desconforto se deve ao fato de viver longe de Deus, e tenta remediar a sua tristeza satisfazendo os seus caprichos. Depois deste episódio, a Sagrada Escritura também nos conta que “Nabot de Jezrael possuía uma vinha em Jezrael, ao lado do palácio de Acab, rei de Samaria. Acab falou a Nabot: "Cede-me a tua vinha, para que eu a transforme numa horta, pois está perto da minha casa. Em troca eu te darei uma vinha melhor, ou, se preferires, pagarei em dinheiro o seu valor"” (1 Rs 21, 1-2). Nabot recusou-se a abdicar da herança dos seus pais, como exigia a Lei de Moisés e, mais uma vez, “Acab voltou para casa aborrecido e irritado, (…). Deitou-se na cama com o rosto voltado para a parede e não quis comer nada” (1 Rs 21, 4). Mais uma vez, Acab não compreendeu. Considera incompreensível o comportamento de Nabot, um homem íntegro, guiado por convicções profundas e não pelo vaivém dos interesses ou prazeres passageiros.
“Nabot era feliz – diz Santo Ambrósio – porque, embora pobre e débil frente à arrogância do rei, era tão rico em seus sentimentos e religiosidade que não aceitou o dinheiro do rei em troca da vinha herdada de seus pais. Acab, pelo contrário, era mesquinho, mesmo aos seus próprios olhos”[1]. Nabot aparece como um homem livre e íntegro, enquanto Acab, com todo o seu poder, nos apresenta a imagem do homem que se deixa levar pelas circunstâncias, sem outro norte além do estado de ânimo ou do capricho do momento, uma imagem que, às vezes, pode ser a nossa. “A dignidade humana exige que o homem atue de acordo com a sua consciência e livre escolha, ou seja, movido e induzido por uma convicção pessoal interior e não sob a pressão de um cego impulso interior ou da mera coação externa”[2]. Se a vinha de Nabot era preciosa, mais preciosa ainda era a sua alma. Tinha cultivado bem a sua liberdade, unindo-se a Deus de todo o coração e produzindo os frutos das virtudes que tornam o homem verdadeiramente feliz.
COMO SÃO DIFERENTES as virtudes do homem justo, especialmente a prudência, quando as comparamos com a determinação e a astúcia de Jezabel, a mulher de Acab! Ela também se envergonha da falta de caráter do seu marido e, por isso, decide usar seus talentos para que ele se aproprie da vinha de Nabot. “Ela escreveu então cartas em nome de Acab, selou-as com o selo real, e enviou-as aos anciãos e nobres da cidade de Nabot. Nas cartas estava escrito o seguinte: "Proclamai um jejum e fazei Nabot sentar-se entre os primeiros do povo, e subornai dois homens perversos contra ele, que deem este testemunho: 'Tu amaldiçoaste a Deus e ao rei!' Levai-o depois para fora e apedrejai-o até que morra"” (1 Rs 21, 8-10). Depois de cumprirem as suas ordens, “Jezabel disse a Acab: "Levanta-te e toma posse da vinha que Nabot de Jezrael não te quis ceder por seu preço em dinheiro; pois Nabot já não vive; está morto"” (1 Rs 21, 15).
É impressionante o caráter desta mulher que mandou eliminar os profetas de Israel, fez com que o próprio Elias se assustasse e fugisse, arrastou o seu marido e todo o povo para o culto a Baal. Com precisão e sangue-frio, Jezabel se move pelos meandros da lei e constrói um estratagema que lhe permite cometer o crime sem comprometer diretamente nem a si mesma nem o marido. No entanto, esta injustiça mostra que nem a sua astúcia é prudência, nem a sua determinação é fortaleza, nem o seu autodomínio é temperança. Fechada à verdade de Deus, Jezabel despreza a justiça e põe as suas qualidades a serviço dos seus caprichos, causando a sua própria infelicidade e a dos que a rodeiam.
Esta prudência desvinculada de Deus é frequentemente referida como “prudência da carne”. Pelo contrário, “verdadeira prudência é a que permanece atenta às insinuações de Deus e, nessa vigilante escuta, recebe na alma promessas e realidades de salvação (...). Pela prudência, o homem é audaz, sem insensatez. Não evita, por ocultas razões de comodismo, o esforço necessário para viver plenamente segundo os desígnios de Deus. A temperança do prudente não é insensibilidade nem misantropia: a sua justiça não é dureza; a sua paciência não é servilismo”[3].
PERANTE UM COMPORTAMENTO como o de Acab e Jezabel em relação a Nabot, podemos sentir indignação e desejar que se faça justiça. Por isso, as palavras de Jesus no Evangelho podem nos surpreender: “Não enfrenteis quem é malvado! Pelo contrário, se alguém te dá um tapa na face direita, oferece-lhe também a esquerda! Se alguém quiser abrir um processo para tomar a tua túnica, dá-lhe também o manto (...). Dá a quem te pedir e não vires as costas a quem te pede emprestado” (Mt 5, 39-40.42).
Não é necessário suavizar as palavras do Senhor. De fato, nos anima a viver com uma liberdade imensa, própria de quem tem em Deus o seu tesouro e, com Ele, possui tudo. Uma pessoa assim está disposta a abdicar de tudo para o bem dos outros. E isto não é incompatível com a justiça, essa virtude que se caracteriza precisamente por buscar o bem do outro. Nada está mais longe da justiça do que essa caricatura que a retrata como sendo uma virtude egoísta, preocupada apenas em proteger e reivindicar o que lhe interessa. A primeira palavra da justiça não é meu, mas teu. São Tomás de Aquino afirma que é a virtude que nos abre ao nosso próximo e nos faz descobrir nele uma pessoa, levando-nos a procurar ativamente o seu bem[4].
Nabot era justo porque amava a lei de Deus, fonte da mais elevada justiça, e a herança de seus pais, que deveria transmitir aos filhos; e as defendeu da obstinação ilegítima de um rei. No final, embora à primeira vista possa não parecer, saiu ganhando, “porque é melhor sofrer – se é esta a vontade de Deus –, fazendo o bem, do que fazendo o mal” (1 Pe 3, 13-17). Assim o apóstolo Pedro exortava repetidamente os primeiros cristãos, apontando-lhes sempre como modelo Jesus, que deu a sua vida por nós. À luz da morte e ressurreição de Cristo, a morte de Nabot e toda injustiça humana encontram seu sentido pleno. Santa Maria, que foi formada na melhor tradição do povo de Israel, nos ajudará a ter um coração sábio, que encontre na adesão a Deus as suas delícias e transborde para os outros em obras de justiça cheias de caridade.
[1] Santo Ambrósio, De officiis, 2, 5.17.
[2] Concílio Vaticano II, Gaudium et spes, n. 17.
[3] São Josemaria, Amigos de Deus, n. 87.
[4] cf. São Tomás de Aquino, S. Th. II-II, q. 58, a. 2, co.

