- Sinceridade para procurar a verdade de Deus
- Horizontes de eternidade
- Com todo o coração e com toda a alma
A HISTÓRIA da nossa vida é configurada em boa medida pelos nossos encontros com outras pessoas: umas vezes, casuais e outras programados. Alguns destes encontros fazem parte das nossas atividades diárias, outros surgem de modo imprevisível. Essas circunstâncias às vezes geram amizades que podem até mudar as nossas vidas. O Evangelho narra alguns encontros que Jesus teve com pessoas do seu tempo. Há personagens simples a quem um encontro quase fortuito transformou por completo, como a mulher samaritana. Havia também pessoas de um certo status que procuravam Jesus para conversar, com o desejo de aprofundar no conhecimento de Deus, como Nicodemos. Há também outros que o interrogam não para aprender, mas para encontrar contradições entre a sua pregação e o que diziam as Sagradas Escrituras.
É o caso, por exemplo, dos saduceus que não acreditavam na ressurreição, e se aproximam de Jesus para propor um caso que, pelo menos nos nossos dias, parece enviesado e exagerado: uma mulher perdeu sucessivamente sete maridos, de qual deles ela será esposa quando chegar a ressurreição? (cf. Mc 12, 19-23). Aqueles saduceus não têm uma sede autêntica de descobrir a verdade; não dialogam com a disposição de mudar a sua maneira de pensar nem para saírem dos seus esquemas próprios. Não aceitam que “Deus é sempre maior do que o imaginamos; as obras que realiza são surpreendentes em relação aos nossos cálculos; o seu agir é sempre diferente, supera as nossas necessidades e expectativas; e por isso nunca devemos deixar de o procurar e de nos convertermos à sua verdadeira face”.[1]
Observando a atitude dos saduceus, podemos nos perguntar: procuro aproximar-me da verdade de Deus, sabendo que corro o risco de ter que rever as minhas “certezas” e ajustar os meus esquemas preconcebidos? Estou aberto a que a grandeza de Deus eleve o meu olhar e os meus planos, algumas vezes um tanto enviesados? Nenhum encontro com Cristo deixa indiferente os que se aproximam com humildade e sem preconceitos.
“ACASO, VÓS NÃO estais enganados, por não conhecerdes as Escrituras, nem o poder de Deus? Com efeito, quando os mortos ressuscitarem, os homens e as mulheres não se casarão, pois serão como os anjos do céu” (Mc 12, 24-25). E, para deixar claro que a ressurreição é parte fundamental dos planos divinos, e que depois da morte não somente a alma encontrará a vida, mas também o seu corpo, Nosso Senhor acrescentou que o Deus dos seus pais “não é um Deus de mortos, mas de vivos” (Mc 12, 27).
Neste sentido, uma das questões que o homem mais considerou ao longo da História foi, precisamente, sobre o que nos espera depois da morte. E no Evangelho, na palavra de Deus sempre atual, encontramos resposta a esta inquietação. Jesus assegura que a vida não termina com o caminhar aqui na terra. Somos chamados a ser “para sempre semelhantes a Deus”[2], fomos feitos para não morrer nunca, mas para morar no céu. O céu não é um lugar físico acima de nós, mas uma dimensão nova, onde as nossas mais profundas aspirações se tornarão realidade. “Deus conhece e ama este homem total que atualmente somos. É, pois, imortal o que cresce e se desenvolve na nossa vida já desde agora. É no nosso corpo que sofremos e que amamos, que esperamos, que experimentamos a alegria e a tristeza, que progredimos ao longo do tempo”.[3]
Neste sentido, São Josemaria dizia que podemos realizar todas as atividades aqui na terra, mesmo as que parecem pequenas, com “vibração de eternidade”[4]. Por trás de um trabalho bem feito, de um detalhe de serviço ou de uma oração breve, esconde-se um horizonte muito mais amplo do que talvez pareça à primeira vista. Nada do que fazemos fica infecundo, cada gesto pode preparar-nos para contemplar a Deus face a face na vida eterna.
SANTO AGOSTINHO, movido pelo desejo de conhecer melhor a Deus para assim o amar mais, aprofundou na filosofia e naquilo que nos foi revelado pela fé. Conta-se que, em certa ocasião, passeava à beira mar, dando voltas na sua mente a muitas reflexões sobre a Trindade. Viu um menino que corria para o mar e enchia um pequeno recipiente com água, voltava para onde estava antes e esvaziava-o num buraco na areia. O menino repetia a mesma operação até que Santo Agostinho lhe perguntou o que estava fazendo. Então Santo Agostinho fez-lhe ver como era impossível a tarefa a que se dedicava, mas o menino respondeu que era muito mais difícil compreender o que ele estava fazendo: tentar resolver o mistério de Deus.
“A fé e a razão são como duas asas por meio das quais o espírito humano se eleva à contemplação da verdade. Deus pôs no coração do homem o desejo de conhecer a verdade e de O conhecer a fim de que, conhecendo-O e amando-O, pudesse alcançar também a verdade plena sobre si mesmo”.[5] E é assim que consideramos as coisas de Deus, tal como as ensinou ao povo de Israel: “Amarás o Senhor teu Deus com todo o coração, e com a tua alma, e com toda a tua mente” (Mt 22, 37). “Que fica do teu coração para te amares a ti mesmo? – pergunta Santo Agostinho – E da tua alma? E da tua mente? Contudo, diz: tudo te exige aquele que tudo te deu”.[6]
São Josemaria costumava dizer que a vida de um cristão está marcada pela relação filial com Deus e, ao mesmo tempo, pelo desejo de o conhecer com profundidade. “Piedosos, pois, como meninos; mas não ignorantes, por que cada um deve esforçar-se, na medida de suas possibilidades, por estudar a fé com seriedade e espírito científico; e tudo isso é teologia. Piedade de meninos, portanto, mas doutrina segura de teólogos”.[7] Podemos recorrer à Virgem Maria para que ela nos ajude a tratar o seu Filho com confiança e a querer amá-lo e conhecê-lo cada vez mais.
[1] Francisco, Angelus, 11-XII-2022.
[2] Catecismo da Igreja Católica, n. 1023.
[3] Ratzinger, J., Cooperadores da Verdade.
[4] São Josemaria, Amigos de Deus, n. 239.
[5] São João Paulo II, Fides et Ratio, Introdução.
[6] Santo Agostinho, Sermão 34.
[7] São Josemaria, É Cristo que passa, n. 10.

