ENQUANTO Jesus caminhava nas margens do mar da Galileia, “viu Tiago, filho de Zebedeu, e João, seu irmão, que consertavam suas redes. E Ele os chamou”[1]. Eles, depois de deixarem todas as coisas, seguiram-no. Assim começa a nova vida de São Tiago junto do Senhor. Sua aventura será tão veloz quanto intensa: será o primeiro apóstolo a dar a sua vida por Cristo, que quis chamá-lo rapidamente para junto de si (cf. At 12, 2). A João, pelo contrário, o Senhor pedirá que espere até que Ele volte a buscá-lo, depois de se entregar numa vida tão longa que fez os discípulos pensarem que não morreria jamais (cf. Jo 21,23).
O Mestre pediu aos dois irmãos uma entrega total, mas com manifestações diferentes. Ofereceu a ambos beber do seu próprio cálice, e eles aceitaram o convite com todo o ardor da sua natureza apaixonada (cf. Mt 20,22). Jesus chamava aqueles irmãos de Boanerges, ou seja, “os filhos do trovão” (Mc 3,17), e os ensinou a canalizar toda a sua energia para uma doação total no serviço. Quando a mãe dos dois filhos de Zebedeu pediu a Jesus que seus filhos ocupassem o primeiro lugar em seu reino, Ele explicou que reinar com Ele é servir, e que o primeiro em seu reino é o último e o servo de todos (cf. Mt 20,25-28). Esta lógica, que muitas vezes contrasta com a nossa, é revolucionária, pois se opõe ao domínio de uns sobre os outros. Por isso, Jesus também nos anima a estar vigilantes, sempre atentos para não nos enganarmos com leituras atenuadas de seu Evangelho.
Cristo “não viveu a sua liberdade como arbítrio ou poder. Ele viveu-a como serviço. Deste modo preencheu de conteúdo a liberdade que, se assim não fosse, permaneceria vazia a possibilidade de fazer o bem ou não. Como a própria vida do homem, a liberdade haure o sentido do amor”[2]. Jesus ajudou Tiago e João a encherem suas vidas de sentido, de amor pelas outras pessoas, abrindo diante daqueles simples pescadores da Galileia horizontes nunca sonhados, “os horizontes do serviço”[3], muito mais amplos do que poderiam imaginar. E assim transformou suas vidas em uma aventura apaixonante.
INCENTIVADOS por Jesus, Tiago e João tiveram “pressa para amar”[4], apostando toda a sua existência em uma vida de intenso serviço. A de Tiago – fazendo jus ao seu título – foi como um relâmpago que cruza o céu num instante, enchendo-o de luz. Ele partiu imediatamente e levou Jesus Cristo aos confins do mundo conhecido, antes de regressar a Jerusalém e fecundar com o seu sangue os inícios da missão da Igreja. A vida de João, pelo contrário, foi como o trovão: chega sem pressa, mas com contundência, com peso, e enche tudo com as suas palavras profundas e belas. João pôde meditar longamente sobre a vida e os ensinamentos de Jesus, para nos deixar o tesouro dos seus escritos.
O relâmpago e o trovão se complementam, manifestam a mesma força e trazem a mesma mensagem. Não podemos separá-los, assim como não podemos separar os Boanerges. Enquanto estava com eles, Jesus quis os dois juntos. De fato, eles e Pedro formavam um pequeno grupo de discípulos com os quais o Mestre tinha mais intimidade. Quando o Senhor subiu ao céu, Tiago e João continuaram a espalhar a mesma mensagem, cada um à sua maneira.
Tiago continua fazendo isso até hoje, convocando os povos ao seu túmulo em Compostela. Ainda hoje nos convida a nos colocarmos a caminho, a estarmos dispostos a ir até os confins do nosso mundo e a superar as nossas seguranças e comodidades. “Isto é fundamental para os cristãos; nós, discípulos de Jesus, nós, Igreja, permanecemos sentados à espera de que as pessoas venham, ou sabemos levantar-nos, pôr-nos a caminho com os outros, procurar os outros? É uma posição não cristã dizer: Mas, que venham, estou aqui, que venham. Não, vai procurá-los, dê o primeiro passo”[5]. João, por sua vez, nos lembra que, se não estivermos radicados no amor a Jesus Cristo, todo esse movimento e esse caminhar valem muito pouco. Santo Agostinho dizia: “Aquele que foge do caminho corre em vão, ou melhor, corre apenas para labutar. Quanto mais ele se desvia, mais se afasta do caminho. Qual é a maneira pela qual corremos? Cristo nos disse, eu sou o caminho. Qual é a casa para a qual corremos? Eu sou a verdade. Por Ele você corre, para Ele você corre, Nele você descansa”[6].
HÁ ALGO de grande importância na vida do apóstolo Tiago que permanece oculto aos nossos olhos. Sabemos muito pouco deste apóstolo de vida tão curta, que não deixou nenhum escrito. O Evangelho, além disso, traz poucas palavras suas. Diante do silêncio do Zebedeu, surge a figura de outro Tiago, com títulos tão importantes como “irmão do Senhor” (Gl 1,19), testemunha destacada da sua ressurreição (cf. 1Cor 15,7), bispo de Jerusalém (cf. At 15,12-21) e coluna da Igreja (cf. Gl 2,9). Este outro Tiago teve grande autoridade na primeira comunidade cristã, conforme se lê nos Atos dos Apóstolos e nas cartas de São Paulo. Ele dá nome, além disso, a um dos escritos do Novo Testamento. Por isso, é surpreendente que a Tradição tenha querido atribuir o título de Maior ao irmão de João, sobre quem sabemos tão pouco.
O filho de Zebedeu chegou a ser o Maior, seguindo o caminho que lhe tinha proposto o Mestre. Jesus lhe disse: “Quem quiser tornar-se grande, torne-se vosso servidor; quem quiser ser o primeiro, seja vosso servo. Pois, o Filho do Homem não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida como resgate em favor de muitos” (Mt 20,26-28). Foi isso que São Tiago fez: viver para servir, dar a sua vida. “Se o grão de trigo que cai na terra não morre, ele continua só um grão de trigo; mas se morre, então produz muito fruto” (Jo 12,24), escreverá João em seu Evangelho, derramando um pouco de luz que nos permite entender o mistério da vida e da morte de seu irmão Tiago. Um mistério que se prolonga no poder de convocação que o sepulcro do apóstolo conserva até hoje.
Jesus deu aos Boanerges outro exemplo destacado da grandeza do serviço: a Virgem Maria, que eles acompanhariam com frequência. Ela também nos ajudará a nos lançarmos à aventura de “ser felizes em amizade com Deus e levar uma vida de dedicação e de serviço”[7].
[1] Missal Geral Romano, Antífona de entrada da Festa do Apóstolo São Tiago.
[2] Bento XVI, Ângelus, 01/07/2007.
[3] Francisco, Audiência, 11/01/2023.
[4] cf. São Josemaria, Amigos de Deus, n. 140.
[5] Francisco, Audiência, 11/01/2023.
[6] Santo Agostinho, Homilia X sobre a primeira Carta de São João.
[7] São Josemaria, Carta 6, n. 35.

