Carta do Prelado (28 outubro 2020) - Com áudio

Carta pastoral de Mons. Fernando Ocáriz, com áudio. O Prelado reflete sobre o espírito do Opus Dei e as características da dedicação à Obra dos fieis segundo as diferentes circunstâncias pessoais.

Cartas pastorais e Mensagens
Opus Dei - Carta do Prelado (28 outubro 2020) - Com áudio

Faça o download da carta em formato digital:

ePub ►Carta do Prelado (28 outubro 2020)

Mobi ► Carta do Prelado (28 outubro 2020)

PDF ► Carta do Prelado (28 outubro 2020)

Escute a leitura da carta do Prelado (áudios divididos por capítulos).


Sumário da Carta do Prelado (28 outubro 2020)

I. O dom da vocação
Uma graça soberana
Um mesmo espírito
Uma mesma missão apostólica
Os mesmos meios
Unidade e diversidade
Com toda a nossa vida
II. A vocação à Obra como numerária e numerário
Um coração disponível
Um grupo pregado na Cruz
III. A vocação à Obra como numerária auxiliar
A prioridade da pessoa e da família
De todos os ambientes
Apostolado dos apostolados
IV. A vocação à Obra como adscrita e adscrito
Com caráter próprio
O bom odor de Cristo
V. Sacerdotes da Prelazia
A serviço dos outros
VI. Sobre o celibato apostólico dos numerários e adscritos
VII. A vocação à Obra como supernumerária e supernumerário
Constitui muita graça de Deus
Matrimônio e família
Incidir cristãmente no próprio ambiente
VIII. A vocação à Obra como adscrito ou supernumerário da Sociedade Sacerdotal da Santa Cruz


Roma, 28 de outubro de 2020

Queridíssimos: que Jesus guarde minhas filhas e meus filhos!

1. Tendo no horizonte o centenário do nascimento da Obra e pensando no vasto panorama apostólico que o Senhor apresenta aos nossos olhos, eu gostaria de que meditássemos, com vagar e profundidade, no ensinamento de São Josemaria sobre como se concretiza para cada uma e cada um a vocação universal cristã à santidade. Desde o princípio, nosso Padre compreendeu que a universalidade da vocação comportava a plenitude do amor a Deus e aos outros também no meio do mundo; no nosso mundo real, com as suas luzes e as suas sombras.

I. O dom da vocação

Uma graça soberana

2. Deus escolhe e chama a todos: “Nele, Deus nos escolheu, antes da fundação do mundo, para sermos santos e íntegros diante dele, no amor” (Ef 1,4). A consciência e responsabilidade diante deste dom, mantidas com juventude de alma, levar-nos-ão a colaborar na santificação do mundo. Em comunhão com todos na Igreja, procuremos corresponder com generosidade à especificação dessa vocação cristã para cada um de nós no Opus Dei.

Vejamos a grandeza desta chamada, que preenche o nosso caminho neste mundo com um sentido de eternidade, apesar das nossas limitações e erros, e das dificuldades que encontramos no caminho: “apesar dos pesares”, como o nosso Padre costumava dizer.

São Josemaria falava da “graça soberana da vocação”. Não se trata de algo de um momento, mas de uma graça permanente: “É uma visão nova da vida (...) como se se acendesse uma luz dentro de nós”; e é, ao mesmo tempo, “um impulso misterioso”, uma “força vital, que tem algo de avalanche irresistível”[1]. Trata-se, em poucas palavras, de uma graça que abarca toda a nossa vida e que se manifesta como luz e como força. Luz, que nos faz ver o caminho, o que Deus quer de nós; e força, para sermos capazes de responder à chamada, dizer que sim e seguir em frente por esse caminho.

Em uma das suas cartas, nosso Padre escreve que “na vocação intervêm somente a graça de Deus – como causa própria – e a generosidade do interessado, movido por esta graça”[2]. O Senhor sempre quer que a nossa liberdade – com a graça, que não nos tira a liberdade, e sim a aperfeiçoa – tenha um papel decisivo na resposta e, portanto, na própria configuração da vocação. Uma liberdade que conta também, para o discernimento prévio, com a luz dos conselhos daqueles que podem e devem dá-los.

Um mesmo espírito

3. Todos na Obra – cada um em suas circunstâncias pessoais – têm uma mesma vocação: um chamado a ser e fazer o Opus Dei, com o mesmo espírito, com a mesma missão apostólica, com os mesmos meios.

Todos temos o mesmo espírito, que nos leva a santificar a vida cotidiana e, de um modo especial, o trabalho. “Não há na terra um trabalho humano nobre que não se possa divinizar, que não se possa santificar. Não há nenhum trabalho que não devamos santificar e tornar santificante e santificador”[3]. Este espírito leva-nos a buscar a união com Deus no que encontramos em cada momento da nossa vida. Por isso, a santificação do trabalho é eixo em volta do qual gira, em correspondência à graça, a nossa busca da santidade, da identificação com Jesus Cristo.

Isto traz consigo uma visão positiva das realidades terrenas, que são as que Deus nos deu. Amamos este mundo, sem ignorar o que nele se opõe ao bem (cfr. 1 Jo 2, 15). Suas inquietações são também nossas e, se as suas alegrias normalmente nos facilitam amá-lo, as suas tristezas devem conduzir-nos a amá-lo ainda mais. Que consolo e que sentido de responsabilidade suscitam essas palavras de São Paulo: “Tudo é vosso, mas vós sois de Cristo e Cristo é de Deus” (1 Cor 3,22-23).

E se a santificação do trabalho é eixo de nossa santidade, o sentido da filiação divina é fundamento. Filiação que é, pela graça santificante, nossa introdução na vida divina da Santíssima Trindade, como filhos do Pai no Filho pelo Espírito Santo. “Pela graça batismal fomos constituídos filhos de Deus. Com essa livre decisão divina, a dignidade natural do homem elevou-se incomparavelmente: e se o pecado destruiu esse prodígio, a Redenção reconstruiu-o de modo ainda mais admirável, levando-nos a participar ainda mais estreitamente da filiação divina do Verbo”[4].

Sendo fundamento, a filiação divina dá forma à nossa vida inteira: leva-nos a rezar com confiança de filhos de Deus, a comportar-nos com o desembaraço dos filhos de Deus, a raciocinar e decidir com a liberdade de filhos de Deus, a enfrentar a dor e o sofrimento com a serenidade de filhos de Deus, a apreciar as coisas belas como o faz um filho de Deus. Em suma, a filiação divina “está presente em todos os pensamentos, em todos os desejos, em todos os afetos”[5]. E expande-se necessariamente em fraternidade. “O Espírito mesmo dá testemunho ao nosso espírito de que somos filhos de Deus” (Rm 8, 16). Este testemunho é em nós o amor filial a Deus[6], que traz consigo o amor fraterno. “Outros bebem de outras fontes. Para nós, este manancial de dignidade humana e fraternidade está no Evangelho de Jesus Cristo”[7].

Centro e raiz da nossa vida espiritual, enfim, é o Sacrifício Eucarístico. É raiz objetivamente falando, porque “exerce-se a obra da nossa redenção sempre que o sacrifício da cruz, pelo qual ‘Cristo, nossa Páscoa, foi imolado’ (1 Cor 5,7), se celebra sobre o altar”[8].

Mas, que a vida, no aspecto subjetivo, seja realmente centrada na Eucaristia, depende também da correspondência pessoal à graça: “Deves lutar por conseguir que o Santo Sacrifício do Altar seja o centro e a raiz da tua vida interior, de modo que todo o teu dia se converta num ato de culto – prolongamento da Missa a que assististe e preparação para a seguinte – que vai transbordando em jaculatórias, em visitas ao Santíssimo Sacramento, em oferecimento do teu trabalho profissional e da tua vida familiar”[9].

Do centro eucarístico da vida cristã surge também o desenvolvimento e a eficácia da missão apostólica. “Se o centro dos teus pensamentos e esperanças estiver no Sacrário, filho, que abundantes os frutos de santidade e apostolado!”[10].

Uma mesma missão apostólica

4. Temos a mesma missão apostólica: somos igualmente chamados a santificar-nos e a colaborar com a missão da Igreja na transformação cristã do mundo: em nosso caso, vivendo o espírito do Opus Dei. A missão própria da Obra só pode ser compreendida adequadamente dentro da grande missão da Igreja, na qual “todos somos chamados a dar aos outros o testemunho explícito do amor salvífico do Senhor, que, sem olhar às nossas imperfeições, nos oferece a sua proximidade, a sua Palavra, a sua força, e dá sentido à nossa vida”[11].

Só na Igreja, Corpo místico de Cristo, recebemos a força para servir com fecundidade o mundo do nosso tempo. Por isso, mesmo com todos os nossos limites, compartilhamos os anseios, as preocupações e os sofrimentos da Igreja em cada época e em cada lugar. Cada um de nós pode tornar própria aquela atitude de São Paulo: “Quem fraqueja, que eu também não fraqueje? Quem tropeça, que eu não me incendeie?” (2 Cor 11, 29).

5. A missão apostólica não se limita a determinadas atividades, porque a partir do amor a Jesus Cristo podemos transformar tudo em serviço cristão aos outros. Cada um realiza inteiramente a missão da Obra com a sua própria vida: na sua família, em seu lugar de trabalho, na sociedade onde vive, com seus amigos e conhecidos. Entende-se, por isso, a insistência de São Josemaria para que na Obra se dê sempre “importância primária e fundamental à espontaneidade apostólica da pessoa, à sua iniciativa livre e responsável, guiada pela ação do Espírito; e não a estruturas organizativas”[12]. E daí também que o apostolado principal da Obra seja o de amizade e confidência, realizado pessoalmente por cada uma e por cada um.

À luz de tudo isto, compreende-se melhor em que sentido “todas as tarefas apostólicas e os meios para começá-las são onus et honor, carga e honra de todos: dos numerários, dos adscritos e dos supernumerários, e também dos cooperadores”[13]. Nós, pela comunhão dos santos, realizamos todos juntos a missão apostólica em todos os lugares. Por isso, referindo-se a todos na Igreja, São Josemaria recorda que “se nos servirmos dos meios adequados, seremos o sal, a luz e o fermento do mundo: seremos o consolo de Deus”[14].

Os mesmos meios

6. Para levar a cabo a nossa missão, Cristo é o caminho. E para segui-lo como discípulos e apóstolos, todos no Opus Dei temos os mesmos meios: as mesmas normas e costumes de vida cristã e os mesmos meios de formação espiritual e doutrinal. São vividos de um modo ou de outro, segundo as circunstâncias pessoais, mas o conjunto é sempre substancialmente o mesmo.

Convém não perdermos de vista que se trata de meios – e não de fins – que levam, pela graça de Deus, a crescermos na vida contemplativa no meio das aspirações humanas, alimentados pela superabundância da vida em Cristo dada pelos sacramentos, e muito especialmente pela Sagrada Eucaristia.

As práticas de piedade são parte de um diálogo de amor que abarca toda a nossa vida, e nos levam a um encontro pessoal com Jesus Cristo. Constituem momentos nos quais Deus nos espera para compartilhar sua vida com a nossa. O esforço por cumpri-las nos liberta, pois “a santidade tem a flexibilidade dos músculos soltos (...). A santidade não tem a rigidez do cartão: sabe sorrir, ceder, esperar. É vida: vida sobrenatural”[15].

Assim, confiando na misericórdia de Deus, procuraremos viver buscando sempre a perfeição da caridade, segundo o espírito que Deus nos deu. Ser santos não é fazer cada vez mais coisas ou cumprir certas atividades-padrão que nos tenhamos imposto como tarefa. O caminho para a santidade, como explica São Paulo, consiste em corresponder à ação do Espírito Santo, até que Cristo esteja formado em nós (cfr. Gl 4, 19).

Unidade e diversidade

7. Nosso Padre via o labor da Obra como “um só tecido”, composto pelos diversos modos de viver a mesma vocação. Insistia, por isso, em que na Obra não há classes, nem membros de primeira ou de segunda categoria: nem pelas diferentes modalidades em que a vocação é vivida, nem pelo tipo de trabalho profissional que se desempenha. Como em qualquer realidade de caráter sobrenatural, o essencial – que não se pode julgar nesta terra – é a correspondência ao amor de Deus.

São Josemaria expressava esta unidade de vocação dizendo que a nossa é “uma só vocação divina, um fenômeno espiritual, que se adapta com flexibilidade às condições pessoais de cada indivíduo e a seu próprio estado. A identidade de vocação comporta uma igualdade de dedicação, dentro dos limites naturais que essas diversas condições impõem”[16].

Naturalmente, a unidade e diversidade na Obra incluem a relativa a homens e mulheres: é unidade de espírito, de missão apostólica e de meios, junto à separação de atividades próprias daqueles e daquelas. Além disso, entre homens e mulheres, nos assuntos comuns a toda a Obra, há unidade de direção em nível central e regional. Os órgãos de governo de homens e de mulheres têm idêntica iniciativa e responsabilidade. Em determinados casos importantes estabelecidos pelo Direito, têm a mesma capacidade de aceitar ou rejeitar as propostas do Prelado ou, nas Regiões, as do Vigário Regional.

Com toda a nossa vida

8. Poderia parecer que alguns se dedicam mais à missão da Obra do que outros. Não é verdade. Todos vivem com igual dedicação, porque ser e fazer o Opus Dei não consiste apenas, nem principalmente, em colaborar em determinadas tarefas ou nos labores corporativos de apostolado. A vocação e a missão correspondente abarcam toda a nossa vida, não apenas uma parte; toda a vida é ocasião e meio de encontro com Jesus Cristo e de apostolado.

A propósito disto, São Josemaria escrevia que o nosso chamado implica um “encontro vocacional pleno, repito, porque – seja qual for o estado civil da pessoa – é plena a sua dedicação ao trabalho e ao fiel cumprimento dos seus próprios deveres de estado, segundo o espírito do Opus Dei. Por esta razão, dedicar-se a Deus no Opus Dei não implica uma seleção de atividades, não supõe dedicar mais ou menos tempo da nossa vida para empregá-lo em obras boas, abandonando outras. O Opus Dei insere-se em toda a nossa vida”[17]. Encontro vocacional pleno, que empenha a própria vida, com plenitude de dedicação, pois em tudo há um chamado de Deus para amá-lo e servir os outros, com um amor que é liberdade interior. Por isso, como comentava dom Álvaro “a Obra exige uma grande elasticidade: um mínimo de regulamento, porque é necessário; mas mínimo, para que a letra não mate o espírito: Littera enim occidit, spiritus autem vivificat (2 Cor 3, 6)”[18].

9. Com estas páginas eu quereria convidá-los a renovar o agradecimento ao Senhor pelo dom da vocação. Um agradecimento gozoso, não só pela beleza da Obra, ao considerá-la tal como Deus a quer em seu conjunto, mas também ao contemplar, cada uma e cada um, como essa beleza se torna plenamente presente no modo pessoal como cada fiel da Prelazia vive essa mesma vocação: como numerários – no caso das mulheres, também como numerárias auxiliares – como adscritos, como supernumerários ou como sócios da Sociedade sacerdotal da Santa Cruz.

Neste contexto, gostaria de insistir no que lhes escrevi há uns meses: a experiência da fraqueza pessoal própria e alheia, em comparação com a proposta formidável que a fé cristã e o espírito da Obra nos apresentam, não deve nos produzir desânimo. Diante do desencanto que a desproporção entre o ideal e a pobre realidade da nossa vida possa produzir-nos, tenhamos a segurança de que podemos recomeçar todos os dias com a força da graça do Espírito Santo[19].

II. A vocação à Obra como numerária e numerário

10. “No coração da Obra, os numerários – chamados a uma especial missão de serviço – sabem pôr-se aos pés de todos os seus irmãos, para tornar-lhes amável o caminho da santidade; para atendê-los em todas as suas necessidades da alma e do corpo; para ajudá-los em suas dificuldades e tornar possível, com sua entrega sacrificada, o apostolado fecundo de todos”[20]. Deste modo os numerários dão vida a seus irmãos: o seu trabalho, “ao manter ativo e desperto o espírito em todos, traz como consequência uma realidade extraordinária de fraternidade e de unidade”[21].

Nas numerárias e nos numerários, a vocação ao Opus Dei é determinada pelo dom do celibato apostólico e pela plena disponibilidade para as tarefas de formação e os labores apostólicos. Esta disponibilidade, entendida e realizada como uma especial missão de serviço aos outros, se vê em princípio facilitada pelo fato de que os numerários moram em um centro da Obra. Podem, no entanto, surgir muitas circunstâncias que tornam conveniente que não seja assim. Isso não afeta nem a sua identidade e nem a sua missão, pois sempre se saberão a serviço de todos os outros, morem onde morarem.

Um coração disponível

11. A disponibilidade dos numerários para servir aos outros consiste numa autêntica disponibilidade do coração: a liberdade efetiva de viver só para Deus e, por Ele, para os outros, unida à vontade de ocupar-se das tarefas que forem necessárias na Obra.

Para uns, a disponibilidade se concretizará em colaborar em tarefas de formação e labores apostólicos, enquanto se dedicam a um trabalho profissional que corresponda a seus talentos, estudos e preferências, para levar até lá a alegria do Evangelho. Para outros, trata-se de se dedicar, como trabalho profissional, à administração dos centros da Obra, ou a tarefas de formação, de governo, de direção ou de colaboração em atividades apostólicas.

A disponibilidade não se limita, por outro lado, a uma atitude passiva de fazer o que me pedem, mas se manifesta em sua plenitude quando pensamos nos talentos que recebemos de Deus para pô-los à disposição da missão apostólica; antecipamo-nos, oferecemo-nos, com iniciativa. A disponibilidade não é, por isso, imobilidade, mas, pelo contrário, o desejo habitual de mexer-se com o ritmo de Deus.

Deve-se entender e viver a plena disponibilidade como liberdade, no sentido de não ter nada que nos amarre a não ser o amor (quer dizer, não estar ligados necessariamente a um trabalho, a um lugar de residência etc., sem deixar por isso de estar bem enraizados onde estivermos). O que nos torna livres não são as circunstâncias externas, mas sim o amor que temos no coração.

Como concretização dessa particular tarefa de serviço, nosso Padre previu que o trabalho de governo no Opus Dei recaia sobre as numerárias e os numerários. A dedicação a esses trabalhos é necessária, pois sustenta a vida do conjunto. Seria, no entanto, equivocado pensar que aqueles que se dedicam às tarefas de governo e formação estão mais disponíveis ou fazem mais o Opus Dei. Dom Javier escrevia, nesse sentido, em uma de suas cartas: “Não há outro remédio a não ser que algumas filhas e alguns filhos meus diminuam a sua atividade profissional – ou inclusive a deixem de lado completamente, ao menos por algum tempo – para se dedicarem a ajudar os seus irmãos na vida espiritual e dirigir o trabalho apostólico”[22].

Nosso Padre expressa em muitos lugares essa plena disposição interior; por exemplo: “Todos com vocação divina, os numerários devem dar-se diretamente e imediatamente ao Senhor em holocausto, entregando tudo o que é deles, seu coração inteiro, suas atividades sem limite, seus bens, sua honra”[23]. Trata-se precisamente de entregar livremente, para fazer a Obra, todas as atividades, sejam as que forem, sem limites. Há, às vezes, obviamente, circunstâncias que condicionam objetivamente a possibilidade de assumir alguns encargos ou tarefas em um determinado momento. Por isso, insisto em que o importante é a disposição interior de plena disponibilidade para servir os outros, por amor a Jesus Cristo.

Um grupo pregado na Cruz

12. Recordemos também estas outras palavras de São Josemaria: “Nosso Senhor não quer uma personalidade efêmera para a sua Obra: pede-nos uma personalidade imortal, porque quer que nela – na Obra – haja um grupo pregado na Cruz: a Santa Cruz nos tornará perduráveis, sempre com o mesmo espírito do Evangelho, que trará o apostolado de ação como fruto saboroso da oração e do sacrifício”[24]. Nosso Padre não menciona quem forma este grupo pregado na Cruz, mas dom Álvaro, na nota em que comenta este parágrafo, indica que já se vê o anúncio ou a alusão aos diversos modos de viver a vocação na Obra. Pelo contexto podemos pensar que, neste caso, refere-se, sobretudo, aos numerários e numerárias.

Em alguns outros lugares, São Josemaria refere-se também aos sacerdotes como especialmente pregados na Cruz. Mas é que, na verdade, pregados na Cruz temos que estar todos, também os adscritos e os supernumerários, porque é nela que encontramos o Senhor, como diz nosso Padre em palavras que exprimem uma profunda experiência pessoal: “Ter a Cruz é identificar-se com Cristo, é ser Cristo, e, por isso, ser filhos de Deus”[25].

Ainda que a vocês, numerárias e numerários, possa talvez ser custoso, falando humanamente, deixar por um tempo uma profissão anterior, para se dedicarem profissionalmente a outro tipo de atividade (administração dos centros da Obra, o governo, a formação, a direção ou a colaboração em atividades apostólicas), trata-se de um fecundo encontro com a Cruz, lugar da mais profunda identificação com Cristo e fonte, muitas vezes insuspeitada, de uma grande alegria sobrenatural.

13. Quando pedimos a admissão na Obra ficamos conhecendo e adotamos livremente – por amor! – esta atitude de disponibilidade, que nos leva a aderir a um projeto divino. Ao mesmo tempo, como tudo na vida espiritual, a efetiva maturação da entrega vai crescendo com o tempo. Este crescimento se dá através da formação, da vida interior e de diversas experiências de disponibilidade – pequenas mudanças de planos, encargos etc. – que preparam a alma para grandes mudanças, se forem necessárias. Naturalmente, os diretores procuram sempre contar previamente com o parecer dos interessados quando se trata de encargos ou mudanças importantes, embora eles, manifestando com simplicidade as dificuldades que veem, mantêm a disposição de estar para o que for necessário, por amor a Deus e às almas.

O que é decisivo, insisto, é que cada um tenha esta disposição interior habitual de entrega a seus irmãos e a tantas outras pessoas que esperam o nosso serviço cristão: “Levantai os olhos e vede os campos, como estão dourados, prontos para a colheita!”(Jo 4, 35).

Esta atitude é perfeitamente compatível com uma sadia ambição profissional e com uma preocupação lógica e responsável de sustentar-se economicamente e de atender as necessidades de nossa família sobrenatural. A disponibilidade para mudar de tarefa profissional, se a Obra assim o pedir, precisamente para dedicar-se à formação de outros, não contradiz a convicção de serem mulheres e homens que querem estar com seus iguais, nos desafios do mundo, porque sua missão é ajudar a transformá-lo e levá-lo a Deus. E isso se faz também com eficácia a partir dos postos de direção e de formação na Obra.

Vocês, numerários e numerárias, vivem o dom do celibato apostólico com plenitude de amor em Cristo, que se abre a uma paternidade e maternidade espirituais. São chamados a serem um testemunho vivo de entrega total a Deus, no meio do mundo, com uma disponibilidade plena a serviço de todos: apaixonados por Jesus, pelos outros e pelo mundo. Recebem um chamado peculiar para cuidar de uma família sobrenatural e para se preocuparem por seus irmãos.

Vocês têm um horizonte muito amplo: com sua vida entregue, às vezes talvez escondida e sem brilho humano, atingem com fecundidade o último recanto do mundo.

III. A vocação à Obra como numerária auxiliar

14. Vocês, numerárias auxiliares, têm uma função especial de serviço, que realizam criando e mantendo o ambiente de lar cristão nos centros da Obra. Tornam realidade esta tarefa com o seu trabalho profissional, que nesse caso é a Administração. Sabem bem que não se trata só de realizar uma série de tarefas materiais, que, em medidas diversas, todos podemos e devemos realizar, mas também de prevê-las, organizá-las e coordená-las de tal forma que o resultado seja precisamente esse lar em que todos se sintam em casa, acolhidos, seguros e, ao mesmo tempo, responsáveis. Isto que, aliás, tem importância para toda pessoa humana, repercute na fisionomia e na têmpera espiritual da Obra inteira, de todos e cada um de seus membros. Vocês, mulheres, convertem-se assim “em um amparo insubstituível e numa força espiritual para os outros, que percebem as grandes energias”[26] do seu espírito.

A prioridade da pessoa e da família

15. Com o seu trabalho cuidam da vida na Obra e a servem, colocando a pessoa singular como foco e prioridade de seu trabalho. Trata-se de uma expressão muito concreta de que a Obra é família; família verdadeira, não em sentido metafórico. Recordam, como nosso Padre nos disse tantas vezes, que os vínculos na Obra são mais fortes que os do sangue, coisa que tem consequências também afetivas, de carinho mútuo.

São Josemaria considerava com frequência que o trabalho da Administração é o mesmo que realizava a Virgem Maria. Por isso, o ar de família da Obra deve ser como um reflexo, como uma continuação do que foi – ainda que não o tenhamos visto, podemos imaginá-lo – o ambiente do lar de Nazaré.

Embora o trabalho próprio da Administração dos centros seja chamado de diferentes modos nas distintas culturas, vocês, numerárias auxiliares, são na realidade irmãs, mães, parte integrante da família, como o Padre e as outras filhas e filhos. Pela graça que receberam de Deus para cuidar de todos na Obra, São Josemaria dizia que – se tivesse podido – teria sido numerária auxiliar. Ele as chamava suas filhas pequenas porque foram as últimas a chegar à Obra, e não por considerá-las menores de idade. Ao contrário, confiava especialmente em sua fidelidade, madura e firme, para levar em frente as grandes decisões da Obra.

De todos os ambientes

16. Grandiosa realidade é que as numerárias auxiliares procedem de todos os ambientes. De fato, às vezes algumas têm dúvida sobre o que Deus lhes pede: ser numerária ou numerária auxiliar. Um elemento que se deve considerar, entre outros, é a inclinação própria para as tarefas mais diretamente orientadas para o serviço e cuidado das pessoas. Naturalmente, o discernimento depende, em última instância, de cada uma, com a orientação da direção espiritual e das diretoras.

De qualquer forma, compreende-se que o trabalho da Administração se reveste de uma grande dignidade: dar e manter o calor de lar numa família. Além disso, aquelas que trabalham na Administração, “através dessa profissão – porque ela o é, verdadeira e nobre – influem positivamente, não só na família, mas também numa multidão de amigos e de conhecidos, em pessoas com as quais de um modo ou de outro se relacionam, realizando uma tarefa muitas vezes bem mais extensa do que a de outras profissões”[27].

Apostolado dos apostolados

17. São Josemaria valorizava o trabalho da Administração a tal ponto que o considerava apostolado dos apostolados. Sem ele, a Obra não poderia ir para a frente.

É apostolado dos apostolados, em primeiro lugar, porque se trata de um apostolado em si mesmo muito direto. Insisto em que não se limita a proporcionar serviços materiais, em si mesmos necessários e importantes; essa tarefa, transformada em oração, influi, sobretudo, de modo direto, na formação humana e espiritual das pessoas do centro onde é realizada. O ambiente que vocês criam forma, e forma muito.

O trabalho de vocês bem realizado materializa, com efeito, um espírito e o comunica com eficácia, através de fatos, de modo concreto e constante. É por isso que procuram realizar com o maior profissionalismo possível o trabalho do lar, assim como cada um dos meus filhos faz com sua própria tarefa. E ao elevá-lo ao horizonte do trabalho santificado, estão pondo a competência profissional diretamente a serviço das pessoas, convertendo-o em um fator de humanização e de inspiração para o trabalho profissional de todos.

Em segundo lugar, o trabalho da Administração é apostolado dos apostolados, porque torna possíveis os outros, atuando como seiva e impulso, especialmente na medida em que procuram transformá-lo em diálogo com Deus. “Ao trabalhar na Administração – escrevia São Josemaria – vocês participam de todos os apostolados, colaboram com todo o labor. Seu bom andamento é condição necessária, o maior dos impulsos para toda a Obra, se o realizam com amor de Deus”[28]. Nota-se muito quando, nos começos do labor apostólico em um país ou uma cidade, ainda não há Administração; assim como se nota que, quando a Administração já lá se encontra, a Obra ganha mais vida e mais dinamismo. Além disso, logicamente, vocês, numerárias auxiliares, colaboram em muitas outras atividades apostólicas, na medida em que é possível em cada caso.

Dizemos ainda que a Administração é a coluna vertebral da Obra, porque sustenta todo o corpo, que de outra forma não se manteria direito. E é assim, graças a Deus; trata-se de algo que devemos considerar e valorizar sempre. Vocês, as outras numerárias que trabalham na Administração, naturalmente também constituem esta coluna vertebral e este apostolado de apostolados.

Minhas filhas numerárias auxiliares têm uma missão entusiasmante: transformar este mundo, hoje tão cheio de individualismo e indiferença, em um autêntico lar. Tal tarefa, realizada com amor, pode chegar a todos os ambientes. Vocês estão construindo um mundo mais humano e mais divino, porque o dignificam com o seu trabalho convertido em oração, com o seu carinho e com o profissionalismo que têm no cuidado integral das pessoas.

IV. A vocação à Obra como adscrita e adscrito

Com caráter próprio

18. Os adscritos fazem o Opus Dei principalmente através de um profundo apostolado pessoal no próprio ambiente profissional e familiar, e colaborando com os numerários no atendimento dos outros fiéis da Obra. Vocês manifestam com suas vidas o caráter libérrimo que tem a atividade apostólica de todo batizado, levando-a em frente com todas as energias de um coração livre. Por isso São Josemaria podia dizer-lhes: “Tenho inveja de vocês, sua entrega a Deus é total e plena como a minha, mas vocês podem chegar mais longe”[29]. O que ele queria dizer com isto? Queria dizer que o principal é estar no meio do mundo, no meio dos afazeres, dos trabalhos, das famílias, para levar até lá a vida cristã.

Vocês têm circunstâncias muito variadas e estão em todo tipo de ambiente profissional. A vida de vocês abre-se para um campo ilimitado de possibilidades nas quais encarnar e difundir o espírito do Opus Dei. Em virtude de suas origens, chegam a todo o tecido social; pela maior permanência em cada lugar, facilitam o enraizamento dos apostolados no território; seu modo de vida lhes permite cultivar, de modo estável, uma grande diversidade de relações: familiares, profissionais, de vizinhança, no povoado, cidade ou país onde residem. “Chegam mais longe”, como afirmava São Josemaria, não apenas em extensão de apostolado, mas em profundidade, porque mostram vivencialmente o que representa uma entrega a Deus no meio do mundo, com coração indiviso.

Entende-se muito bem, por isso, que o nosso Padre desejasse que os adscritos fossem o dobro com relação aos numerários: porque o principal é o labor no meio das circunstâncias cotidianas e das atividades próprias de cada uma e de cada um.

Se alguém, pensando em sua possível vocação para a Obra, duvidasse entre ser numerário ou adscrito, talvez fosse necessário fazer a pessoa ver o equívoco de pensar que ser numerário é mais do que ser adscrito. Isso tem muita importância no discernimento da vocação. Há casos em que o modo como se concretiza a vocação à Obra é evidente: por exemplo, um homem casado pode ser supernumerário, mas não adscrito nem numerário. Há, no entanto, outros casos menos evidentes, e a última decisão tem que ser da pessoa interessada: ela é que sabe o que Deus lhe pede concretamente, dentro de uma única e comum vocação. Claro que, por prudência, é oportuno pedir conselho na direção espiritual e também aos diretores, que conhecem a pessoa e desejarão ver com ela qual é a vontade de Deus.

O bom odor de Cristo

19. Referindo-se concretamente a adscritas e adscritos, São Josemaria escrevia: “Através de seu trabalho – que às vezes realizam em obras corporativas – em todas as circunstâncias, em todos os lugares, nos mais diversos recantos da terra, levam a todas as partes, entre seus colegas, o bom odor de Cristo; e se esforçam por orientar com sentido cristão as tarefas – tanto oficiais como privadas – sociais, profissionais, econômicas etc., dos que pertencem à sua própria classe e condição social. E isto, habitualmente sem necessidade de mudar de domicílio ou de trabalho”[30]. Por isso, e o escutei diretamente de dom Javier – acolhendo um ensinamento de São Josemaria – as adscritas e os adscritos expressam de um modo especialmente claro o que é o Opus Dei, pela santificação da vida cotidiana, do trabalho profissional e da vida familiar, sem mudar de lugar.

Vocês, adscritos, trabalham, às vezes, em obras corporativas de ensino ou em outras atividades apostólicas. Esse, no entanto, não é seu principal modo de participar na missão da Obra, pois toda ela está em suas mãos. Às vezes é necessário assumir esses encargos, mas o principal é a santificação da vida cotidiana, o trato de amizade e confidência com as pessoas, e quando for o caso, acompanhar seus amigos aos meios de formação dos labores de São Rafael e de São Gabriel... Numa palavra, Deus os chama a ser levedo no meio da massa. O importante para vocês, insisto, é o labor no meio das circunstâncias normais e dos trabalhos próprios de cada uma e de cada um.

V. Sacerdotes da Prelazia

20. Dentre os numerários e adscritos surgem vocações ao sacerdócio na Obra, tão essenciais quanto os leigos na realidade teológica e jurídica da Prelazia. Esta chamada não é uma coroação da vocação à Obra, mas sim um novo modo de viver, com “mais obrigação que os outros de pôr o coração no chão como um tapete, para que seus irmãos pisem com suavidade”[31].

Junto ao que é próprio do ministério sacerdotal na Igreja – que tem seu centro na Eucaristia – os sacerdotes da Prelazia dedicam-se principalmente ao serviço ministerial dos outros fiéis e ao atendimento sacerdotal de suas atividades apostólicas. Concretamente, em virtude da peculiar missão pastoral da Prelazia, ocupam-se sobretudo da celebração dos sacramentos da Eucaristia e da Penitência, da pregação da Palavra de Deus, da direção espiritual e de uma extensa tarefa de formação doutrinal.

O fato de que os sacerdotes da Prelazia vivam, como os outros, o espírito da Obra, implica certo estilo sacerdotal: em seu ministério refletem necessariamente a secularidade; respeitam e promovem com grande delicadeza a responsabilidade e a iniciativa dos fiéis leigos; atuam de modo sobrenatural para aproximar as pessoas de Deus; fomentam nos outros a liberdade de espírito, que é amar; atuam com iniciativa para ter um abundante trabalho sacerdotal. E claro, na medida do possível, colaboram também em atividades das dioceses.

A serviço dos outros

21. No começo de uma de suas cartas, dirigida especialmente a seus filhos sacerdotes, São Josemaria dizia: “Vocês se ordenaram, meus filhos sacerdotes, para servir. Deixem-me começar por recordar que a sua missão sacerdotal é uma missão de serviço. Eu os conheço, e sei que esta palavra – servir – resume seus anseios, sua vida toda e é seu orgulho e meu consolo: porque essa vontade boa e sincera que têm – como seus irmãos leigos e suas irmãs – de estarem sempre ocupados em fazer o bem aos outros, dá-me o direito de dizer que vocês são gaudium meum, et corona mea (Fl. 4,1); minha alegria e minha coroa”[32].

A vocês, sacerdotes, o espírito de serviço move a se sentirem e a serem na prática um a mais entre seus irmãos, conscientes de que na Obra há “uma só classe, muito embora seja formada por clérigos e leigos”[33]. Procuram, ao mesmo tempo, com o exemplo e a palavra, ser como despertadores dos desejos de santidade nos outros e instrumentos de unidade na Obra. Estando sempre muito perto de todos, procurem manter um tom humano adequado, a gravidade sacerdotal no modo de se apresentar, nas conversas, etc.

Meus filhos, se São Josemaria dizia a todos que “é de Cristo que devemos falar, não de nós mesmos”[34], vocês sacerdotes se esforçam especialmente por não brilhar, por não ser protagonistas, procurando que o protagonismo e o brilho de sua vida sejam o de Jesus Cristo, e, em todo caso, que brilhem suas irmãs e irmãos. Para isto, como sabem e procuram viver, é especialmente necessária a união com Deus, a oração e o sacrifício alegre em unidade de vida.

VI. Sobre o celibato apostólico dos numerários e adscritos

22. A vocação à Obra nos numerários e adscritos, numerárias e adscritas, comporta o celibato apostólico, que é um dom de Deus e resposta a esse dom como correspondência de amor ao Amor. “Lembrem-se sempre de que é o Amor – o Amor dos amores – o motivo de nosso celibato”[35]. Por isso, não se deve considerar o celibato nem apenas nem principalmente como uma opção funcional, quer dizer, como algo adequado para nos dedicarmos mais ao trabalho da Obra ou para poder ir de um lugar para outro. É verdade que o celibato torna isso possível ou o facilita, mas o motivo fundamental é o fato de o celibato ser um dom particular de identificação com a vida de Cristo. “O celibato deve ser um testemunho de fé: a fé em Deus torna-se concreta nessa forma de vida, que só tem sentido a partir de Deus. Apoiar a vida n’Ele, renunciando ao casamento e à família, significa que acolho e experimento Deus como realidade e por isso posso levá-lo aos homens”[36] .

O celibato apostólico não nos separa dos outros; mas, como leva consigo um compromisso de coração indiviso para Deus, deve notar-se em um teor de vida entregue, análogo ao de uma pessoa casada, que não se comporta como se não tivesse nenhum compromisso com o seu consorte.

A vocação, vivida com radicalidade, às vezes choca com os modelos do mundo. Também a isso podemos aplicar estas palavras mais gerais de São Josemaria: “ ‘E num ambiente paganizado ou pagão, quando esse ambiente chocar com a minha vida, não parecerá postiça a minha naturalidade’? perguntas-me. E te respondo: – Chocará, sem dúvida, a tua vida com a deles. E esse contraste, porque confirma com as tuas obras a tua fé, é precisamente a naturalidade que eu te peço”[37].

Renovemos sempre de novo a convicção de que o dom do celibato apostólico manifesta uma predileção divina, um chamado a uma especial identificação com Jesus Cristo, que também comporta, inclusive humanamente, mas sobretudo sobrenaturalmente, mais capacidade para querer bem a todo o mundo. Daí que o celibato, que não conta com a paternidade e a maternidade físicas, torne possível uma maternidade ou paternidade espirituais muito maiores. De qualquer forma, estará de fato mais identificado com Cristo quem amar mais o Senhor, quer seja solteiro ou casado, pois também o matrimônio é um “caminho divino na terra”[38].

VII. A vocação à Obra como supernumerária e supernumerário

Constitui muita graça de Deus

23. A maior parte dos fiéis do Opus Dei é formada por vocês, supernumerários, que procuram santificar todas as facetas de sua vida, e de modo especial a vida matrimonial e familiar, já que normalmente são pessoas casadas. Em 1947, São Josemaria escrevia assim a seus filhos da Espanha, respondendo a umas considerações que havia recebido sobre os supernumerários: “Li as notas dos Supernumerários. (...) Na próxima semana devolvo-te os papéis, com alguma indicação concreta: de qualquer forma já adianto que não poderemos perder de vista que não se trata da inscrição de uns senhores em determinada associação (...). É muita graça de Deus ser Supernumerário!” [39]. É Deus que dá a graça: muita graça, diz São Josemaria; e uma graça grande: a da vocação à Obra. Para os supernumerários esta vocação comporta uma ajuda especial para percorrer o próprio caminho de santificação: o marcado pelo batismo e, na maior parte dos casos, pela recepção do sacramento do matrimônio e a formação de uma família.

A chamada pressupõe uma escolha e se dirige, como escrevi antes, a uma missão: ser e fazer o Opus Dei na Igreja. Na Instrucción de San Gabriel, referindo-se às supernumerárias e aos supernumerários São Josemaria escreve: “Eu vejo esta grande seleção atuante (...). Todos, cada um sabendo-se escolhido por Deus, para conseguir sua santidade pessoal no meio do mundo, precisamente no lugar que ocupa no mundo, com uma piedade sólida e ilustrada diante do cumprimento gozoso – ainda que custe – do dever de cada momento”[40]. Portanto, não vejamos nunca a vocação como um conjunto de exigências, de obrigações – embora as tenha, logicamente – mas sim, antes de mais nada, como uma escolha de Deus, um grande dom de Deus.

O horizonte que dá sentido à sua missão é ser “um fermento que diviniza os homens e, ao torná-los divinos, torna-os ao mesmo tempo verdadeiramente humanos”[41]. Como Áquila e Priscila, que acolheram São Paulo em Corinto (cfr. At 18, 2) e que foram os que anunciaram o Evangelho a Apolo e a muitos mais (cfr. At 18, 26; Rm 16, 3; 1 Cor 16,19); como tantos daqueles cristãos que tinham uma vida tão normal como a dos seus contemporâneos e que, ao mesmo tempo, eram sal da terra, e luz de um mundo que estava em trevas.

“Entre os supernumerários, há toda a gama de condições sociais, de profissões e de ofícios. Todas as circunstâncias e situações da vida são santificadas por esses meus filhos – homens e mulheres – que dentro do seu estado e de sua situação no mundo, dedicam-se a buscar a perfeição cristã com plenitude de vocação cristã”[42]. Vejam como insiste o nosso Padre na plenitude da vocação. No que se refere à variedade, é claro que se segue do fato de que a Obra é um caminho de santificação e de apostolado na vida cotidiana; uma vida cotidiana que admite toda variedade do que é humano e honesto.

Matrimônio e família

24. A vocação na Obra como supernumerário desenvolve-se em primeiro lugar no âmbito familiar. “Seu primeiro apostolado está no lar”[43]. São Josemaria tinha o sonho de que os lares dos supernumerários e das supernumerárias fossem “luminosos e alegres”, “centros de irradiação da mensagem evangélica”[44]. É esta a herança que vocês deixam para a sociedade. Por isso, ele também escrevia: “A formação que o Opus Dei lhes dá leva-os a valorizar a beleza da família, a obra sobrenatural que significa a fundação de um lar, a fonte de santificação que se oculta nos deveres conjugais”[45].

Além disso, vocês são chamados a influir positivamente em outras famílias. Em particular, ajudando a que sua vida familiar tenha um sentido cristão e preparando a juventude para o matrimônio, para que muitos jovens se entusiasmem e estejam em condições de formar outros lares cristãos, dos quais possam também surgir as numerosas vocações ao celibato apostólico que Deus quiser.

Os solteiros e os viúvos – e, naturalmente, os casais sem filhos – também podem ver na família um primeiro apostolado, pois terão sempre, de um modo ou outro, um ambiente familiar do qual cuidar.

Incidir cristãmente no próprio ambiente

25. São Josemaria via em vocês uma grande mobilização de cristãos, irradiando em seu trabalho e em seu ambiente social o amor de Cristo, principalmente através do seu apostolado de amizade e confidência. E contribuindo também, ao fazer isso, para melhorar as estruturas próprias da sociedade, tornando-as cada vez mais humanas e de acordo com a vida de filhos de Deus, tomando parte ativa na solução dos problemas de nosso tempo. “Vocês fazem um apostolado muito fecundo, quando se esforçam por orientar com sentido cristão as profissões, as instituições e as estruturas humanas, onde trabalham e se movem”[46].

É claro que a vocação e, por conseguinte, a missão das supernumerárias e supernumerários não se limita a que vivam algumas práticas de piedade, assistam a meios de formação e participem de alguma atividade apostólica, mas abarca toda a sua vida, porque tudo em sua vida pode ser encontro com Deus e apostolado. Fazer o Opus Dei é fazê-lo na própria vida e, pela comunhão dos santos, colaborar para realizá-lo em todo o mundo. Ou, como nos recordava em frase expressiva o nosso fundador, fazer o Opus Dei, sendo cada um Opus Dei.

Sentir a Obra como algo pessoal leva vocês a terem um vivo interesse por se formarem, para levarem Cristo aos outros e darem razão de sua fé. De fato, “a formação que lhes dá o Opus Dei é flexível: adapta-se como a luva à mão, à sua situação pessoal e social. (...) Sendo nosso espírito único e únicos os meios ascéticos, eles podem e devem tornar-se realidade em cada caso sem rigidez”[47].

A flexibilidade que evita a rigidez não significa que ser supernumerário implique menor exigência de heroísmo ou de radicalidade no seguimento de Jesus Cristo. Convém, por isso, que não atentemos tanto para a diversidade de circunstâncias como para a própria essência daquilo que nessas circunstâncias é chamada de Deus, missão atribuída por Deus. Em qualquer situação, o importante é estar com Jesus Cristo, amar a Jesus Cristo, trabalhar com Jesus Cristo e levá-lo a todos os lugares.

Quando São Josemaria escrevia que “os supernumerários se dedicam parcialmente ao serviço da Obra”[48], referia-se à disponibilidade material para os labores apostólicos concretos, e não fazer a Obra de modo parcial, já que essa tarefa, insisto de novo, se realiza com toda a vida. Por isso nosso Padre, ao falar sobre a missão apostólica das supernumerárias e supernumerários, escreve também: “Não se trata de um apostolado exercido de modo esporádico ou eventual, mas de modo habitual e por vocação, tomando-o como o ideal de toda a vida”[49].

Deus conta com que, espontaneamente e com iniciativa, vocês se abram em leque e levem a todo tipo de pessoas a alegria do Evangelho. “Na sua ação apostólica, devem ter iniciativa, dentro da amplíssima margem que o nosso espírito delineia, para assim encontrarem – em cada lugar, em cada ambiente e em cada tempo – as atividades que melhor se adaptarem às circunstâncias”[50].

Esta é a grande missão de minhas filhas e filhos supernumerários, que não tem limites: “Não deverá haver nenhum povoado no qual nosso espírito não seja irradiado por algum supernumerário”[51].

VIII. A vocação à Obra como adscrito ou supernumerário da Sociedade Sacerdotal da Santa Cruz

26. “Vocês são tão do Opus Dei quanto eu”, dizia São Josemaria aos sacerdotes e diáconos, adscritos e supernumerários, da Sociedade Sacerdotal da Santa Cruz, que não estão incardinados na Prelazia.

Naturalmente o chamado à santidade no meio do mundo inclui também os sacerdotes seculares incardinados nas dioceses. A vocação à Obra é a mesma: o chamado divino a buscar a santidade e exercer o apostolado nas circunstâncias e no cumprimento dos deveres próprios de cada um, com o mesmo espírito, os mesmos meios ascéticos, e fazendo parte da família do Opus Dei.

A expressão jurídica do fato de pertencer à Obra é sem dúvida diferente para os fiéis da Prelazia e os sócios da Sociedade Sacerdotal da Santa Cruz não incardinados na Prelazia. No entanto, a diversidade de vínculo jurídico (respectivamente, de jurisdição ou associativo) não tira nada à identidade do chamado a tender à santidade com o mesmo espírito e meios específicos do Opus Dei.

Esta diferença jurídica permite que o chamado à Obra não os tire do seu lugar, pois vocês permanecem incardinados em suas respectivas dioceses, sem que nada mude na relação com seu Bispo e os outros sacerdotes. Sua vocação reforça e facilita, com os meios oportunos, o cumprimento fiel e generoso dos compromissos sacerdotais e das tarefas ministeriais tornando-lhes mais amável seu caminho de santidade. Cabe-lhes especialmente, além disso, a promoção das vocações sacerdotais, e vocês são chamados a ser fermento de unidade com os Bispos e de fraternidade entre o grupo de presbíteros de sua diocese.

Como os animava nesse sentido o nosso Padre! “Procurem acompanhar-se, também do ponto de vista humano. Tenham um coração de carne, porque de carne é o coração com o qual amamos a Jesus e ao Pai e ao Espírito Santo. Se veem algum de seus irmãos em dificuldades, procurem-no, procurem-no, não esperem que os chame!”[52].

Dá alegria considerar que a santificação do trabalho – eixo da vida espiritual – para os sócios da Sociedade Sacerdotal da Santa Cruz significa fundamentalmente santificar a atividade sacerdotal. Em seus aspectos principais já é objetivamente uma atividade sagrada; mas, ao mesmo tempo, como todo trabalho, é lugar e meio de santificação pessoal e de apostolado.


27. Vamos nos aproximando do centenário daquele 2 de outubro de 1928, em que Deus fez São Josemaria ver a Obra. Desde então, no mundo e na Igreja – e, portanto, também na Obra – houve e continua havendo tantas alegrias e tantas dores.

Em 27 de março de 1975, fazendo oração enquanto pregava, nosso Padre relembrava a relativamente breve história do Opus Dei: “Um panorama imenso: tantas dores, tantas alegrias. E agora tudo alegrias, tudo alegrias... Porque temos experiência de que a dor é o martelar do Artista, que quer fazer de cada um, dessa massa informe que nós somos, um crucifixo, um Cristo, o alter Christus que temos de ser. Senhor, obrigado por tudo, muito obrigado!”[53].

A beleza da vocação cristã, tal como o Senhor a concretizou na Obra para cada uma e cada um, deve encher-nos de alegria: por um lado, de uma saudável alegria humana diante de tantas pessoas e coisas boas; por outro, muito especialmente dessa alegria sobrenatural que, como garantia nosso Padre, tem “raízes em forma de Cruz”. Enche-nos de gozo saber – consideremo-lo de novo – que “a Santa Cruz nos tornará perduráveis, sempre com o mesmo espírito do Evangelho, que trará o apostolado da ação como fruto saboroso da oração e do sacrifício”[54].

Pedimos à Virgem Santíssima que nos bendiga e recorde maternalmente que todos nós temos a Obra em nossas mãos. Assim, secundando o querer de Deus e correspondendo à sua graça, a história que começou em 2 de outubro de 1928 continuará, apesar da nossa debilidade e dos nossos erros, até o fim dos tempos: continuaremos trabalhando com alegria, procurando colocar Cristo no cume de todas atividades humanas, para a glória de Deus.

Com todo carinho abençoa-os

o Padre,


[1] Carta 9/01/1932, n. 9.

[2] Carta 12/12/1952, n. 35.

[3] Carta 31/05/1954, n. 17.

[4] Carta 19/03/1967, n. 93.

[5] Amigos de Deus, n. 146.

[6] Cfr. São Tomás de Aquino, Comentário à epístola aos Romanos, cap. 8, lec 3.

[7] Francisco, Enc. Fratelli tutti, n. 277.

[8] Conc.Vaticano II, Const. Lumen gentium, n.3

[9] Forja, n. 69.

[10] Ibid., n. 835.

[11] Francisco, Ex. Ap. Evangelii gaudium, n. 121.

[12] Entrevistas, n. 19.

[13] Carta 31/05/1954, n. 34.

[14] É Cristo que passa, n. 74.

[15] Forja, n. 156.

[16] Carta 24/12/1951. n. 137.

[17] Carta 25/01/1961, n. 11.

[18] B. Álvaro del Portillo, nota 135 à Instrucción sobre la obra de San Miguel.

[19] Cfr. Mensagem, 20/07/2020.

[20] Carta 29/09/1957, n. 8.

[21] Ibid., n 76.

[22] Javier Echevarría, Carta pastoral, 28/11/1995, n. 16.

[23] Instrucción para la obra de San Gabriel, n. 113.

[24] Instrucción sobre el espíritu sobrenatural de la Obra, n. 28.

[25] Meditação, 28/04/1963.

[26] São João Paulo II, Carta ap. Mulieris dignitatem, n. 30.

[27] Entrevistas, n. 88.

[28] Carta 29/07/1965, n. 11.

[29] Tertúlia, 15/09/1962.

[30] Carta 29/09/1957, n. 13.

[31] Carta, 8/08/1956, n. 7.

[32] Ibid. , n. 1.

[33] Ibid., n. 5.

[34] É Cristo que passa, n. 163.

[35] Instrucción para la obra de San Miguel, n.84.

[36] Bento XVI, Discurso, 22/12/2006.

[37] Caminho, n. 380.

[38] Entrevistas, n. 92.

[39] Carta ao Conselho Geral do Opus Dei, 18/12/1947.

[40] Instrucción para la obra de San Gabriel, n. 9.

[41] Carta, 9/01/1959, n. 7.

[42] Ibid., n. 10.

[43] Ibid., n. 53,

[44] É Cristo que passa, n. 30.

[45] Carta, 9/01/1959, n. 53.

[46] Ibid., n. 17.

[47] Ibid., n. 33.

[48] Instrucción para la obra de San Gabriel, n. 23.

[49] Ibid., n. 15.

[50] Carta 24/10/1942, n. 46.

[51] Carta 9/01/1959, n. 13.

[52] Anotações de uma reunião familiar com os sacerdotes, 26/10/1972, em Arquivo geral da Prelazia, seção PO4 1972, II, p. 767.

[53] Palavras tomadas de sua pregação, no Arquivo geral da Prelazia, seção PO1 1975, p. 809.

[54] Instrucción sobre el espíritu sobrenatural de la Obra, n. 28.


Copyright © Fundación Studium

Proibida toda divulgação pública, total ou parcial, sem autorização expressa do titular do copyright