Agradar a Deus

A chamada do Senhor a “ser perfeitos como o Pai celeste” consiste em viver como filhos de Deus, conscientes do valor que temos a seus olhos, ancorados na esperança e na alegria que nasce de sentirmo-nos filhos de um Pai tão bom.

Opus Dei - Agradar a Deus

Em plena guerra civil espanhola, depois de vários meses escondido em diversos lugares, são Josemaria decidiu abandonar a capital do país. Era preciso chegar a um lugar onde sua vida não corresse perigo, e recomeçar a sua missão apostólica. Com um grupo de filhos espirituais seus, atravessou os Pirineus numa viagem cheia de perigo e conseguiu chegar a Andorra. Depois de passar por Lourdes, dirigiu-se a Pamplona, onde o bispo o acolheu e ofereceu alojamento. Ali, um pouco depois de chegar, no Natal de 1937, fez um retiro espiritual sozinho. Num momento de oração, escreveu: “meditação: muita frieza: no começo, apenas brilhou o desejo pueril de que ‘meu Pai-Deus fique contente, quando tiver que julgar-me’. – Depois, uma forte sacudidela: ‘Jesus, diz-me alguma coisa!’, muitas vezes recitada, cheio de pena pelo meu gelo interior. – E uma invocação à minha Mãe do céu – ‘Mamãe!’ –, e aos Anjos da Guarda, e a meus filhos que estão desfrutando de Deus... e, então, lágrimas abundantes e clamores... e oração. Propósitos: ‘ser fiel ao horário, na vida cotidiana’”[1].

Santidade e perfeccionismo não são a mesma coisa, ainda que em alguns momentos podemos confundi-los

São anotações íntimas nas quais explica como a sua alma se sente, como são seus afetos, seu estado de ânimo, e faz isso intensamente: gelo, lágrimas, desejos... Procura amparo em seus Amores: o Pai, Jesus, Maria. E surpreendentemente, no meio dessa grande tribulação externa pela qual passava nesse momento, faz um propósito que poderia parecer mínimo: viver bem o horário na vida ordinária. Sem dúvida, essa é uma das grandezas de São Josemaria: conjugar uma relação afetiva com Deus, íntima e apaixonada, com a fidelidade na luta diária em coisas comuns, aparentemente insignificantes.

Um risco para aqueles que desejam agradar a Deus

Agradar a alguém é o contrário de entristecê-lo, decepcioná-lo. Como queremos amar a Deus e agradá-lo, é lógico que tenhamos medo de desapontá-lo. Porém, em algumas ocasiões, o medo pode trazer à nossa mente e ao nosso coração justo o que queremos evitar. Por outro lado, o medo é um sentimento negativo, que não pode ser fundamento de uma vida plena. Talvez por isso, “na Sagrada Escritura, encontramos 365 vezes a expressão ‘não temer’, nas suas múltiplas variações, como se dissesse que o Senhor nos quer livres do medo todos os dias do ano”[2].

Existe uma forma de temor contra a qual o Padre nos alertava no começo de sua primeira Carta. Animava-nos a “expor o ideal da vida cristã sem confundi-lo com o perfeccionismo, ensinando a conviver com a própria fraqueza e a dos outros. Assumir com todas as suas consequências uma atitude cotidiana, fundamentada na filiação divina, de abandono repleto de esperança”[3]. Uma pessoa santa teme ofender a Deus. Teme também não corresponder ao seu Amor. O perfeccionista, ao contrário, teme não estar fazendo as coisas suficientemente bem e, por isso, teme que Deus esteja zangado. Santidade e perfeccionismo não são a mesma coisa, ainda que em alguns momentos podemos confundi-los.

Quantas vezes nos irritamos ao ver que nos deixamos levar, mais uma vez, pelas nossas paixões, que voltamos a pecar, que somos fracos para cumprir os propósitos mais simples. Ficamos chateados e chegamos a pensar que Deus está decepcionado: perdemos a esperança de que possa continuar nos amando, de que realmente possamos viver uma vida cristã. A tristeza nos invade. Nesses momentos, é bom recordar que a tristeza é aliada do inimigo: não nos aproxima de Deus, pelo contrário, afasta-nos d’Ele. Confundimos nossa irritação e braveza com uma suposta decepção de Deus. Mas a origem de tudo isso não é o Amor que sentimos por Ele, e sim o nosso eu ferido, a fragilidade que não aceitamos.

Ao ler dos lábios de Cristo, no Evangelho: “sede perfeitos”, desejamos seguir esse conselho, fazê-lo vida nossa, mas corremos o risco de entendê-lo como: “fazei tudo perfeitamente”. Podemos chegar a pensar que, se não fazemos tudo com perfeição, não agradamos a Deus, não somos discípulos autênticos. Com tudo, Jesus esclarece imediatamente o sentido de suas palavras: “Sede, portanto, perfeitos como o vosso Pai celeste é perfeito” (Mt 5,48). É a perfeição que Deus nos abre ao fazer-nos participantes da sua natureza divina. A perfeição do Amor eterno, do Amor maior, do “Amor que move sol e estrelas”[4], o mesmo Amor que nos criou livres e nos salvou “sendo ainda pecadores” (Rm 5,8). Para nós, essa perfeição consiste em viver como filhos de Deus, conscientes do valor que temos a seus olhos, sem nunca perder a esperança nem a alegria que nasce de sentirmo-nos filhos de um Pai tão bom.

agradar a Deus não está em nossas mãos, e sim nas d’Ele

Diante do perigo do perfeccionismo podemos considerar que agradar a Deus não está em nossas mãos, e sim nas d’Ele. “Nisto consiste o amor: não fomos nós que amamos a Deus, mas foi ele que nos amou” (1 Jo 4,10). Por isso, não temos que dizer a Deus como Ele tem que reagir diante da nossa vida. Somos criaturas, e por isso temos que aprender a respeitar a liberdade d’Ele, sem impor por que ou por que não supomos que deve nos amar. De fato, demonstrou-nos seu Amor e, por isso, a primeira coisa que espera de nós é que deixemos que Ele nos ame, do seu jeito.

Deus nos ama livremente

Por que nos custa tanto compreender a lógica de Deus? Não temos demonstrações suficientes de até onde Deus Pai está disposto a chegar para conseguir nos fazer felizes? Não é verdade que Jesus amarra uma toalha na cintura diante dos apóstolos e lava os pés deles?

Em palavras de São Paulo, Deus não poupou seu próprio Filho para nos fazer possível a felicidade para sempre (cfr. Rm 8,32). Quis amar-nos com o Amor maior, até o extremo. No entanto, às vezes, nós continuamos achando que Deus vai nos amar na medida em que “estivermos à altura”, ou formos capazes de “atingir as expectativas”. Não deixa de ser paradoxal. Uma criança pequena precisa “merecer” o amor de seus pais? Talvez estejamos buscando a nós a mesmos com tanta preocupação por “merecer”. A insegurança, a necessidade de procurar pontos de referência estáveis, fixos, nos domina, e queremos encontrá-los nas nossas obras, nas nossas ideias, na nossa percepção da realidade.

Mas basta olharmos para Deus, Pai nosso, e descansar em seu Amor. No Batismo de Jesus e na sua Transfiguração, a voz de Deus Pai diz que se compraz em seu Filho. Nós também fomos batizados e, pela Paixão de Jesus, participamos da sua vida íntima, dos seus méritos, da sua graça. Isso faz com que Deus Pai possa nos olhar satisfeito, contente. A Eucaristia nos transmite, entre outras coisas, uma mensagem muito clara sobre o que Deus sente por nós: tem fome de estar junto de cada um de nós, entusiasmo por nos esperar o tempo que for preciso, desejos de intimidade e amor correspondido.

A luta de uma alma apaixonada

Descobrir o Amor que Deus tem por nós é o maior motivo que temos para amar. Da mesma maneira, “a primeira motivação para evangelizar é o amor que recebemos de Jesus, aquela experiência de sermos salvos por Ele que nos impele a amá-Lo cada vez mais”[5]. Não são ideias abstratas. Vemos isso em exemplos tão humanos como o do endemoninhado Gadareno que, depois de ser libertado por Jesus e ver como seus conterrâneos reprovavam o Mestre, “pediu para que o deixasse ir com ele” (Mc 5,18). Vemos isso também em Bartimeu que, depois de ser curado da sua cegueira, “foi seguindo Jesus pelo caminho” (Mc 10,52). E, finalmente vemos em Pedro, que só depois de descobrir a profundidade do Amor de Jesus, que o perdoa e confia nele depois da sua traição, pode seguir sua chamada: “segue-me” (Jo 21,19). A descoberta do Amor de Deus é o motor mais potente para a nossa vida cristã. É daí que nasce nossa luta.

nós continuamos achando que Deus vai nos amar na medida em que “estivermos à altura”

São Josemaria nos animava a considerar com a perspectiva da nossa filiação divina: “Os filhos..., como procuram comportar-se dignamente quando estão diante de seus pais! E os filhos de Reis, diante de seu pai El-Rei, como procuram guardar a dignidade da realeza! E tu... não sabes que estás sempre diante do Grande Rei, teu Pai-Deus?”[6] A presença de Deus não enche seus filhos de temor. Nem sequer quando caem. Simplesmente porque Ele mesmo quis nos dizer do modo mais claro possível que, também quando caímos, está nos esperando. Como o pai da parábola, está ansioso por vir ao nosso encontro assim que o deixarmos, abraçar-nos e cobrir-nos de beijos (cfr. Lc 15,20).

Diante do possível temor de entristecer a Deus, podemos nos perguntar: este temor me une a Deus, me faz pensar mais n’Ele? Ou me concentra em mim: nas minhas expectativas, na minha luta, nos meus êxitos? Leva-me a pedir perdão a Deus na Confissão e a encher-me de alegria ao saber que Ele me perdoa? Ou me leva à desesperança? Serve para que eu recomece com alegria? Ou me fecha na minha tristeza, nos meus sentimentos de impotência, na frustração que nasce de uma luta baseada nas minhas forças... e nos resultados que consigo?

O sorriso de Maria

Um acontecimento da vida de São Josemaria pode nos ajudar a compreender isto melhor. Trata-se de uma das anotações sobre sua vida interior que escrevia para simplificar a tarefa do seu diretor espiritual. Mesmo que seja um pouco longa, vale a pena citá-la inteira:

“Esta manhã – como sempre que peço humildemente, seja qual for a hora a que me deite –, acordei de um sono profundo, como se me tivessem chamado, com a certeza absoluta de que tinha chegado o momento de me levantar. Efetivamente, eram quinze para as seis. Ontem à noite, também como habitualmente, tinha pedido ao Senhor que me desse forças para vencer a preguiça ao acordar, porque – confesso-o para a minha vergonha – custa-me enormemente uma coisa tão pequena e são bastantes os dias em que, apesar dessa chamada sobrenatural, fico um pouco mais na cama. Hoje, ao ver que horas eram, rezei, lutei... e continuei deitado. Por fim, às seis e quinze do meu despertador (que está estragado há algum tempo), levantei-me e, cheio de humilhação, prostrei-me por terra, reconhecendo a minha falta – serviam! –, vesti-me e comecei a minha meditação. Pois bem: entre as seis e meia e as quinze para as sete, vi, durante bastante tempo, como o rosto da minha Virgem dos Beijos se enchia de alegria, de júbilo. Reparei bem: julguei que sorria, porque me fazia esse efeito, mas os lábios não se mexiam. Muito tranquilo, dirigi à minha Mãe muitos galanteios”[7].

Havia se proposto algo que talvez também suponha uma luta para nós algumas vezes: levantar-se pontualmente. E não tinha conseguido. Era algo que o humilhava. No entanto, não confunde o seu desgosto e a sua humilhação com a magnanimidade do coração de Deus. E viu que a Virgem Maria sorria para ele depois desse fracasso. Não é verdade que tendemos a pensar que Deus está contente conosco quando – e, às vezes, somente quando – fazemos bem as coisas? Por que confundimos nossa satisfação pessoal com o sorriso de Deus, com a sua ternura e o seu carinho? Não se comove da mesma forma quando nos levantamos outra vez depois de uma nova queda?

procurar com o olhar os olhos de Maria, e voltaremos a contagiar-nos com a sua alegria

Já dissemos muitas vezes à Nossa Senhora que fale bem de nós para o Senhor – ut loquaris pro nobis bona. Inclusive algumas vezes imaginamos essas conversas entre Ela e seu Filho. Na nossa oração, podemos entrar nesta intimidade e contemplar o amor de Maria e de Jesus por cada um de nós. “Procurar o sorriso de Maria não é uma questão de sentimentalismo devoto ou antiquado; antes, é a justa expressão da relação viva e profundamente humana que nos liga Àquela que Cristo nos deu por Mãe. Desejar contemplar este sorriso da Virgem não é de forma alguma deixar-se dominar por uma imaginação descontrolada”[8]. Bento XVI recordou isso em Lourdes, falando da pequena Bernadette. Em sua primeira aparição, antes de se apresentar como a Imaculada, a Virgem apenas sorriu. “Maria fez-lhe conhecer antes de mais nada o seu sorriso, como se tal fosse a porta mais apropriada para a revelação do seu mistério”[9].

Nós queremos ver e viver também nesse sorriso. Nossos erros – por maiores que possam ser – não são capazes de apagá-lo. Se nos levantarmos outra vez, podemos procurar seus olhos com o nosso olhar e voltaremos a contagiar-nos com a sua alegria.

Diego Zalbidea


[1]Caminho. Edição Comentada, nota ao n. 746.

[2]Papa Francisco, Mensagem do Santo Padre Francisco para a XXXIII Jornada Mundial da Juventude, 25-III-2018.

[3]F. Ocáriz, Carta pastoral, 14-II-2017, n. 8.

[4] Dante A., Divina Comédia, Paraíso, Canto 33.

[5] Francisco, Ex. Ap. Evangelii Gaudium, 24-XI-2013, n. 264.

[6] São Josemaria, Caminho, n. 265.

[7] São Josemaria, Apuntes íntimos, n. 701; em A. Vázquez de Prada, O Fundador do Opus Dei, vol. I, nt. 139, p. 428.

[8] Bento XVI, Homilia, 15-IX-2008.

[9] Idem.