A Amizade

Jesus Cristo, imagem do rosto misericordioso do Pai e modelo dos cristãos, constitui a melhor definição do que é um amigo.

Opus Dei - A Amizade

Jesus Cristo, imagem do rosto misericordioso do Pai e modelo dos cristãos, constitui a melhor definição do que é um amigo. Basta abrir o evangelho de São João, na última ceia e escutar as afirmações do Senhor: “Este é meu mandamento: amai-vos uns aos outros, como eu vos amei. Ninguém tem amor maior do que aquele que dá a vida por seus amigos” (Jo 15, 12-13). O pranto pela morte do seu amigo Lázaro, a tristeza ante a deserção do jovem rico, o diálogo com Judas no horto das oliveiras são, sem dúvida, mostras da amizade de Jesus, da intimidade com os seus amigos.

1. Um preço incalculável

O amigo chega quando todo mundo já foi embora. É quem está perto, especialmente, nos momentos de necessidade. Quanto maior é a ajuda de que se necessita, mais perto estará. O amigo não abandona o amigo em circunstâncias que poderiam prejudicá-lo. Como se nota a presença do amigo!

A amizade cria fortes vínculos de confiança e lealdade. Para o pensamento clássico, a amizade é a relação humana natural por excelência, pois nela se dão as condições para um trato livre e recíproco. Por esta razão, é considerada uma condição sine qua non para a vida feliz. Segundo Aristóteles, a amizade é o mais necessário para a vida, de modo que “o homem feliz necessita de amigos”[1]. Sem amigos ninguém quereria viver, embora possuísse os outros bens, porque a prosperidade não serve de nada se não há possibilidade de fazer o bem, que se exercita sobre a base da amizade: “é próprio do amigo fazer o bem”[2].

A amizade requer fortaleza, decisão, um espírito sacrificado, generosidade, tempo

A boa comunicação e o tempo, os anseios compartilhados, as confidências mútuas, o afeto crescente, a admiração e o respeito por ambas as partes criam pouco a pouco laços fortes, que nem a distância, nem o silêncio, nem o tempo rompem. A disposição de acudir para acompanhar, ajudar, consolar o amigo sempre está presente. E tudo sem interesse, por pura generosidade que não se detém ante a dificuldade: “louvamos as pessoas amigas de seus amigos, e pensamos que uma das coisas mais nobilitantes é ter muitos amigos; além disto, há quem diga que a bondade e a amizade se encontram nas mesmas pessoas”[3].

Antoine de Saint-Exupéry escreveu num momento importante da sua vida: “preciso tanto da tua amizade. Tenho sede de um companheiro que, acima dos litígios da razão, respeite em mim o peregrino desse fogo... Posso entrar na tua casa sem vestir um uniforme, sem me submeter à recitação de um Corão, sem renunciar ao que quer que seja da minha pátria interior. Ao teu lado não tenho de me desculpar, não tenho de pleitear, não tenho de provar; eu encontro a paz... Eu vejo em ti a vontade de aceitar-me tal como sou ... Meu amigo, preciso de ti como de um cimo onde se respira! ... Preciso te ajudar a viver”[4].

A amizade requer fortaleza, decisão, um espírito sacrificado, generosidade, tempo. Há muitos modos de lealdade entre amigos:

  • A defesa do outro quando as circunstâncias o requeiram e embora signifique para mim a perda de algo importante.
  • Manter sempre interesse pelos assuntos do amigo.
  • Acompanhá-lo em contratempos e desgraças.
  • Responder a suas petições.
  • Falar com sinceridade sobre as coisas que faz mal e ajudá-lo a ser melhor.
  • Compartilhar com ele preocupações, penas, alegrias, festas.
  • Respeitar sua intimidade e guardar em segredo as suas confidências.
  • Cumprir as promessas.

A amizade necessita de paciência por ambas as partes: com os defeitos do amigo, com as suas obsessões e obstinações, às vezes com seus longos silêncios, outras com as suas irritações, desacertos, ofensas se estas nos atingem, as suas preocupações insignificantes, em suma.

A inveja está essencialmente em desacordo com a amizade, bem como os ciúmes, que causam tantos males, porque o bem do amigo não pode me causar tristeza. A estima do meu amigo por outras pessoas não tira nada à confiança que tem em mim quando é verdadeiramente amigo.

A amabilidade, a simpatia, o humor, a benevolência, a flexibilidade, o bom coração, a compreensão, a generosidade, a alegria, o perdão, o carinho, a compaixão e mais coisas boas devem estar presentes no trato entre amigos, e, nessa amizade tão particular e única entre marido e mulher. Todos estes ingredientes salvam a amizade quando surgem conflitos.

Provavelmente não serei amigo do varredor que vejo um dia fugazmente enquanto recolhe as folhas mortas e eu atravesso a rua. Posso, contudo, tratá-lo com amabilidade e cordialidade e desejar-lhe um bom dia. Talvez não voltarei a ver a pessoa que me pede indicação sobre um endereço na rua, mas a minha resposta deve brotar de pôr-me em seu lugar e ser afável. Se uma pessoa me liga, interrompendo o meu trabalho para fazer uma consulta, poderia responder-lhe com pouca cordialidade; não obstante, posso compreender a sua situação, conter meu desconforto e ser amável. Também com a pessoa que se enganou de telefone e me liga quando, na realidade, queria falar com a loja da esquina.

Esta familiaridade e proximidade com quem pede a minha atenção sem me conhecer, consola, tira de apuros. E se a pessoa recebe uma boa resposta – talvez acompanhada também de um sorriso e de um olhar amigável – agradece, pensa que não está sozinha, que a vida não é tão cruel e se alegra. Reconhece nesta voz, neste rosto que esquecerá, a parte boa da humanidade e, talvez volte a confiar na vida.

Pode-se considerar o companheirismo como uma forma menor de amizade. É um vínculo e uma relação que surge entre pessoas que compartilham uma tarefa, são unidas pelo trabalho, por um projeto, pelos estudos. E deste objetivo comum que as reúne dia após dia, deste compartilhar dificuldades e sucessos surgem laços de simpatia e afeto que podem levar à amizade. Sentimo-nos também solidários com uma pessoa que espera na mesma fila da bilheteria para comprar uma entrada.

A caridade fortalece e enriquece a amizade, torna-nos mais humanos, com mais capacidade de compreensão, mais abertos a todos

É oportuno recordar aqui que o trato dentro de um grupo ou de uma equipe deve manter as características da amizade: apreço, lealdade, serviço, apoio, interesse de uns pelos outros, espírito de cooperação.

Um filósofo francês do século XX o expressava assim: “É preciso instalar-se no coração dos outros, colocar-se em seu lugar. É necessário estar no próximo como em casa, falar na linguagem de cada um. Sócrates e Joana d’Arc deixavam-se ver de perto”[5]. Ver de perto não de uma distância infinita, própria dos que não têm nenhum interesse em conhecer e tratar.

“Na adversidade se provam os amigos verdadeiros, pois na prosperidade todos parecem fiéis”[6]. Um antigo refrão diz com sabedoria que as boas fontes se conhecem nos momentos de seca, a amizade sincera se manifesta na dificuldade.

A caridade fortalece e enriquece a amizade, torna-nos mais humanos, com mais capacidade de compreensão, mais abertos a todos. Se Cristo é o melhor amigo, aprenderemos d’Ele a fortalecer uma relação que talvez já estava deteriorada, a tirar um obstáculo, a superar o egoísmo e a comodidade de ficarmos em nós mesmos.

2. Os verdadeiros amigos

A amizade verdadeira é desinteressada, pois consiste mais em dar do que em receber, não busca o proveito próprio, mas o do amigo, há de ser leal e sincera, exige renúncias, retidão, troca de favores, de serviços nobres e lícitos. O amigo é forte e sincero.

Para que haja verdadeira amizade, é necessário que exista correspondência, é preciso que o afeto e a benevolência sejam mútuos. A amizade sempre tende a fazer-se mais forte: não se deixa corromper pela inveja, não esfria por suspeitas, cresce na dificuldade. Compartilham-se, então, com naturalidade as alegrias e as penas.

A amizade é um grande bem humano e, ao mesmo tempo, ocasião para desenvolver muitas outras virtudes naturais.

O bom amigo não abandona nas dificuldades, não trai, nunca fala mal do seu amigo nem permite que, ausente, seja criticado, porque sai em sua defesa. Amizade é sinceridade, confiança, compartilhar penas e alegrias, animar, consolar, ajudar.

É próprio da amizade dar ao amigo o melhor que se possui

Alec Guinness, ator importante em seu tempo, convertido ao catolicismo, termina as suas memórias com estas grandes palavras: “Deixar amigos para trás deve ser triste e amargo, inclusive quando sabemos que muitos ganharam triunfalmente a nossa dianteira, embora de algum modo misterioso, continuamos em contato com eles. Se de algo posso me orgulhar nesta vida é disto: creio não ter nunca perdido um amigo”[7].

É próprio da amizade dar ao amigo o melhor que se possui. Nosso mais alto valor, sem comparação possível, é o ter encontrado o Senhor. Não teríamos verdadeira amizade se não quiséssemos transmitir o imenso dom da fé cristã. Nossos amigos devem encontrar apoio e fortaleza em nós e um sentido sobrenatural para a sua vida.

A segurança de encontrar compreensão, interesse, atenção, moverá os amigos à confiança, com a segurança de que são apreciados, de que estamos dispostos a ajudá-los. E isto, enquanto realizamos as nossas tarefas normais de todos os dias, procurando ser exemplares na profissão ou no estudo, estando abertos ao trato e ao afeto com todos, impulsionados pela caridade.

3. A amizade protege da solidão

A solidão, de certo modo, é parte da condição humana e só a própria pessoa pode sustentar a sua existência. Mas é difícil conduzir-se a si mesmo através das vicissitudes, não só em meio às coisas que ocorrem, mas também interiormente, porque sentimos dentro de nós a nossa fragilidade, como a dor, a incerteza, a espera.

Muitos homens se encontram com uma solidão que parece irremediável. Talvez perderam a capacidade de escuta e de diálogo com Deus. Encontram-se perigosamente sós e sem norte.

Provavelmente, em nenhuma época como na nossa, falou-se tanto de solidão, de “multidões solitárias”, chamando-se precisamente o nosso tempo a “era das comunicações”. Podemos comunicar-nos rapidamente com qualquer lugar do mundo com um gesto mínimo.

o homem está feito para a doação de si mesmo e, quando não se entrega, morre

O mal terrível da solidão somente se supera, em primeiro lugar, com a companhia d’Aquele que nunca abandona e, como complemento, talvez inseparável e necessário, na abertura generosa aos outros, que se torna possível pela amizade. Um velho provérbio diz com grande sabedoria que “quem não tem amigos vive só a meias”.

Isto é assim porque a pessoa – cada um, único no mundo e para toda a eternidade – foi criada por Deus para coisas grandes e tem sobre si a tarefa de levá-las a cabo. Mais: o homem está feito para a doação de si mesmo e, quando não se entrega, morre. Primeiro se empobrece e depois morre.

Seria formidável que pudéssemos chamar de amigos às pessoas com que trabalhamos ou estudamos, com que convivemos, com quem nos relacionamos com mais frequência. Amigos, não somente companheiros, colegas ou vizinhos. Isto significaria que nos esforçamos nas virtudes que fomentam e tornam possível a amizade.

A amizade protege da solidão porque os amigos são os únicos que podem entrar nessa esfera pessoal onde a vida pesa e onde doem as coisas que nos ocorrem. A comunicação, que a amizade permite, abre essa porta, quase sempre fechada, e deixa os amigos passarem ao espaço interior onde existimos.Os amigos podem entrar: deixamo-los entrarem. Necessitamos que entrem para que rompam a solidão: esta solidão que é compatível com a atenção aos outros, com o nosso interesse pelos outros e com as responsabilidades que assumimos.

Contam de Alexandre Magno que, estando prestes a morrer, os seus parentes mais próximos repetiam-lhe insistentemente: “Alexandre, onde estão teus tesouros?”. “Meus tesouros? – respondeu Alexandre -. No bolso dos meus amigos”. No final da nossa vida também os nossos amigos deveriam dizer que compartilhamos sempre com eles o melhor que tivemos.

4. Recuperar amizades

É possível recuperar amigos perdidos, amizades que se romperam por alguma causa que, talvez, não fosse tão importante. As pessoas podem mudar e, além disso, o que sabemos nós do que acontece em seu coração?

São Bernardo, para recompor laços quebrados ou que estão prestes a romper, aconselha: “Ainda que vejais algo de errado, não julgueis imediatamente o vosso próximo, mas desculpai-o no vosso interior. Desculpai a intenção, se não puderdes desculpar a ação. Pensai que terá sido levado a ela por ignorância, por surpresa ou por fragilidade. Se a coisa for tão clara que não vos seja possível dissimulá-la, ainda assim procurai crer desse modo e dizei no vosso interior: a tentação deve ter sido muito forte”[8].

Conservar amigos é grande virtude e maior ainda a de restabelecer amizades que se tenham debilitado ou quebrado.

O Senhor nos quer como somos, também com nossos defeitos e, para mudar-nos conta com a graça e com o tempo. Ante os defeitos de nossos amigos não deve faltar nunca a caridade, que move à compreensão e à ajuda.

A simplicidade permite deixar de lado possíveis ofensas que não eram intencionais.

Extraído do capítulo Amistad I do livro de F.FERNANDEZ CARVAJAL. Pasó haciendo el bien, Madrid, Palabra2016.


[1] Aristóteles, Ética a Nicômaco, IX, 1170 b 15-19.

[2] Aristóteles, Ibidem, IX, 1171 b 14-25.

[3] Aristóteles, ibidem, VIII, 1155 a.

[4] A.de Saint-Exupéry, Carta a um refém.

[5] J. Guitton, A arte de viver e pensar, pp.79-80.

[6] Santo Ambrósio, Sobre o ofício dos ministros, III, 127.

[7] A. Guinness, Memórias, p.307.

[8] São Bernardo, Sermão 40 sobre o Cântico dos Cânticos.


Foto: Matheus Ferrero