Quais cartas são reunidas neste novo volume?
O novo volume, intitulado Cartas III, edição crítica e anotada, reúne cinco cartas. As duas primeiras, que correspondem às cartas de números 9 e 10 do conjunto de Cartas de São Josemaria que o Instituto está publicando, tratam do sacerdócio na Obra: sua necessidade para a realização da missão eclesial do Opus Dei e a atenção pastoral peculiar que esses sacerdotes, provenientes de leigos que exerceram uma profissão e conhecem bem as realidades do mundo em que vivem, prestam.
A Carta n. 11 aborda as diferentes dimensões da formação recebida pelos membros da Obra: humana, espiritual, apostólica, doutrinal-religiosa e profissional. A seguinte, a de número 12, aborda um tema de grande atualidade: o testemunho cristão e o empenho evangelizador nos meios de comunicação. A última carta, a de número 14, concentra-se em um dos aspectos-chave da mensagem de São Josemaria: o trabalho como caminho de santificação, evangelização e vivificação do mundo com valores cristãos.
O volume não inclui a carta n. 13, que, devido à sua extensão, será publicada em um volume à parte.
Quais traços você destacaria da mensagem dessas cartas?
Destacaria, antes de mais nada, o seu forte compromisso com o nosso mundo, ou seja, o desejo de que os cristãos levem Cristo a todas as realidades da Terra. Essa é uma missão que cabe particularmente aos leigos que vivem a fé — ainda que a mensagem dessas cartas interesse, creio eu, a qualquer cristão —, e na qual os sacerdotes cumprem uma função de acompanhamento e apoio.
Todas as cartas destacam, de um modo ou de outro, a importância da participação pessoal do cristão na construção de um mundo melhor, mais justo e com mais paz. Essa missão se realiza assumindo responsavelmente o que corresponde a cada um em seu posto de trabalho, em sua família, nos âmbitos culturais, científicos ou recreativos que frequenta e, também, segundo as possibilidades de cada um, nos meios de comunicação.
Ao mesmo tempo, São Josemaria lembra que o ativismo ou o simples compromisso social não bastam para anunciar Cristo; é necessário se encher de Deus para poder levá-lo aos outros. Ele fala em ter uma perspectiva sobrenatural em todas as atividades (Cf. Carta 11, n. 25). O objetivo é claro: levar Deus ao mundo e o mundo a Deus.

Por isso, destaca a importância de cultivar uma vida contemplativa: “unir a alma e o espírito a Deus, nosso Pai, pela oração, pela contemplação, com um amor ininterrupto: mergulhar em Deus os sentidos, a imaginação, as potências da alma” (Carta 11, n. 28.a). E isso também deve ocorrer enquanto se trabalha ou se desempenha qualquer outra ocupação.
As cartas contêm, portanto, uma grande mensagem de evangelização: interessar-se por todas as pessoas com quem nos encontramos para facilitar seu encontro com Deus, que dá sentido à nossa vida. Podemos ler, por exemplo: “Este é o nosso espírito: sentir o lamento de tantos corações áridos, que parecem dizer-nos (...) não tenho quem me dê uma mão e me aproxime da luz e do calor de Cristo” (Carta 11, n. 40).
Por fim, devemos considerar que estamos diante de uma série de textos inéditos de um dos grandes autores espirituais do século XX. Não se trata de escritos secundários, mas de obras de grande importância dentro do legado espiritual e literário de São Josemaria.
Esses textos foram escritos há décadas. Eles ainda podem dizer algo ao leitor atual?
Creio que sim. Embora tenham sido pensados inicialmente para fazer chegar aos membros do Opus Dei a mensagem recebida por São Josemaria, creio que essas cartas são muito atuais. Podem ser úteis a quem se interroga sobre como transmitir o Evangelho em uma sociedade tecnológica como a nossa, sobre como se comprometer com a melhoria do mundo, com a construção da paz e com a defesa da dignidade humana, sobre como estar plenamente inserido nas realidades terrenas e, ao mesmo tempo, muito empenhado em Deus, para levá-lo conosco até o último recanto do mundo.
Independentemente de certos aspectos vinculados a um contexto histórico específico, os leitores perceberão que, no fundo, há princípios que transcendem esse contexto e são capazes de iluminar também as nossas circunstâncias atuais.
São Josemaria era consciente dessa questão, e de fato, em uma de suas cartas, ele expõe como manter vivo o espírito que ele mesmo ensina. Propõe que a condição secular dos cristãos — o fato de estarmos imersos na época que nos coube viver — permite, segundo ele, “viver com agilidade, sem imobilismos, o espírito que o Senhor nos deu”. Esse espírito, por sua própria natureza, não está limitado por determinadas circunstâncias de lugar e de tempo, mas responderá sempre às diversas mudanças e situações que, ao longo dos séculos, forem surgindo na sociedade humana” (Carta 11, n. 19b).
Essa afirmação parece ter uma ressonância especial no momento presente. A recente encíclica do papa Leão XIV, Magnifica Humanitas, dedicada à salvaguarda da pessoa humana na era da inteligência artificial, lembra que a transformação tecnológica não é apenas um assunto técnico ou econômico, mas também suscita questões fundamentais sobre a dignidade da pessoa, o bem comum, o trabalho, a liberdade, a comunicação, a paz e sua relação com Deus. Não basta aceitar ou recusar o progresso tecnológico; é preciso orientá-lo para uma vida verdadeiramente humana.
Nesse contexto, as cartas de São Josemaria oferecem uma perspectiva muito interessante. Diante do risco de a dignidade humana ser obscurecida em uma sociedade cada vez mais condicionada pela técnica, ele afirma que “não há incompatibilidade entre o cristianismo e os problemas que surgem com o progresso da cidade temporal, mas — pelo contrário — os verdadeiros valores do homem e sua dignidade pessoal e social unicamente poderão ser salvaguardados se estiverem integrados à concepção cristã da vida” (Carta 11, n. 15b).
Na minha opinião, isso é um chamado para compreendermos que um dos maiores serviços que se pode prestar à humanidade hoje é integrar esses valores cristãos em todos os âmbitos da vida: no trabalho, na cultura, na comunicação, na ciência, na educação, na economia e na convivência social. Diante dos problemas observados em nossa sociedade, a atitude evangélica proposta por São Josemaria não é fugir do mundo ou olhá-lo com desconfiança, mas amá-lo, compreendê-lo e transformá-lo de dentro para fora, com um sentido cristão, espírito de serviço e responsabilidade pessoal.
Quais são os planos para a publicação das cartas?
Continuamos trabalhando sem pressa, mas sem pausa, considerando que ainda há muitos textos para serem preparados e publicados. Se São Josemaria ensinou a trabalhar bem em todos os âmbitos, tanto mais o merece a edição de textos aos quais se dedicou com muita atenção e que se destacam por aquilo que ele definia como sua “preocupação primordial e urgente de conservar em toda a sua integridade a essência da nossa vocação sobrenatural e transmiti-la com a maior diligência” (Carta 9, n. 3a).
Como algumas dessas cartas são bastante extensas, estamos estudando qual será a melhor distribuição em volumes, levando em conta vários critérios: o serviço à formação dos membros da Obra — finalidade para a qual foram escritas — e sua melhor assimilação, e o interesse que oferecem aos estudiosos, que nelas encontram algumas das melhores reflexões do Fundador sobre o carisma do Opus Dei.
Por ora, pode-se dizer que nos próximos anos continuarão a ser publicadas novas cartas. Também convém lembrar que, há algumas semanas, foi publicada a edição histórico-crítica da primeira instrução (disponível em PDF a partir de setembro), um tipo particular de carta com a qual São Josemaria pretendia orientar de modo mais prático e operacional a atividade formativa do Opus Dei acerca do espírito sobrenatural da Obra. Ela está presente no último número da revista Studia et Documenta, correspondente a 2026, já disponível para assinantes e, a partir de setembro, para todo o público. Apesar de ser breve, parece-me um texto fundamental para se entender aspectos-chave da fundação do Opus Dei.
No total, até o momento, foram publicadas dezesseis Cartas e uma Instrução. Eu diria que estamos, aproximadamente, em um terço da publicação desse legado espiritual, que considero um tesouro para toda a Igreja.
Disponível em espanhol pela Editora Rialp Cartas III (Edición crítico-histórica)

