“Sempre procurei Deus. Só não sabia que era isso”

Como uma estudante de Direito, movida por um senso de justiça e agnóstica convicta, acabou encontrando em sua trajetória acadêmica muito mais do que códigos e leis? A história de Ana Bia revela o paradoxo de quem, ao buscar a fundamentação da virtude, encontrou uma resposta inesperada que transformou sua visão de mundo.

Cresci numa família mais ou menos de fé, mas fui me distanciando dela aos poucos. Acreditava num Deus bom quando era criança, parei de rezar aos dez anos e, aos dezoito, quando entrei na Faculdade Belavista, já me considerava completamente agnóstica.

Escolhi Direito porque sempre gostei de fazer o que é certo e sempre tive um senso aguçado de justiça – não a lei pelo cumprimento da lei, mas a justiça como virtude, como algo a ser cultivado, embora na época eu não soubesse colocar nessas palavras. Foi essa intuição que me levou à Belavista. No final do ensino médio, fui com algumas amigas a uma aula aberta para conhecer mais de perto o curso de Direito: era o professor Jabur explicando a relação entre direito, moral e ética de um modo que eu nunca havia ouvido antes. Saí dali sabendo que era ali que eu deveria estudar.

O que eu não sabia é que havia algo mais esperando por mim.

O que começa nos almoços

No primeiro semestre, conheci e fiz novas amigas, como Dani, Letícia e Júlia: eram meninas que tinham uma forma de enxergar o mundo que eu nunca havia encontrado antes (por quê?). Em alguns almoços, falávamos de coisas mais profundas: elas explicavam que Deus estava no centro de suas vidas, como uma âncora: um lugar ao que podiam sempre voltar. Eu ouvia e fazia perguntas, algo que sempre gostei de fazer, para entender essas coisas que nunca tinha pensado.

Em sala de aula, algo paralelo estava acontecendo. Em Filosofia da Natureza, uma das matérias do Core Curriculum, me deparei com o argumento metafísico do "ato puro": tudo que passa de potência a ato pressupõe algo que sempre foi ato - algo que nunca precisou ser movido para mover. A ideia aterrissou em mim com uma clareza inesperada, porque se tudo o que existe é uma mistura de potência e ato, e potência não se atualiza sozinha, alguma coisa tem que sustentar tudo isso. E isso, conclui, tem que ser Deus.

Aquela pontinha de crença que eu carregava sem conseguir nomear começou a ganhar fundamento, e as aulas de Antropologia, que vieram na sequência, foram como receber um vocabulário inteiro de uma só vez. Aprendi algumas premissas fundamentais sobre o ser humano: somos o único ser para quem a própria existência se torna uma pergunta – os outros animais vivem, mas nós precisamos descobrir por que vivemos. Essa abertura para o sentido não é um acidente; é constitutiva, inscrita na nossa natureza, no fato de termos inteligência e vontade voltadas para algo que nos transcende. Quando entendi isso, o desconforto que eu sentia antes ganhou nome: era a inquietação de uma criatura feita para algo maior, tentando se contentar com menos. A Antropologia me deu palavras para o que eu já sentia.

Quando a Dani me convidou para assistir às suas aulas de doutrina, aceitei. Não porque acreditava, isso ainda não era verdade, mas porque queria entender.

O Sonho de um Homem Ridículo

Na aula de Literatura, o primeiro livro foi um conto de Dostoievski: "O Sonho de um Homem Ridículo". O protagonista é um homem sozinho e muito sofrido que, convencido de que nada importa, decide acabar com a própria vida; no caminho, uma criança lhe pede ajuda, e ele passa por ela sem parar - um gesto pequeno, quase invisível, que, no entanto, resume tudo o que ele se tornou. Em casa, adormece e vive uma espécie de “experiência espiritual” que inverte sua vida inteira: aquele homem que não via razão para existir acorda sem conseguir parar de falar sobre o sentido da vida, sobre o sentido de uma vida entregue aos outros.

Eu me reconheci ali de um jeito difícil de explicar. Pensei nas muitas crianças que eu também havia deixado passar pelo caminho - os pedidos pequenos, os momentos que estavam ali pedindo atenção e que eu ignorava porque não me pareciam caber na vida que eu achava estar construindo. Antes da Belavista, eu era uma pessoa muito pessimista; a vida tinha pouca cor, e eu não sabia por quê. Hoje vejo que aquela falta de cor não era um veredito sobre o mundo, era o sintoma de alguém que tinha parado de procurar - e encontrar esse conto - logo no início do curso foi como ler o meu próprio caminho descrito por alguém que viveu há dois séculos.

No avião, em julho

Nas férias entre o primeiro e o segundo semestre, aconteceu o que eu não esperava. Sempre tive medo de avião - desse medo difuso que mistura a sensação física da decolagem com a consciência repentina de que não se está no controle de nada. Naquele voo, quando o avião começou a subir, meu primeiro instinto não foi buscar a mão da minha mãe, que estava ao meu lado e que já o faria por reflexo; foi rezar: não pedi para Deus segurar o avião, pedi para Ele ficar comigo. Era a primeira vez que eu rezava desde os dez anos, e ainda ali, com o coração apertado por uma razão tão pequena, eu sabia que alguma coisa tinha mudado em mim.

Quando as aulas voltaram, procurei a Letícia e pedi que me ajudasse a me aproximar da Igreja, e a primeira missa a que fui foi na Igreja do Calvário, ao lado da faculdade, onde não entendia quase nada do que acontecia - não sabia quando sentar, quando ajoelhar. A segunda foi numa missa de domingo, em outra igreja, e, como chegamos atrasadas, ficamos no fundo, com as pessoas em pé cobrindo a minha visão do altar - até que todos sentaram ao mesmo tempo, e que vi o Sacrário pela primeira vez. Me arrepiei inteira. Foi uma das experiências mais marcantes que eu já vivi.

O que mudou, concretamente

Antes de entrar na Belavista, eu estudava pelo futuro - pela minha carreira, minha independência e estabilidade financeira. No segundo semestre, algo havia mudado de lugar: continuo querendo tudo isso, mas agora sei que estudar com muito empenho é o que Deus quer de mim. E quando eu estou cansada, penso: esse sofrimento é pouco comparado com o que Cristo fez por mim.

Das aulas de doutrina, ficou uma expressão que eu guardo: os sacramentos são um abraço divino. Era isso que eu sempre pensei que Deus era - uma Pessoa amorosa.

O fio invisível

Em junho, serei batizada.

Entrei na faculdade agnóstica, fui à primeira missa sem saber o que era a Eucaristia e rezei pela primeira vez em anos dentro de um avião - cheguei até aqui por um caminho que, visto de fora, parece uma série de coincidências, mas que, visto de dentro, parece outra coisa. Deus escreveu muito bem a minha vida, porque se eu não tivesse conhecido a Belavista não teria conhecido a Obra, e se não tivesse conhecido a Obra não teria me convertido.

Eu, que escolhi Direito porque sempre acreditei que fazer o certo importa, descobri que essa convicção tinha raiz mais profunda do que imaginava.

Sempre procurei Deus. Só não sabia que era isso.

Ana Beatriz Bandeira, maio 2026

Ana Beatriz Bandeira