13. Tiago, o menor

O Apóstolo São Tiago, o Menor empenhou-se na difícil conciliação entre os cristãos de origem judaica e os provindos do paganismo. Atribui-se a este apóstolo Carta que leva o seu nome, a primeira das Epístolas Católicas. Dele é a frase: “a fé sem obras está morta”.

Foto: GualdimG. Tríptico de S. Tiago Menor e S. Filipe, de cerca de 1527-31, atribuído ao pintor flamengo Pieter Coecke van Aelst, proveniente da Igreja do Socorro, no Funchal, ilha da Madeira.

Quarta-feira, 28 de junho de 2006

Queridos irmãos e irmãs!

Ao lado da figura de Tiago “o Maior”, filho de Zebedeu, da qual falamos na quarta-feira passada, nos Evangelhos aparece outro Tiago, que é chamado “o Menor”. Também ele faz parte das listas dos doze Apóstolos escolhidos pessoalmente por Jesus, e é sempre identificado como “filho de Alfeu” (cf. Mt 10, 3; Mc 3, 18; Lc 5; At 1, 13). Com frequência ele foi identificado com outro Tiago, chamado “o Menor” (cf. Mc 15, 40), filho de uma Maria (cf. ibid.), que poderia ser a “Maria de Cléofas”, presente, segundo o Quarto Evangelho, aos pés da Cruz juntamente com a Mãe de Jesus (cf. Jo 19, 25). Também ele era natural de Nazaré e provavelmente parente de Jesus (cf. Mt 13, 55; Mc 6, 3), do qual, à maneira semítica, é considerado “irmão” (cf. Mc 6, 3; Gl 1, 19).

Deste último Tiago, o livro dos Atos destaca o papel de destaque desempenhado na Igreja de Jerusalém. No Concílio apostólico ali celebrado depois da morte de Tiago, o Maior, afirmou juntamente com os outros que os pagãos podiam ser acolhidos na Igreja sem antes terem que se submeter à circuncisão (cf. At 15, 13). São Paulo, que lhe atribui uma aparição específica do Ressuscitado (cf. 1Cor 15, 7), por ocasião de sua ida a Jerusalém menciona-o inclusive antes de Cefas-Pedro, qualificando-o como “coluna” daquela Igreja, assim como ele (cf. Gl 2, 9). Em seguida, os judeus-cristãos consideraram-no seu principal ponto de referência. A ele também é atribuída a Carta que leva o nome de Tiago e que está incluída no cânon neotestamentário. Ele não se apresenta nela como “irmão do Senhor”, mas como “servo de Deus e do Senhor Jesus Cristo” (Tg 1, 1).

Entre os estudiosos, debate-se a questão da identificação destas duas personagens com o mesmo nome: Tiago, filho de Alfeu, e Tiago, “irmão do Senhor”. As tradições evangélicas não nos conservaram nenhuma narrativa sobre um nem sobre o outro referente ao período da vida terrena de Jesus. Os Atos dos Apóstolos, ao contrário, mostram-nos que um “Tiago” desempenhou um papel importante, como já mencionamos, depois da ressurreição de Jesus, na Igreja primitiva (cf. At 12, 17; 15, 13-21; 21, 18).

O ato mais relevante por ele realizado foi a intervenção na questão do difícil relacionamento entre os cristãos de origem judaica e os de origem pagã: nisso ele contribuiu, juntamente com Pedro, para superar, ou melhor, integrar a dimensão originária judaica do cristianismo com a exigência de não impor aos pagãos convertidos a obrigação de se submeterem a todas as normas da Lei de Moisés. O livro dos Atos preservou-nos a solução de compromisso proposta precisamente por Tiago e aceita por todos os Apóstolos presentes, segundo a qual aos pagãos que acreditassem em Jesus Cristo se devia pedir apenas que se abstivessem do uso idolátrico de comer carne de animais oferecidos em sacrifício aos deuses e da “impureza sexual”, palavra que provavelmente se referia às uniões matrimoniais não permitidas. Na prática, tratava-se de aderir apenas a algumas proibições, consideradas bastante importantes, da legislação mosaica.

Deste modo, obtiveram-se dois resultados significativos e complementares, ambos ainda hoje válidos: por um lado, reconheceu-se a relação inseparável que une o cristianismo à religião hebraica como sua marca permanentemente viva e válida; por outro, permitiu-se que os cristãos de origem pagã conservassem sua própria identidade sociológica, que teriam perdido se tivessem sido obrigados a observar os chamados “preceitos cerimoniais” mosaicos: eles já não deviam ser considerados obrigatórios para os pagãos convertidos. Em resumo, iniciava-se uma prática de estima e respeito recíprocos que, apesar das lamentáveis incompreensões posteriores, tinha por sua própria natureza a finalidade de preservar tudo o que caracterizava cada uma das duas partes.

A informação mais antiga sobre a morte deste Tiago é-nos oferecida pelo historiador judeu Flávio Josefo. Nas suas Antiguidades Judaicas (20, 201s), redigidas em Roma por volta do ano 93, ele narra que o fim de Tiago foi decidido por uma iniciativa ilegítima do sumo sacerdote Anano, filho de Anás, mencionado nos Evangelhos, o qual aproveitou o intervalo entre a destituição de um procurador romano (Festo) e a chegada de seu sucessor (Albino) para decretar sua lapidação no ano 62.

Em nome deste Tiago, além do apócrifo Protoevangelho de Tiago, que exalta a santidade e a virgindade de Maria, Mãe de Jesus, está particularmente relacionada a Carta que leva seu nome. No cânon do Novo Testamento ela ocupa o primeiro lugar entre as chamadas “Cartas católicas”, isto é, destinadas não a uma única Igreja particular — como Roma, Éfeso etc. —, mas a muitas Igrejas. Trata-se de um escrito bastante importante, que insiste muito na necessidade de não reduzir a própria fé a uma mera declaração verbal ou abstrata, mas de expressá-la concretamente em obras de bem. Entre outras coisas, ele nos convida à perseverança nas provações alegremente aceitas e à oração confiante para obter de Deus o dom da sabedoria, graças ao qual chegamos à compreensão de que os verdadeiros valores da vida não consistem nas riquezas passageiras, mas antes em saber compartilhar os próprios bens com os pobres e necessitados (cf. Tg 1, 27).

Assim, a Carta de São Tiago mostra-nos um cristianismo muito concreto e prático. A fé deve realizar-se na vida, sobretudo no amor ao próximo e, particularmente, no compromisso com os pobres. É com base nisso que deve ser lida também a famosa frase: “Assim como o corpo sem espírito está morto, assim também a fé sem obras está morta” (Tg 2, 26). Por vezes esta declaração de Tiago foi contraposta às afirmações de Paulo, segundo as quais somos justificados por Deus não em virtude das nossas obras, mas graças à nossa fé (cf. Gl 2, 16; Rm 3, 28). Contudo, as duas afirmações, aparentemente contraditórias em suas diferentes perspectivas, na realidade, se forem bem interpretadas, completam-se. São Paulo opõe-se ao orgulho do homem que pensa não precisar do amor de Deus, que sempre nos precede; opõe-se ao orgulho da autojustificação, sem a graça gratuitamente concedida e não merecida. Ao contrário, São Tiago fala das obras como fruto natural da fé: “A árvore boa produz bons frutos”, diz o Senhor (Mt 7, 17). E São Tiago repete e transmite-nos esse ensinamento.

Por fim, a Carta de Tiago exorta-nos a abandonar-nos nas mãos de Deus em tudo o que fazemos, pronunciando sempre as palavras: “Se o Senhor quiser” (Tg 4, 15). Assim, ele nos ensina a não presumirmos que planejamos a nossa vida de modo autônomo e interessado, mas a dar espaço à vontade insondável de Deus, que conhece o verdadeiro bem para nós. Desta forma, São Tiago permanece um mestre de vida sempre atual para cada um de nós.