A história de uma vocação e de uma fotografia

Em 14 de abril de 1949, um jovem e brilhante intelectual, Álvaro d'Ors, pediu pessoalmente a admissão no Opus Dei a São Josemaria. Também em abril, mas de 1968, os dois tiraram uma fotografia especial, em que aparece com eles o Dr. Eduardo Ortiz de Landázuri, agora em processo de beatificação.

Opus Dei - A história de uma vocação e de uma fotografiaSão Josemaria com Álvaro d'Ors, em novembro de 1964, na Universidade de Navarra.

Há pouco mais de setenta anos, em 14 de abril de 1949, no dia em que fez 34, Álvaro d'Ors, então professor de Direito Romano na Universidade de Santiago e já pai dos dois primeiros filhos, pediu a São Josemaria Escrivá a admissão no Opus Dei. Foi em Molinoviejo, uma casa em Ortigosa del Monte (Segóvia), onde o Fundador estava pregando o segundo retiro dirigido especialmente a pessoas casadas. Alguns meses antes, no fim de setembro de 1948, tinha pregado outro, no qual Tomás Alvira, Víctor García Hoz e Mariano Navarro Rubio, os três primeiros supernumerários, pediram ser admitidos na Obra.

A relação de Álvaro d'Ors com São Josemaria começa no dia 4 de janeiro de 1941, quando foi visitá-lo, com um colega da Faculdade de Filosofia e Letras de Madri, Rafael de Balbín, que os apresentou. Num bloco em que anotava ideias para desenvolver projetos, material retirado de algumas leituras e também de alguns acontecimentos significativos na sua vida, escreveu nesse dia, brevemente: “Fui visitar o Padre Escrivá”. Nessa época, embora o Fundador tivesse visto desde o início que a Obra era também para pessoas casadas, o seu enquadramento jurídico ainda não era possível. Depois desse dia, além de um encontro casual pouco depois da morte da mãe de São Josemaria e de alguma correspondência trocada, quase não houve mais contatos. Indiretamente, Álvaro d'Ors teve notícias do Padre Josemaria através dos seus amigos Amadeo de Fuenmayor e Laureano López Rodó, professores como ele na Universidade de Santiago de Compostela.

E assim chegou o dia 11 de janeiro de 1948, em que, numa viagem que o fundador fez de Roma a Milão, ao atravessar uma ponte improvisada sobre o rio Arno na zona de Pavia, descobriu a forma das pessoas casadas poderem pertencer à Obra. “Cabem!” foi a sua exclamação de alegria. E não iriam “caber” como se fossem um acréscimo, mas exatamente como os outros, com a mesma vocação, a única que existe para se entregar a Deus na Obra. A partir daí, preparou-se um plano de formação para os destinatários deste novo campo de apostolado que estava se abrindo. Numa carta aos seus filhos do Conselho Geral, São Josemaria diz-lhes que “não se trata da inscrição de uns senhores em determinada associação (...). É muita graça de Deus ser supernumerário!”

Assim o compreendeu Álvaro d'Ors desde o princípio. Há uma anotação sua datada do mesmo dia em que pediu a admissão: “Em Molinoviejo, Deus me faça santo!” A partir daí, ia dispor de quase 54 anos para tentar ser, no dia a dia, coerente com a sua vocação até ao fim da vida.

Em 1961, depois de mais de duas décadas em Santiago de Compostela, Álvaro d'Ors mudou-se para Pamplona para se dedicar ao ensino do Direito Romano na Universidade de Navarra. São Josemaria não tinha sido alheio a essa decisão, que envolvia adaptar-se com nove filhos a uma cidade nova, com um custo de vida muito mais dispendioso. Além do ensino, ia também encarregar-se da criação da Biblioteca, à qual dedicou muitas horas de trabalho, cuidando tanto dos aspectos materiais, como da montagem das prateleiras e até da formação dos primeiros bibliotecários.

Outro mês de abril

Em 1996, Álvaro d'Ors escreveu um breve resumo autobiográfico para um prêmio que lhe atribuiu a Sociedade de Estudos Basca, Eusko Ikaskuntza. Foi-lhe pedido que recolhesse uma série de fotografias significativas da sua vida, com um pequeno comentário, como legendas das fotografias. Chamou a esse texto Autoscopia, apesar de não ter chegado a ser publicado. Como prólogo ao seu escrito, explica que há três fatores essenciais no seu perfil pessoal: educação, pensamento e espiritualidade. Falando desta última área, diz: “Não se tratava simplesmente de congruência católica, mas do propósito vital de alcançar uma unidade de vida sem fissuras, e coerente com a filiação de um leigo batizado. É compreensível que a opção aqui fosse pela espiritualidade do Opus Dei. A Obra não tem uma doutrina diferente da doutrina comum da Igreja, mas, como é sabido, proporcionava, sim, uma espiritualidade própria, que com o tempo vai se generalizando em toda a Igreja, e consiste em fornecer uma chave adequada à atuação dos fiéis leigos que não abandonam o seu estado atual, profissão ou vida cívica: uma espiritualidade civil e fiel à Igreja universal, radicalmente centrada na consciência da filiação divina”.

Álvaro d'Ors, São Josemaria e Eduardo Ortiz de Landázuri

Uma das fotografias que Álvaro d'Ors selecionou para o resumo biográfico referido foi tirada num salão do gabinete do reitor na Universidade de Navarra, também no mesmo mês, em 30 de abril de 1968. Mostra São Josemaria com Eduardo Ortiz de Landázuri e Álvaro d'Ors. O texto correspondente à fotografia é este:

“Estamos em Pamplona, o Dr. Eduardo Ortiz de Landázuri e eu, unidos pelo mesmo desejo de contribuir um pouco para este milagre que é a Universidade de Navarra: ele, prometeico, e eu, epimeteico; ele, muito santo; e eu, nem tanto. Fomos responsáveis, em certa medida, por dois excessos desta Universidade: respetivamente, a Clínica Universitária e o Serviço de Bibliotecas. Excessos, além disso, muito desiguais, sobretudo do ponto de vista econômico, e da relevância social, assim como do seu posterior desenvolvimento, que felizmente nos superou. Mas os dois excessos procedem daquele mesmo anseio comum. Deus libertou primeiro o Dr. Eduardo do corpo de morte. Embora ele nos tenha deixado o singular fulgor das suas virtudes, no cemitério de Pamplona os nossos túmulos são equivalentes. Nesta fotografia de 1968, o [então] Bem-Aventurado Josemaria Escrivá, fundador e Grão Chanceler da Universidade de Navarra, quis associar-nos em vida”. De fato, os túmulos onde ambos agora repousam situam-se a poucos metros de distância, no cemitério de Pamplona, e são exatamente iguais, obra do mesmo arquiteto.

São Josemaria tinha ido a Pamplona para a constituição dos Conselhos de Patrocinadores para os Centros de Estudos Eclesiásticos e o correspondente aos Centros de Estudos Civis. Foi neste último dia (30 de abril) que conseguiu organizar-se para tirar uma fotografia com estes seus dois filhos, querendo evidenciar com esse gesto o imenso trabalho que eles estavam realizando.

Álvaro d'Ors junto de São Josemaria, em outubro de 1967

Sabemos que o Padre perguntou numa ocasião ao Dr. Eduardo Ortiz de Landázuri pelo seu trabalho em Pamplona e que, perante a sua resposta de que estava se encarregando de abrir a Clínica, o corrigiu carinhosamente para sublinhar que o seu objetivo era fazer-se santo ao desempenhar essa tarefa. Não temos registro de uma conversa semelhante com Álvaro d'Ors, mas é mais do que provável que tenha ouvido dele alguma coisa no mesmo sentido durante o tempo em que esteve à frente do Istituto Giuridico Spagnolo, em Roma, onde passava duas temporadas por ano. Na sua declaração testemunhal para o processo de beatificação e canonização de São Josemaria, refere-se a estas visitas: “Desde 1953 visitei o Padre, já em Roma, com certa frequência, uma ou duas vezes por ano. Nos primeiros anos, mostrava-me o andamento das obras no Colégio Romano; depois, já concluídas estas, as visitas decorriam em salas diversas, e costumavam durar cerca de meia hora. Tanto primeiro, em Santiago, como depois, em Pamplona, voltei a ter oportunidade de falar com ele. Além disso, naturalmente, nas grandes tertúlias organizadas nos últimos anos. Em Saragoça, quando recebeu o doutoramento honoris causa, também me recebeu no Colegio Mayor Miraflores, e eu disse-lhe que estava pensando unir-me ao então Estudio General de Navarra, a partir do ano acadêmico seguinte. Impressionou-me a alegria que me parecia ter-lhe dado, e depois compreendi que talvez se devesse, em parte, ao fato de ele sempre me ter sobrevalorizado; tentei alguma vez explicar a D. Álvaro [del Portillo] como o carinho do Padre o cegava nessa avaliação que fazia de mim”.

A fotografia tem ainda um pouco mais de história. Alguns dias depois de a tirarem, Eduardo e Álvaro receberam-na com uma dedicatória do Padre na qual se incluíam as respectivas mulheres, Laurita e Palmira, e também com uma particularidade: as de um e outro estavam preparadas de modo que, em cada caso, aparecia cada um sozinho com São Josemaria. O retrato ocupou um lugar de destaque no seu escritório.

A rica carreira pessoal e profissional de Álvaro d'Ors, figura reconhecida na ciência jurídica a nível nacional e internacional, ficou registrada na Sinfonia de una vida, biografia escrita por Gabriel Pérez, jornalista, professor de Comunicação e seu genro.