Meditação do Prelado: Rezar pelos falecidos com esperança

Meditação do Prelado, Mons. Fernando Ocáriz na comemoração de todos os fiéis falecidos, na Igreja Prelatícia de Santa Maria da Paz, em Roma, em 2 de novembro de 2025.

Requiem aeternam dona eis, Domine, et lux perpetua luceat eis. Quantas vezes repetimos essa oração pelos falecidos, que hoje assume um destaque especial? Unimo-nos a toda a Igreja, rezando por esse imenso número de almas que já partiram deste mundo. Não sabemos quem já desfruta do céu ou está no purgatório, mas a fé da Igreja nos assegura a existência dessa purificação após a morte. O próprio Jesus sugere isso no Evangelho, ao falar de um certo perdão neste mundo ou no outro. Já no Antigo Testamento, há a famosa passagem em que Judas Macabeu oferece um sacrifício expiatório pelos falecidos para o perdão de seus pecados (cf. 2 Mac 12,43-46). E São Paulo, escrevendo aos coríntios, diz que alguns serão salvos, como quem passa pelo fogo (cf. 1 Cor 3,15).

Ao longo dos séculos, a piedade cristã procurou compreender esse estado de purificação. São João Paulo II explicou que o purgatório não se refere a um lugar, mas a uma condição de vida. É realmente vida, ainda que marcada pelo sofrimento, mas com a certeza da salvação e a consciência de ser objeto da misericórdia divina: uma misericórdia que é amor. Nosso Padre ensina em Surco: “O purgatório é uma misericórdia de Deus para limpar os defeitos daqueles que desejam identificar-se com Ele” (n. 889). O Senhor deseja que participemos dessa misericórdia, que consiste em carregar no coração as necessidades dos outros. Concretamente, que sintamos o sofrimento deles e, ao mesmo tempo, a certeza de poder colaborar com as almas. A Igreja sempre entendeu assim: nossas orações e sacrifícios cooperam para a purificação das almas que aguardam ver Deus face a face.

Mistério de fé, esperança e amor

Bento XVI, ao refletir a partir da fé sobre o mistério do amor de Deus, explicava que a alma do purgatório está consciente do imenso amor e da perfeita justiça de Deus. Ela sofre, então, por não ter correspondido plenamente a tanto bem recebido. Esse mesmo amor a Deus se transforma em chama e a purifica dos vestígios do pecado. É bonito pensar que o que purifica ali é o próprio amor, que transforma a alma até que esse amor se torne mais perfeito. A liturgia deste dia, na segunda leitura, nos lembra das palavras de São João em sua primeira epístola: “Vede que grande presente de amor o Pai nos deu: de sermos chamados filhos de Deus! E nós o somos!” (1Jo 3,1). Ao contemplarmos a existência dessa situação de purificação antes de entrarmos no céu, procuramos vê-la sempre à luz do amor divino por nós.

Deus nos amou tanto que nos chama seus filhos, e nós realmente o somos. É admirável ver como a liturgia nos permite contemplar a realidade sempre à luz de Deus, que dá sentido à nossa vida, inclusive ao que há de mais doloroso. A única explicação para tudo é precisamente o amor de Deus por nós. É uma situação de purificação, mas cheia de esperança e de amor: de esperança segura na glória futura e de amor que aumenta a cada dia. Se todos nós, agora neste mundo, podemos – e, de uma forma ou de outra, fazemos isso frequentemente – pensar no céu, as almas do purgatório o fazem de maneira mais viva e segura do que nós.

Podemos recordar algumas palavras do nosso Padre: “Muitas vezes por dia me pergunto: como será quando toda a beleza, toda a bondade, toda a maravilha infinita de Deus se derramar neste pobre vaso de barro que sou eu, que somos todos nós? E então compreendo bem o que diz o Apóstolo: nem olho viu, nem ouvido ouviu… Vale a pena, meus filhos, vale a pena” (Anotações de uma reunião familiar, 22 de outubro de 1960). Todo esforço de purificação nesta vida vale a pena, sustentados pela certeza do amor de Deus por nós, que dá sentido autêntico a tudo. Muitas vezes, é um amor no qual temos que acreditar, pois nem sempre o vemos.

Podemos percebê-lo ou vê-lo nas criaturas e em nossa própria vida, embora possa chegar um momento em que a fé se torne fundamental: acreditar no amor de Deus. Como aquela exortação de São João, que é como um resumo da vida cristã: “Nós conhecemos o amor que Deus tem para conosco, e acreditamos nele” (1Jo 4,16).

Unidos pela comunhão dos santos

Podemos colaborar para a purificação das almas que aguardam entrar no céu de uma maneira mais intensa neste mês. É uma oportunidade para renovar nossa fé na comunhão dos santos e vivê-la ajudando aqueles que já partiram deste mundo. Dessa maneira, contribuímos para abreviar os sofrimentos dessa alegre espera, pois a alegria é compatível com o sofrimento, até que as almas possam ver Deus face a face na glória.

No Evangelho da Missa de hoje, contemplamos Jesus na cruz, cercado por aqueles dois ladrões condenados. Um deles faz uma oração humilde e viva: Iesu, memento mei cum veneris in regnum tuum “Jesus, lembra-te de mim, quando entrares no teu Reinado!”. (Lc 23,42). Hoje nos unimos a essa súplica, pensando naqueles que aguardam essa resposta do Senhor: “Vem para cá, hoje estarás comigo no paraíso”. Às vezes podemos nos perguntar: de que adianta rezar por isso? Adianta, porque Tu queres, Senhor; porque esperas nossa súplica; porque és Tu quem dá força e eficácia à nossa oração. Aumenta, Senhor, nossa fé para que saibamos valorizar a força que Tu mesmo dás à nossa oração.

Não sabemos quanto tempo dura o purgatório, pois lá o tempo já não existe. A teologia tem tentado compreender esse mistério: alguns falam de algo semelhante à eternidade, embora ainda não seja exatamente isso; outros o entendem como um tempo determinado. De qualquer forma, é uma etapa que antecede a vida e glória eternas. Sabemos que, embora os pecados daqueles que se encontram no purgatório já tenham sido perdoados, ainda lhes resta o que a Igreja chama de pena temporal.

Talvez nos lembremos da imagem de que nosso Padre tanto gostava: se há tantas almas no purgatório e algumas recebem abundantes sufrágios enquanto outras não recebem nenhum, parece que umas avançariam mais depressa que outras. Ele gostava de compará-lo a uma fila: os sufrágios oferecidos pelas almas fazem a fila inteira avançar.

O que é certo é que nossa oração é eficaz. Não se trata apenas de um exercício de piedade pessoal, mas da manifestação prática da comunhão dos santos, pela qual estamos intimamente unidos e nossa oração beneficia a todos, vivos e falecidos. Por isso, durante o mês de novembro, procuremos viver com especial cuidado as intenções que nosso Padre nos indicou. E, na medida do possível, ofereçamos a Missa, a comunhão e o terço pelas diversas intenções.

Também podemos recorrer às almas do purgatório. Nosso Padre tinha uma maneira muito original de olhar para elas, pois costumamos pensar apenas em ajudá-las; no entanto, elas também intercedem por nós. E assim lemos em Caminho: As benditas almas do purgatório. - Por caridade, por justiça e por um egoísmo desculpável - podem tanto diante de Deus! -, lembra-te delas com muita frequência nos teus sacrifícios e na tua oração. Oxalá possas dizer, ao falar nelas: “Minhas boas amigas, as almas do purgatório…”(n. 571). De fato, elas têm muito poder diante de Deus também por nós.

Durante este mês, é lógico que a realidade da morte e da necessidade de purificação também esteja presente em nossa oração. Ao pensarmos nas almas do purgatório, compreendemos que, por meio da mortificação, do sacrifício e da oração, podemos antecipar parte desse processo nesta vida. Também por meio das indulgências; é notável a graça que o Senhor confiou à Igreja: por meio das indulgências plenárias, é possível evitar o purgatório. Durante este mês, podemos ter mais presente a realidade da morte no mundo, das almas do purgatório e da nossa própria morte, para crescer no desejo de purificação e valorizar mais também as pequenas mortificações na vida cotidiana.

Ao pé da Cruz

É uma questão de fé, na qual, junto com a luz, também se apresenta a escuridão. Às vezes podemos pensar: de que adianta eu adiar aquilo de que gosto ou fazer esse pequeno sacrifício? E então fazemos um ato de fé: adianta sim, pelo amor de Deus. A fonte do nosso próprio amor por Ele é o seu amor por nós. Pois nós, Senhor, não poderíamos amar-Te se Tu não nos desses a capacidade de fazê-lo.

Percorramos esta vida com o olhar fixo na felicidade eterna, à qual os falecidos são chamados e que as almas do purgatório já têm garantida. Podemos colaborar com o caminho delas por meio da oração e da mortificação. Toda a nossa força provém da cruz de Cristo. Como proclamamos na liturgia da Quinta-feira Santa: In quo est salus, vita et resurrectio nostra. Nele e em sua cruz encontramos a vida, a salvação e a futura ressurreição, tanto a nossa quanto a dos falecidos. A cruz de Cristo se torna presente de muitas formas, mas de maneira muito real na Eucaristia, na Santa Missa. Por isso, a melhor maneira de ajudar os falecidos é justamente essa. Na Missa a vida e a ressurreição se encontram para todos. Aumenta em nós, Senhor, a fé, essa virtude que nos impele a orar mais, a esperar e, sustentados pela tua graça, Senhor, a amar.

Voltemos ao Evangelho que será proclamado hoje. “Jesus, lembra-te de mim, quando entrares no teu Reinado”. Fazemos essa oração em nome de todos os falecidos, para que seja um sufrágio, um incentivo e um alívio para os sofrimentos de tantas almas que aguardam a glória. Ao pé da cruz, contemplamos nossa Mãe com São João: cheia de graça, unida à imensa dor de seu Filho, cooperando na obra da redenção. Por isso, toda ajuda que oferecemos às almas do purgatório conta, ao pé da cruz de Cristo, com o sofrimento da Virgem Maria. Pensando nela ao pé da cruz, será mais fácil para nós sermos generosos na mortificação.

Ao pensarmos na salvação do mundo inteiro, que hoje tanto precisa de paz e de reconhecer a presença amorosa de Deus, lembramos que as almas do purgatório, conforme nosso Padre nos ensinou, também intercedem por nós. Peçamos a elas que nos ajudem a semear a paz no mundo, a levar Cristo e a realizar a obra de Deus em nossa vida.

Pedimos especialmente à Nossa Senhora, como costumamos fazer ao concluir nossa oração, que nos una, na Santa Missa, ao sacrifício redentor de Cristo, permanecendo ao lado dEle, com Maria aos pés da cruz.

Texto publicado no boletim Romana:https://romana.org/es/81/meditaciones/con-ocasion-de-la-conmemoracion-de-todos-los-fiele/