Reflexões sobre a Administração no Opus Dei: riquezas e perspectivas
Este documento é o resultado de umas jornadas de trabalho realizadas em janeiro de 2020 por um grupo interdisciplinar e internacional de mulheres da Prelazia1. Durante esses dias aprofundou-se nos traços da identidade e na potencialidade apostólica da realidade da Administração2 no Opus Dei, partindo do que São Josemaria foi vendo e escrevendo, e tendo em conta a experiência acumulada nestes anos.
A metodologia aplicada parte de três elementos: o estudo e a compreensão de uma seleção de textos do fundador do Opus Dei referidos à Administração, com o fim de entender a sua concepção e perspectiva desta realidade; a reflexão sobre a evolução histórica da Administração; e a articulação de um diálogo que integre a perspectiva de diferentes disciplinas e perfis profissionais para conseguir uma visão o mais completa possível da sua natureza. O propósito do documento resultante é proporcionar linhas de reflexão que ajudem a aprofundar na identidade e projeção apostólica da Administração, oferecendo clareza sobre as suas características essenciais, que a perfilam como “um trabalho profissional, um modo apostólico e meio de santificação”3.
Com o passar dos anos, percebemos que a Administração começou a ser compreendida, de forma redutiva, como oconjunto de serviços oferecidos por mulheres da Obra, nos centros onde vivem numerários ou numerárias, para possibilitar o espírito de família, a fidelidade à própria vocação e estimular o sentido de missão.Além disso, deseja-se que essas tarefas sejam realizadas com competência profissional. Juntas, essas duas considerações poderiam levar à compreensão da expressão “apostolado de apostolados”, com a que o Fundador do Opus Dei se referia à Administração4, principalmente num sentido instrumental: como uma realidade que favorece a dedicação das pessoas da Obra a outroscampos apostólicos. No entanto, pensamos que esta aproximação meramente funcional empobrece a realidade da Administração tal como a compreendia São Josemaria, propiciando modos alternativos de conceber a sua tarefa, eventualmente mais funcionais, mas afastados do seu sentido original.
De fato, uma consequência de se entender a administração apenas em sentido funcional, comoprovedora de serviços, por muito apreciados que sejam, poderia ser que, conforme a conjuntura social, cultural e econômica dos diferentes países, surjam modos alternativos de organizar esses serviços, que em alguns casos poderiam chegar a alterar a natureza própria da Administração5.
Isto poderia ocorrer, especialmente, onde – por várias razões – já não se percebe de modo concreto que a Administração facilita a que as pessoas se sintam em casa e, em vez disso, se presta mais atenção ao custo econômico.
Este tipo de avaliação, no entanto, por mais compreensível que seja num contexto social eminentemente utilitarista, diverge da concepção da Administração como espinha dorsal6,tal como a definiu o fundador do Opus Dei. Esta discrepância não é um assunto de pouca importância, pois poderia levar facilmente a pensar que este apostolado e a formação que o sustenta, não seriam capazes de se adaptar à contemporaneidade, nem de ir na vanguarda das mudanças sociais e culturais, como pede o espírito da Obra. Em suma, pareceria que a coluna vertebral perdeu um pouco da sua flexibilidade e força, prejudicando o movimento ágil da Obra no seu conjunto.
As considerações precedentes contrariam, no entanto, a convicção de que, pelo seu próprio carisma, a Obra e os seus apostolados são sempre atuais; bem como o testemunho de muitas numerárias e numerárias auxiliares, que não só entendem com profundidade a sua missão, mas que compreenderam de modo experimental a visão que São Josemaria tem da Administração, em cujos escritos aparece sempre como uma realidade atraente, moderna e fecunda. E aí tem então sentido perguntar: Como e quando foi que se esfumou o brilho dessa realidade vital e dinâmica que é e está chamada a ser a Administração? Como libertar o seu potencial intrínseco, para que reforce o andamento de todos os apostolados da Obra?
O presente estudo tem o propósito de buscar novas perspectivas, a partir das quais aprofundar na dimensão sobrenatural e humana do que São Josemaria não duvidava em chamar de “apostolado de apostolados”.
1. A Administração como “apostolado de apostolados”
Em inúmeras ocasiões, São Josemaria definiu a Administração como apostolado de apostolados. Entre os muitos textos possíveis, escolhemos para exemplo o seguinte da Carta nº 36, conhecida como Verba Domini, de 1965, sobre a santificação do trabalho das mulheres do Opus Dei, e especialmente do cuidado dos centros da Obra: “É de vocês a tarefa de cuidar da Administração de todos os nossos Centros, das duas Seções: apostolado de apostolados, volto a escrever, com a consciência certa de não exagerar; tarefa esta que é um serviço a toda a Obra e um verdadeiro trabalho profissional”7. Parece pertinente perguntar a que se referia exatamente São Josemaria com esta expressão e que alcance dava a estas palavras.
Para compreender a fundo o que na realidade é a Administração, ajudaria aprofundar na sua concepção como apostolado específico; quer dizer, como seiva apostólica, que vivifica os três ramos de apostolados da Obra8. Mas por onde é que se começa a entender a fundo a missão própria da Administração?
a) A raiz evangélica deste apostolado
São Josemaria encontrava no Evangelho a chave hermenêutica e a fonte que vivifica todo o apostolado da Obra: “Como sempre escrevi, o nosso espírito é (...) antigo como o Evangelho e, como o Evangelho, novo (...). Vamos, pois, recolher com juventude o tesouro do Evangelho para fazê-lo chegar a todos os cantos da terra”9.E em outro lugar:“Somos vinho novo e o nosso espírito é a doutrina do Evangelho, e o nosso modo de agir é o modo de agir dos primeiros cristãos”10.
Para aplicar estas palavras à realidade da Administração, pode-se partir do fato de que Deus ao se encarnar quis nascer, crescer e ser cuidado numa família: primeiro na de Nazaré, depois na dos apóstolos e agora na Igreja. O Evangelho de Marcos narra a vocação dos primeiros apóstolos:“Jesus chamou os Apóstolos para que estivessem com ele e para enviá-los a pregar”(Mc3,14). A boa nova que Jesus pregava revela uma novidade: a nossa filiação no Filho; isto é, a mensagem de que Deus é nosso Pai, que está conosco e cuida de nós como um pai cuida dos seus filhos. Estar com o Senhor e ser transformados por ele, para depois ser enviado em missão, faz parte da vocação dos primeiros discípulos. Joseph Ratzinger explica isso de modo sugestivo no seu livro Jesus de Nazaré: “Em todos os capítulos da ação de Jesus que até agora consideramos, tornou-se claro que pertence a Ele o nós da nova família que Ele congregou por meio da sua pregação e da sua ação. Tornou-se claro que este nós desde o seu começo foi pensado universalmente: não se baseia na descendência, mas sim na comunhão com Jesus, de que Ele mesmo é a viva Tora de Deus. Este nós da nova família não é desprovido de forma. Jesus chama um núcleo mais íntimo de, num sentido muito especial, escolhidos por Ele, os quais continuam a sua missão e dão ordem e forma a esta família”11.
Por sua vez, o Evangelho também fala de um grupo de mulheres que acompanhavam Jesus e o serviam com os seus bens (cfr. Lc8,3).Mas não cuidam só do Senhor, mas de Cristo com os seus discípulos (cfr. Lc 8,1-3; Mt 27-55;Lc 23,49) e o seguem até à Cruz12. Assim atuam também as irmãs de Betânia (cfr. Lc10, 38-42) e, em primeiro lugar, a santíssima Virgem em Nazaré.
Era um grupo de mulheres que tiveram uma especial intimidade com o Mestre (cfr. Lc10,39). Junto de Santa Maria, experimentavam o grande privilégio e a alegria de cuidar do próprio Cristo e dos seus apóstolos. E a gratidão de Jesus manifestava-se em atenções especiais: dirige-se a elas pelo nome (cfr. Lc 10,41) e deixa-as interagir com Ele com grande confiança e simplicidade; exige-lhes uma grande fé e fá-las participar da sua missão. Os evangelistas transmitiram-nos o papel relevante que têm com relação à Ressurreição de Jesus, ilustrativo da sua responsabilidade no que se refere à vida da comunidade cristã e à propagação da fé (cfr. Mt 28,8 e Lc 24,9). A presença da Mãe de Deus entre elas marca uma pauta de comportamento especial, tanto espiritual como humano (cfr. Jo19,25). Biblicamente, o papel dessas mulheres situa-se num contexto muito claro: a comunidade de discípulos que Jesus reúne é a sua “verdadeira família”13. Esta comunidade constitui o rudimento e o início da Igreja como família de Deus na terra e mistério de comunhão. Santa Maria deu a Deus a vida humana, ajudou-o a crescer, cuidou d’Ele como homem em suas necessidades humanas e espirituais. Jesus Cristo entregou os homens à Virgem como filhos (cfr. Jo 19,26) e precisamente a específica missão de Maria consiste em ser Mãe de Cristo e dos homens. Essas santas mulheres compartilharam com ela uma missão particular: cuidar de Cristo e do seu círculo de amigos íntimos.
b) A origem deste apostolado no Opus Dei: perspectiva histórica
A mensagem fundacional que São Josemaria recebeu conduz à transformação do mundo através do trabalho e com uma dimensão familiar, na Igreja, que é família e povo de Deus. O trabalho ordenará o mundo a Deus se estiver bem feito e colocar as necessidades das pessoas no centro: ou seja, quando quem trabalha coloca no centro a dimensão pessoal, de serviço, que toda a tarefa tem.
Para estender o seu labor apostólico, São Josemaria quis contar logo com uma casa para reservar Cristo na Eucaristia, um lar de onde se irradiasse um ambiente de família cristã. Isto também requeria atenção aos aspectos materiais. Por este motivo, na primeira residência empregou pessoas para realizar os serviços de limpeza, cozinha, etc. No entanto, apesar dos serviços estarem cobertos, não se conseguia criar um autêntico ambiente de família, um lar onde cada um se sentisse cuidado e querido e, ao mesmo tempo, protagonista e responsável14.
Nesse contexto, São Josemaria colocou à disposição dos seus filhos o lar da sua mãe e, meditando sobre essa experiência, advertiu como era decisivo esse modo de cuidar – num ambiente de família – para assimilarem a formação e para a fidelidade dos seus filhos. Com o passar do tempo, a sua mãe, Dolores Albás, a quem familiarmente chamavam de avó, e sua irmã Carmen – tia Carmen para todos -, ocuparam-se da Administração, proporcionando um ambiente familiar cálido e atraente, no qual a personalidade de cada um se podia desenvolver com harmonia.
Ficou evidente como a contribuição feminina, concretizada nas pessoas de sua mãe e de sua irmã, colaborava para o desenvolvimento do apostolado. Elas, com sua própria vida e trabalho profissional, não foram apenas uma solução funcional para um problema prático, mas parte integrante do projeto apostólico e familiar do Opus Dei. A partir de 1942, as mulheres da Obra assumiram este apostolado específico, que não se reduz a uma série de tarefas – que poderiam ser igualmente bem realizados pelos homens, como havia sido o caso antes -, mas em cuidar dos seus irmãos ou irmãs, através de uma profissão onde sobressai especialmente o serviço à pessoa.
c) A Administração como inspiradora de todos os trabalhos
A missão da Administração, como apostolado específico, pode compreender-se como uma dedicação profissional ao cuidado das pessoas, capaz de inspirar e fortalecer o trabalho de todos os fiéis da Prelazia nos seus respectivos âmbitos da sociedade. A Administração está chamada a mostrar com fatos muito concretos o que significa trabalhar para servir e servir com o trabalho, santificar o trabalho e santificar-se com o trabalho: tornar a vida amável, cuidar das coisas pequenas, converter a própria tarefa em oração, viver sem buscar brilho humano, dando a Deus toda a glória. Deste modo a presença da Administração repercute na fisionomia e na índole espiritual de toda a Obra, de todos e cada um dos seus membros, porque recorda constantemente e de um modo vivo que a dimensão de serviço é própria de toda a existência cristã. Essa riqueza não é acidental, mas coluna vertebral, como a definia São Josemaria: sem ela a Obra não se sustenta, não se mantém firme.
Convém ressaltar, que além desta dimensão subjetiva e centrada na pessoa, o apostolado de apostolados se faz através do trabalho santificado, e por isso deverá ser um trabalho adequado à sua época, quer dizer: um trabalho criativo, inovador e sustentável. Trabalhar assim contribui para garantir o modo cristão de estar no mundo que é próprio de uma pessoa do Opus Dei. No caso da Administração, supõe também enriquecer a própria tarefa de formação, com abertura aos valores positivos que, como parte da Providência com a qual Deus governa o curso da história, a sociedade mais enfatiza em cada época; no nosso preciso momento histórico, por exemplo, é lógico que encontrem eco na tarefa habitual da Administração valores como cooperação, igualdade, justiça, acolhida, inclusão ou responsabilidade ecológica. Assim, com o seu trabalho, a Administração pode facilitar mais ou menos a contemporaneidade das pessoas a quem atende. Quando a Administração coloca a competência profissional diretamente a serviço das pessoas, mostrando de modo prático como o mesmo espírito se pode materializar em diferentes circunstâncias históricas, converte-se num fator de humanização da cultura, de vanguarda, e, portanto, de inspiração para o trabalho profissional de todos.
Estas duas vertentes, que é possível reconhecer no trabalho da Administração, reforçam o sentido de pertença e a adesão das pessoas da Obra.
d) Contribuição da Administração para a sustentabilidade de todo o apostolado
Outra questão de interesse, em relação a “ser suporte de todos os trabalhos”, é considerar que a Administração contribui para a sustentabilidade de todo o apostoladoem três áreas: no cuidado da pessoa concreta no ambiente específico em que se desenvolve; no cuidado dos centros do Opus Dei – onde a sustentabilidade econômica é necessária; e estimulando, a partir da sua peculiar posição formativa, o cuidado da sociedade por parte de todos.
No que diz respeito à pessoa, a Administração contribui para a saúde corporal e espiritual dos fiéis da Obra fazendo com que a casa onde moram seja um autêntico lar de família; para isso cada fiel também contribui de forma decisiva, apoiando pessoalmente e contando com o apoio dos outros, para que todos continuem levando a cabo a sua missão com energias renovadas. A partir desta esfera doméstica, a Administração fomenta que o Opus Dei, mais que uma organização, seja uma comunhão de pessoas.
Por sua vez, sustentar o centro do Opus Dei pressupõe uma boa gestão econômica dos instrumentos, o que garante o trabalho apostólico ao longo do tempo. Etimologicamente, “economia” (de oikoç (oikos),“casa” e véuelv (némein), “administrar”) faz referência principalmente ao cuidado, à administração da casa, no que tem de mais material.
Finalmente, para o desenvolvimento do Opus Dei ao longo do tempo, é indispensável garantir a sua implantação na realidade em todas as suas facetas: a material (recursos econômicos, suprimentos, manutenção dos imóveis, etc.), a social ( relação com o ambiente, legislação de trabalho, meio ambiente) e a cultural: uma compreensão correta do espírito fundacional exige estar sempre em diálogo vivo com a sociedade circundante, pois desse diálogo, enraizado no próprio trabalho, é de onde surgiré, sempre de forma original, a transformação cristã da sociedade. Todas estas facetas estão presentes de forma mais ou menos imediata no trabalho da Administração.
e) Algumas características da natureza e missão deste apostolado
A Administração, tal como a viu São Josemaria, é um apostolado das mulheres: esta é uma questão fundacional15, cujo sentido último só podemos supor. De alguma forma, São Josemaria entreviu que na Obra a Administração reproduz a missão de cuidar dos apóstolos posta em prática pela Virgem Maria e as santas mulheres: cuidar dos outros fieis da Obra para fortalecer a sua comunhão com Cristo e contribuir assim para o dinamismo apostólico de uma Igreja “em saída”16. Ilustra-o, por exemplo. Este texto: “Aquelas mulheres santas e valentes – das que nos fala o Evangelho – amavam o Senhor, compraram bálsamos, emerunt aromata (Mc 16,1), para embalsamar o seu Corpo. A minha imaginação voa outra vez para Betânia, para aquela casa de Marta e Maria e de Lázaro, para onde ia Jesus, cansado, e se deixava cuidar: como o entendo! Era perfeito Deus, mas também perfeito homem; precisava repor forças, encontrar a paz e o carinho de um lar(...). Isso mesmo é o que vocês também fazem, quando, por amor a Jesus Cristo, conseguem no ambiente das nossas casas a fragrância de um lar alegre e luminoso: em verdade vos digo que todas as vezes que vos comportais assim com as vossas irmãs e com os vossos irmãos menores, a mim mesmo – diz o Senhor – fizestes esse serviço”17.
A Administração também tem a responsabilidade de cuidar de Jesus Sacramentado, porque a Eucaristia é o coração da Igreja e a fonte de onde vem a sua vida e missão18. Se a Obra está na Igreja19,a Eucaristia tem necessariamente na sua vida e missão um lugar central. Partindo da força conferida pelo amor, a Administração assume um papel crucial no cuidado das pessoas, proporcionando o ambiente onde a formação e o apostolado podem prosperar. Além disso, ao cuidar do Senhor, oculto sacramentalmente no Sacrário de cada centro do Opus Dei, a Sua Presença fica realçada: torna-se “visível o Deus invisível” e esta é a ação mais apostólica que existe. São numerosas as ocasiões em que São Josemaria se refere à Administração como“luz acesa diante do Sacrário”20.
A Administração também tem a responsabilidade de velar pela unidade, de vocação, de espírito e de missão21. E isto, pelo menos de dois modos principais: por um lado, materializando um espírito de família que permite unir pessoas procedentes de ambientes muito diferentes e cujas experiências familiares prévias são diversas; por outro, guardando a separação, característica fundacional dos apostolados do Opus Dei22.
A Administração salvaguarda o espírito de família cristã que Deus quis para o Opus Dei, facilitando que todos os fiéis – numerários, adscritos, supernumerários – o difundam depois em seus ambientes profissionais e sociais, onde se desenvolve a sua vida familiar e profissional23. Se o lar é “o lugar ao qual se volta”24, a Administração cria um lar, onde os membros da Obra se refazem espiritualmente para voltarem às suas responsabilidades e tarefas habituais com forças novas.
Como se viu, a Administração contribui para a sustentabilidade de todo o apostolado nessa tripla dimensão: pessoal, dos centros e da sociedade.
Concluímos, portanto, que a compreensão integral, não meramente funcional ou instrumental, da expressão apostolado de apostolados é fundamental para compreender a natureza própria da Administração e entender porque, nessa visão fundacional, corresponde às mulheres da Obra realizar esta tarefa. Como em todos os trabalhos apostólicos, algumas numerárias assumem a sua direção e impulso25. Mais adiante aprofundaremos nesta última questão, que encontra aqui a sua razão de ser.
2. A importância central do trabalho e desenvolvimento profissional
Como se pode ver nas considerações anteriores, refletir sobre a natureza do trabalho da Administração é crucial para expressar adequadamente a dimensãohumana da vocação divina das numerárias e das numerárias auxiliares, e situá-la no horizonte indicado por São Josemaria: como apostolado de apostolados, como coluna vertebral da Obra. De fato, parte da dificuldade que há, em alguns lugares, para apreciar a Administração sob esta perspectiva reside em que se arrastam inércias (estruturas, organização, tarefas, etc.) que talvez minimizem, em vez de fazer brilhar, a sua autêntica natureza, e limitam o desenvolvimento humano e sobrenatural de quem desempenha esse trabalho.
Algumas dessas dificuldades derivam da legislação vigente em alguns países, que só conhece a figura da “empregada doméstica” para se referir ao trabalho que realiza quem se dedica à Administração – tanto numerárias como numerárias auxiliares, uma figura genérica que não corresponde à percepção que elas mesmas têm da projeção humana e profissional da sua tarefa. Uma consequência deste desajuste entre legislação e vivência pessoal é a dificuldade que estas pessoas experimentam para explicar o seu projeto vital e profissional de forma compreensível para os seus contemporâneos: o escasso reconhecimento social e legal destas tarefas representa um obstáculo para irradiar com mais eficácia o valor e a beleza que tem intrinsecamente o cuidado das pessoas. Superar este obstáculo requer refletir sobre a própria natureza do trabalho profissional.
a) Um trabalho profissional com todas as suas consequências
É importante partir de uma visão realista, tanto do trabalho em si como do mundo contemporâneo do trabalho. Falar de trabalho profissional supõe, além disso, – por estar implícito na palavra “profissão” – uma dedicação que afeta e dá forma a toda a vida; nisto se diferencia a profissão de um encargo, que se recebe e assume por um tempo, embora também seja realizado com “mentalidade profissional”.
Atualmente o panorama do trabalho é muito heterogêneo e tem mudanças contínuas: existem poucos itinerários profissionais predeterminados, além das profissões reguladas por uma tarefa social específica (sanitárias, educativas, assistenciais, etc.). Hoje em dia, as pessoas entram e saem do mercado de trabalho com muita facilidade – ou dificuldade, e frequentemente o trabalho se organiza sob a forma de uma “carteira de projetos”; as organizações de trabalho piramidal altamente hierárquico, lentas para gerenciar a mudança por causa da sua rigidez estrutural, cedem o lugar a organizações menores e flexíveis.
Neste contexto de trabalho, volátil e mutável, aprecia-se acima de tudo a inovação e a criatividade para gerar soluções rápidas e acertadas para diversas necessidades sociais. Por este motivo é de particular importância que cada pessoa que entra no mundo do trabalho tenha visão para compreender as necessidades e oportunidades, e saiba dar razões para a posição que livremente ocupa no mundo26.
No caso das numerárias e numerárias auxiliares que trabalham na Administração, esta reflexão pessoal, particularmente necessária, não pode ser considerada “já feita”. O fato de terem vocação para o Opus Dei não produz por si só, como algo óbvio, uma profunda compreensão do seu trabalho, que manifeste a sua condição secular. Com efeito, São Josemaria deixou escrito que, ao vir para a Obra, a pessoa continua realizando o trabalho que teria realizado sem estar na Obra, e assim continua sendo para as supernumerárias, adscritas e algumas numerárias e numerárias auxiliares. No entanto, esta expressão de São Josemaria necessita ser contextualizada ao aplicá-la ao âmbito que estamos abordando, já que existe uma crescente maioria de mulheres em todo o mundo para as que, descobrir o caminho de numerárias auxiliares, ou seja, a vocação para cuidar da Obra, supõe modificar o seu projeto profissional anterior. Nisso também não se distinguem de qualquer pessoa que, às vezes, por circunstâncias da vida, muda de profissão. A descoberta da sua vocação leva-as a configurar uma dedicação profissionalespecífica, pessoal, que não coincide necessariamente com o trabalho que teriam realizado se não tivessem conhecido a Obra. Essa chamada para santificar o trabalho estimula-as a um verdadeiro desenvolvimento pessoal e profissional. Aí se adverte de maneira especial que o trabalho é o eixoda nossa busca da santidade e o nosso lugar no mundo27.
Da sua missão específica de cuidar da Obra como de sua própria família, as pessoas do Opus Dei dedicadas à Administração, como qualquer pessoa hoje em dia, forjam o seu desenvolvimento profissional com iniciativa e criatividade pessoais. Por isso mesmo, uma visão padronizada, reduzida e limitadora do que está chamado a ser o trabalho da Administração, prejudicaria seriamente o desenvolvimento pessoal e vocacional das numerárias e numerárias auxiliares nela implicadas. E pela centralidade deste trabalho no Opus Dei, repercutiria negativamente no trabalho apostólico de toda a Obra. Salvaguardar e aprimorar uma visão profunda e rica, adequada, da Administração em sua dimensão profissional é um ponto chave, tanto na formação que se oferece a todas as pessoas da Obra – homens e mulheres, bem como nas oportunas decisões que dizem respeito ao governo da Prelazia.
Superar uma visão padronizada do trabalho da Administração, mantendo ao mesmo tempo fielmente o que é essencial segundo o espírito da Obra, abre um amplo leque de itinerários profissionais específicos. Em suma, no trabalho da Administração cabem tantos perfis como as facetas que admite a diversidade das necessidades das pessoas, os tipos de centros e os próprios talentos.
b) Um trabalho que requer talentos específicos
Em termos gerais, o objetivo do trabalho da Administração consiste em “tornar tangível uma realidade intangível”: o cuidado e a centralidade da pessoa na família. Como se pode ver, uma missão tão importante requer, mais do que outros trabalhos profissionais, talentos pessoais e uma capacitação específica, que permitam:
- assimilar e materializar esse espírito, que é um espírito de família;
- captar a profundidade e o impacto que o próprio trabalho tem nas pessoas a quem se dirige e na sociedade em geral;
- facilitar o desenvolvimento e a projeção da personalidade humana dos homens e mulheres da Obra diretamente beneficiados por este trabalho, bem como de todas as pessoas que entram em contato com os seus apostolados; e
- capacitar-se nas destrezas e habilidades necessárias para materializar o cuidado das pessoas, a manutenção dos imóveis, a administração dos recursos etc.
Por tudo o que foi dito, quem trabalha na Administração tem consciência de que necessita considerar com ambição e abertura de espírito a própria formação e procurar o diálogo com outros profissionais para compartilhar conhecimento e experiência. Neste trabalho, como em qualquer outro, a ambição profissional não entra em conflito com a expressão tão utilizada por São Josemaria, “ocultar-se e desaparecer, que só Jesus brilhe”28: o reconhecimento profissional não coloca em perigo a virtude cristã da humildade29.
c) Dimensão pedagógica (ou exemplar) do trabalho da Administração
Por último, a tarefa profissional da Administração tem uma dimensão educativa, pois, ao materializar um espírito, comunica-o do modo mais eficaz: através de fatos concretos e constantes. O espírito e os valores que se comunicam através do trabalho da Administração não se limitam às virtudes da pontualidade, ordem, temperança ou atenção aos detalhes. A sensibilidade com as necessidades dos homens e mulheres contemporâneos faz com que a Administração incorpore – dê corpo – e promova valores positivos que se encontram na sociedade do momento, como, por exemplo, a sustentabilidade, a igualdade, a responsabilidade ecológica, a austeridade, etc. Na medida em que todo o valor autenticamente humano é também cristão, é lógico que, nos centros do Opus Dei, o cuidado das pessoas e da casa, liderado pela Administração, inclua e facilite essa espécie de contemporaneidade.
Com esta perspectiva, o potencial transformador do mundo contido no trabalho da Administração é enorme. Poderíamos dizer que, pela projeção do seu trabalho, a Administração introduz o talento feminino na vida social, projetando-o além das paredes dos centros do Opus Dei. De fato: além de quaisquer estereótipos variáveis culturalmente, o modo de agir historicamente consolidado como “feminino” é hoje particularmente reconhecível num estilo de trabalho que promove a colaboração mais que a competitividade, o cuidado mais que a eficiência, a atenção às pessoas mais que a gestão das coisas, a concretização mais que as especulações, a tenacidade mais que o brilho... A célebre enumeração de “faculdades femininas” feita por São Josemaria em Entrevistas,n. 87, ilumina este fator chave, sem que isso impeça, como é óbvio, que estas qualidades estejam presentes entre os homens, ou as opostas entre as mulheres.
3. Numerárias auxiliares e numerárias na Administração
Depois de termos aprofundado no sentido da expressão apostolado de apostolados e de termos explicado a importância do trabalho profissional, concentramo-nos agora na identidade e missão das numerárias auxiliares e das numerárias que se dedicam à Administração.
É um fato que onde há um apreço mútuo, um trabalho compartilhado e uma profunda e simples compreensão da especificidade do que a cada uma compete, a vida compartilhada por numerarias e numerárias auxiliares desenvolve-se com harmonia30. Pelo contrário, quando não é assim, surgem situações que dificultam a relação. Tais dificuldades às vezes procedem de uma visão hierárquica, rígida e formalista do trabalho da Administração; outras vezes, pelo contrário, de uma visão superficial que subestima a profundidade humana e sobrenatural desse mesmo trabalho, que constitui o valor e a força da própria Administração.
Parece ser conveniente analisar esta questão, para discernir melhor as semelhanças e diferenças da missão das numerárias auxiliares e das numerárias que trabalham na Administração, e quais as manifestações específicas que essa diferença tem.
a) Identidade das numerárias auxiliares
Quando uma numerária auxiliar descobre a sua vocação, entende que Deus a chama para santificar a sua vida diária e, simultaneamente, que está chamada a cuidar das pessoas da Obra e tornar cada centro um lar de família: em palavras do atual Prelado, “Com o seu trabalho cuidam da vida na Obra e a servem, colocando a pessoa singular como foco e prioridade de seu trabalho”31.Sem dúvida esta missão corresponde a todos os fiéis da Obra, mas, no caso das numerárias auxiliares, configura, determina e concretiza a sua dedicação profissional, ao mesmo tempo que serve de estímulo e inspiração para todos.
Assim o expressa a atual secretária central numa entrevista: “No caso do Opus Dei, tantos os homens como nós, as mulheres, somos chamados a cuidar das casas da Obra. Compete a todos a limpeza, a ordem, e as diferentes tarefas necessárias para garantir que esse espaço seja reconhecido como um lar. Deus, porém, quis comprometer-se para que nunca falte quem, com entrega de mãe e com competência profissional, promova e conserve o ambiente de família, fazendo com que ninguém seja um número anônimo, mas uma pessoa querida, tendo seus gostos conhecidos e suas necessidades atendidas. Esta é a missão especifica que Deus deixou nas mãos das mulheres que a escolhem como profissão”32.
Em Statuta afirma-se que “as Numerárias Auxiliares, com a mesma disponibilidade que as demais Numerárias, dedicam a sua vida principalmente aos trabalhos manuais ou tarefas domésticas, que voluntariamente assumem como seu próprio trabalho profissional, nas sedes dos centros da Obra”33. Apesar de que tudo no espírito da Obra fala a favor da igual dignidade de todos os trabalhos, certos preconceitos culturais com respeito aos trabalhos manuais fazem com que essa expressão seja considerada por algumas pessoas como uma manifestação de classismo. Naturalmente não era essa a visão de São Josemaria que, tanto nas indicações práticas como nos seus ensinamentos, se expressou sempre energicamente em sentido contrário34.
Também pode ser oportuna uma explicação que reflita a projeção profissional que o fundador queria para o trabalho da Administração, e concretamente para as numerárias auxiliares, e que encontra expressão em vários de seus textos. Sirva de exemplo o horizonte profissional que São Josemaria apresenta na Cartan. 36, ao falar do trabalho da Administração. Entre outros aspectos, destaca: responsabilidade econômica, controle de gastos, ajuste de orçamentos, perfeição de laboratório, carinho de mãe, domínio da dietética, aprendizagem contínua, evitar a improvisação e a monotonia, cuidados com os doentes, qualificação, especialização, dedicação de tempo à formação...
O atual Prelado, no n. 14 daCarta pastoral de 28 de outubro de 2020, reflete também sobre a amplitude deste trabalho: “não se trata só de realizar uma série de tarefas materiais, que, em medidas diversas, todos podemos e devemos realizar, mas também de prevê-las, organizá-las e coordená-las de tal forma que o resultado seja precisamente esse lar em que todos se sintam em casa, acolhidos, seguros e, ao mesmo tempo, responsáveis. Isto que, aliás, tem importância para toda pessoa humana, repercute na fisionomia e na têmpera espiritual da Obra inteira, de todos e cada um de seus membros”.
Como a vocação das numerárias auxiliares se orienta desde a sua origem para o cuidado da sua família através do trabalho na Administração, a preparação profissional que têm ou adquirem orienta-se para realizar melhor essa missão específica. O seu trabalho, como todo o trabalho, é lugar de encontro com Deus, de desenvolvimento pessoal, de encontro com os outros e de contribuição para o bem comum.
Para calibrar o alcance da missão desta vocação específica, recordemos também outras palavras do Prelado na sua carta de 28 de outubro de 2020 onde, ao falar da missão das suas filhas numerárias auxiliares – que qualifica de “entusiasmante”, comenta que esta há de “transformar este mundo, hoje tão cheio de individualismo e indiferença, em um autêntico lar. Tal tarefa, realizada com amor, pode chegar a todos os ambientes. Vocês estão construindo um mundo mais humano e mais divino, porque o dignificam com o seu trabalho convertido em oração, com o seu carinho e com o profissionalismo que têm no cuidado integral das pessoas”.
Se uma numerária auxiliar tinha outra profissão antes de descobrir a sua vocação para a Obra, logicamente conserva a mentalidade da primeira, que enriquece o modo de realizar o seu trabalho na administração e os diferentes aspectos da sua vida; ao mesmo tempo, como qualquer pessoa que muda de profissão, procura capacitar-se e melhorar o modo de exercer a sua nova ocupação. De qualquer forma, na medida em que o permite a atenção à família e ao apostolado, mantem-se atualizada sobre a sua ocupação original e cultiva outras habilidades e passatempos. Isto, como é natural, também se aplica às numerárias que trabalham na Administração.
Como o Prelado afirma na carta de 28 de outubro de 2020, é uma grandiosa realidade “que as numerárias auxiliares procedem de todos os ambientes. De fato, às vezes algumas têm dúvida sobre o que Deus lhes pede: ser numerária ou numerária auxiliar”35.São Josemaria antecipou o que sucedeu anos depois da sua morte: pediriam a admissão no Opus Dei numerárias auxiliares com estudos superiores e uma cultura e preparação semelhante à das numerárias36. Já faz anos que isto é uma realidade em muitos países37.
Efetivamente, cada vez é mais frequente que as numerárias auxiliares tenham uma sólida preparação profissional que as torna capazes de assumir tarefas que durante anos foram desempenhadas pelas numerárias. Isto pode levar a se perguntar se nesse caso continuariam fazendo falta numerárias na Administração. Para responder a esta questão no contexto do espírito fundacional, vale a pena aprofundar na missão e identidade das numerárias.
b) A missão da numerária na Administração
As numerárias estão chamadas a uma especial missão de serviço. Este é um ponto claro na mente do fundador do Opus Dei, que se recolhe emStatuta n. 8, 1: Os numerários “ocupam-se das peculiares iniciativas de apostolado da Prelazia, com todas as suas forças e com a máxima disponibilidade pessoal para trabalhar (...) e atender essas iniciativas de apostolado e para se dedicarem à formação dos demais fiéis da Prelazia”. Numa carta de 1957, elaborava esta questão: “no No coração da Obra, os numerários – chamados a uma especial missão de serviço – sabem pôr-se aos pés de todos os seus irmãos, para tornar-lhes amável o caminho da santidade; para atendê-los em todas as suas necessidades da alma e do corpo; para ajudá-los em suas dificuldades e tornar possível, com sua entrega sacrificada, o apostolado fecundo de todos, tendo presentes aquelas palavras do Senhor: o maior entre vós será como o menor, e o que manda como quem serve. Porque quem é maior, o que está sentado à mesa ou aquele que serve? Pois bem, eu sou no meio de vós aquele que serve (Lc 22)”38.
Este cenário pode ajudar a entender o contexto e o sentido da expressão de São Josemaria sobre o papel das numerárias na Administração, quando diz que deverão ser auxiliares das Auxiliares39. Isto inclui facilitar a formação e o acompanhamento espiritual necessário para que elas possam realizar a sua missão. Por outro lado, a livre disponibilidade das numerárias para se dedicarem profissionalmente à Administração realça a dignidade deste trabalho e elimina qualquer aparência de classes no Opus Dei.
Como para todos os trabalhos, requere-se um desenvolvimento profissional específico ao qual é preciso dedicar tempo e preparação. Além disso, no caso das pessoas que tenham a responsabilidade de dirigir, é uma condição obrigatória que desenvolvam competências profissionais específicas que as capacitem para ter visão de conjunto na direção do trabalho, formar uma equipe, melhorar a formação e a projeção profissional de quem trabalha na Administração, etc. Com efeito, pode-se dizer que este é um dos aspectos da sua missão de “auxiliares das Auxiliares”40.
Também têm que ver diretamente com isso a
As palavras de São Josemaria “não as deixem sozinhas”41também estão relacionadas com esta questão.Neste ponto, é especialmente importante não interpretar de modo paternalista dessa expressão; na mente de São Josemaria “não as deixar sozinhas” não significa suprir uma pessoa em suas decisões, nem evitar que assuma responsabilidades. Isso equivaleria a empequenecer as pessoas, ao passo que a formação – toda a formação – se orienta precisamente a fomentar o crescimento. Para apreciar o sentido dessas palavras é preciso ter em mente toda a citação: São Josemaria salienta a necessidade – que qualifica de dever de justiça – de que as numerárias trabalhem com as auxiliares, tanto nas tarefas manuais como orientando a execução do trabalho42. Ou seja, entende-se no sentido de “não as deixem sozinhas na missão de cuidar, que se traduz especialmente no trabalho”.
Por outo lado, São Josemaria indica que se dedicam profissionalmente à Administração aquelas numerárias “que tenham inclinação, as que tenham essa vocação profissional, e desejem santificar esse trabalho e, com ele, se santificar e ajudar os demais a se tornarem santos”43.Daí resulta que nem todas as numerárias estão necessariamente capacitadas para serem administradoras. E isto se complementa com outras palavras suas, com as que também sublinha o valor formativo da Administração para todas as numerárias, mesmo que não se dediquem profissionalmente a esse trabalho: “Convém que, por estas ocupações, vão passando todas as minhas filhas numerárias. Depois se dedicarão especificamente a esta atividade as que tenham qualidades especiais, mas aprenderão sempre todas, porque todas têm necessidade dessa formação”44.
Por conseguinte, parece importante destacar que as numerárias – por serem formadoras, especialmente se se encarregam mais diretamente da formação das numerárias auxiliares, devem ter uma profunda compreensão da vocação específica de numerária auxiliar e da dimensão formativa da Administração. Só desta forma poderão encorajar e capacitar a sua identidade e missão.
De tudo o que foi dito, com relação ao trabalho da Administração é evidente o seguinte:
1. A Administração, como trabalho apostólico que é, requer a presença, direção e liderança formativa das numerárias. Estas numerárias deveriam ter condições de formação e direção e, além disso, competência profissional no trabalho da Administração.
2. Isto é compatível com a presença na Administração de outras numerárias que podem não assumir responsabilidades de direção desses trabalhos. Este ponto pode ter várias causas: ou estão no início da sua formação profissional, que requer um tempo de preparação, ou não têm condições especiais para dirigir esse trabalho, ou porque precisam de um tempo de descanso dessas responsabilidades, etc.
3. Portanto, numa administração com vários setores, pode suceder que um grupo de trabalho formado por numerárias auxiliares, numerárias ou outras pessoas contratadas seja dirigido tanto por uma numerária como por uma numerária auxiliar; efetivamente já sucede isto em alguns casos. Em suma, a direção em cada área de trabalho compete a quem estiver mais capacitada para fazê-lo.
Depois de aprofundar e de abrir perspectivas, talvez possa ser compreendido de uma forma mais ampla que a missão específica das numerárias é a formação e o governo, e que as numerárias auxiliares colaboram com as numerárias em todos os apostolados da Obra.
4.Conclusões
Nas páginas anteriores procurou-se apresentar um enquadramento que permita facilitar a compreensão em sua essência e atualidade da realidade da Administração a partir da inspiração fundacional. Este desenvolvimento conceptual leva a destacar várias questões, que marcam as coordenadas de referência desta reflexão:
1. Ao refletir sobre a Administração, verificou-se que, às vezes, dentro da própria Prelazia existe uma compreensão limitada desta realidade, que torna difícil abordar as questões e desafios atuais. Em qualquer caso, é preciso fomentar uma compreensão ampla e profunda que permita dar as respostas adequadas.
2. A visão de São Josemaria sobre a Administração mostra uma realidade querida por Deus e chamada a se manifestar de acordo com cada época. Para isto, é preciso saber discernir em seus textos o que se refere ao espírito, e os exemplos que correspondem ao contexto histórico. Advertir que “aggiornamento significa sobre tudo isso: fidelidade”45e que “a substância permanece”46, é a chave para enfrentar os desafios de um mundo em contínua evolução, onde Deus nos espera: “Assim como a identidade da pessoa permanece ao longo das diversas etapas do crescimento: infância, adolescência, maturidade...; assim também há evolução no nosso desenvolvimento: senão, seríamos coisa morta. Permanece inamovível o miolo, a essência, o espírito, mas evoluem os modos de dizer e de fazer, sempre velhos e novos, sempre santos. E a sua missão é garantir que nenhum vagão fique estacionado em trilhos fora de uso”47.
3. A força de tração da Obra não somos nós, mas o próprio Deus, que também nos fala no mundo e por meio dele48.
4. A Administração está chamada a iluminar as realidades do seu tempo a partir do espírito transmitido por São Josemaria. E o fará na medida em que aprofunde nas implicações humanas de algo tão nuclear como a santificação do trabalho.
5. As pessoas da Administração, nem mais nem menos que quaisquer outras, moldam a sua posição na sociedade através do seu trabalho profissional, exercido com paixão, capacitação específica e permanente, iniciativa e criatividade.
6. Para cumprir a sua missão específica com a projeção vista por São Josemaria (ser apostolado de apostolados), a Administração precisa estar em contato com o mundo através do seu trabalho: não pode tornar-se uma realidade autorreferencial e isolada do seu contexto. Na medida em que o trabalho nos situa no mundo, mantém um diálogo vivo com as realidades do nosso tempo e constitui um fator de contemporaneidade. Uma Administração atualizada (aggiornata, como gostava de dizer São Josemaria, usando o vocábulo italiano), permite que as pessoas da Obra que residem nos centros estejam “atualizadas” (aggiornate).
7. Nesta perspectiva, é enorme o potencial transformador do mundo contido no trabalho da Administração. Do ponto de vista sobrenatural, em virtude do fluxo de oração que incorpora; humanamente, por introduzir o talento feminino na ordem social, como fator de humanização por se opor à lógica do domínio, do confronto, da produtividade como norma suprema, do individualismo, do sucesso final ou do materialismo asfixiante.
8. A adequada compreensão da expressão apostolado de apostolados, como pivô apostólico para toda a Obra, é a chave para entender a identidade das numerárias auxiliares e a missão das numerárias na Administração.
9. A Administração é indispensável na Obra para a sua sustentabilidade, entendida como a virtude de manter o espírito – especialmente, família, unidade e separação, de modo a contribuir para que os membros da Obra sejam fiéis à chamada e à missão, e para a boa administração material dos recursos sem comprometer o futuro.
10. Certos comportamentos (estruturas, estilos de liderança, etc.), compreensíveis naquela época, mas mantidos inercialmente no tempo mais do que seria razoável, podem ter sido a causa, passado um tempo, de uma fraca compreensão da própria identidade da Administração. As inércias só podem ser sacudidas voltando ao espírito fundacional. A partir daí é responsabilidade de cada geração de membros da Obra, dar forma, com as palavras e com os fatos a um estilo de trabalho e a uma narrativa que faça justiça à realidade da Administração, tal como a viu São Josemaria.
5. Proposta de definição de Administração
As precedentes reflexões permitem voltar ao ponto de partida: elaborar uma definição da Administração, em termos contemporâneos, que reflita a sua identidade tal como a viu São Josemaria, que ilumine os desafios que se apresentam, para apontar formas de resolver os problemas atuais e de libertar o potencial formativo e apostólico que contém. Propomos uma possível definição:
A Administração é um apostolado do Opus Dei, liderado por mulheres de forma profissional e economicamente sustentável, necessário para comunicar, aos fiéis da Obra e a quem entra em contato com os seus apostolados, um espírito de família e de santificação das realidades habituais profundamente enraizadas no Evangelho, que faz com que os centros da Obra sejam verdadeiros lares e dá energia a todo o trabalho que os seus fiéis realizam no meio do mundo.
É uma expressão sintética que para a sua correta compreensão requer o quadro conceptual que aqui apresentamos.
Em suma, quando a Administração reflete a sua natureza e a sua missão, e estes diferentes aspectos estão harmonizados, isto é patente no desenvolvimento apostólico da Prelazia.
Ana Marta González, catedrática de Filosofía moral, Universidade de Navarra
Cristina Abecia, licenciada em Comunicação audiovisual e mestre em Investigação em Comunicação, consultora da Assessoria Central
Susana López, Doutora em Filosofia do conhecimento, prefeita de Estudos da Assessoria Central
1 O resultado do documento incorpora contribuições de diferentes perspectivas disciplinares: História, Filosofia, Sociologia, Teologia e Comunicação; bem como de profissionais da Administração e do governo da Prelazia.
2 Como em todos os lares, as pessoas que vivem nos centros da Obra precisam de um cuidado que contribua para criar um ambiente de família, próprio da tarefa formativa e apostólica que a Prelazia realiza. Com o termo Administração, em sentido geral e com maiúscula, faz-se referência a este trabalho e às pessoas que o realizam. Para se referir às realizações particulares, às administrações concretas, usa-se minúscula. Para ter uma breve descrição do nascimento e da evolução desta realidade, cfr. “Administración de la Residencia de la Moncloa”, no Diccionario de San Josemaria Escrivá de Balaguer, Editorial Monte Carmelo, Burgos, 2013.
33 Inmaculada Alva – Mercedes Montero, El hecho inesperado, Rialp, Madrid, 2021, p. 47.
4 Cfr. São Josemaria, Carta n. 36, conhecida como Verba Domini, de29 de julho de 1965.
5 A partir de uma abordagem meramente instrumental da Administração, seria razoável não só propor soluções alternativas para a gestão cotidiana dos centros, propor um envolvimento mais direto de residentes nessas tarefas, tanto homens como mulheres, também como parte da sua formação para a vida, chegando mesmo a questionar a necessidade da Administração; a mesma abordagem instrumental poderia motivar que, a escassez de numerárias e numerárias auxiliares em alguns lugares, levasse a pensar em terceirizar por completo esses serviços, para que as numerárias e as numerárias auxiliares se dedicassem a ouras tarefas. Ou então, que se visse no desenvolvimento das tecnologias, que facilitam a organização e realização das tarefas de cuidado, principalmente uma oportunidade para que umas e outras, tal como muitos pais e mães de família, possam compatibilizar a sua dedicação à casa com outras tarefas profissionais. De modo semelhante, a mesma abordagem instrumental, explicaria que, diante da boa capacitação profissional das numerárias auxiliares e, em alguns casos, a falta de numerárias preparadas para dirigir e realizar esse trabalho, se questionasse a necessidade e o papel de numerárias administradoras. De tudo isto tratamos na parte final deste artigo.
6 “É preciso fazer com que se ame o trabalho da Administração, porque é como a espinha dorsal de toda a ação apostólica da Obra”, Carta n. 36, de 29 de julho de 1965, n. 11.
7 São Josemaria, Carta n. 36, 29 de julho de 1965, n. 9.
8 Referimo-nos aos labores de São Miguel, São Gabriel, São Rafael e, também, à Sociedade Sacerdotal da Santa Cruz; pois a Administração afeta todos eles e também se projeta no apostolado da opinião pública. É significativa a menção que se encontra na introdução da edição crítica do volume Em diálogo com o Senhor, quando se explica o nascimento das revistas Crónica e Noticias: “Em 1949, São Josemaria havia escrito uma longa lista – sete páginas manuscritas – de iniciativas que ele pretendia promover. Os trâmites para obter a aprovação definitiva do Opus Dei pela Santa Sé estavam em andamento e em bom caminho – chegaria em meados de 1950 – e o fundador já pensava em trabalhos e labores ulteriores que teriam de ser feitos.
Entre estes, sob o título de “Publicaciones”, leem-se os seguintes:
- Uma revista geral interna,
- Uma para cada obra, duplicadas: São Miguel, São Gabriel, São Rafael, com notícias, guias de círculos de estudo, temas doutrinais e práticos. Uma folha especial para as administrações
- Cartas de família: fascículo trimestral (...).”
A lista continua, mas chama a atenção o lugar onde coloca a folha para as administrações: junto dos outros setores apostólicos; não numa seção à parte, ou como “notícias de família”. Em São Josemaria, Em diálogo com o Senhor. Textos da pregação oral. Obras completas V/1. Edição crítico-histórica preparada por Luis Cano e Francesc Castells, Rialp, Madrid, 2017, p. 31.
9 São Josemaria, Carta n.6, 11 de março de 1940, n.31.
10 São Josemaria, Instrucción, 8-XII-1941, n.80 (Ref. “Instrucciones (obra inédita)”, pp. 650-655 em Diccionario de San Josemaria).
11 Joseph Ratzinger – Benedicto XVI, Jesus de Nazaré, I, Planeta, São Paulo, 2007, cap. 6, “Os discípulos”.
12 “No capítulo 8,1-3, [São Lucas] nos conta que Jesus, que estava a caminho com os doze a pregar, era também acompanhado por mulheres. Ele menciona três nomes e então acrescenta: "E muitas outras que O serviam com os seus bens" (Lc 8,3). A diferença entre o discipulado dos doze e o discipulado das mulheres é evidente; ambas as tarefas são inteiramente diferentes. Mas São Lucas torna claro, no entanto, o que também nos outros Evangelhos aparece de muitos modos: que "muitas" mulheres pertenciam à comunidade restrita dos crentes e que o seu caminhar crente com Jesus era essencial para a sua constituição, como aliás deveria mostrar-se de um modo especialmente impressionante junto à cruz e na ressurreição” em id.
13 Catecismo da Igreja Católica, n. 764.
14 Inmaculada Alva – Mercedes Montero, El hecho inesperado, Rialp, Madrid, 2021, pp. 44-47 (“Nascimento e desenvolvimento da Administração dos centros”).
15 Statuta, n. 8, parágrafo 2: “As Numerárias também são responsáveis pela administração familiar ou cuidado doméstico de todos os Centros da Prelazia”.
16 Francisco, Exort. Apost. Evangelii gaudium, n. 24: “A Igreja em saída é a comunidade de discípulos missionários que vêm primeiro, que se envolvem, que acompanham, que frutificam e festejam”.
17 São Josemaria, Carta n. 36, 29 de julho de 1965, n. 16.
18 São João Paulo II, Enc. Ecclesia de Eucharistia, n. 1.
19 São João Paulo II, Bula Ut sit: “Com enorme esperança, a Igreja dirige os seus cuidados maternais e a sua atenção ao Opus Dei, que - por inspiração divina - o Servo de Deus Josemaría Escrivá de Balaguer fundou em Madri a 2 de Outubro de 1928 com o fim de que seja sempre um instrumento apto e eficaz da missão salvífica da vida do mundo, que a Igreja leva a cabo”.
20 São Josemaria, Carta n. 36, 29de julho de 1965, n. 18.
21 Cfr, por exemplo, Fernando Ocáriz, Carta pastoral, 28 de outubro de 2020, nn. 2-7.
22 Cfr. Statuta, n. 4, parágrafo 3. Igualmente em ambas Seções do Opus Dei, isto é, a de homens e a de mulheres, há a mesma unidade de vocação, de espírito, de fim e de governo, embora cada Seção tenha seus próprios apostolados.
23 É interessante reparar que no grupo das santas mulheres há um núcleo permanente de mães: a de Jesus, Salomé (mãe de Tiago e de João), Maria de Cleofas (mãe do outro Tiago). De modo semelhante, Deus mostra e oferece-nos uma “maternidade” na Obra, através da Administração, que serve de estímulo para os centros e para os lares de todas as pessoas do Opus Dei.
24 Cfr. Rafael Alvira, El lugar al que se vuelve. Reflexiones sobre la familia, EUNSA, Pamplona, 2014.
25 Fernando Ocáriz, Carta pastoral 28 de outubro, n. 11.
26 “A vossa vocação humana é parte, e parte importante, da vossa vocação divina. Esta é a razão pela qual tendes que santificar-vos – contribuindo ao mesmo tempo para a santificação dos outros, dos vossos iguais – precisamente santificando o vosso trabalho, e o vosso ambiente: essa profissão ou ofício que preenche os vossos dias, que dá uma fisionomia peculiar à vossa personalidade humana, que é a vossa maneira de estar no mundo; esse lar, a vossa família; e essa nação em que nascestes e que amais” (São Josemaria, É Cristo que passa, n. 46).
27Efetivamente, a vocação divina não dá a uma pessoa uma posição única no mundo. A vocação dá-nos uma luz, uma força para nos concentrarmos na nossa situação na sociedade e para desenvolver uma dedicação profissional a fim de cumprir a nossa missão apostólica.
28 São Josemaria, Carta com motivo de las bodas de oro sacerdotales, 28/01/1975. Esta frase foi utilizada repetidamente em sua pregação e escritos.
29 Um exemplo entre muitos é o de Gloria Gandiaga, primeira numerária auxiliar de Bilbao, que ganhou em 1970 o Prêmio Nacional de Cozinha. Escreveu um livro de cozinha com um prólogo de Pedro Subijana (chefe condecorado com três estrelas Michelin), que reconheceu o prestígio e a categoria humana de Gloria.
30Ao utilizar a expressão “vida compartilhada”, referimo-nos indistintamente às administrações em que as numerárias e as numerárias auxiliares trabalham juntas e àquelas onde também partilham a vida familiar porque são centros.
31 Fernando Ocáriz, Carta pastoral, 28 de outubro de 2020, n. 15.
32 Palavras de Isabel Sánchez, em Álvaro Sánchez León, En La tierra como en El cielo, Rialp, Madrid, 2018, p. 136.
33 Statuta, n. 9.
34 Portanto, há já vários anos, tem havido uma revalorização de certos trabalhos manuais. Ver, por exemplo, Michael Crawford, The Case for WorkingwithYourHands, Viking, New York, 2009; Richard Sennet, The craftsman, Yale University Press, New Haven, 2008.
35 Fernando Ocáriz, Carta pastoral, 28 de outubro de 2020, n. 16.
36 O b. Álvaro del Portillo quis recordar em 1982 algumas ideias do fundador próximas da data do seu falecimento: São Josemaria tinha afirmado (as palavras não são literais) que “se, pelo desenvolvimento de um país, se está a tornar comum que quase todas as moças obtenham um título profissional ou universitário, haverá licenciadas universitárias e doutoras que serão numerárias auxiliares do Opus Dei: e encontrarão nesta vocação divina a alegria e a honra da sua vida” (nota (17/82), AGP, Q.1,3, legajo 08, carpeta 53).
37José Luis González Gullón – John F. Coverdale, Historia del Opus Dei, Rialp, Madrid, 2021, pp.560-561.
38 São Josemaria. Carta n. 27, 29 de setembro de 1957, n. 8.
39 “De modo que as outras Numerarias são também de fato auxiliares das Auxiliares” (São Josemaria, Carta n. 36, 29 de julho de 1965, n. 25).
40 “O meu ensinamento constante tem sido que as outras Numerárias têm que saber servir as Auxiliares. (...) São assim esplêndidos instrumentos: podem olhar-se no espelho do vosso comportamento e refletir a luz que vocês podem e devem dar. (...) Tal como o Senhor servia os seus discípulos, devem vocês também servir as Numerárias Auxiliares” (São Josemaria, Carta n. 36, 29 de julho de 1965, n. 30).
41 Ibid.
42 “Nunca as deixem sozinhas: seria contrário ao nosso espírito. E isto não é uma manifestação de desconfiança, mas uma prova de carinho e um dever de justiça, porque têm direito a receber constantemente o calor do seu trabalho manual; direito a que as ajudem, a que as guiem” (ibid.).
43 São Josemaria, Carta n. 36, 29 de julho de 1965. n. 18.
44 Ibid.
4545 Cfr. Entrevistas com Mons. Josemaria Escrivá, n. 1.
4646 Cfr. Fernando Inciarte, Cultura y verdad, EUNSA, Pamplona, 2015, pp. 250-251.
4747 São Josemaria, Carta n. 27, 29 de setembro de 1957, n. 27.
4848 Cfr. Paula Hermínia Romero – Fernando Ocáriz, Cristianos em la sociedade del siglo XXI: conversación com Monseñor Fernando Ocáriz, Prelado del Opus Dei, Ediciones Cristiandad, Madrid, 2020, p. 25: “Não podemos esquecer que, sem ignorar os problemas próprios de cada época, Deus é o Senhor da História; foi Ele quem nos deu este mundo para que o cuidássemos e o dirigíssemos para a sua glória, no-lo deixou em herança e conta com o nosso esforço para torná-lo cada dia melhor”. São Josemaria explica do seguinte modo: “A caridade não é algo de abstrato; significa entrega real e total ao serviço de Deus e de todos os homens: desse Deus que nos fala no silêncio da oração e no rumor do mundo; desses homens cuja existência se entrecruza com a nossa” (Entrevistas com Mons Josemaria Escrivá de Balaguer, n. 62). Cfr. também Dar ao mundo a sua modernidade [https://opusdei.org/es/article/dar-al-mundo-su-modernidad/]. Romana, n.72, Enero-Junio 2021, p. 123-142.

