Como moradores de Juiz de Fora, fomos muito impactados pelas fortes chuvas que ocorreram no Estado de Minas Gerais na última semana de Fevereiro de 2026.
Pela Graça de Deus, nada sério com nossa família, porém ficamos muito tristes por todos que foram direta ou indiretamente atingidos por essa catástrofe, especialmente nossa ajudante, que mora no ponto mais atingido da cidade, seus familiares e amigos. Procuramos desde o início ajudar com doações e prestar todo o apoio que nos era possível, porém havia um desejo de “fazer mais”, e não sabíamos ainda qual seria o melhor caminho.

Porém, Deus tem seus “meios”, e conversando com um casal amigo, viemos a saber que a arquidiocese de Juiz de Fora estava precisando de voluntários para prestar apoio espiritual às pessoas desabrigadas, um pedido feito diretamente pelo Arcebispo Dom Gil Antônio.
Era exatamente o que procurávamos, pois como viemos a perceber, havia bastantes doações materiais, porém uma carência grande de apoio humano e espiritual. Assim, nos organizamos em lideranças regionais (ao todo eram dezoito escolas que estavam sendo abrigos na cidade) e eu fiquei responsável por um local junto com meu esposo e outras pessoas que participam dos meios de formação da Obra em JF.
Logo de início enfrentamos o primeiro desafio: vencer a barreira da desconfiança e do corpo a corpo com pessoas de todos os lugares e representações que de alguma forma também queriam ajudar. No primeiro dia não conseguimos nem entrar no local que ficou a nosso encargo: uma escola municipal no local mais arrasado pelas chuvas e que se tornou abrigo provisório. Fizemos então algumas orações em frente à escola e fomos para casa.

No dia seguinte retornamos com o ânimo renovado e o desejo sincero de apoiar aquelas pessoas, escutá-las e oferecer um ombro amigo… não sabíamos como nos receberiam, mas fomos em frente mesmo assim, com a santa ousadia que São Josemaria ensinava.
Para nossa surpresa, a diretora do abrigo desse dia nos recebeu e acolheu muito bem! Éramos quatro pessoas e assim, fomos de sala em sala conversar com os desabrigados. De início, um certo nervosismo misturado com compaixão nos invadiu, porém o Espírito Santo veio em nosso apoio e nossas línguas desenrolaram-se. Procuramos escutá-los, e pouco a pouco um laço de afinidade começou a surgir. Eram todas pessoas muito simples e praticamente todos cristãs protestantes, mas isso não impediu que dialogássemos, cantássemos algumas músicas e fizéssemos oração. E constatamos que ali estávamos vivendo a quaresma da maneira que o Papa nos pediu: “Este ano gostaria de chamar a atenção, em primeiro lugar, para a importância de dar lugar à Palavra através da escuta, pois a disponibilidade para escutar é o primeiro sinal com que se manifesta o desejo de entrar em relação com o outro”.

No fim, todos ficaram muito agradecidos e pediram que retornássemos mais vezes.
Era o sinal de que estávamos no caminho certo! E assim fizemos, retornando ao longo da semana e procurando entender suas realidades e prestando o apoio que eles realmente precisavam.
Enfim, uma experiência marcante e que nos fez não somente evangelizar, mas principalmente sermos evangelizados, pois como pudemos verificar, Deus se faz presente em todos os momentos e nas mais diversas circunstâncias, e principalmente, onde toda a esperança e a fé, parecem ter desaparecido por completo. E foi essa esperança que encontramos — e que levamos conosco no coração.
“E comprometamo-nos a fazer das nossas comunidades lugares onde o clamor de quem sofre seja acolhido e a escuta abra caminhos de libertação, tornando-nos mais disponíveis e diligentes no contributo para construir a civilização do amor” (LEÃO PP. XIV).

