Para todos os públicos

Yolanda é diretora do Arquivo Geral da Universidade de Navarra. Desde 2009 trabalha também como historiadora nos seus "tempos livres", colaborando com o Instituto Histórico S.Josemaria Escrivá.

Como surgiu este trabalho?

A minha primeira colaboração foi a publicação em Studia et Documenta (revista do Instituto Histórico) de uma edição crítica das cartas que São Josemaria escreveu a Dolores Fisac, durante a Guerra Civil espanhola (artigo em www.isje.org). Através dessa correspondência, mantida numa conjuntura específica, Dolores Fisac pediu a admissão no Opus Dei. Tratava-se da primeira mulher (depois de María Ignacia García Escobar) que perseverou no Opus Dei.

Recentemente terminei outro artigo para Studia et Documenta sobre os Doutoramentos Honoris Causa concedidos pela Universidade de Navarra, sendo Grão-Chanceler São Josemaria Escrivá. Celebraram-se quatro atos acadêmicos e neles o Fundador do Opus Dei pronunciou 4 dos seus 10 discursos.

Há pouco tempo o Diretor do Instituto Histórico propôs-me levar a cabo a edição crítica dos Discursos de São Josemaria e é nisto que agora estou investigando.

O fundador do Opus Dei na esplanada do edifício antigo da Biblioteca da Universidade de Navarra. 1967

Quais são os outros 6 discursos?

Ao todo são 10 discursos, pronunciados, por ordem cronológica, nas seguintes ocasiões: No Doutoramento Honoris Causa outorgado pela Universidade de Saragoça (21de outubro de 1960); na inauguração do Estudo Geral de Navarra (25 de outubro de 1960); ao receber, por parte do Município de Pamplona, do título de filho adotivo da cidade (25 de outubro de 1960), na investidura de Doutor Honoris Causa de Juan Cabrera y Felipe e Miguel Sancho Izquierdo na Universidade de Navarra (28 de novembro de 1964), na inauguração do centro ELIS em Roma (21 de novembro de 1965); na investidura como Doutor Honoris Causa dos professores Braga da Cruz, Willy Onclin, Ralph M. Hower, Otto B. Roegele, Jean Roche e Carlos Jiménez Díaz na Universidade de Navarra (7 de outubro de 1967); na investidura como Doutores Honoris Causa de Franz Hengsbach e Jérôme Lejeune na Universidade de Navarra (9 de maio de 1974); na recepção da medalha de ouro de Barbastro (25 de maio de 1975).

Surpreende que tenham sido apenas 10...

Pronunciando um discurso durante a investidura de Doutores Honoris Causa na Universidade de Navarra. À sua esquerda, o Vice-Reitor Ismael Sánchez Bella. 1967

O número também me chamou a atenção. Penso que, entre outras razões, se deve à maneira de ser de São Josemaria, pouco dada a discursos. Pelo menos foi o que concluí quando me deparei com o seguinte documento. Como já disse, a primeira cerimônia de investidura de Doutores Honoris Causa na Universidade de Navarra foi em 28 de Outubro de 1964. Meses antes, chegou a Roma o programa, pormenorizado, proposto para esses dias. Havia um ponto que dizia "Na Câmara Municipal de Pamplona: recepção ao Grão-Chanceler e à Direção da Universidade", São Josemaria anotou "sem ‘discursinhos’", o que demonstra que os evitava sempre que podia.

Para muitos, os discursos acadêmicos são talvez a parte dos escritos de São Josemaria Escrivá, menos conhecidos. Eles são realmente "para todos os públicos"?

Penso que todas as obras de São Josemaria se dirigem a "todos os públicos" – não só aos fiéis da Prelazia – logicamente, se pensarmos que a mensagem do Opus Dei se dirige a todos os cristãos. Com mais razão, os discursos escritos para serem pronunciados em público.

Pode acontecer que não tenham sido lidos. Mas estão à disposição de quem os quiser ler: quando foram pronunciados, a imprensa publicou-os e, portanto podem ser encontrados nas hemerotecas. Atualmente podem consultar-se através da internet.

Yolanda, a senhora não conheceu pessoalmente São Josemaria, mas é de opinião que através dos seus escritos, se pode vislumbrar alguma característica da sua personalidade? Qual destacaria?

Na verdade, não o conheci pessoalmente, mas penso que se pode conhecê-lo – e sobretudo a sua mensagem – através dos seus escritos e obras. Por exemplo, na minha breve investigação para o último artigo de Studia et Documenta descobri alguns traços do seu caráter que me chamaram a atenção.

S. Josemaria conversando com alunos da Universidade de Navarra. 1964

A 13 de Novembro de 1964, Amadeo de Fuenmayor escreveu uma carta a São Josemaria e, entre muitas coisas, dizia-lhe "pelas notícias que chegam de todo o lado, é de prever uma grande afluência a Pamplona". Sublinhando as ultimas palavras – uma grande afluência a Pamplona – São Josemaria anotou a vermelho "que o Senhor nos dê paciência! Eu não quero isto". Este comentário espontâneo ilustra a sua personalidade: se podia, evitava as multidões, mas, apesar disto, durante esses anos teve encontros multitudinários, especialmente em 1967.

Penso que todas as obras de S. Josemaria se dirigem a "todos os públicos" - não só aos fiéis da Prelazia - logicamente, se pensarmos que a mensagem do Opus Dei se dirige a todos os cristãos. Com mais razão, os seus discursos escritos para serem pronunciados em público.

Para o ato acadêmico da investidura de Doutores Honoris Causa de 1967 trocaram-se opiniões sobre o traje acadêmico que deveria usar São Josemaria que, como Grão-Chanceler da Universidade de Navarra, presidia à cerimônia. Num primeiro momento, em Roma considerava-se que fosse com as cores dos seus doutoramentos: Direito e Teologia. Uma segunda opinião, a dos professores de Pamplona, chegou por escrito ao Fundador. Explicavam que o traje de Reitor (murça e borla negros) tinha uma razão de ser: ao ser promovido ao cargo de Reitor, o professor deixa de usar as cores da sua Faculdade de origem e veste-se de negro para mostrar que já não pertence à sua Faculdade (ou faculdades, se fosse doutor em várias), mas que está acima de todas para poder dirigi-las. Acrescentavam que, em sua opinião, seria oportuno que o Grão-Chanceler não ostentasse as cores das Faculdades onde tinha obtido o grau de doutor e sugeriam que usasse além da capa e punhetes cor de rosa sobre a batina, murça de seda negra, borla com franjas douradas, e o colar próprio do seu cargo. Quando São Josemaria leu esta alternativa sobre o seu traje acadêmico escreveu à mão, com tinta vermelha, uma coisa que penso que retrata o seu caráter "que façam o que quiserem, para mim tanto faz!".

S. Josemaria conversa com o Professor Álvaro D’Ors durante o desfile prévio à investidura dos Doutores Honoris Causa. 1967

E da sua fé?

Sobre a fé de São Josemaria lembro-me do que pensei depois de fazer a edição da sua correspondência com Maria Dolores Fisac.

Era difícil imaginar o desenvolvimento de uma tarefa apostólica em circunstâncias tão adversas como as de uma Guerra e mais ainda se nela a Igreja fosse perseguida. Teria sido compreensível que o Fundador tivesse esperado que a guerra acabasse. Contudo, naquela conjuntura, São Josemaria realizou um apostolado extraordinário. A proposta que São Josemaria fez a Dolores para que meditasse na sua possível vocação para o Opus Dei, não foi um ato isolado; logo que saiu da Legação das Honduras organizou e pregou vários retiros espirituais e nesses dias José Maria Albareda pediu a admissão no Opus Dei.

Era difícil imaginar o desenvolvimento de uma tarefa apostólica em circunstâncias tão adversas como as de uma Guerra

Penso que este modo de proceder evidencia a determinação com que São Josemaria desejava cumprir a vontade de Deus e a fé na graça de Deus. Conseguia as duas coisas através da sua união com Deus, na oração, na Eucaristia e no sacrifício. Na documentação que compulsei vi que além de todos os sofrimentos causados pela guerra: a insegurança, a angústia, a fome, o medo, a preocupação, etc., procurava mortificações corporais voluntárias como o aloés que pedia a Zorzano, Tudo isto adquire, se é possível, maior importância se se tem em conta que eram precisamente momentos em que São Josemaria passou por um período de prova.

Dadas as características da guerra, chamou-me à atenção a ausência de qualquer tipo de juízo de valor sobre a atuação de um ou de outro lado. Parece-me difícil encontrar outra situação mais extrema para viver a caridade e o respeito.

*Yolanda Cagigas estudou em diversas universidades: Valladolid (licenciatura em História e especialidade em História Contemporânea), Sevilha (mestrado em Arquivística), Navarra (doutoramento). Atualmente é Presidente da Associação de Arquivistas de Navarra, membro do Comitê Executivo dos Arquivistas das Universidades Espanholas; membro do Comitê Executivo da Secção de Arquivos de Arquitetura do International Council on Archives ICA-SAR). Além de diversos artigos sobre Arquivística em revistas da especialidade, publicou a sua tese de doutoramento: La Revista Vida Nueva (1967-1976). Un proyecto de renovación en tiempos de crisis, Pamplona, Universidad de Navarra, 2007.