Introdução
Nas sociedades modernas, o trabalho adquiriu uma relevância evidente. A pergunta sobre quem é uma pessoa, já não é determinada tanto por sua família (“de que família você é?”) quanto por seu trabalho (“em que você trabalha?”). Muitas vezes, o trabalho é o sinal que determina quem uma pessoa é em si mesma, em relação à sua família e, evidentemente, ao lugar que ocupa na sociedade. Além disso, do ponto de vista social, o trabalho é visto como a força mais determinante para o dinamismo e a transformação da sociedade como um todo. De tal forma que a principal influência que uma pessoa pode ter na sociedade em que vive é o seu trabalho.
Esta realidade corresponde à dinâmica histórica dos últimos séculos, desde a revolução científica iniciada no século XVII, com um progressivo desenvolvimento tecnológico, uma revolução industrial e uma estruturação da sociedade fortemente focada no trabalho produtivo1. Assim nos deparamos com afirmações tão categóricas quanto a célebre frase de Marx nos Manuscritos de 1844: “toda a chamada história universal não é senão o que o homem gerou por meio do trabalho humano”2; ou o que formulou João Paulo II, “o trabalho humano é uma chave, talvez a chave essencial de toda a questão social”3.
Este fato, a importância atual do trabalho, leva a várias perguntas às quais a Teologia deve responder. O que é o trabalho? Para dar um passo a mais, o que é o trabalho para um cristão? Ou seja, qual é a relação entre trabalho e vida cristã? Que papel o trabalho tem na missão de edificar a Igreja e construir o mundo?
Com sua encarnação, morte e ressurreição, Jesus Cristo transformou o significado de todas as coisas. A ressurreição representa uma mudança no núcleo da realidade do ser, uma fissão nuclear no mais profundo da vida, que renova todas as coisas4. Em concreto, com relação ao tema que estamos tratando, podemos afirmar que Jesus de Nazaré mudou a noção de trabalho. É necessário, portanto, uma teologia do trabalho e uma espiritualidade do trabalho. Há muitos desenvolvimentos do tema, nos quais não podemos nos deter agora5. Limitaremos nossa apresentação a algumas notas sobre a teologia e a espiritualidade do trabalho a partir dos ensinamentos de São Josemaria6.
Costuma-se dizer, que enquanto o místico desfruta da contemplação de Deus no cume da montanha da sabedoria, o teólogo sobe pouco a pouco e com esforço. Ao alcançar o ápice de seu trabalho intelectual, descobre, surpreso, que chegou onde o místico o esperava. São Josemaria é um místico do trabalho, “o santo do cotidiano” como o definiu João Paulo II na homilia de sua canonização em 6 de outubro de 2002.
Seguiremos o seguinte esquema. Analisaremos primeiro a visão do mistério de Jesus Cristo a partir da qual São Josemaria contempla a realidade do trabalho, concretamente dois pontos: a vida oculta de Jesus e a exaltação da Cruz. Em seguida, tentaremos destacar a nova concepção do trabalho que surge desse olhar de fé. Analisaremos, por último, a relação profunda entre trabalho e vida/santidade cristã. Seguindo estes três passos, podemos afirmar que a principal força de mudança social do cristianismo, capaz de edificar uma “civilização do amor” deve ser o trabalho diário como realização da caridade de milhões de cristãos no mundo inteiro.
1. Uma visão peculiar do mistério de Jesus Cristo
Todo autor cristão, especialmente se tem uma mensagem ou carisma específico com o qual enriquecer a Igreja, parte de uma visão singular do mistério de Jesus Cristo. Essa perspectiva pessoal ilumina a fé e a existência cristã com determinados matizes. No caso de São Josemaria, qual seria sua perspectiva específica?
Embora possamos dizer muitas coisas, vamos focar em dois traços essenciais: a visão da vida oculta de Jesus em Nazaré e a perspectiva da exaltação da cruz em relação à ressurreição de Cristo.
Primeiramente, consideremos a vida escondida de Jesus em Nazaré. Uma vida simples, normal, humana, pois Jesus Cristo é o Deus perfeito e o homem perfeito. No entanto, com a consciência de que a vocação do cristão consiste em seguir e imitar Cristo com todas as suas consequências. Por isso, a luz da vida oculta de Cristo ilumina a vida normal dos fiéis cristãos7. Isso pode ser visto, por exemplo, em uma série de textos nos quais ele faz referência precisamente ao carisma do Espírito Santo recebido em 19288.
São Josemaria observa na vida de Jesus uma existência normal, mas ao mesmo tempo, uma existência divina porque é o Filho de Deus. Esta é a grande categoria da vida cristã: “Jesus, crescendo e vivendo como um de nós, revela-nos que a existência humana, a vida comum e de cada dia tem um sentido divino. Era carpinteiro, filho de Maria. E era Deus; e estava realizando a redenção do gênero humano; e estava a atrair a si todas as coisas”9.
Jesus, com esta vida simples e comum, já estava realizando a redenção dos homens. Os cristãos, ao contemplar a vida comum de Jesus, devem descobrir sua própria vocação cristã à santidade no meio do mundo10
Devemos, no entanto, fazer notar que esta visão da vida escondida de Jesus em Nazaré é complementada pelo mistério pascal, por meio do qual Cristo atrai a si toda a criação renovando-a e dirigindo-a a Deus Pai. São Josemaria não destaca simplesmente a perfeita Humanidade de Cristo e com ela a grandeza da vida comum e simples de trabalho, de família, de solidariedade entre os homens. Ele também chama a atenção para a profunda mudança renovadora – redentora – que a Cruz e a Ressurreição de Jesus Cristo implicam.
Assim ele plasma nesta nota autobiográfica de uma experiência divina fundacional.11Deus faz com que ele compreenda de modo peculiar o significado do texto de João: “quando eu for levantado da terra, atrairei todos os homens a mim” (Jo 12, 32), ou seja, o sentido da exaltação de Jesus na cruz. O sentido é este: “E compreendi que serão os homens e as mulheres de Deus que levantarão a Cruz com as doutrinas de Cristo sobre o pináculo de toda atividade humana... E vi triunfar o Senhor, atraindo a Si todas as coisas”.
Esta experiência fundacional, chave para compreender sua visão do mistério de Jesus a partir da cruz e da ressurreição, aparece em muitos de seus escritos12. Exporemos apenas alguns deles, que descrevem perfeitamente seu pensamento:
- “Instaurare omnia in Christo, é o lema que São Paulo dá aos cristãos de Éfeso informar o mundo inteiro com o espírito de Jesus, colocar Cristo na entranha de todas as coisas. Si exaltatus fuero a terra, omnia traham ad meipsum, quando for levantado ao alto sobre a terra, tudo atrairei a mim. Cristo, com a sua encarnação, com a sua vida de trabalho em Nazaré, com a sua pregação e milagres pelas terras da Judéia e da Galileia, com a sua morte na Cruz, com a sua Ressurreição, é o centro da Criação, Primogênito e Senhor de toda a criatura. Nossa missão de cristãos é proclamar essa realeza de Cristo, anunciá-la com a nossa palavra e as nossas obras (...) Estes cristãos devem, pois, levar Cristo a todos os ambientes em que desenvolvem as suas tarefas humanas: à fábrica, ao laboratório, ao cultivo da terra, à oficina do artesão, às ruas das grandes cidades e aos caminhos de montanha”13.
b) “Cristo, Senhor Nosso, foi crucificado e, do alto da Cruz, redimiu o mundo, restabelecendo a paz entre Deus e os homens (...). Foi para isso que nós, os cristãos, fomos chamados, essa é a nossa tarefa apostólica e a preocupação que deve consumir a nossa alma: conseguir que o reino de Cristo se torne realidade, que não haja mais ódios nem crueldades, que estendamos pela terra o bálsamo forte e pacífico do amor (...). Cada um de nós tem que ser alter Christus, ipse Christus, outro Cristo, o próprio Cristo. Só assim poderemos empreender essa tarefa grande, imensa, interminável: santificar por dentro todas as estruturas temporais, levando até elas o fermento da Redenção”14.
Jesus Cristo redime todas as realidades criadas ao assumi-las em sua existência, dando-lhes a forma da cruz e transformando seu sentido com a ressurreição. A vida nova em Cristo ressuscitado faz surgir um novo significado para todas as coisas. Os fiéis cristãos estão chamados a tornar Jesus presente, levando Cristo dentro de si em suas vidas, no meio das atividades do mundo.
2. O trabalho sob a perspectiva da fé: dom de Deus, amor
Como mencionamos anteriormente, o trabalho é uma das realidades fundamentais da vida do homem e da sociedade atual. Além disso o mistério de Jesus Cristo renova o significado de todas as coisas, transformando também a noção de trabalho. É daí precisamente que partimos: o que é o trabalho sob a perspectiva da fé cristã?
Para realizar a nova evangelização, é preciso ir além da concepção clássica do trabalho como atividade própria do escravo. É preciso também ir além da concepção moderna, econômica e utilitarista do trabalho. É preciso reconsiderar o conceito de trabalho como algo essencialmente vinculado ao sentido da vida humana, destacando sua verdadeira dimensão como um elemento íntimo da pessoa15. Neste sentido, a fé traz sem dúvida uma luz muito especial, pois deixa claro que o trabalho é um dom de Deus16.
Chegou a hora de perguntar como São Josemaria caracteriza o conceito de trabalho na perspectiva da visão da fé em Jesus Cristo. Embora fosse necessário analisar muitas passagens, há um texto que oferece uma formulação ideal da noção do trabalho. Trata-se de uma passagem da homilia Na oficina de José (19 de março de 1963). Sua visão cristã do trabalho culmina na relação entre trabalho e amor. Em um contexto espiritual pode ser visto como algo bonito e, portanto, normal. Porém em um contexto teológico, essa relação é muito profunda e nada evidente. O trabalho é amor. Do ponto de vista sociológico, esta visão não é compartilhada por grande parte da humanidade trabalhadora. Qual é, porém, o itinerário para se chegar a esta afirmação?
Lemos no texto:
“O trabalho, todo o trabalho, é testemunho da dignidade do homem, do seu domínio sobre a criação; é meio de desenvolvimento da personalidade; é vínculo de união com os outros seres; fonte de recursos para o sustento da família; meio de contribuir para o progresso da sociedade em que se vive e para o progresso de toda a humanidade.
Para um cristão, essas perspectivas alargam-se e ampliam-se, porque o trabalho se apresenta como participação na obra criadora de Deus que, ao criar o homem, o abençoou dizendo: Crescei e multiplicai-vos, e enchei a terra e submetei-a, e dominai sobre os peixes do mar e sobre as aves do céu, e sobre todos os animais que se movem sobre a terra. E porque, além disso, ao ser assumido por Cristo, o trabalho se nos apresenta como realidade redimida e redentora: não é apenas a esfera em que o homem se desenvolve, mas também meio e caminho de santidade, realidade santificável e santificadora”17.
Primeiramente, ele aborda a dimensão humana – por assim dizer – do trabalho: a dignidade do homem, o desenvolvimento da personalidade, o vínculo com os outros: a família, os colegas, a sociedade. Em seguida, expõe a visão de fé (“para um cristão”). Dessa maneira, o trabalho é enquadrado na teologia da criação e na teologia da redenção. A partir daí a relação entre criação e amor (tudo foi criado por e para o amor de Deus) e a relação redenção e amor (o amor de Deus fundamenta a redenção), são cruciais e não deixam espaço para dúvidas. Deus Pai nos criou pelo amor e para o amor. Jesus Cristo nos redimiu por amor (“ninguém tem maior amor do que aquele que dá a vida por seus amigos”) e para que o amemos.
Em seguida, ele afirma:
“Convém não esquecer, portanto, que esta dignidade do trabalho se baseia no Amor. O grande privilégio do homem é poder amar, transcendendo assim o efêmero e o transitório. O homem pode amar as outras criaturas, dizer um “tu” e um “eu” cheios de sentido. E pode amar a Deus, que nos abre as portas do céu, que nos constitui membros da sua família, que nos autoriza a falar-lhe também de tu a Tu, face a face.
Por isso, o homem não se deve limitar a fazer coisas, a construir objetos. O trabalho nasce do amor, manifesta o amor, orienta-se para o amor. Reconhecemos Deus não apenas no espetáculo da natureza, mas também na experiência do nosso próprio trabalho, do nosso esforço. O trabalho é assim oração, ação de graças, porque nos sabemos colocados na terra por Deus, amados por Ele, herdeiros de suas promessas. É justo que o Apóstolo nos diga: Quer comais, quer bebais, ou façais qualquer outra coisa, fazei tudo para a glória de Deus”18.
Situar o trabalho no contexto da criação e da redenção, implica situá-lo na relação entre trabalho e amor. E fala-se, portanto, de um amor transcendental da pessoa; e de um trabalho, também transcendental, da pessoa. Não se trata simplesmente do trabalho como ocupação frente ao ócio. Nem do trabalho como virtude da laboriosidade. Nem do trabalho como mera função de produção.
Nesse sentido transcendental, o trabalho manifesta o amor e se identifica com ele. Tem a ver com ser pessoa e ser pessoa imagem de Deus. Implica a pessoa em sua totalidade: inteligência, vontade, afetividade, corpo, operação. É amor porque constitui uma forma de doação da pessoa. Somente o amor é caminho para que a pessoa saia de si mesma sem ficar alienada. E precisamente porque o amor supõe êxtase, sair de si nos une aos outros, como vínculo de união verdadeira. O trabalho é uma doação da pessoa ao mundo criado, à sociedade, às pessoas destinatárias do trabalho, à família, a Deus. No trabalho, o homem, imagem de Deus, manifesta e extravasa o amor de Deus no mundo, o amor da criação e o amor da redenção. O trabalho faz parte do culto espiritual a Deus próprio da pessoa.
3. Trabalho e oração: contemplativos no meio do mundo
A partir desta nova concepção do trabalho visto a partir da fé na criação e redenção em Cristo, é possível fazer algumas considerações sobre a relação entre trabalho e espiritualidade cristã. Concretamente, sobre um dos núcleos essenciais da pregação de São Josemaria: a união entre trabalho e oração, a realidade de que o fiel cristão deve ser plenamente contemplativo no meio do mundo.
A vida cristã é vida de oração na medida em que constitui conformidade filial e amorosa à vontade do Pai que é a união em Cristo por obra do Espírito Santo. Esta é a oração contínua: a fé que vive pela esperança no amor. Esta é a vida de Cristo e a vida do cristão. Isto é ser “contemplativos no meio do mundo”19. Conformar a nossa vontade à vontade do Pai em tudo por amor, pois somos e sabemos que somos filhos de Deus que correspondem ao seu Amor infinito. Realizar a vontade do Pai em tudo é fazer da vida pessoal um viver de fé, esperança e caridade. Não apenas nos momentos concretos de oração, mas em todos os momentos e circunstâncias: a vida familiar, de trabalho, social, o descanso e a diversão, enfim, toda a vida da pessoa. Isso porque a vida teologal pode e deve impregnar todas as ações, inclusive o trabalho cotidiano.
São Josemaria sintetiza esta doutrina em uma homilia sobre o trabalho,“Trabalho de Deus”, na qual indica claramente duas diretrizes inseparáveis e complementares. O segredo consiste em “fazer do trabalho oração” (Amigos de Deus, nºs. 64-67) e para consegui-lo, “fazer o trabalho por amor” (Amigos de Deus n. 67 e seguintes). Assim, o cristão faz com que “se estenda o reinado de Cristo em todos os continentes”.
“O teu trabalho deve ser oração pessoal, tem de converter-se num grande colóquio com o nosso Pai do Céu. Se buscas a santificação em e através da tua atividade profissional, terás necessariamente de esforçar-te para que se converta numa oração sem anonimato (...). Convencidos de que Deus se encontra em toda a parte, cultivamos os campos louvando o Senhor, sulcamos os mares e exercemos todos os demais ofícios cantando as suas misericórdias. Desta maneira estamos unidos a Deus a todo o momento (...), vivereis metidos no Senhor, através desse trabalho pessoal e esforçado, contínuo, que tereis sabido converter em oração, porque o tereis começado e concluído na presença de Deus Pai, de Deus Filho e de Deus Espírito Santo (...). Persuadi-vos de que não é difícil converter o trabalho num diálogo de oração. É só oferecê-lo e pôr mãos à obra, que já Deus nos escuta e nos alenta. Alcançamos o estilo das almas contemplativas, no meio do trabalho cotidiano! Porque nos invade a certeza de que Ele nos olha, ao mesmo tempo que nos pede um novo ato de autodomínio: esse pequeno sacrifício, o sorriso para a pessoa inoportuna, esse começar pela tarefa menos agradável, mas mais urgente, o cuidar dos pormenores de ordem, com perseverança no cumprimento do dever, quando seria tão fácil abandoná-lo, o não deixar para amanhã o que temos que terminar hoje: tudo para dar gosto a Ele, ao nosso Pai-Deus! E talvez sobre a tua mesa, ou num lugar discreto que não chame a atenção, mas que te sirva como despertador do espírito contemplativo, colocas o crucifixo, que já é para a tua alma e para a tua mente o manual em que aprendes as lições de serviço”20.
Para conseguir que o trabalho se torne oração e, por meio desse trabalho feito oração, o cristão se santifique a si mesmo e contribua para a santificação-redenção do mundo, é necessário fazer o trabalho por amor a Deus e aos homens. “Fazer o trabalho por amor”, implica, porém, que o trabalho tem por finalidade o amor. “Por amor”, não é a simples intenção ou o motivo, mas o fim que explica e impulsiona toda a atividade humana do trabalho21.
“E como conseguirei - parece que me perguntas - atuar sempre com esse espírito, de modo a concluir com perfeição o meu trabalho profissional? A resposta não é minha; vem de São Paulo: Trabalhai varonilmente e animai-vos mais e mais. Todas as vossas obras sejam feitas em caridade. Fazei tudo por Amor e livremente; não deis nunca lugar ao medo ou à rotina: servi o nosso Pai-Deus. Ocupa-te dos teus deveres profissionais por Amor; leva a cabo todas as coisas por Amor (...). Por amor a Deus, por amor às almas, e para correspondermos à nossa vocação de cristãos, temos que dar bom exemplo (...). Portanto, cada um na sua tarefa, no lugar que ocupa na sociedade, tem que sentir a obrigação de realizar um trabalho de Deus, que semeie por toda a parte a paz e a alegria do Senhor”22.
Trata-se, sem dúvida, de um caminho bonito, mas que não é fácil. Trabalhar por amor, para servir; não por dinheiro, nem por reconhecimento pessoal, nem para manter o poder. Isso requer uma vida teologal, unida a toda a trama de virtudes, que torna possível que o trabalho da pessoa contribua à edificação da sociedade de acordo com a justiça, a paz e o amor23.
4. Conclusão: o trabalho como força transformadora da sociedade
Dessa maneira, recapitulemos os pontos anteriormente vistos, fechando o círculo pelo qual havíamos iniciado: trabalho, amor, santidade, redenção e Jesus Cristo.
O trabalho é um dos grandes agentes da transformação da sociedade e do mundo. E o é a partir da primazia da pessoa. A pessoa se realiza e cresce precisamente no trabalho. Esta conexão ajuda a aprofundar na noção de trabalho. De um lado, porque nos faz focar mais na dimensão subjetiva do trabalho mais do que na objetiva (embora sem esquecê-la). De outro, porque ajuda a destacar que o trabalho é da pessoa e para a pessoa. Se o trabalho é amor, então só pode ser uma realidade pessoal. O amor só se pode dar entre pessoas. Nesse sentido, o ser profundo do trabalho consiste em que a pessoa com seu trabalho se une às coisas criadas para fazer-se serviço e para torná-las serviço à outra pessoa. Ou seja, por meio de seu trabalho, de sua doação como pessoa no trabalho, ela consegue fazer com que as coisas criadas com as quais trabalha e que transforma se convertam em algo para a outra pessoa. Assim, o universo é renovado, ordenado segundo a vontade do Criador, por meio do amor redentor de Cristo no cristão.
Realmente, se todo o mundo do trabalho atual - milhões e milhões de pessoas – recebesse este evangelho, esta boa nova do trabalho como amor, do trabalho como serviço de uma pessoa para as outras, seria possível falar de uma nova civilização do amor, não utópica. Isto só é possível se as leis internas do mundo do trabalho forem respeitadas e redimidas em união com Cristo. Isto só é possível com a ação de cada fiel cristão a partir e através do mundo do trabalho. Pelo trabalho-amor dos cristãos, Cristo é colocado no cume das atividades humanas e se realiza, na história, a recapitulação de todas as coisas em Cristo, a reconciliação do mundo com Deus. Como nos mostra o mistério da vida de Maria, o modelo de santificação do trabalho na vida cotidiana. Ela, com sua vida diária, tão parecida com a nossa, é mestra de contemplação, de santidade e transformação do mundo em direção a Deus24.
Artigo de Pablo Marti publicado em almudi.org
1 Cfr. J. L. Illanes, Ante Dios y en el mundo. Apuntes para una teología del trabajo, Eunsa, Pamplona 1997, p. 26.
2 K. Marx. Manuscritos econômico- filosóficos, Barcelona 1975, p. 126.
3 João Paulo II, Enc. Laborem exercens, n. 3.
4 “A ressurreição foi como que uma explosão de luz, uma explosão do amor que desfez o nó até então indissolúvel entre ‘morre e transforma-se’. Aquela inaugurou uma nova dimensão do ser, da vida, na qual, de modo transformado, se integrou também a matéria, e através da qual surge um mundo novo. É claro que este acontecimento não é um milagre qualquer do passado, cuja realização ou não, no fundo, nos pudesse ser indiferente. É um salto de qualidade na história da ‘evolução’ e da vida em geral para uma nova vida futura, para um mundo novo que, a começar de Cristo, incessantemente penetra já neste nosso mundo, transforma-o e atrai-o a si”, Bento XVI, Homilia na Vigília de Páscoa 2006. Com relação à visão teológica do mistério da Ressurreição, cfr. especialmente a conhecida obra de F. X. Durwell, A Ressurreição de Jesus, mistério de salvação.
5 Sobre a teologia do trabalho, ver, entre outras muitas publicações, D.Cosden, A theology of work : work and the new creation, Paternoster Press, 2004; M.D. Chenu, Hacia una teología del trabajo, Estela, Barcelona 1960; F.Fernández Rodríguez (coord.), Estudios sobre la enciclica “Laborem exercens”, BAC, Madri 1987; J.L. Illanes, Ante Dios y en el mundo: apuntes para una teología del trabajo, Eunsa, Pamplona 1997; J. L. López González, Filosofía y Teología del trabajo en Jacques Maritain (1882-1925), Eunsa, Pamplona 2001; M. Rhonheimer, Transformación del mundo, Rialp, Madri 2006; P. Teilhard de Chardin, El medio divino, Trotta, Madri 2008; G. Thils, Théologie des réalités terrestres, Desclée de Brouwer, Louvain 1946. Mas especificamente sobre a espiritualidade do trabalho: Aa. Vv., Travail, em “Dictionnaire de Spiritualité”, t. XV, cols. 1186-1250; J. L. Illanes, La santificación del trabajo, el trabajo en la historia de la espiritualidad, Palabra, Madri 2001; P. Rodríguez, Vocación, trabajo, contemplación, Eunsa, Pamplona 1986.
6 Sendo a santificação do trabalho um dos núcleos principais do ensinamento de São Josemaria, já há muitos estudos sobre o assunto. Nós exporemos as ideias e os textos mais relevantes, para aprofundar. Ver E. Burkhart – J. López, Vida cotidiana e santidade no ensinamento de São Josemaria, vol. III, Rialp, Madri 2013, pp. 134-221; J. L. Illanes, Trabajo (santificación del), em Diccionario de San Josemaria Escrivá de Balaguer, Monte Carmelo, Burgos 2013, pp. 1202-1210, e a abundante bibliografia listada em tais estudos.
7 Cfr. Amigos de Deus, n. 56.
8 Nestes textos ele utiliza a expressão (1928) “para referir-se ao carisma fundacional, que o levou a pregar a santidade na vida cotidiana através do trabalho, com relação à vida oculta de Jesus. Cfr. Amigos de Deus, nºs 59, 81, 210; É Cristo que passa, n. 21; Entrevistas, nºs 26, 34, 55.
9 Cfr. É Cristo que passa, n. 14
10 Cfr. É Cristo que passa, n. 20
11 “7 de agosto de 1931: [...]. Chegou a hora da Consagração: no momento de elevar a Sagrada Hóstia, sem perder o devido recolhimento, sem me distrair – acabava de fazer in mente a oferenda ao Amor misericordioso – veio ao meu pensamento, com força e clareza extraordinárias, aquilo da Escritura: et si exaltatus fuero a terra, omnia traham ad meipsum (Jo 12,32). Normalmente, diante do sobrenatural, tenho medo. Depois vem aquele ne timeas, sou Eu. E compreendi que seriam os homens e mulheres de Deus que levantarão a Cruz com as doutrinas de Cristo sobre o pináculo de toda atividade humana... E vi triunfar o Senhor, atraindo a Si todas as coisas”, Apuntes íntimos, n. 217, em A. Vázquez de Prada, O Fundador do Opus Dei, vol. I.
12 Para um estudo mais detalhado, cfr. P. Rodríguez, “Omnia traham ad meipsum”. O sentido de João 12, - 32 na experiência espiritual de Mons. Escrivá, Romana 13 (1991) 331-351.
13 Cfr. É Cristo que passa, n. 105
14 Cfr. É Cristo que passa, n. 183.
15 Ver a profunda reflexão sobre o trabalho que João Paulo II faz na encíclica Laborem Exercens, assim como as interessantes considerações de M. A. Martínez-Echevarría, Repensar el trabajo, Eunsa, Madri 2004.
16 Cfr. Amigos de Deus, n. 57.
17 É Cristo que passa, n. 47. É evidente a semelhança entre este parágrafo e o texto de Gaudium et Spes n. 67 sobre o trabalho. Neste sentido, devemos sublinhar que tanto na teologia como na espiritualidade do trabalho contemporâneas, sempre há referências à doutrina sobre a criação e à vida de trabalho de Jesus que o cristão deve imitar. Veja-se, por exemplo, as obras de Chenu, Thils, Wojytla, etc. No entanto, a conexão entre a exaltação de Cristo na Cruz e o trabalho dos fiéis cristãos como meio para estender o reinado de Cristo implica um aspecto novo, específico e fecundo do ensinamento de São Josemaria.
18 É Cristo que passa, n. 48.
19 Para um estudo mais detalhado do tema, cfr. Aa.Vv., La contemplazione cristiana: esperienza e dottrina, Atti del IX Simposio della Facoltà di Teologia della Pontificia Università della Santa Croce, Libreria Editrice Vaticana, Città delVaticano 2007; J.L Illanes, Existencia cristiana y mundo, jalones para una reflexión teológica sobre el Opus Dei, Eunsa, Pamplona 2003, pp. 301-331.
20 Amigos de Deus, nºs 64, 66, 67.
21 Cfr. as análises pormenorizadas de E. Burkhart – J. López, Vida cotidiana y santidad en la enseñanza de San Josemaría, vol. III, Rialp, Madri 2013 pp. 134-221; F. Ocáriz, Naturaleza, Gracia y Gloria, Eunsa, Pamplona 2000, pp.261-271.
22 Amigos de Deus, nºs 68, 70.
23 Cfr. Amigos de Deus, nºs 71-72.
24 Cfr. É Cristo que passa, n. 174.

