18. Felipe

Ao ilustrar a vida do Apóstolo Felipe, nossa Catequese de hoje destaca a sua posição favorável dentro do Colégio Apostólico, ajudando-nos a conhecer, na humanidade Santíssima de Cristo, nosso Pai dos céus. Por isso, São Paulo nos convida a “aprender de Cristo” (cf. Ef 4,20), não só escutando os seus ensinamentos, mas descobrindo a verdadeira identidade de nosso Senhor, pela sua riqueza inefável de graça e misericórdia.

Quarta-feira, 12 de setembro de 2006

Queridos irmãos e irmãs:

Ao seguir traçando o semblante dos diferentes apóstolos, como temos feito há algumas semanas, nos encontramos hoje com Felipe. Nas listas dos Doze, sempre aparece em quinto lugar (em Mateus 10, 3; Marcos 3, 18; Lucas 6, 14; Atos 1, 13), ou seja, fundamentalmente entre os primeiros. Ainda que Felipe fosse de origem judaica, seu nome é grego, como o de André, o que constitui um pequeno gesto de abertura cultural que não podemos subestimar. As notícias que nos chegam dele procedem do Evangelho de João. Era do mesmo lugar de Pedro e André, ou seja, Betsaida (cf. João 1, 44), uma pequena cidade que pertencia à tetrarquia de um dos filhos de Herodes, o Grande, que também se chamava Felipe (cf. Lucas 3, 1).

O quarto Evangelho conta que, depois de ter sido chamado por Jesus, Felipe se encontra com Natanael e lhe diz: “Esse de quem escreveram Moisés, na Lei, e também os profetas, nós encontramos: Jesus, o filho de José, de Nazaré” (João 1, 45). Diante da resposta mais cética de Natanael — “De Nazaré pode sair coisa boa?” —, Felipe não se rende e responde com decisão: “Vem e vê” (João 1, 46). Com esta resposta, seca mas clara, Felipe demonstra as características da autêntica testemunha: não se contenta em apresentar o anúncio como uma teoria, mas interpela diretamente o interlocutor, sugerindo-lhe que ele mesmo faça a experiência pessoal do anunciado. Jesus utiliza esses dois mesmos verbos quando dois discípulos de João Batista se aproximam dele para perguntar onde mora: Jesus respondeu: “Vinde e vede” (cf. João 1, 38-39).

Podemos pensar que Felipe nos interpela com esses dois verbos que supõem uma participação pessoal. Também a nós diz o que disse a Natanael: “Vem e vê”. O apóstolo nos chama a conhecer Jesus de perto. De fato, a amizade, conhecer verdadeiramente o outro, requer proximidade e, mais ainda, vive dela. De fato, não podemos esquecer que, segundo escreve Marcos, Jesus escolheu os Doze com o objetivo primário de que “estivessem com ele” (Marcos 3, 14), ou seja, de que compartilhassem a sua vida e aprendessem diretamente dele não só o estilo de seu comportamento, mas, antes de tudo, quem era Ele realmente. Só assim, participando de sua vida, podiam conhecê-lo e anunciá-lo. Mais tarde, na carta de Paulo aos Efésios, pode ler-se que o importante é “o Cristo que vós aprendestes” (4, 20), ou seja, o importante não é só, nem sobretudo, escutar seus ensinamentos, suas palavras, mas conhecê-lo pessoalmente, isto é, a sua humanidade e divindade, o mistério da sua beleza. Ele não é só um Mestre, mas um Amigo e, mais do que isso, um Irmão. Como poderíamos conhecê-lo se estamos distantes dele? A intimidade, a familiaridade, o convívio nos fazem descobrir a verdadeira identidade de Jesus Cristo. Isto é precisamente o que nos recorda o apóstolo Felipe. Por isso, nos convida a “vir” e a “ver”, ou seja, a entrar em um contato de escuta, de resposta e de comunhão de vida com Jesus, dia após dia.

Por ocasião da multiplicação dos pães, ele recebeu de Jesus um pedido preciso, bastante surpreendente: onde era possível comprar o pão necessário para dar de comer a todas as pessoas que o seguiam (cf. João 6, 5). Então, Felipe respondeu com muito realismo: “Duzentos denários de pão não bastam para que cada um receba um pouco” (João 6, 7). Aqui se podem ver o realismo e o espírito prático do apóstolo, que sabe julgar as implicações de uma situação. Sabemos o que aconteceu depois. Sabemos que Jesus tomou os pães e, depois de ter rezado, os distribuiu. Desse modo, realizou a multiplicação dos pães. Mas é interessante o fato de que Jesus se dirigisse precisamente a Felipe para ter uma primeira impressão sobre a solução do problema: sinal evidente de que fazia parte do restrito grupo que o rodeava.

Em outro momento, muito importante para a história futura, antes da Paixão, alguns gregos que se encontravam em Jerusalém por ocasião da Páscoa “se dirigiram a Felipe... e lhe rogaram: “Senhor, queremos ver Jesus”. Felipe foi dizer isso a André; André e Felipe foram dizer a Jesus” (João 12, 20-22). Mais uma vez, encontramos um indício de seu prestígio particular dentro do colégio apostólico. Neste caso, em particular, exerce a função de intermediário entre o pedido de alguns gregos — provavelmente falava grego e pôde ser o intérprete — e Jesus; ainda que se una a André, o outro apóstolo de nome grego, de qualquer forma os estrangeiros dirigem-se a ele. Isso nos ensina a estar, também nós, dispostos tanto a acolher os pedidos e invocações, venham de onde vierem, quanto a orientá-los para o Senhor, pois só Ele pode satisfazê-los plenamente. É importante, de fato, saber que não somos nós os destinatários finais dos pedidos de quem se aproxima, mas o Senhor. Temos que orientar para Ele quem se encontre em dificuldade. Cada um de nós tem que ser um caminho aberto para Ele!

Há outra oportunidade muito particular em que Felipe intervém. Durante a Última Ceia, depois de Jesus afirmar que conhecê-lo significa também conhecer o Pai (cf. João 14, 7), Felipe, quase ingenuamente, lhe pediu: “Senhor, mostra-nos o Pai e isso nos basta” (João 14, 8). Jesus lhe respondeu com um tom de benévola reprovação: “Há tanto tempo estou convosco e não me conheces, Felipe? Quem me viu, viu o Pai. Como tu dizes: “Mostra-nos o Pai”? Não crês que eu estou no Pai e o Pai está em mim? [...] Crê em mim: eu estou no Pai e o Pai está em mim” (João 14, 9-11). São algumas das palavras mais sublimes do Evangelho de João. Contêm uma autêntica revelação. No final do “Prólogo“ de seu Evangelho, João afirma: “Ninguém jamais viu a Deus: o Filho único, que está no seio do Pai, ele o revelou” (João 1, 18). Pois bem, essa declaração, que é do evangelista, é retomada e confirmada pelo próprio Jesus. Mas com um detalhe. De fato, enquanto o “Prólogo” de João fala de uma intervenção explicativa de Jesus através das palavras de seu ensinamento, na resposta a Felipe, Jesus faz referência à sua própria pessoa como tal, dando a entender o paradoxo da Encarnação. Podemos dizer que Deus assumiu um rosto humano, o de Jesus, e, por conseguinte, a partir de agora, se realmente queremos conhecer o rosto de Deus, só nos resta contemplar o rosto de Jesus! Em seu rosto vemos realmente quem é Deus e como é Deus!

O Evangelista não nos diz se Felipe compreendeu plenamente a frase de Jesus. O certo é que entregou totalmente sua vida a Ele. Segundo algumas narrações posteriores (“Atos de Felipe” e outros), nosso apóstolo teria evangelizado em um primeiro momento a Grécia e depois a Frígia, e ali teria enfrentado a morte, em Hierápolis, com um suplício que alguns mencionam como crucificação e outros, lapidação.

Queremos concluir nossa reflexão recordando o objetivo para o qual deve orientar-se nossa vida: encontrar Jesus, como Felipe o encontrou, tentando ver nele o próprio Deus, Pai celestial. Se faltar esse compromisso, nos encontraremos apenas conosco mesmos, como diante de um espelho, e cada vez ficaremos mais sozinhos! Felipe nos convida, ao contrário, a deixar-nos conquistar por Jesus, a estar com Ele e a compartilhar essa companhia indispensável. Desse modo, vendo e encontrando a Deus, podemos encontrar a verdadeira vida.