Meditação na festa de São José (2025)

Meditação de Mons. Fernando Ocáriz por ocasião da festa de São José, Igreja Prelatícia de Santa Maria da Paz, Roma (19/03/2025).

Hoje, na festa de São José, a liturgia nos oferece vários textos, como é habitual. A segunda leitura, em particular, da Carta de São Paulo aos Romanos, aplica a São José a figura de Abraão, aquele que, esperando contra toda esperança, acreditou que se tornaria pai de muitos povos, e isso lhe foi creditado como justiça (cf. Rm 4,16-22). Trata-se da conexão entre a fé e a esperança que hoje somos convidados a contemplar também na vida de São José: uma fé unida a uma esperança firme que nasce da confiança no poder, no amor e nos planos de Deus, mesmo quando esses planos excedem completamente nossa capacidade de compreendê-los.

Em São José vemos um homem que acredita, que confia, que acolhe com fé o imenso mistério da encarnação. Vemos que aceita um plano que rompe os planos humanos mais naturais, inclusive aqueles que certamente havia concebido em seu coração. Vemos que parte para o Egito quase sem preparação, confiando apenas na palavra de Deus. E o vemos sempre assim: obediente, silencioso, fiel. De um modo especial, o contemplamos ao lado de Nossa Senhora, anos mais tarde, quando o Menino fica no Templo e ambos recebem de Jesus uma resposta que é verdadeiramente desconcertante. Já meditamos muitas vezes sobre isso: apesar de quem eles eram, Nossa Senhora e São José não compreenderam totalmente o Senhor. O próprio Evangelho nos diz isso. E, no entanto, essa fé os impelia a aceitar sempre a vontade de Deus, a querer o que Deus quer. Era uma fé viva, operante, inteligente. Uma fé que agia pela caridade. Uma fé que também se manifestava como raiz de uma obediência pronta, delicada e total aos planos de Deus.

A própria fé já é uma forma de obediência: é a obediência da fé, a entrega da inteligência e do coração a Deus. Por isso, hoje podemos pedir ao Senhor, pela intercessão de São José, unido à Santíssima Virgem, que nos conceda uma fé assim tão grande. Uma fé que nos faça viver convencidos do seu amor, porque esse é, no fundo, o grande tema da nossa fé: acreditar no seu amor fiel e eterno.

Esse amor que nos leva a aceitar os seus planos e exigências, mesmo quando não os compreendemos totalmente. Hoje, Senhor, pedimos especialmente a fé de São José. É um pedido ousado, sabemos disso. Mas, pelo menos, desejamos nos aproximar dessa fé, e que ela nos conduza também a uma grande esperança. Que saibamos esperar contra toda a esperança, como Abraão, como São José. Concretamente, a esperança da santidade. A esperança de cumprir a Vossa vontade, Senhor, apesar da experiência da nossa fraqueza. Que essa esperança esteja enraizada numa fé renovada, maior, colocada não nas nossas forças, mas no Vosso poder e no Vosso amor por nós. E a partir daí, que possamos viver abertos à Vossa vontade, abertos com docilidade, com humildade, com confiança. Abertos, em suma, a obedecer com alegria o seu plano de amor.

Com uma obediência livre, com grande liberdade de espírito e um coração que acolhe o que Vós desejais, Senhor. Dessa forma, não hesitaremos em obedecer com alegria. Mesmo quando os Vossos planos nos parecerem difíceis, humanamente incompreensíveis, como aconteceu a São José. Em certa ocasião, o Papa Francisco dizia que “José não hesitou em obedecer, sem se questionar sobre as dificuldades que encontraria. E ele levantou-se de noite, tomou o menino e sua mãe e partiu para o Egito” (Patris Corde, n. 3): um plano verdadeiramente surpreendente... e, no entanto, José não hesitou.

Hoje, por intercessão de São José, pedimos que saibamos obedecer sem hesitar. Que seja não apenas de forma externa ou por dever, mas com liberdade interior. Que obedeçamos porque queremos de verdade, porque assumimos como nosso o que foi pedido e porque acreditamos, com fé firme, que o que o Senhor nos pede é sempre o melhor para nós, fruto do seu amor fiel.

Esperança nos céus

Nosso Padre nos dizia que éramos a sua esperança, pois a Obra está em nossas mãos, e temos certeza de que, lá do Céu, ele continua nos ajudando, continua nos impulsionando. Queremos viver com essa esperança que, como escreve São Paulo aos colossenses, está nos céus (cf. Cl 1,5). Não em nossas forças, não em nossas capacidades, mas em Vós, Senhor, em Vosso amor, em Vossa fidelidade. Confiamos que não nos deixais sozinhos, que sempre poderemos contar com Vossa ajuda e que seremos fiéis... se quisermos sê-lo. Senhor, hoje renovamos esse desejo: queremos ser fiéis. E sabemos que, se quisermos, seremos, pois sua graça nunca nos faltará. Por isso podemos viver com segurança, com uma esperança certa, não baseada em nossas forças, mas no poder de Deus, em seu amor. Uma esperança que é também segurança. E isso pedimos hoje, Senhor: que você nos conceda, como a nosso Padre, a segurança do impossível. Porque o impossível que queremos viver e alcançar é, antes de tudo, a nossa própria santidade.

Diante da experiência de nossa própria fraqueza, temos que estar convencidos de que a santidade não é uma utopia. Não é uma meta inatingível nem um ideal abstrato. A santidade é o chamado de Deus para cada um de nós. É o seu plano para a nossa vida. E Ele, que nos chama, nos dá também todos os meios necessários para a alcançar, toda a força, mesmo em meio às nossas fragilidades. Esta é a certeza do impossível: acreditar que, com Deus, podemos nos tornar santos.

Lembremos as palavras de nosso Padre, que descrevia São José como o homem do sorriso permanente e do encolhimento de ombros. Não se tratava de um gesto de indiferença, mas de abandono confiante: aconteça o que acontecer, contamos com a ajuda de Deus. Por isso, também queremos viver com um sorriso permanente diante das dificuldades, com essa esperança que é fonte de alegria. A esperança cristã de que fala São Paulo: “Alegres na esperança” (Rom 12,12). Uma esperança depositada no Senhor, não em nossas próprias forças. Porque a esperança nasce da fé e está inseparavelmente unida a ela.

O Evangelho fala pouco de São José. Mostra-nos a sua fé, a sua docilidade aos planos de Deus. E podemos imaginar, sem medo de errar, como ele se relacionaria com o Senhor, com quanto amor cuidaria de Jesus em sua infância. Também queremos tratar Cristo assim: com todo o carinho de que somos capazes. E sabemos que nos relacionamos com Ele e o amamos também quando nos relacionamos com os outros e os amamos. Por isso, hoje Vos pedimos, Senhor, que com a fé e a esperança aumente também em nós a caridade. Que saibamos amar verdadeiramente, com um amor que se traduza em espírito de serviço, em uma disposição habitual de pensar nos outros, de tornar sua vida mais agradável, de rezar por eles, de considerar como nosso tudo o que os afeta.

Renovar nossa entrega

A fé de São José é uma fé que se traduz em fidelidade. O Evangelho de hoje resume assim: “José fez o que o anjo do Senhor lhe havia mandado” (Mt 1,24). Uma fé que se converte em obediência, em docilidade, em uma fidelidade perseverante. E é isso que queremos renovar hoje, Senhor: nossa entrega. Que essa renovação não seja apenas uma lembrança, mas um ato real. Que nossa entrega seja verdadeiramente nova hoje. Que a ofereçamos com amor renovado, com o desejo sincero de sermos fiéis a Vós, como São José: sempre, em tudo, com alegria.

E como podemos renovar a nossa entrega? Em primeiro lugar, convencidos de que é possível torná-la nova. Que é possível não viver por inércia, mas com um nunc coepi, um “agora começo”. Renovar a entrega é renovar o amor, é renovar a luta e, com isso, também a fé e a esperança. Porque podemos renovar a convicção de que o Senhor quer que façamos a Obra e nos dá os meios para isso. Ele nos dá a graça para sermos santos, para sermos muito eficazes em nosso dia a dia, na nossa vida, nas pequenas coisas, que se tornam grandes quando são vividas por amor. A fidelidade se renova, e essa renovação é fidelidade à vocação; portanto, é fidelidade a Jesus Cristo, porque nisso consiste tudo.

Não lutamos apenas para ser fiéis a uma ideia – embora isso também aconteça –, mas principalmente para ser fiéis a uma pessoa, a Jesus Cristo. Queremos ser fiéis a Vós, Senhor. E hoje desejamos renovar especialmente essa fidelidade. Isso implica ser fiéis ao caminho, à vocação recebida. No entanto, essa fidelidade não se dirige a conceitos abstratos, mas ao Senhor. Por isso, queremos fazer nossas as palavras de São Paulo aos romanos: “Quer vivamos, quer morramos, pertencemos ao Senhor” (Rom 14,8-9). Queremos que tudo o que é nosso seja de Deus: nosso trabalho, nosso descanso, nossas diversões, nossas ilusões, nossas dores e nossos sofrimentos... tudo. Porque tudo pode ser do Senhor. E porque o Senhor quer que tudo seja seu, já que somos seus, e queremos ser ipse Christus, o próprio Cristo.

E somos fiéis, e seremos cada vez mais, se renovarmos nossa entrega com a graça de Deus, que nunca nos falta nem faltará. Toda a força para cumprir este desejo sincero de fidelidade renovada está, logicamente, onde deve estar: no próprio Senhor. Por isso, na Eucaristia, nesse momento central de cada dia, em que vivemos uma união íntima e real com Cristo — uma identificação física com o Senhor —, é aí que encontramos toda a nossa força. E aí também que vivemos aquele Ite ad Ioseph, “Vá até José”.

Hoje podemos pedir a São José que nos ajude a ser almas eucarísticas, que nos ensine a ficar bem dentro do sacrário, para encontrarmos ali a força para sermos fiéis. A força diária para renovar nossa fidelidade, dia após dia. Para que nossa renovação seja, de fato, renovar a fidelidade.

E, logicamente, para nós, ser fiéis ao Senhor é ser fiéis ao que Ele quer de nós: ser fiéis ao espírito da Obra e, portanto, também fiéis ao nosso Padre. Hoje, naturalmente, é um dia para tê-lo também muito presente. Talvez nos venha à memória o conselho que Paulo VI deu a Dom Álvaro, quando ele começou sua missão como Padre: “Sempre que tiver que resolver um assunto, coloque-se na presença de Deus e pergunte-se: nesta situação, o que meu fundador faria?” (Crónica 1976, p. 282). Dom Álvaro comentou com simplicidade que isso era exatamente o que havia ficado claro para ele desde o início: fazer as coisas como nosso Padre faria.

Hoje, festa de São José, podemos recordar também aquelas palavras de São Josemaria, numa de suas homilias: “O nome José significa em hebreuDeus acrescentará. À vida santa dos que cumprem a sua vontade, Deus acrescenta dimensões inesperadas: o que a torna importante, o que dá valor a tudo - o divino” (É Cristo que passa, n. 40). Nas coisas mais simples – em nosso trabalho, em nossa oração – tocamos o mundo inteiro, alcançamos horizontes imensos. A grandeza das nossas obras vem do Senhor. Ele nos concede essa grandeza. E quando colocamos em Vossas mãos, Senhor, até mesmo a menor coisa, ela alcança os confins do mundo, todas as regiões, todas as tarefas. Mesmo nas tarefas que nos parecem — e humanamente talvez sejam — pequenas, limitadas no tempo, Vós, Senhor, podeis fazê-las chegar aos confins mais remotos, às almas mais próximas e mais distantes. Fiéis..., vale a pena. Hoje também é um dia para cantar interiormente esse “Fiéis, vale a pena”.

Ao renovarmos nossa fidelidade, percebemos que vale a pena. Vale a pena mesmo quando essa pena é o cansaço do trabalho, a tarefa que custa, o aspecto que não compreendemos. Vale a pena, sim, vale a pena. E como nosso Padre, ao ouvir aquela canção, repetia baixinho esse “vale a pena”, como expressão de uma experiência viva: tinha valido a pena tanto esforço, tanto trabalho, tanto sacrifício, para levar a Obra adiante. Pedimos, Senhor, pela intercessão de São José, que fique mais profundamente gravada em nós esta ideia tão simples e tão verdadeira de que vale a pena. Tudo o que temos que fazer, trabalhar, até mesmo sofrer, para levar adiante a Obra, vale a pena. Já temos experiência de que é assim, e desejamos que essa experiência se torne mais constante, mais profunda e, portanto, também mais alegre.

São José, nosso pai e senhor, padroeiro da Igreja universal... Hoje é também uma ocasião para rezar pelo Papa, recordando São José como padroeiro de toda a Igreja. E terminamos, como é lógico, unindo nossa oração a Jesus, Maria e José. Nosso Padre contava que, ao acordar pela manhã, a primeira coisa que via era um quadro dessa trindade da terra: a Santíssima Virgem com o Menino e São José. Nós também queremos que esse despertar diário — não apenas físico, mas também o despertar de nossa consciência diante do trabalho, diante das circunstâncias — seja, de alguma forma, um olhar para essa trindade da terra, que nos conduz diretamente à Trindade do céu.