A solenidade de hoje, Imaculada Conceição, começa com palavras de grande alegria que agora fazemos nossas neste tempo de oração, desejando que sejam verdadeiramente autênticas: “Exulto de alegria no Senhor e minha alma regozija-se em meu Deus; ele me vestiu com as vestes da salvação, envolveu-me com o manto da justiça e adornou-me como uma noiva como suas joias” (Is 61,10). Estas palavras do Antigo Testamento, aplicadas profeticamente à Virgem Santíssima, nos ajudam a nos unirmos à alegria de nossa Mãe. E queremos, Senhor, que esta alegria não seja algo superficial, uma simples recordação de algo que já conhecemos, mas que tenha um grande impacto em nosso dia, que nos alegre profundamente.
A primeira leitura da Missa, do livro do Gênesis, nos lembra da promessa de redenção feita a Adão e Eva depois de sua queda. Essa promessa de redenção se refere, é claro, a Cristo, mas também a Santa Maria, com ele e nele: “Porei inimizade entre ti e a mulher, entre a tua descendência e a dela”, diz o Senhor à serpente. “Esta te ferirá a cabeça e tu lhe ferirás o calcanhar” (Gn 3, 15). Anuncia-se também uma luta, pois o demônio não se conformará, atacará, ferirá no calcanhar, mas sua cabeça será esmagada. Hoje, Senhor, queremos especialmente em nossa oração sentir-nos filhos da Virgem Santíssima, essa nova Eva, Mãe dos viventes e nossa Mãe: filhos de tua Mãe, irmãos teus, portanto. Tantas vezes, todos os dias, de uma forma ou de outra, nós a contemplamos, rezamos a ela e nos dirigimos a ela. Queremos fazê-lo hoje com uma fé especial, com uma fé maior no Senhor que nos dá Maria como Mãe continuamente, como onipotência suplicante, como meio seguro de pôr ao nosso alcance a força de Deus com o tom materno de Maria, com seu carinho de Mãe.
Conhecemos de cor o Evangelho da Missa de hoje, mas o Evangelho é sempre palavra de Deus, palavra eficaz, penetrante e queremos deixar-nos penetrar mais uma vez por ele. “No sexto mês, o anjo Gabriel foi enviado por Deus a uma cidade da Galileia, chamada Nazaré, a uma virgem, prometida em casamento a um homem chamado José. Ele era descendente de Davi e o nome da Virgem era Maria. O anjo entrou onde ela estava e disse: "Alegra-te, cheia de graça, o Senhor está contigo!"” (Lc 1, 26-28). Rezamos estas palavras tantas vezes todos os dias: “Ave, gratia plena”. O anjo a princípio não a chama de Maria, mas lhe dá como nome próprio sua condição de cheia de graça. Chama-a assim, cheia de graça, o que de acordo com os especialistas significa algo como totalmente transformada pela graça.
“Fiat mihi secundum verbum tuum” (Lc 1, 36). A Virgem responde com estas palavras, que dizemos todos os dias, à proposta do anjo. Queremos repeti-las hoje, Mãe nossa, com a convicção de que tudo o que Deus quer para nós é para nosso bem, mesmo que, às vezes, não o entendamos. Tenhamos a alegria e a segurança de estar sempre nas mãos de Deus, protegidos por ele, guiados por sua providência. Nada em nossa vida é acaso: atrás de tudo está sempre a vontade do Senhor, que quer o melhor para nós.
“Ó Mãe, Mãe! Com essa tua palavra – ‘fiat’ – nos tornaste irmãos de Deus e herdeiros da sua glória. - Bendita sejas! (Caminho, n. 512). Ao dizermos “faça-se” nas coisas de cada dia, tanto nas grandes quanto nas pequenas, nos tornamos cada vez mais irmãos de Deus, herdeiros de sua glória, com uma graça que nos chega precisamente por meio da mediação materna de Maria.
Na segunda leitura, São Paulo escreve: “Bendito seja Deus, Pai de nosso Senhor Jesus Cristo. Ele nos abençoou com toda a bênção do seu Espírito em virtude de nossa união com Cristo, no céu. Em Cristo, ele nos escolheu, antes da fundação do mundo, para que sejamos santos e irrepreensíveis sob o seu olhar, no amor” (Ef 1,3). Fomos escolhidos para também sermos imaculados. Evidentemente, fomos concebidos com o pecado original, mas, pelo batismo voltamos a nascer sem mancha, imaculados. Depois, por nossa fragilidade, vamos nos manchando. Ainda assim, sempre temos o remédio para voltar a ser imaculados por sua graça, pela força dos sacramentos, pela confissão, pela eucaristia, pela oração pela qual o Senhor sempre nos acolhe. Este é um motivo de grande esperança na vida espiritual e no trabalho apostólico. Por mais que notemos as dificuldades externas ou internas, pessoais ou do ambiente, podemos nos sentir imaculados, apesar de nossas manchas, porque Deus nos purifica constantemente cada vez que recorremos a Ele.
O Senhor nos escolheu antes da criação do mundo. Nossa vocação, o plano de Deus para nós, é tão eterno quanto o próprio Deus: Ele já pensou em cada um de nós para que fôssemos santos e sem mancha em sua presença. E, como recorda São Paulo, escolheu-nos em Cristo. Estas palavras são também importantes, porque toda a nossa vida é um viver em Cristo: tem que ser, queremos que seja um viver em Cristo. Nosso Padre nos dizia tantas vezes que temos que ir procurando sempre a união com o Senhor para permanecermos firmes: diante das dificuldades, diante do trabalho, diante dos nossos próprios defeitos. Para estar firmes, para não nos desalentar, para sentir a segurança na chamada que recebemos de Deus, procuremos a união com Jesus Cristo. E é precisamente Maria que nos guia rumo a Ele, que nos ajuda a nos identificarmos com ele a todo momento, de modo que possamos ser aquele ipse Christus que nosso Padre pregava.
A ideia do alter Christus é mais ou menos compreensível e comum. Porém, esse ipse Christus, enormemente original, mas enormemente profundo, é certamente muito mais: não se trata apenas de nos identificarmos com Ele por meio da imitação, mas de vivermos nele, de sermos Ele de alguma forma, sem deixarmos de ser nós mesmos. É o grande mistério de nossa filiação divina, de nossa participação na vida de Deus, que Cristo nos deu no Espírito Santo, para que sejamos santos e sem mancha, imaculados em sua presença. Hoje especialmente, ao ouvir novamente esta palavra, “imaculados”, nosso olhar vai para a Santíssima Virgem, para que ela nos ajude, para que nos pareçamos com ela também nisto, ser imaculados.
É preciso de fato ter audácia para pretender ser imaculados. Podemos, porém, sê-lo cada vez que nos levantamos, cada vez que nos purificamos. Devemos, por isso, muito agradecimento ao Senhor pela penitência, pela confissão, por seu amor e sua misericórdia, que nos perdoa, que nos levanta deste modo visível, no sacramento e sempre que nos levantamos nós com a alma para lhe pedir perdão.
Santos, imaculados..., em sua presença: a presença de Deus é outro grande tema de nossa vida, algo que deve caracterizar nosso caminhar por este mundo. Viver na presença de Deus: isso é ter vida sobrenatural. Vem-nos logo à memória esse outro ponto de Caminho: “Tem presença de Deus e terás vida sobrenatural” (Caminho, n. 278). A presença de Deus e a vida sobrenatural são duas coisas muito unidas, porque não se trata de uma presença de Deus qualquer, e sim de um ato de fé profundo no qual “Deus nobiscum”, e então: “quis contra nos?” (Rm 8,31). E quem melhor, quem com mais profundidade e mais verdade do que a Virgem Maria pode dizer “Deus nobiscum”. Vamos, pois, pedir-lhe agora: Mãe nossa Imaculada, ajuda-nos a ter fé na presença do Senhor em cada um de nós. Que esta realidade nos encha de serenidade e alegria, pois Ele nos dá a graça para afastarmos o medo e a tristeza.
Ele nos escolheu em Cristo, antes da criação do mundo, para que fôssemos santos e sem mancha, em sua presença... pelo amor. O amor: sabemos bem que a santidade é a plenitude da caridade, que é também a plenitude da força do Espírito Santo em nossas almas; e é daí que deve sair sempre a força para o trabalho, para a obra apostólica, para toda nossa vida. A santidade como plenitude da caridade deve, especialmente, levar-nos à unidade. Como diziam conhecidas palavras de São Cipriano, já tão antigas: “A caridade é vínculo de fraternidade, fundamento de paz, vigor e firmeza de unidade; é maior do que a fé e a esperança, sobrepuja as obras boas e os martírios, e, sendo eterna, sempre permanecerá conosco nos reinos celestiais” (São Cipriano, De bono patientiae, n.15: PL 4, 631 C).
O laço que une os irmãos: e esse amor, essa caridade, é inseparável do amor a Deus. De certa forma é a mesma coisa, embora em direções diferentes, é a mesma virtude. O laço que une os irmãos: as mães se alegram quando veem os irmãos, seus filhos, unidos, que se amam, que se ajudam, que andam juntos. Podemos pensar que a Virgem Maria se alegra quando nos vê unidos, quando vê que nos amamos. E, ao mesmo tempo, ela nos proporciona esta realidade de estarmos unidos, de vivermos a fraternidade, esta fraternidade que, por sua própria natureza, visa sempre um transbordar em zelo apostólico.
Que a Virgem Santíssima, Mãe, nos conceda o ar de família, é o que pedimos. Que ela nos proteja também no sentido de que a Obra seja, como nosso Padre queria, uma pequena família, mesmo que esteja estendida por todo o mundo. Recordareis que nosso Padre dizia que, mesmo estando espalhados pelo mundo, podemos ser uma pequena família, precisamente pelo amor, pelo carinho, pela unidade. O Senhor nos concede isso pela Virgem, pela Mãe, pois é a Mãe que dá unidade.
A ausência total de pecado em Maria a levou ao desejo de servir. A primeira coisa em que pensa depois do fiat,quando o próprio Deus encarnado está em suas entranhas, é ir visitar Isabel O anjo havia dito que ela estava esperando um filho. E como Nossa Senhora sabe que Isabel é idosa, compreende que ela precisará de ajuda. Ajude-nos, Mãe nossa, a ter a atitude que leva a descobrir as necessidades dos outros, manifestação imediata de teu ser Imaculada.
