Meditação do Prelado: O “sim” de Maria, caminho para a nossa santidade

Meditação do Prelado, Mons. Fernando Ocáriz, na solenidade da Imaculada Conceição, Igreja Prelatícia de Santa Maria da Paz, Roma (8 de dezembro de 2025)

“Exulto de alegria no Senhor e minha alma regozija-se em meu Deus; ele me vestiu com as vestes da salvação, envolveu-me com o manto da justiça e adornou-me como uma noiva com suas joias” (Is 61,10). Essas palavras da antífona de entrada da liturgia de hoje, tiradas do livro de Isaías, são aplicadas pela Igreja à Santíssima Virgem, que se alegra com o grande dom de Deus. Também fazemos nossas essas palavras e alegramo-nos profundamente no Senhor diante da realidade de nossa Mãe imaculada, cheia de graça, cuja Imaculada Conceição celebramos hoje de maneira especial.

Hoje, a liturgia nos apresenta, no Evangelho, um texto que não apenas lemos e meditamos muitas vezes, mas que está constantemente presente em nossa vida: no Angelus, no terço, na Ave-Maria…. Podemos voltar a contemplar essa cena extraordinária (cf. Lc 1,26-38). “Naquele tempo, o anjo Gabriel foi enviado por Deus a uma cidade da Galileia chamada Nazaré, a uma virgem prometida em casamento a um homem chamado José, da casa de Davi. A virgem chamava-se Maria”. Segue-se então a saudação do anjo: “Alegra-te, cheia de graça, o Senhor está contigo”.

É bonito refletir que, inicialmente, o anjo – em nome de Deus – não se dirige à Nossa Senhora chamando-a pelo nome, mas sim “cheia de graça”, como se esse fosse –e, de certa forma, é –seu nome principal, embora depois a chame pelo nome próprio: “Maria”. Esse “cheia de graça” não indica apenas que ela está cheia de algo, mas expressa que ela foi transformada pela graça. E o que isso significa? A graça produz divinização: uma plena configuração com a divindade, na medida em que isso é possível para uma criatura. Não pode ser uma plenitude absoluta, como é lógico, mas é uma realidade que ultrapassa a compreensão da teologia; pode, em contrapartida, admirá-la e agradecer por ela. Essa grandeza é a de nossa Mãe.

Depois de receber um anúncio tão surpreendente – ser chamada de “cheia de graça”, ser escolhida para ser a Mãe de Deus que se encarna em seu ventre –, nossa Mãe se apresenta como serva. Ecce ancilla Domini. E, com São Josemaria, queremos dizer agora a Maria: “Ó Mãe, Mãe! Com essa tua palavra – ‘fiat’ - nos tornaste irmãos de Deus e herdeiros da sua glória. – Bendita sejas!” (Caminho, n. 512). Hoje contemplamos, como consequência da Imaculada Conceição e da plenitude da graça em Maria –que é nossa Mãe –, que ela, com seu fiat, tornou possível, porque Deus assim o dispôs, que nos tornássemos irmãos de Deus. Somos irmãos de Cristo, filhos de Deus Pai e herdeiros de sua glória; herdeiros do céu, da plenitude da felicidade.

A segunda leitura traz alguns textos tantas vezes meditados, da carta de São Paulo aos Efésios: “Em Cristo, ele nos escolheu, antes da criação do mundo, para que sejamos santos e irrepreensíveis sob o seu olhar” (Ef 1,4). Ouvir novamente essas palavras deve nos dar uma grande segurança, pois é o Senhor quem nos escolheu antes da criação do mundo, para sermos santos e imaculados. E nós, que nos vemos tão distantes de ser santos e imaculados, podemos ter a certeza de que Deus nos escolheu precisamente para isso.

Portanto, Ele nos dá a graça e a certeza de que podemos alcançar essa meta; de que não nos faltarão sua luz e sua ajuda para prosseguir e nos tornarmos santos e imaculados em sua presença por amor. “Ele nos escolheu antes da criação do mundo”: é algo notável e misterioso, pois nunca conseguimos compreender totalmente a eternidade de Deus e sua relação – digamos assim – com nossa temporalidade. Mas podemos afirmar, pois foi assim que o Senhor quis revelar por meio de São Paulo, que cada um de nós está na mente de Deus desde antes da criação do mundo. E Ele nos escolheu nele, em Cristo.

Todo o sentido da nossa vida está ligado à encarnação de Deus, a Jesus Cristo, de modo que o próprio sentido da nossa existência é nos identificarmos com Ele. Por isso, queremos que todo o nosso empenho se concentre – e assim te pedimos agora em nossa oração, Senhor – em buscar-te, identificar-nos contigo; pois todo o nosso sentido está em viver em união contigo. Para isso, procuramos a união com Jesus Cristo em meio às adversidades externas e internas, às preocupações e às inquietações. Pois não devemos nos surpreender por, às vezes, enfrentarmos adversidades externas e internas: ansiedades, preocupações, desagrados.

Ser sem mancha é também uma meta que vemos realizada desde sempre em Nossa Senhora, e a que somos chamados: viver assim, sem mancha. Isso pressupõe uma luta pela purificação do coração: purificar nossa intenção, buscar tudo o que implica a exigência amorosa de Deus em nossa vocação. São Paulo continua dizendo que devemos viver assim, sem mancha, na presença de Deus. Essa presença de Deus nos enche de segurança, certamente. Da nossa parte, é preciso buscá-la, viver nessa presença, estar conscientes dela, mas, acima de tudo, é uma realidade, mesmo que às vezes não a percebamos: Deus está sempre conosco. Essa é a nossa segurança.

Essa realidade de Deus conosco encontrou sua plenitude total na Virgem. A ela pedimos: Mãe querida, ajuda-nos, por um lado, a renovar a fé nessa segurança de que Deus está conosco; e, ao mesmo tempo, ajuda-nos a tomar as medidas necessárias para que busquemos constantemente reconhecer essa presença de Deus. Reconhecer uma presença que é presença de amor, que nos faça sentir olhados com amor por Deus a todo momento.

Continuamos pedindo à nossa Mãe: ajuda-nos a orientar nosso olhar; que não seja um olhar limitado, restrito ao imediato. Pois, ao mesmo tempo em que desejamos saber que Deus nos olha com amor, queremos também olhar para Deus sem descanso e sem cansaço. Ser olhados e olhar: essa é, no fundo, a dinâmica da presença de Deus, que não é simplesmente pensar em algo; é muito mais: é olhar, é ver com a fé, e saber que somos olhados com amor por Deus a toda hora. Que a Virgem, nossa Mãe, nos dê esses olhos para ver.

E o que podemos dar a Deus? Se Deus é infinito, se Deus é o Onipotente, aquele que é tudo… E, no entanto, surpreendentemente, podemos dar-lhe algo que Ele não tem. Parece uma contradição, mas podemos dar-lhe nosso amor, pois Ele quis ter necessidade de nós, sem realmente necessitar. Mas, no mistério – na medida em que podemos contemplá-lo, ainda que vagamente –, é assim. Deus quer que O amemos; Ele quer o nosso amor. E podemos negá-lo a Ele, e tantas vezes o negamos, mesmo que seja em pequenas coisas. Vamos pedir a Nossa Senhora que tenhamos consciência de que Deus quer o nosso amor, de que Ele quis precisar de nós e deseja, especialmente, que amemos os outros: que amemos a Deus amando os outros, vendo neles pessoas amadas por Deus.

Não se trata apenas de ver alguém a quem devemos amar; devemos ver em cada pessoa humana – ainda mais naquelas que estão perto de nós – alguém que é amado por Deus. Então, quanto valemos todos nós, apesar de nossas misérias e fraquezas? Quanto valem nossos irmãos? Valem o que vale alguém amado por Deus. Assim é cada pessoa, até a última deste mundo: todas são amadas por Deus.

E assim te pedimos, nossa Mãe, que se acenda nosso zelo pelas almas, pois todas são amadas por teu Filho. Gostaríamos de imitar-te em tua Imaculada Conceição; certamente, não podemos imitar tua concepção, mas podemos imitar tua pureza. Queremos que nossa resposta ao Senhor seja sempre como a tua, nossa Mãe: que seja um fiat autêntico, um fiat decidido, como tantas vezes já acontece.

Queremos que seja assim de maneira mais habitual. E desejamos que esse seja o exercício mais profundo de nossa liberdade: querer, Senhor, o que Tu queres. Que nossas escolhas, o exercício da nossa liberdade, sigam sempre a linha do fiat, “assim seja”. Que possamos querer – porque nos dá vontade – fazer o que Tu queres, Senhor. Que nunca o façamos por obrigação, embora às vezes isso aconteça porque somos fracos. Mas gostaríamos que isso nunca fosse algo forçado, mas que o fizéssemos com plena liberdade, mesmo nas coisas que nos custam mais, mesmo naquilo que nos faz sofrer: fazemos porque queremos de verdade.

À Virgem Imaculada pedimos com ousadia que nos ajude a nos tornarmos semelhantes a ela em sua pureza, sobretudo no sentido positivo: buscar sempre o bem, buscar sempre o Senhor, querer realizar a Obra, esquecer-nos de nós mesmos. Essa é a grande pureza que desejamos, que já possuímos, graças a Deus, mas que pode ser ainda maior, mais profunda, mais pura.

Mãe querida, ajuda-nos a imitar-te, sendo imaculados, sem mancha, na medida do possível em nossa vida; mas, acima de tudo, na intenção: que saibamos corrigi-la e purificá-la com alegria, recorrendo sempre a ti. Hoje, especialmente, pedimos a nossa Mãe essa purificação da alma e do coração, que é, de certa forma, o motor que nos levará a nos doarmos cada vez mais, a servir e, consequentemente, a sermos felizes, a estarmos muito contentes. Pois Nossa Senhora, como toda boa mãe, e mais ainda ela, que é a Mãe maior e mais perfeita, deseja acima de tudo a felicidade de seus filhos.

Texto publicado no boletim Romana: https://romana.org/es/81/meditaciones/con-ocasion-de-la-solemnidad-de-la-inmaculada-conc/