“Esta noite santa […] derruba os poderosos, dissipa os ódios, estabelece a concórdia e a paz” (Pregão Pascal).
Assim, queridos irmãos e irmãs, no início desta celebração, o diácono exaltou a luz de Cristo Ressuscitado, simbolizada no Círio Pascal. A partir deste único Círio, todos acendemos as nossas velas e, cada um levando uma pequena chama tirada do mesmo fogo, iluminamos esta grande basílica. É o sinal da luz pascal, que nos une na Igreja como lâmpadas para o mundo. À proclamação do diácono respondemos “amém”, afirmando o nosso compromisso de abraçar esta missão, e dentro de pouco repetiremos o nosso “sim”, renovando as Promessas Batismais.
Caríssimos, esta é uma Vigília repleta de luz, a mais antiga da tradição cristã, conhecida como “a mãe de todas as vigílias”. Nela revivemos o memorial da vitória do Senhor da vida sobre a morte e sobre os infernos. Fazemos isso depois de ter percorrido, nos últimos dias, como numa única grande celebração, os mistérios da Paixão do Deus que por nós se fez “alguém cheio de dores” (Is 53, 3), “menosprezado e desconsiderado” (ibid.), torturado e crucificado.
Existe caridade maior? Existe gratuidade mais completa? O Ressuscitado é o próprio Criador do universo que, tal como nos primórdios da história nos deu a existência a partir do nada, assim também na cruz, para nos mostrar o seu amor sem limites, nos deu a vida.
A primeira leitura nos lembrou disso com o relato da criação. No princípio, Deus criou os céus e a terra (cf. Gen 1, 1), tirando do caos o cosmos, da desordem a harmonia, e confiando a todos nós, criados à sua imagem e semelhança, a tarefa de sermos seus guardiões. Mesmo quando, pelo pecado, a humanidade deixou de cumprir esse plano, o Senhor não nos abandonou, mas revelou-nos a sua face misericordiosa de uma maneira ainda mais surpreendente: através do perdão.
“Esta noite santa” tem, portanto, as suas raízes também ali onde se consumou o primeiro fracasso da humanidade, e estende-se ao longo dos séculos como um caminho de reconciliação e de graça.
A liturgia propôs-nos algumas etapas desse caminho através dos textos sagrados que acabamos de escutar. Recordou-nos como Deus segurou a mão de Abraão, prestes a sacrificar o seu filho Isaac, para nos indicar que não deseja a nossa morte, mas antes que nos consagremos a ser, nas suas mãos, membros vivos de uma descendência de gente salva (cf. Gen 22, 11-12.15-18). Da mesma forma, convidou-nos a refletir sobre como o Senhor libertou os israelitas da escravidão do Egito, fazendo do mar – lugar de morte e obstáculo intransponível – a porta de entrada para o início de uma vida nova e livre. A mesma mensagem ressoou como um eco nas palavras dos Profetas, nas quais ouvimos os louvores do Senhor como esposo que chama e une a si (cf. Is 54, 5-7), fonte que mata a sede, água que fecunda (cf. Is 55, 1.10), luz que mostra o caminho da paz (cf. Br 3, 14), Espírito que transforma e renova os corações (Ez 36, 26).
Em todos estes momentos da história da salvação, vimos como Deus, face à dureza do pecado que divide e mata, responde com o poder do amor que une e restitui a vida. Ouvimos a narrativa entrelaçada com salmos e orações, que nos lembram que, pelo Mistério Pascal de Cristo, “fomos sepultados com Ele na morte pelo Batismo[…] para que também nós vivamos uma vida nova […] mortos para o pecado e vivos para Deus, em Cristo Jesus” (Rom 6, 4-11); somos, portanto, consagrados no Batismo ao amor do Pai, unidos na comunhão dos santos, e feitos pela graça, pedras vivas para a edificação do seu Reino (cf. 1Pd 2, 4-5)
É nesta perspectiva que lemos o relato da Ressurreição, que acabamos de ouvir no Evangelho segundo São Mateus. Na manhã de Páscoa, as mulheres, vencendo a dor e o medo, puseram-se a caminho. Queriam ir ao túmulo de Jesus! Esperavam encontrá-lo selado, com uma grande pedra à entrada e soldados de guarda. Isto é o pecado: uma pesada barreira que nos fecha e nos separa de Deus, tentando matar em nós a sua esperança. Maria Madalena e a outra Maria, porém, não se deixaram intimidar. Foram ao sepulcro e, graças à sua fé e ao seu amor, foram as primeiras testemunhas da Ressurreição. No terramoto e no anjo, sentado sobre a pedra derrubada, viram o poder do amor de Deus, mais forte do que qualquer força do mal, capaz de “expulsar o ódio” e “derrubar os poderosos”. O homem pode matar o corpo, mas a vida do Deus do amor é vida eterna, que vai além da morte e que nenhum túmulo pode aprisionar. Assim, o Crucificado reinou da cruz, o anjo sentou-se sobre a pedra, e Jesus apareceu-lhes vivo, dizendo: “Salve!” (Mt 28, 9).
Esta, meus queridos amigos, é também a nossa mensagem para o mundo hoje. O encontro do qual queremos testemunhar, com as palavras da fé e com as obras da caridade, “cantando” com a nossa vida o “Aleluia” que proclamamos com os nossos lábios (cf. Santo Agostinho, Sermão 256, 1). Tal como as mulheres, que correram para contar aos discípulos, também nós desejamos partir, esta noite, desta Basílica, para levar a todos a boa nova de que Jesus ressuscitou e que, pelo seu poder, também nós podemos dar vida a um mundo de paz e unidade, como “uma multidão de pessoas e, no entanto, […] uma única pessoa, pois, embora haja muitos cristãos, Cristo é um só” (Santo Agostinho, Enarrationes in Psalmos, 127,3).
A esta missão se consagram os irmãos e irmãs aqui presentes, provenientes de várias partes do mundo, que daqui a pouco receberão o Batismo. Após o longo caminho do catecumenato, renascem hoje em Cristo para ser nova criação (cf. 2 Cor 5, 17), testemunhas do Evangelho. A eles e a todos, repetimos o que Santo Agostinho dizia aos cristãos do seu tempo: “Anunciai Cristo, semeai […], espalhai por toda a parte o que concebestes no vosso coração” (Sermão 116, 23-24).
Irmãs, irmãos, ainda hoje não faltam sepulcros para abrir, e muitas vezes as pedras que os fecham são tão pesadas e tão bem guardadas que parecem inamovíveis. Algumas pesam muito no coração humano, como a desconfiança, o medo, o egoísmo e o ressentimento; outras, originadas dessas lutas internas, destroem os laços entre nós, como é o caso da guerra, da injustiça, do fechamento entre povos e nações. Não nos deixemos paralisar por elas! Ao longo dos séculos, muitos homens e mulheres, com a ajuda de Deus, as removeram — talvez com grande esforço e por vezes à custa de suas próprias vidas— mas com bons frutos dos quais nos beneficiamos ainda hoje. Não se trata de personagens inacessíveis, mas de pessoas como nós que, fortalecidas pela graça do Ressuscitado, na caridade e na verdade, tiveram a coragem de falar, como diz o Apóstolo Pedro, “para anunciar as mensagens de Deus” (1 Pd 4, 11) e de agir “com uma força divina, a fim de que em todas as coisas Deus seja glorificado” (ibid.).
Deixemo-nos inspirar pelo seu exemplo e, nesta Noite Santa, façamos nosso o seu compromisso, para que os dons pascais da concórdia e da paz, cresçam e floresçam em todo o mundo, para sempre.

