22. Judas Iscariotes e Matias

Terminando hoje de percorrer a galeria de retratos dos Apóstolos chamados diretamente por Jesus durante a sua vida terrena, não podemos omitir de mencionar aquele que é sempre nomeado por último nas listas dos Doze: Judas Iscariotes. A ele queremos associar a pessoa que depois é eleita para o substituir, Matias.

Quarta-feira, 18 de outubro de 2006

Queridos irmãos e irmãs!

Terminando hoje de percorrer a galeria de retratos dos Apóstolos chamados diretamente por Jesus durante a sua vida terrena, não podemos omitir a menção daquele que é sempre nomeado por último nas listas dos Doze: Judas Iscariotes. A ele queremos associar a pessoa que depois é eleita para substituí-lo, Matias.

Já o simples nome de Judas suscita entre os cristãos uma reação instintiva de reprovação e de condenação. O significado do apelativo “Iscariotes” é controverso: a explicação mais aceita compreende esta palavra como “homem de Queriot”, referindo-se à sua aldeia de origem, situada nas proximidades de Hebron e mencionada duas vezes na Sagrada Escritura (cf. Js 15, 25; Am 2, 2).

Outros o interpretam como uma variação da palavra “sicário”, como se aludisse a um guerrilheiro armado com um punhal, que em latim se chama sica. Por fim, há quem veja no sobrenome a simples transcrição de uma raiz hebraico-aramaica que significa: “aquele que estava para entregá-lo”. Esta designação aparece duas vezes no quarto Evangelho, ou seja, depois de uma confissão de fé de Pedro (cf. Jo 6, 71) e depois durante a unção em Betânia (cf. Jo 12, 4). Outras passagens mostram que a traição estava sendo realizada, dizendo: “aquele que o traía”; assim, durante a Última Ceia, depois do anúncio da traição (cf. Mt 26, 25) e depois no momento da prisão de Jesus (cf. Mt 26, 46.48; Jo 18, 2.5). Ao contrário, as listas dos Doze recordam a traição como um fato já consumado: “Judas Iscariotes, o que o traiu”, assim diz Marcos (3, 19); Mateus (10, 4) e Lucas (6, 16) usam fórmulas equivalentes. A traição como tal aconteceu em dois momentos: antes de tudo no planejamento, quando Judas entra em acordo com os inimigos de Jesus por trinta moedas de prata (cf. Mt 26, 14-16), e depois na execução, com o beijo dado ao Mestre no Getsêmani (cf. Mt 26, 46-50). Contudo, os evangelistas insistem na condição de apóstolo, que competia a Judas para todos os efeitos: ele é repetidamente chamado “um dos Doze” (Mt 26, 14.47; Mc 14, 10.20; Jo 6, 71) ou “do número dos Doze” (Lc 22, 3). Aliás, por duas vezes Jesus, dirigindo-se aos Apóstolos e falando precisamente dele, indica-o como “um de vós” (Mt 26, 21; Mc 14, 18; Jo 6, 70; 13, 21). E Pedro dirá de Judas que “era do nosso número e tinha recebido o nosso mesmo ministério” (At 1, 17).

Trata-se, portanto, de uma figura pertencente ao grupo dos que Jesus tinha escolhido como companheiros e colaboradores íntimos. Isso suscita duas perguntas na tentativa de dar uma explicação aos acontecimentos que ocorreram. A primeira consiste em perguntar por que Jesus escolheu este homem e confiou nele. Apesar de Judas ser de fato o responsável pela bolsa do grupo (cf. Jo 12, 6b; 13, 29a), na realidade é qualificado também como “ladrão” (Jo 12, 6a). Permanece o mistério da escolha, até porque Jesus pronuncia um juízo muito severo sobre ele: “Ai daquele por quem o Filho do Homem vai ser entregue” (Mt 26, 24).

O mistério acerca do seu destino eterno torna-se ainda mais profundo, sabendo que Judas “se arrependeu e devolveu as trinta moedas de prata aos sumos sacerdotes e aos anciãos, dizendo: ‘Pequei, entregando sangue inocente’” (Mt 27, 3-4). Mesmo que em seguida ele tenha se afastado para ir se enforcar (cf. Mt 27, 5), não compete a nós julgar o seu gesto, substituindo-nos a Deus, infinitamente misericordioso e justo.

Uma segunda pergunta refere-se ao motivo do comportamento de Judas: por que traiu Jesus? A questão é objeto de várias hipóteses. Alguns recorrem ao fator da sua avidez por dinheiro; outros dão uma explicação de ordem messiânica: Judas teria ficado desiludido ao ver que Jesus não incluía em seu programa a libertação político-militar do seu próprio país. Na realidade, os textos evangélicos insistem sobre outro aspecto: João diz expressamente que “o diabo já tinha posto no coração de Judas Iscariotes que entregasse Jesus” (Jo 13, 2); analogamente escreve Lucas: “Satanás entrou em Judas, chamado Iscariotes, um dos doze” (Lc 22, 3).

Dessa forma, vai-se além das motivações históricas e explica-se o acontecimento com base na responsabilidade pessoal de Judas, que cedeu miseravelmente a uma tentação do maligno. A traição de Judas permanece, contudo, um mistério. Jesus tratou-o como um amigo (cf. Mt 26, 50), mas, em seus convites a segui-lo pelo caminho das bem-aventuranças, não forçava a vontade de ninguém nem os preservava das tentações de Satanás, respeitando a liberdade humana.

De fato, as possibilidades de perversão do coração humano são verdadeiramente muitas. O único modo de evitá-las consiste em não cultivar uma visão das coisas apenas individualista e autônoma, mas, ao contrário, colocar-se sempre de novo ao lado de Jesus, assumindo o seu ponto de vista. Devemos procurar, dia após dia, estar em plena comunhão com Ele. Recordemo-nos de que também Pedro quis se opor a Ele e ao que o esperava em Jerusalém, mas recebeu uma forte repreensão: “Tu não pensas as coisas de Deus, mas as dos homens!” (Mc 8, 32-33).

Pedro, depois da sua queda, arrependeu-se e encontrou perdão e graça. Também Judas se arrependeu, mas o seu arrependimento degenerou em desespero e assim tornou-se autodestruição. Para nós, isso é um convite a ter sempre presente o que diz São Bento no final do fundamental capítulo 5 da sua “Regra”: “Nunca desesperar da misericórdia divina”.

Na realidade, Deus “é maior que o nosso coração”, como diz São João (1 Jo 3, 20). Por conseguinte, tenhamos presentes duas coisas. A primeira: Jesus respeita a nossa liberdade. A segunda: Jesus espera a nossa disponibilidade para o arrependimento e para a conversão; é rico em misericórdia e perdão. Afinal, quando pensamos no papel negativo desempenhado por Judas, devemos inseri-lo no plano superior dos acontecimentos por parte de Deus. A sua traição levou à morte de Jesus, que transformou este tremendo suplício em espaço de amor salvífico e em entrega de si ao Pai (cf. Gl 2, 20; Ef 5, 2.25).

O verbo “trair” deriva de uma palavra grega que significa “entregar”. Às vezes, o seu sujeito é o próprio Deus: foi Ele que, por amor, “entregou” Jesus por todos nós (cf. Rm 8, 32). No seu misterioso projeto de salvação, Deus assume o gesto imperdoável de Judas como ocasião da doação total do Filho para a redenção do mundo.

Em conclusão, queremos recordar também aquele que, depois da Páscoa, foi eleito no lugar do traidor. Na Igreja de Jerusalém, a comunidade apresentou dois para serem escolhidos por sorteio: “José, chamado Barsabás, de sobrenome Justo, e Matias” (At 1, 23). Foi precisamente este o escolhido, de modo que “foi associado aos onze Apóstolos” (At 1, 26). Dele nada mais sabemos, a não ser que também tinha sido testemunha de toda a trajetória terrena de Jesus (cf. At 1, 21-22), permanecendo-lhe fiel até o fim. À grandeza dessa sua fidelidade acrescenta-se depois o chamado divino para ocupar o lugar de Judas, como que para compensar a sua traição. Tiramos disso mais uma lição: mesmo que na Igreja não faltem cristãos indignos e traidores, cabe a cada um de nós equilibrar o mal que eles praticam com o nosso testemunho transparente de Jesus Cristo, nosso Senhor e Salvador.