Homilia na festa do Bem-aventurado Álvaro

Na homilia da festa de Dom Álvaro, Mons. Ocáriz convida a contemplar o exemplo de um pastor fiel e prudente, profundamente unido à Igreja. Seu testemunho interpela cada cristão a viver a fidelidade ao Evangelho nas circunstâncias concretas do cotidiano.

Este é o administrador fiel e prudente que o Senhor colocou à frente dos seus servos (cf. Lc 12,42). Podemos aplicar estas palavras da antífona de entrada ao Bem-aventurado Álvaro, que dedicou a sua vida a ser, primeiramente, um apoio firme e, depois, o sucessor de São Josemaria à frente do Opus Dei. Ele foi um filho leal da Igreja. Como escreveu o Papa Francisco por ocasião de sua beatificação, “destacava-se especialmente o seu amor à Igreja, esposa de Cristo, à qual serviu com um coração despojado de interesses mundanos, longe da discórdia, acolhedor para com todos e buscando sempre o lado positivo nos demais, o que une, o que constrói. Nunca uma queixa ou crítica, nem sequer nos momentos especialmente difíceis, quando, como aprendeu de São Josemaria, respondia sempre com a oração, o perdão, a compreensão, a caridade sincera” (Carta ao prelado do Opus Dei por ocasião da beatificação de Álvaro del Portillo, 16/06/2014). Podemos nos perguntar agora: tenho essa mesma atitude habitualmente na minha vida cotidiana, diante das dificuldades e dos problemas?

Um homem fiel e prudente: assim era o Bem-aventurado Álvaro! Recorramos à sua intercessão para que o Senhor nos torne fiéis e prudentes. Pedimos-lhe prudência para sermos, em todos os momentos, fiéis ao Evangelho diante das circunstâncias mutáveis do tempo e do lugar, muitas vezes complicadas. E a fidelidade, não para apoiar uma ideia, mas para seguir uma Pessoa: Jesus Cristo, Nosso Senhor, que abre horizontes sempre novos na vida de cada um de nós.

A liturgia da Palavra da celebração de hoje nos apresenta a figura do Bom Pastor. No Evangelho de São João, a figura do pastor é algo muito concreto: “Eu sou o Bom Pastor [...], eu dou minha vida pelas ovelhas” (Jo 10,11.15). E, de fato, Jesus dá verdadeiramente a vida pelas suas ovelhas, vai em busca daquela que se desviou e a conduz a águas tranquilas, como repete o salmo responsorial (cf. Sl 22). Amar as pessoas que lhe foram confiadas, da mesma forma que Cristo as ama, é uma das características fundamentais de um bom pastor. Foi assim que Dom Álvaro viveu ao longo de toda a sua existência: com sua atitude acolhedora, compreensiva e cheia de paz; de uma paz e alegria que não perdia nem mesmo diante das dificuldades e dos problemas.

Como dizia São Josemaria, a alegria cristã tem “raízes em forma de cruz” (É Cristo que passa, n. 43); é alegria “no Senhor” (cf. Fl 4,4): a alegria que Jesus nos conquistou na Cruz, e que é capaz não só de se manter, mas até de crescer diante das dificuldades e dos sofrimentos com a força da fé, da esperança e do amor. Na primeira leitura, ouvimos as palavras de São Paulo: “Alegro-me de tudo que já sofri por vós e procuro completar na minha própria carne o que falta das tribulações de Cristo, em solidariedade com o seu corpo, isto é, a Igreja” (Col 1, 24). Constatamos isso na vida de Dom Álvaro, bom pastor de suas filhas e filhos, que soube transmitir sua alegria aos outros. Com a graça de Deus, também nós podemos unir com alegria à Cruz de Cristo tudo o que neste momento nos faz sofrer mais.

Sim, essa alegria no Senhor não só permanece, mas cresce com as dificuldades e os sofrimentos, se a força da fé, da esperança e do amor atua na alma. A vida de Dom Álvaro não esteve isenta de contrariedades. “Estaríamos no caminho errado — observou recentemente o Papa Francisco — se pensássemos que os santos são exceções da humanidade: uma espécie de círculo restrito de campeões que vivem além dos limites da nossa espécie” (Audiência, 13/03/2024). Dom Álvaro soube apoiar-se, em primeiro lugar, na graça de Deus, de modo que Deus era o centro de sua vida. Seu exemplo, como o de todos os santos, nos ensina que quem é fiel à vocação que o Senhor lhe deu se realiza plenamente e experimenta assim, já nesta terra, uma felicidade que é a antecâmara da felicidade do céu.

Neste mês de maio, recorramos especialmente a Nossa Mãe Santa Maria, para que nos ajude a crescer na prudente fidelidade de saber e querer dar a vida pelos outros, dia após dia, com tanta alegria.

Assim seja.