O tema é as férias de verão e, especialmente, o que fazer com nosso tempo livre e os momentos de lazer. Como aproveitar bem o verão?
Agradeço a Deus por ter tido uma infância feliz. Isso é muito importante: a lembrança de uma infância feliz. Uma das melhores coisas que você pode fazer por uma criança é reforçar seu senso natural de que a vida é cheia de maravilha e beleza.
As crianças enxergam algo mágico na natureza. À medida que crescem e se tornam adolescentes ou universitários, muitas vezes perdem esse senso do mistério da natureza, a percepção de que a beleza da natureza significa algo. Muitos acham que isso é sinal de maturidade, mas não é: é sinal de insensibilidade; o pecado embota a intuição.
Intuitivamente, sabemos que a natureza tem um significado. Pense em um pôr do sol magnífico ou na lua cheia surgindo no horizonte. Ateus e materialistas descartam essa intuição como ilusão ou desejo, mas, na verdade, é uma percepção profunda sobre o sentido da criação. Como cristãos maduros, devemos aprofundar nosso olhar sobre o que a beleza da natureza, a mudança das estações (e assim por diante) nos dizem sobre Deus, sobre o céu e sobre o que devemos fazer.
Alguns sinais na natureza são fáceis de interpretar. A Ressurreição é representada pela primavera: vida nova brotando milagrosamente da terra cinzenta e aparentemente morta. A natureza, nesse caso, reforça a fé de que Deus é o Senhor da vida e venceu a morte. As montanhas, por sua vez, evocam a majestade impressionante de Deus, sua eternidade, a fidelidade inabalável de suas promessas.
E o que o verão significa? O verão simboliza a bem-aventurança eterna no céu. (Sem dúvida, todas as crianças em idade escolar concordam com isso.)
O que há de tão belo no verão? Os dias longos, com o entardecer se estendendo até o que já deveria ser noite. Os dias quentes e preguiçosos, com o sol brilhando num céu azul profundo e grandes nuvens brancas cruzando o horizonte. Há uma sensação de tempo infinito, de plenitude de beleza. Sem prazos, sem provas finais — todo o esforço e luta ficaram para trás, e só nos resta aproveitar o sol, sentir o perfume das roseiras em flor, contemplar o oceano sem fim, ouvir o som constante das ondas. E assim por diante.
Isso se parece um pouco com o que será o céu. E é bom que aprendamos a fazer bem aquilo que Deus quer que façamos por toda a eternidade. E é bom ajudar nossos filhos e netos a adquirir a convicção de que foram feitos para essa felicidade eterna.
Como vivemos num mundo marcado pelo pecado, o verão nem sempre mantém esse aspecto celestial até o fim de agosto. A sensação de tempo sem fim pode facilmente se transformar em tédio e desordem. Então, o que podemos fazer para que este verão seja mais parecido com um antegosto do céu?
O verão é tempo de recreação, mas o sentido dessa palavra foi banalizado, reduzido a “matar o tempo”, ou seja, fazer algo divertido apenas para escapar da rotina. Mas, em sua origem, “recreação” tem um significado religioso: literalmente, é re-criação, um renovar e aperfeiçoar a criação.
Descanso e relaxamento não significam “vegetar”, não fazer nada. Quantos verões já vivemos, ao final dos quais pensamos em todos os lugares interessantes ou pessoas que poderíamos ter visitado, mas o tempo simplesmente passou e nada foi feito?
São Josemaria tem uma frase bonita: “O descanso não é não fazer nada; é distrair-se em atividades que exigem menos esforço” (Caminho, 357). É importante não ver o tempo livre como tempo vazio. Outra frase de São Josemaria: “Os que andam em negócios humanos dizem que o tempo é ouro. — Parece-me pouco; para nós, que andamos em negócios de almas, o tempo é Glória!” (Caminho, 355).
E, às vezes, a recreação não precisa ser menos esforço, mas apenas um esforço diferente — por exemplo, esportes para os quais normalmente não temos tempo. Uma trilha pode dar mais trabalho do que subir a roupa suja por três andares, mas, de algum modo, é mais gratificante e relaxante. Ou pense no esforço de viajar para conhecer lugares históricos ou eventos culturais. Ou dedicar-se à leitura de bons livros: “Para um apóstolo moderno, uma hora de estudo é uma hora de oração” (Caminho, 335). “Frequentas os Sacramentos, fazes oração, és casto… e não estudas… Não me digas que és bom; és apenas bonzinho” (Caminho, 337).
Para mães com filhos em idade escolar, ter todos em casa pode significar ainda menos tempo livre, mas cabe a você garantir que seus filhos aproveitem bem o tempo. Não deixe que passem o verão sem rumo, ou acabarão assim:
Dissipação. — Deixas que os teus sentidos e potências bebam em qualquer charco. — E depois andas desse jeito: sem firmeza, dispersa a atenção, adormecida a vontade e desperta a concupiscência.
— Torna a sujeitar-te com seriedade a um plano que te faça ter vida de cristão, ou nunca farás nada de proveito — Plano de vida! (Caminho, 375)
Pense realisticamente em como encaixar oração, Missa, o rosário, etc., no seu dia. Não espere que tudo se resolva sozinho: o verão pode estar quase no fim antes que você perceba que precisa mudar a rotina.
Algumas dicas práticas para concluir. Coloque a vida interior em primeiro lugar: talvez saia de casa cedo, antes de todos acordarem, para ir à Missa ou rezar. Tente caminhar enquanto reza o rosário. Faça uma lista de temas para estudar ou livros para ler. Encontre um ou dois amigos para ler e discutir juntos. Faça uma lista de passeios que gostaria de fazer, pessoas que gostaria de visitar. Coloque na geladeira e veja quantos consegue realizar ao longo do verão. Faça as crianças seguirem algum tipo de rotina. Não deixe que durmam até o meio-dia. Incentive-as a ler e a se dedicar a atividades educativas. Talvez também faça uma lista de filmes que sempre quis ver e assistam juntos. Mas não exagere.
Algo muito pertinente: na encíclica Evangelium Vitae (nº 83), depois de mostrar como a situação do mundo é difícil e quanto trabalho é necessário para recristianizar a cultura, o papa João Paulo II diz:
Para isso, urge, antes de mais, cultivar, em nós e nos outros, um olhar contemplativo. Este nasce da fé no Deus da vida, que criou cada homem fazendo dele um prodígio (cf. Sl 138,14). É o olhar de quem observa a vida em toda a sua profundidade, reconhecendo nela as dimensões de generosidade, beleza, apelo à liberdade e à responsabilidade. É o olhar de quem não pretende apoderar-se da realidade, mas a acolhe como um dom, descobrindo em todas as coisas o reflexo do Criador e em cada pessoa a sua imagem viva (cf. Gn 1,27; Sl 8,6). (...) Animado por este olhar contemplativo, o povo novo dos redimidos não pode deixar de prorromper em hinos de alegria, louvor e gratidão pelo dom inestimável da vida, pelo mistério do chamamento de todo o homem a participar, em Cristo, na vida da graça e numa existência de comunhão sem fim com Deus Criador e Pai.
Ruth Pakaluk foi esposa, mãe de sete filhos, intelectual formada em Harvard e uma voz marcante na defesa da vida e da família. Convertida ao catolicismo, uniu profundidade espiritual e clareza intelectual em palestras e escritos. Viveu com serenidade a doença e o sofrimento, oferecendo um testemunho luminoso de fé no cotidiano. Sua vida continua a inspirar cristãos em todo o mundo.
Esta é uma das “palestras escolhidas” de Ruth, publicada no livro “A estranha e assombrosa misericórdia de Deus”. O texto foi cedido pela editora Cultor de Livros.

