Origem histórica da Festa da Exaltação da Santa Cruz
Cerca do ano 320 a Imperatriz Helena de Constantinopla encontrou a Vera Cruz, a cruz em que morreu Nosso Senhor Jesus Cristo (ver mais sobre a história no artigo A basílica da Santa Cruz de Jerusalém).
Anos mais tarde, o rei Cosroes II da Pérsia, em 614 invadiu e conquistou Jerusalém e levou a Cruz. Mas em 628 o imperador Heraclio recuperou a Cruz e levou-a de novo para Jerusalém a 14 de setembro desse mesmo ano. Para isso realizou-se uma cerimônia em que a Cruz foi levada em pessoa pelo imperador através da cidade. Desde então, esse dia ficou assinalado nos calendários litúrgicos como o da Exaltação da Vera Cruz.
Neste artigo:
- Palavras do Papa Francisco sobre a Exaltação da Santa Cruz
- Textos de São Josemaría para a Festa da Exaltação da Santa Cruz
- Ângelus Papa Leão XIV na Festa da Exaltação da Cruz (2025)
Outros recursos:
- Comentário do Evangelho — Meditação do dia
- As Sete Dores da Virgem Maria
- Festas Litúrgicas: A Exaltação da Santa Cruz
- "Omnia traham ad meipsum": Um Estudo de Pedro Rodríguez
- A Paixão e Morte na Cruz (Síntese da Fé Católica)
- A Liberdade Conquistada por Cristo na Cruz: Um Estudo de Lluís Clavell
- “Nós proclamamos Cristo crucificado” (Da série "A Luz da Fé")
- Cruz e Ressurreição no Trabalho (Da série "Trabalho")
- Leituras da Missa da Exaltação da Santa Cruz
Primeira Leitura (Nm 21,4b-9)
Leitura do Livro dos Números.
Naqueles dias, os filhos de Israel partiram do monte Hor, pelo caminho que leva ao mar Vermelho, para contornarem o país de Edom. Durante a viagem o povo começou a impacientar-se, e se pôs a falar contra Deus e contra Moisés, dizendo: "Por que nos fizestes sair do Egito para morrermos no deserto? Não há pão, falta água, e já estamos com nojo desse alimento miserável". Então o Senhor mandou contra o povo serpentes venenosas, que os mordiam; e morreu muita gente em Israel. O povo foi ter com Moisés e disse: "Pecamos, falando contra o Senhor e contra ti. Roga ao Senhor que afaste de nós as serpentes". Moisés intercedeu pelo povo, e o Senhor respondeu: "Faze uma serpente de bronze e coloca-a como sinal sobre uma haste; aquele que for mordido e olhar para ela, viverá". Moisés fez, pois, uma serpente de bronze e colocou-a como sinal sobre uma haste. Quando alguém era mordido por uma serpente, e olhava para a serpente de bronze, ficava curado.
Responsório Sl 77(78),1-2.34-35.36-37.38 (R. cf. 7c)
- Das obras do Senhor, ó meu povo, não te esqueças!
- Das obras do Senhor, ó meu povo, não te esqueças!
- Escuta, ó meu povo, a minha Lei, ouve atento as palavras que eu te digo; abrirei a minha boca em parábolas, os mistérios do passado lembrarei.
- Quando os feria, eles então o procuravam, convertiam-se correndo para ele; recordavam que o Senhor é sua rocha e que Deus, seu Redentor, é o Deus Altíssimo.
- Mas apenas o honravam com seus lábios e mentiam ao Senhor com suas línguas; seus corações enganadores eram falsos e, infiéis, eles rompiam a Aliança.
- Mas o Senhor, sempre benigno e compassivo, não os matava e perdoava seu pecado; quantas vezes dominou a sua ira e não deu largas à vazão de seu furor.
Evangelho (Jo 3,13-17)
Naquele tempo, disse Jesus a Nicodemos: "Ninguém subiu ao céu, a não ser aquele que desceu do céu, o Filho do Homem. Do mesmo modo como Moisés levantou a serpente no deserto, assim é necessário que o Filho do Homem seja levantado, para que todos os que nele crerem tenham a vida eterna. Pois Deus amou tanto o mundo, que deu o seu Filho unigênito, para que não morra todo o que nele crer, mas tenha a vida eterna. De fato, Deus não enviou o seu Filho ao mundo para condenar o mundo, mas para que o mundo seja salvo por ele".
Palavras do Papa Francisco sobre a Exaltação da Santa Cruz
A história do homem e a história de Deus estão entrelaçadas na Cruz e, essencialmente, tecem uma história de amor. É um mistério imenso que não conseguimos compreender sozinhos. Como podemos "provar aquele mel de aloe, aquele amargo doce do sacrifício de Jesus?" O Papa Francisco explicou como fazer isso na manhã de sábado, 14 de setembro, Festa da Exaltação da Santa Cruz, na Missa que celebrou na Capela da Domus Sanctae Marthae.
Ao comentar as leituras do dia — da Carta aos Filipenses (2:6-11) e do Evangelho de João (3:13-17) — o Papa disse que podemos agarrar "algo" do mistério da Cruz "de joelhos em oração" e também em "lágrimas". De fato, as lágrimas realmente "nos aproximam desse mistério". "Sem derramar lágrimas", e especialmente sem "lágrimas de coração, nunca entenderemos esse mistério". É o "choro dos penitentes, o choro de nosso irmão e irmã que veem tantas misérias humanas e também as veem em Jesus, de joelhos chorando".
Os Padres da Igreja, disse o Papa, "sempre compararam a árvore do Paraíso com a árvore do pecado; a árvore que dá o fruto do conhecimento do bem e do mal, do conhecimento, com a árvore da Cruz". A árvore do Paraíso "causou tanto dano", enquanto a árvore da Cruz "nos traz salvação e saúde, e perdoa esse mal". É esse "itinerário que a história humana segue". É um caminho que nos permite "encontrar Jesus Cristo, o Redentor, que entrega sua vida por amor".
A árvore da Cruz conta a história de Deus que "quis assumir nossa história e caminhar ao nosso lado". Na Primeira Leitura, o apóstolo Paulo "resume toda a história de Deus em poucas palavras: Jesus Cristo, embora estivesse na forma de Deus, não considerava um privilégio ser como Deus". Na verdade, explicou o Papa, ele "se esvaziou, assumindo a forma de um servo, nascendo à semelhança dos homens". De fato, Cristo "se humilhou e tornou-se obediente até a morte, até mesmo a morte na cruz." Este é "o itinerário que a história de Deus seguiu". Mas, o Bispo de Roma se perguntou: por que isso aconteceu? A resposta está nas palavras de Jesus a Nicodemo: "pois Deus amou tanto o mundo que deu seu Filho único, para que quem crê nele não pereça, mas tenha vida eterna". Deus, concluiu o Papa Francisco, "tomou este itinerário por amor, não há outra explicação".
Textos de São Josemaría para a Festa da Exaltação da Santa Cruz
Ao celebrares a festa da Exaltação da Santa Cruz, suplicaste ao Senhor, com todas as veras da tua alma, que te concedesse a sua graça para “exaltares” a Cruz Santa nas tuas potências e nos teus sentidos... Uma vida nova! Um cunho para dares firmeza à autenticidade do teu cometimento..., todo o teu ser na Cruz! — Veremos, veremos. (Forja, 517)
Há no ambiente uma espécie de medo à Cruz, à Cruz do Senhor. É porque começaram a chamar cruzes a todas as coisas desagradáveis que acontecem na vida, e não sabem levá-las com sentido de filhos de Deus, com visão sobrenatural. Até arrancam as cruzes que os nossos avós plantaram pelos caminhos...
Na Paixão, a Cruz deixou de ser símbolo de castigo para converter-se em sinal de vitória. A Cruz é o emblema do Redentor: in quo est salus, vita et resurrectio nostra: ali está a nossa saúde, a nossa vida e a nossa ressurreição. (Via Sacra, 2ª estação, n. 5.)
Cada dia um pouco mais - como se se tratasse de talhar uma pedra ou uma madeira -, é preciso ir limando asperezas, tirando defeitos da nossa vida pessoal, com espírito de penitência, com pequenas mortificações, que são de duas espécies: as ativas - essas que procuramos, como florzinhas que apanhamos ao longo do dia -, e as passivas, que vêm de fora e nos custa aceitar. Depois, Jesus Cristo vai completando o que falta.
- Que Crucifixo tão esplêndido vais ser, se correspondes com generosidade, com alegria, de todo! (Forja, 403)
Os verdadeiros obstáculos que te separam de Cristo — a soberba, a sensualidade... — superam-se com oração e penitência. E rezar e mortificar-se é também ocupar-se dos outros e esquecer-se de si mesmo. Se vives assim, verás como a maior parte dos contratempos que tens, desaparecem. (Via Sacra, 10ª estação , n. 4)
Mas precisamente essa aceitação sobrenatural da dor representa, ao mesmo tempo, a maior conquista. Morrendo na Cruz, Jesus venceu a morte: da morte, Deus tira a vida. A atitude de um filho de Deus não é a de quem se resigna à sua trágica desventura; é antes a satisfação de quem saboreia antecipadamente a vitória. Em nome desse amor vitorioso de Cristo, os cristãos devem lançar-se por todos os caminhos da terra, para serem semeadores de paz e de alegria, com a sua palavra e com as suas obras. Temos de lutar - é uma luta de paz - contra o mal, contra a injustiça, contra o pecado, para proclamar assim que a atual condição humana não é a definitiva, que o amor de Deus, manifestado no Coração de Cristo, alcançará o glorioso triunfo espiritual dos homens. (Cristo que passa, 168)
Antes de começares a trabalhar, põe sobre a tua mesa, ou junto dos utensílios do teu trabalho, um crucifixo. De quando em quando, lança-lhe um olhar... Quando chegar a fadiga, hão de fugir-te os olhos para Jesus, e acharás nova força para prosseguires no teu empenho.
Porque esse crucifixo é mais que o retrato de uma pessoa querida: os pais, os filhos, a mulher, a noiva... Ele é tudo: teu Pai, teu Irmão, teu Amigo, o teu Deus e o Amor dos teus amores. (Via Sacra, 11ª estação , n. 5)
Recordemos as palavras de Cristo: Se alguém quiser vir após mim, negue-se a si mesmo, tome a sua cruz cada dia e siga-me. Estamos vendo? A cruz, cada dia. Nulla dies sine cruce!,nenhum dia sem cruz: nenhum dia em que não carreguemos a cruz do Senhor, em que não aceitemos o seu jugo. Por isso não quis deixar de recordar aqui que a alegria da ressurreição é conseqüência da dor da Cruz.
Mas nada havemos de temer, porque o próprio Senhor nos disse: Vinde a mim, vós que estais sobrecarregados com trabalhos, e eu vos aliviarei. Tomai sobre vós o meu jugo e aprendei de mim, que sou manso e humilde de coração, e encontrareis repouso para vossas almas; porque o meu jugo é suave e o meu fardo leve. Vinde -comenta São João Crisóstomo -, não para prestar contas, mas para serdes libertados dos vossos pecados; vinde porque eu não tenho necessidade da glória que podeis proporcionar-me; tenho necessidade da vossa salvação... Não temais ao ouvir falar de jugo, porque é suave; não temais se falo de carga, porque é ligeira.
O caminho da nossa santificação pessoal passa diariamente pela Cruz; e não é um caminho infeliz, porque o próprio Cristo vem em nossa ajuda, e com Ele não há lugar para a tristeza. In laetitia, nulla dies sine cruce!, gosto de repetir; com a alma trespassada de alegria, nenhum dia sem Cruz. (Cristo que passa, 176)
Ângelus Papa Leão XIV na Festa da Exaltação da Cruz (2025)
Hoje a Igreja celebra a Festa da Exaltação da Santa Cruz, na qual se recorda o momento em que Santa Helena encontra o madeiro da Cruz, em Jerusalém, no século IV, e a devolução da preciosa Relíquia à Cidade Santa, por obra do Imperador Heráclio.
Mas o que significa para nós, hoje, celebrar esta Festa? O Evangelho que a liturgia nos propõe (cf. Jo 3, 13-17) ajuda-nos a compreender este significado. A cena se passa à noite: Nicodemos, um dos chefes dos judeus, pessoa reta e de mente aberta (cf. Jo 7, 50-51), vem ao encontro de Jesus. Ele precisa de luz, de orientação: procura Deus e pede ajuda ao Mestre de Nazaré, porque reconhece n’Ele um profeta, um homem que realiza sinais extraordinários.
O Senhor acolhe-o, ouve-o e, no final, revela-lhe que o Filho do homem deve ser elevado, "a fim de que todo o que nele crê tenha a vida eterna" (Jo 3, 15), e acrescenta: "Tanto amou Deus o mundo, que lhe entregou o seu Filho Unigênito, a fim de que todo o que nele crê não se perca, mas tenha a vida eterna" (cf. v. 16). Nicodemos, que talvez naquele momento não compreendera plenamente o sentido dessas palavras, certamente o compreenderá quando, após a crucificação, ajudar a sepultar o corpo do Salvador (cf. Jo 19, 39): compreenderá que Deus, para redimir os homens, se fez homem e morreu na cruz.
Jesus fala disso a Nicodemos, recordando um episódio do Antigo Testamento (cf. Nm 21, 4-9), quando no deserto os israelitas, atacados por serpentes venenosas, se salvavam olhando para a serpente de bronze que Moisés, obedecendo à ordem de Deus, tinha feito e colocado sobre uma haste.
Deus salvou-nos revelando-se a nós, oferecendo-se como nosso companheiro, mestre, médico, amigo, até se tornar para nós Pão partido na Eucaristia. E para realizar esta obra, serviu-se de um dos instrumentos de morte mais cruéis que o homem já inventou: a cruz.
Por isso, hoje celebramos a sua "exaltação": pelo amor imenso com que Deus, abraçando-a para a nossa salvação, de instrumento de morte a transformou em instrumento de vida, ensinando-nos que nada pode separar-nos d’Ele (cf. Rm 8, 35-39) e que a sua caridade é maior do que o nosso próprio pecado (cf. Francisco, Catequese, 30 de março de 2016).
Peçamos, então, pela intercessão de Maria, a Mãe presente no Calvário ao lado do seu Filho, que também em nós se enraíze e cresça o seu amor que salva, e que também nós saibamos doar-nos uns aos outros, como Ele se doou totalmente a todos.