Escrivá de Balaguer: a verdadeira conciliação dos contrários

O conceito de ser humano que Josemaria Escrivá introduziu na cultura contemporânea surpreende-nos pelo equilíbrio e harmonia reunidos no homem que aspira à santidade no meio do mundo

Josemaria Escrivá, fundador do Opus Dei foi considerado como “arauto da santificação dos cristãos no meio do mundo”. A palavra “santificação” bem como “santidade”, de profundas raízes cristãs, perderam, infelizmente, as fortes virtualidades que lhe são próprias: santidade significa a plenitude do homem em todos os seus aspectos, não apenas nos sobrenaturais, isto é, na sua relação com Deus, mas também nos que são simplesmente humanos: falamos evidentemente da plenitude que o homem pode alcançar nesta vida terrena. É assim, pois, que Josemaria Escrivá concebe o homem de uma forma que hoje nos pode surpreender. A cultura atual considera o ser humano partindo de perspectivas, as mais das vezes verdadeiras, mas parciais. Ao imprimir uma ênfase excessiva na legítima dimensão humana, pode cair-se no perigo de atrofiar outras dimensões do homem que contribuem para a sua plenitude, isto é, para a sua santidade.

Por isso, o conceito de ser humano que Josemaria Escrivá introduz na cultura contemporânea surpreende-nos pelo equilíbrio e harmonia com a qual consegue unir, no homem que aspira à santidade no meio do mundo, aspectos ou qualidades que se consideram hoje erroneamente contraditórios. A primeira conexão ou interligação que se descobre no seu pensamento é precisamente aquela que mais o distingue. A missão de todo o cristão para conduzir à perfeição, à plenitude (voltamos a repetir, à santidade) as tarefas normais e correntes da vida. Qualquer ocupação lícita do homem é santificável, o mesmo é dizer, capaz de tornar pleno aquele que a realiza e os seus destinatários, sempre que é realizada como cumprimento da vontade de Deus – que tecnicamente se pode definir como dever de estado – e com a intenção de aperfeiçoar os homens destinatários dessas tarefas. Trata-se nada mais, nada menos de conciliar o extraordinário e o normal e corrente. O Fundador do Opus Dei soube dizê-lo ao afirmar que qualquer homem, ajudado pela graça de Deus, deve fazer extraordinariamente bem as ações da sua vida de todos os dias.

Na relação com os outros, Josemaria Escrivá leva a cabo, na sua própria vida e nos seus ensinamentos que vão influenciar milhares e milhares de pessoas, o equilíbrio de mais dois aspectos que a sociedade atual necessita clarificar rapidamente. Refiro-me ao sentido social da tolerância que o cristianismo preconiza desde as suas origens, ao pedir no Evangelho o amor aos inimigos. Não existe fórmula que realce com tanta força o que hoje se anda a procura às apalpadelas: tolerância para com as pessoas que não venha a confundir-se com anarquia, com o permissivismo e com a degradação. Assim o resume quem a estas horas terá já sido canonizado: intransigência com a doutrina, com o erro, mas transigência – inclusivamente amor e carinho – com a pessoa. Pode ser-se existencialmente amigo no meio de divergências intelectuais. A amizade não nos obriga a concessões naquilo que consideramos verdadeiro por demonstração. Como o disse graficamente Escrivá, não devemos quebrar as nossas relações de amizade com quem afirma que dois mais dois são cinco (embora também não o devamos admitir para continuar a sermos amigos).

Esta síntese entre a amizade e a verdade encerra outro matiz importante na sua relação com os nossos semelhantes: devemos ser transigentes, compreensivos, caritativos com os defeitos das outras pessoas, e ao mesmo tempo ser intransigentes e rigorosos com os nossos próprios defeitos.

Quem teve a graça de Deus de conviver estreitamente com Josemaria Escrivá, pode dar testemunho de outro campo na inter-relação de aspectos humanos que parecem contraditórios entre si. A profundidade do seu pensamento torna-se perfeitamente compatível com a simplicidade da sua pregação, impregnada sempre de alegria e bom humor. As verdades mais importantes para o homem – as que se referem às suas situações limite – são tratadas por Josemaria Escrivá com um sentido otimista da existência e com um cariz quase brincalhão na maneira de apresentá-las, de modo que ficam desdramatizadas e tornam-se assimiláveis para esse homem vulgar e comum cuja santidade – por amor de Deus – procura a todo custo. Talvez seja este um dos traços mais marcantes da sua personalidade tão atrativa.

Depois de vários anos sem assistir a uma homilia sua, ouvi-o num longo comentário sobre a parábola do “semeador” que é, como se sabe, uma das passagens evangélicas com consequências mais profundas para a compreensão das relações do homem com Deus. Sabia que de S. Josemaria obteríamos um proveito inesgotável com os seus comentários a esta passagem do Evangelho. Mas não tinha presente então que a sua maneira de nos ajudar a fazer oração consistia em captar a nossa atenção por um lado de matiz brincalhão, apropriado a gente nova com um sentido naturalmente risonho da vida. A semente do semeador cairá tristemente por entre rochas e espinhos... Mas a sua introdução foi muito diversa: “Sai o semeador...; melhor dito: saía, porque agora tudo se faz com máquinas...”. Revivi nesse mesmo instante as modulações agradáveis e acolhedoras com que tornava alegre, na sua pregação e conversas, a doutrina de Jesus Cristo.

Um dos pensadores mais ilustres do século XX, o já falecido Cornelio Fabro, indica a conciliação dos contrários como um dos traços da pessoa que se requerem para quem deseja ser um homem completo. Fabro refere-se ao modo original como Josemaria Escrivá equilibra a rendida obediência a Deus, manifestada através das circunstâncias normais da sua vida, e a plena liberdade pessoal sem a qual o cristianismo não seria integralmente vivido. Comprometendo-se com Deus para cumprir o plano para o qual Deus o havia chamado, o ser humano não perde a liberdade que lhe é essencial: pelo contrário, esse compromisso é um dos atos em que se exercita com maior acuidade essa sua característica. Quem não se compromete em nada de valioso, torna-se escravo das paixões e dos sentimentos mais banais, que pretendem preencher esse vazio produzido pela falta de compromissos sérios. Josemaria Escrivá dizia-o graficamente numa linguagem coloquial que é clara para todos nós: obedeço a Deus porque ‘me dá na gana’, que é, se se reflete bem, um motivo sobrenatural profundo.

Deparamo-nos também com outra interligação em dois aspectos da vida social que muitas pessoas não conseguem conciliar agora: a mais completa e filial entrega à Igreja Católica e aos seus ensinamentos, compatível com a heterogeneidade e mesmo oposição de opiniões que os cristãos, no uso da sua responsabilidade pessoal, podem sustentar no vasto campo que Deus deixou à livre discussão dos homens. Josemaria Escrivá abominava o que nalguma ocasião denominou de mentalidade de partido único, sustentada, inclusivamente com boa vontade, pelos cristãos que desejavam, fundamentando-se na profissão da própria fé, constituir uma força poderosa supostamente capaz de orientar grupos de pessoas ou nações por um bom caminho político, econômico ou social.

Finalmente, ao querer apresentar um resumo desta síntese ou conciliação de aspectos humanos que podemos separar, de forma reducionista, pela sua aparente oposição, desvalorizando uns para que outros predominem, devo deixar aqui apontado o aspecto dos seus ensinamentos que mais me chamou a atenção, e que tive a feliz oportunidade de ver incarnado ao longo da sua vida, repleta de obstáculos e, ao mesmo tempo, cheia de momentos felizes: encontrar a alegria precisamente na Cruz. A alegria tem as suas raízes em forma de Cruz, disse-nos. Quantos de nós encontraríamos a paz e a felicidade que pode alcançar-se neste mundo, se tivéssemos em São Josemaria Escrivá como exemplo dessa harmonia, equilíbrio, síntese, que se dá entre a alegria e o sofrimento?

  • Carlos Llano
  • Público, Guadalajara (México), 6 de Outubro de 2002