— O que permanece e o que mudou na Obra ao longo desse tempo?
— No Opus Dei, há um espírito de fundo, uma mensagem significativa sobre a santidade no meio do mundo, que não mudou. É o núcleo imutável que lhe dá sentido, pois, como acontece com as instituições, se o Opus Dei existe, é precisamente para conservar e difundir ao longo do tempo uma mensagem específica. Ao mesmo tempo, o fundador, São Josemaria, ciente da necessidade de manter intacto esse espírito, dizia que as formas podem e devem mudar com o tempo. Em cem anos, a sociedade e a Igreja evoluíram muito, e o Opus Dei também, pois faz parte da Igreja e da sociedade.
As transformações implicadas por fenômenos como a globalização, a conquista do espaço público pelas mulheres, as novas dinâmicas familiares, etc., encontram reflexo no Opus Dei como instituição e na vida real de seus membros. Saber mudar — modelando qualquer mudança a partir do essencial — é um requisito para poder continuar sendo fiel à missão.
— Como as novas disposições papais afetam o Opus Dei? Elas afetam o dia a dia da instituição?
— O jurídico e o vital são áreas que caminham juntas, mas que também têm suas distinções. Na vida cotidiana dos leigos, imersos nas questões deste mundo, as novas disposições não alteram a forma como vivem sua vocação para a Obra. No que diz respeito ao Opus Dei como instituição, estamos trabalhando com o Dicastério do Clero para realizar ajustes nos estatutos, conforme solicitado pelo Santo Padre no Motu proprio Ad carisma tuendum. Como ainda estamos estudando esses ajustes, não posso dizer qual será o resultado. Posso assegurar, entretanto, que no desenvolvimento dessas obras, estabeleceu-se um clima de diálogo e confiança, típico da Igreja como família de Deus.
— Não é uma clericalização de uma instituição da Igreja cuja razão de ser são os leigos? Até que ponto estas medidas podem afetar o objetivo dos leigos de serem santos no meio do mundo?
— A mensagem do Opus Dei dirige-se principalmente aos leigos, homens e mulheres do meio do mundo, que, desde o início, constituíram a grande maioria dentro da Obra e de sua razão de ser.
Da mesma forma que os carismas não devem ser absolutizados, a lei também não deve. Por isso, o Opus Dei passou por diversas soluções institucionais para encontrar a fórmula mais adequada, que integrasse, por um lado, a tutela do carisma e, de outro, uma figura jurídica que lhe conferisse um lugar na Igreja, refletindo sua natureza sem restringi-la ou sufocá-la.
— O Opus Dei do século XXI buscará um novo modelo jurídico, em vez da prelazia pessoal, que se adapte melhor às novas formas de vida cristã?
— A figura jurídica da prelazia pessoal se adaptou muito bem ao espírito do Opus Dei e aos seus apostolados. Como lhe comentei anteriormente, estamos em pleno diálogo com a Santa Sé para a adequação dos estatutos. Como compreenderá, não seria prudente referir-me a um possível novo modelo jurídico antes de terminar o processo no qual estamos trabalhando há quase dois anos.
A elasticidade do direito canônico pode ajudar a conciliar o desejo da Santa Sé e da própria Obra de impulsionar a missão da Igreja em um mundo em mudança, encontrando soluções adequadas, sem rupturas institucionais.
— A caminho do centenário, quando o Opus Dei conta com bispos e arcebispos em todo o mundo. Não seria apropriado que o prelado também fosse bispo?
— Se me permite esclarecer, devemos ter em mente que os poucos bispos e arcebispos que vêm do Opus Dei no mundo são das próprias Igrejas particulares e, portanto, respondem apenas ao Papa, não tendo nenhum outro superior.
Acredito que o fato de o Bem-aventurado Álvaro e D. Javier Echevarría terem recebido a consagração episcopal foi muito positivo para reforçar a comunhão eclesial entre 1991 e 2016. Atualmente, o importante é seguir fielmente as disposições do Santo Padre, mais do que discutir o que é mais ou menos adequado.
— Por que uma parte da hierarquia eclesiástica via o Opus Dei como uma instituição rival ou paralela, se os fiéis da Obra também são fiéis das dioceses territoriais?
— Percebo, em geral, apreço por parte da hierarquia e de outras instituições da Igreja. As pessoas da Obra têm consciência de que navegam no mesmo barco que a Igreja, onde coexistem diferentes espiritualidades e sensibilidades [...] Por outro lado, vêm à mente alguns exemplos de iniciativas do Opus Dei (em Roma e no mundo) das quais, pela graça de Deus, surgiram vocações para tantas instituições da Igreja. E vice-versa: atualmente, por exemplo, a diocese de Florianópolis (Brasil) iniciou o processo de beatificação de um jovem da Obra, que realizou um extenso trabalho de evangelização naquela diocese e que se aproximou da fé católica graças aos retiros de outra realidade eclesial, Emaús.
Como o senhor salienta, do ponto de vista do direito, os leigos do Opus Dei são fiéis às suas dioceses da mesma forma que quaisquer outros fiéis. E, na prática, muitos colaboram ativamente no catecismo ou nos cursos pré-matrimoniais em suas paróquias, em iniciativas de serviço como a catequese, em atividades com jovens, etc. Da mesma forma, recebo inúmeros pedidos de bispos diocesanos para que este ou aquele sacerdote colabore em uma paróquia, em um hospital, em um serviço da diocese. Sempre que possível, colaboramos com prazer.
Se houve dúvidas com alguma instituição da Igreja, talvez seja devido a relações humanas imperfeitas, que deveríamos tentar resolver dia após dia. Às vezes, os mal-entendidos também advêm da compreensível dificuldade histórica de abrir espaço para novas realidades que carregam uma “novidade” que à primeira vista pode surpreender. Gosto de pensar que são algo do passado.
— Qual é a situação atual do desenvolvimento do Opus Dei no mundo? Existem planos de expansão específicos para o centenário? Em quais países encontra mais dificuldades?
— Pode-se dizer que o desenvolvimento do Opus Dei transcorre como o do resto da Igreja no mundo. A Obra como um todo cresceu nos últimos anos, mas isso não significa que cresça em todos os lugares ou que o faça da mesma maneira.
Por exemplo, a Obra cresce em países como Nigéria, Estados Unidos ou Brasil, enquanto seu trabalho é mais difícil em outros lugares, como na Europa e na Ásia. Os obstáculos externos às vezes provêm da secularização ambiental, de certos estilos de vida que dificultam a formação de famílias duradouras ou a compreensão do celibato ou das vocações dedicadas ao serviço e ao cuidado, etc. Há também obstáculos que todo cristão no meio do mundo deve enfrentar, como o perigo do mundanismo. Nesse sentido, uma vez que não existe um contexto de fé compartilhado, é necessária uma delicadeza especial de coração para ser coerente com os próprios compromissos familiares ou vocacionais.
Do ponto de vista geográfico, a diversidade cultural e religiosa é muito ampla. Incorporar uma vocação cristã em cidades de maioria muçulmana, como Mombaça (Quênia) ou Surabaya (Indonésia) não é a mesma coisa que em Lisboa ou Varsóvia. Como sabem bem as pessoas da Obra que vivem nesses lugares, a semeadura evangelizadora olha para um horizonte de décadas, como na China ou na Coreia do Sul. Nesses países, a par das dificuldades, existe também um forte dinamismo eclesial, traduzido em conversões, batismos de jovens e adultos, etc.
Por outro lado, a Obra vive há alguns anos um momento de reestruturação das circunscrições para melhorar o governo e a ação apostólica. De qualquer forma, independentemente das programações e reestruturações, é o próprio Deus que abre caminho em qualquer tipo de sociedade, tocando o coração das pessoas, porque só Ele é a resposta aos anseios e às esperanças do ser humano.
— O Opus Dei foi a primeira organização católica a admitir não católicos como cooperadores. É, acima de tudo, um sinal de ecumenismo?
— Em 1950, quando São Josemaria obteve da Santa Sé a autorização para admitir, no Opus Dei, homens e mulheres não católicos como cooperadores, o movimento ecumênico já estava em andamento há bastante tempo, tanto dentro da Igreja Católica quanto no âmbito das outras confissões cristãs. Foi mais uma manifestação desse impulso natural à união de todos os crentes em Jesus Cristo. Desde então, houve muitos frutos de amizade e diálogo com pessoas de outras confissões religiosas.
— Como devem agir os cristãos diante do crescente ambiente de polarização política e social em tantas partes do mundo?
— No que é opinável, com muita liberdade. Como cristãos, com caridade e compreensão. Como dizia São Josemaria: “Sempre como semeadores de paz e alegria”, mesmo que, em ambientes tensos e polarizados, às vezes seja difícil. É importante amar e compreender as pessoas, mesmo quando pensam de forma diferente.

