— O que destacaria dos seus anos de formação na Catalunha?
— Nos anos sessenta, tive uma visão mais ampla de uma Espanha diferente, que era a Catalunha. Foram anos muito importantes para a minha formação. Lembro-me muito bem das aulas no edifício central da Universidade de Barcelona, especialmente do famoso professor Teixidó, que tinha um grande prestígio, mas era um osso duro de roer, como se dizia na época. Ele ensinava uma matemática muito moderna, mas difícil de entender.
— Como você entrou em contato com Vic?
— Tudo começou no Colegio Mayor Monterols, onde conheci muitas pessoas de diferentes lugares da Catalunha e da Espanha. Na época, era um centro de formação apenas para jovens do Opus Dei. Agora está aberto a todos os tipos de estudantes. A partir de Monterols, tive a oportunidade de ir várias vezes a Vic para atender ao trabalho apostólico que estava começando a se desenvolver lá. Isso ocorreu entre os anos de 1964 e 1967. Percebi a importância de Vic dentro da Catalunha e passei a entender o catalão sem problemas. Depois vieram as milícias no acampamento de Talarn: dois verões de três meses e um estágio de quatro meses como alferes também lá, no acampamento.
— Em Roma, em 1971, São Josemaria disse: “Barcelona dará muitos frutos porque sofreu muito”, em alusão aos turbulentos anos 40, marcados pela incompreensão em relação à Obra. Montse Grases, a jovem barcelonesa da Obra que morreu de câncer aos 17 anos, pode se tornar a primeira santa canonizada do Opus Dei?
— Montse Grases foi proclamada venerável em 2016. Para a beatificação, é preciso demonstrar o caráter extraordinário de uma graça obtida por sua intercessão. À postulação e ao site da Obra chegam inúmeros relatos de graças relacionadas à vida cotidiana ou à escolha de vida. Sua devoção é mais difundida entre os jovens. Lembro que em 2022, no 80º aniversário de seu nascimento, um grupo de jovens levou 80 rosas brancas ao seu túmulo, na cripta do oratório de Santa Maria de Bonaigua (em Barcelona), para agradecer os favores recebidos por sua intercessão. Estão sendo estudados alguns casos interessantes, mas ainda estamos nas primeiras fases da compilação da documentação.
Seja ela a primeira santa canonizada ou não, é sem dúvida uma boa intercessora para os apostolados de toda a Igreja com os jovens, na querida cidade de Barcelona, nesta região de Osona onde passava as férias, na Catalunha e em todo o mundo.
— Como o Opus Dei está se preparando para o seu centenário?
— Nos anos que faltam para o centenário, queremos nos perguntar sobre as necessidades e os desafios da Igreja e do mundo. Desejamos também aprofundar a nossa própria identidade, olhando o futuro, e estudar como a Obra poderia contribuir a partir do seu carisma de santificação da vida ordinária. Portanto, nesse período, olharemos para o conjunto (a Igreja e o mundo) e para dentro (a Obra), com a esperança de que os olhares se encontrem em um momento de graça.
Quando penso no centenário do Opus Dei, lembro uma oração que o Bem-aventurado Álvaro dirigia pessoalmente a Deus: “obrigado, perdão, ajuda-me mais”. De certa forma, é um momento para viver esta aspiração também na perspectiva do conjunto.
— Na sua opinião, houve luzes e sombras nestes quase cem anos de história?
— O Opus Dei foi e é um dom do Espírito Santo para a Igreja, como recorda o Papa Francisco na Ad charisma tuendum. Vejo a Obra como uma luz que inspira muitas pessoas a se encontrarem com Jesus Cristo por meio das tarefas cotidianas: trabalho, família, relações sociais. Eu diria que estas são as principais luzes, cujo protagonista é Deus que intervém na história.
Entre essas luzes, gostaria de lembrar tantas pessoas da Obra que passaram por esta terra tentando fazer o bem, com suas virtudes e seus defeitos. Atualmente, morrem anualmente cerca de mil pessoas do Opus Dei. Na maioria dos casos, são pessoas simples, normais e anônimas que tentaram semear paz e alegria ao seu redor, em contextos às vezes difíceis.
Outras vezes são pessoas que foram publicamente apontadas como exemplo para os fiéis, como Guadalupe Ortiz de Landázuri, a primeira fiel leiga do Opus Dei a ser beatificada, uma profissional de química que desenvolveu um amplo apostolado de amizade na Espanha, no México e na Itália. Mais recentemente, o pediatra guatemalteco Ernesto Cofiño, médico e pai de família que a Igreja declarou venerável em dezembro de 2023. Entre outras coisas, desenvolvendo um amplo trabalho de evangelização entre seus familiares, colegas e amigos.
Ao mesmo tempo, a história do Opus Dei também tem sombras e erros, pois é constituída por seres humanos falíveis. As boas intenções não eliminam a possibilidade de erro, e isso deve ser aceito com humildade. Dói particularmente ouvir falar de pessoas que estiveram em contato com a prelazia e foram feridas por alguma falta de caridade ou de justiça, como em casos de falta de apoio emocional, erros nos processos de incorporação, negligência no acompanhamento de pessoas que deixaram o Opus Dei, etc. Devemos aprender com os erros e continuar melhorando, com a ajuda de Deus.
— O que permaneceu igual e o que mudou na Obra ao longo de todo esse tempo?
— O que não mudou foi o núcleo imutável, a mensagem fundamental da santidade no meio do mundo. Ao mesmo tempo, o fundador, ciente da necessidade de manter intacto esse espírito, afirmou que as formas e os modos de agir mudariam com o tempo. Em cem anos, a sociedade e a Igreja evoluíram muito, e o Opus Dei também, pois faz parte da Igreja e da sociedade. Saber mudar – modelando qualquer mudança a partir do essencial – é um requisito para poder permanecer fiel a uma missão. Por diferentes razões, o quadro jurídico, alguns modos apostólicos e muitas outras coisas que podem não ser visíveis, mas são importantes, mudaram nos últimos anos. Por exemplo, houve insistência em uma separação clara entre governo e direção espiritual, foram adotadas medidas para garantir melhor e reforçar a plena liberdade e voluntariedade nos processos de incorporação, foram atualizadas as formas práticas de manifestar a exigência de viver a virtude da pobreza no meio do mundo, etc.
— Quais foram os acontecimentos mais importantes no desenvolvimento institucional do Opus Dei e para onde ele se dirige no século XXI?
— Eu diria que os marcos mais importantes são os menos visíveis: a graça de Deus que atua em milhares de pessoas, que afirmativamente respondem ao seguimento de Jesus Cristo no meio do mundo. Ou tantas histórias de arrependimento, de conversão, que ocorrem em pessoas da Obra e em outras que frequentam seus apostolados.
No âmbito institucional, recordaria a canonização do Fundador, no dia 6 de outubro de 2002. Diante da multidão reunida em Roma, São João Paulo II se referiu a Josemaria Escrivá como “o santo da vida quotidiana”. Essa expressão também serve de guia para o futuro do Opus Dei, sobre o qual se pergunta: o fundamental não são as atividades, as estruturas ou os números, mas ajudar muitas pessoas – com a graça de Deus – a encontrar Deus na rua, na fábrica, no hospital, etc. ou, nas palavras do nosso fundador, “transformar a prosa diária em decassílabos, em poesia heroica”.
— Em que fase se encontra a causa de canonização do Bem-aventurado Álvaro? Foram documentados novos milagres?
— Após sua beatificação em 2014, chegaram à postulação muitas narrativas de favores extraordinários atribuídos à intercessão do Bem-aventurado Álvaro del Portillo. Um deles refere-se a um grave acidente automobilístico ocorrido no México, em 2015. Os médicos que acompanharam o caso consideraram extraordinária a recuperação de um traumatismo cranioencefálico grave sem sequelas neurológicas ou psicológicas. No final do ano passado, a investigação diocesana foi concluída e a documentação está agora sendo estudada pela Santa Sé. Outros casos também estão sendo examinados, entre eles um na Alemanha. Por outro lado, com frequência chegam outros favores mais comuns, relacionados à família, aos amigos, etc. Dom Álvaro era uma pessoa verdadeiramente próxima e é uma alegria ver que muitas famílias recorrem a ele pedindo a ajuda que se pede a um bom pai ou a um bom irmão.
— Qual é a sua agenda de viagens para os próximos meses?
— As viagens mais significativas foram as que fiz neste verão em parte da América do Sul: Chile, Peru, Equador e Colômbia. Trata-se de ajudar, incentivar e dar ideias às pessoas, mas também, ao mesmo tempo, aprender com os outros. Tenho muito presente algo que ouvi de São Josemaria: “Qualquer pessoa pode nos dizer coisas que nos enriquecem muito”.

