Deus nunca se engana: Eduardito, o filho que transformou uma família

A história de Eduardito, filho de Eduardo Ortiz de Landázuri e Laura Busca, mostra como a doença e a fragilidade podem transformar uma família. Por meio de sua vida marcada pela enfermidade, seus pais aprenderam a viver a santidade no cotidiano.

Familia Ortiz de Landázuri Busca
Familia Ortiz de Landázuri Busca

A santidade, mais do que um estado de perfeição ideal, costuma ser a resposta simples que damos às circunstâncias que nos cabe viver. Em uma de suas homilias, São Josemaria sugeria que seu trabalho como sacerdote era simplesmente colocar cada pessoa diante das exigências de sua própria vida, e ajudá-la a descobrir o que Deus lhe pede a cada momento (cf. É Cristo que passa, n. 991).

Esta ideia da “abençoada responsabilidade” adquire um sentido muito humano quando observamos a história de Eduardo Ortíz de Landázuri e Laura Busca, que não tiveram uma vida livre de dificuldades, mas aprenderam a lidar com uma realidade familiar especialmente complexa: a doença do seu terceiro filho, Eduardito2.

Eduardito nasceu em Granada3, em 29 de novembro de 1949, em um momento de mudanças para a família. Desde muito pequeno, após um parto complicado, começaram a se manifestar dificuldades na fala e na mobilidade. O diagnóstico de epilepsia idiopática com grave comprometimento mental4 marcou um antes e um depois na dinâmica do lar.

No entanto, em vez de viverem isso como uma tragédia, Eduardo e Laura tentaram integrá-lo à normalidade de uma família grande. Ao perceber que ele não conseguia acompanhar o ritmo escolar das outras crianças, a mãe procurou alternativas para que ele se sentisse útil e ocupado. Ela descobriu que ele tinha talento para a pintura e a costura, hobbies que o acompanhariam para sempre.

Do ponto de vista de sua formação religiosa, Eduardo e Laura também nunca desistiram. Carlos, outro filho, lembra-se de como Eduardito, “depois de receber a Primeira Comunhão em Granada com grande entusiasmo, continuou a se confessar e a comungar com bastante frequência, durante todo o tempo em que morou com meus pais, com grande espontaneidade e naturalidade”5.

É claro que a convivência não estava desprovida de atritos e cansaço. Os frequentes ataques de Eduardito o deixavam exausto e alteravam o ritmo de descanso de toda a família. Guadalupe, oito anos mais nova, lembra que “havia momentos em que não foi fácil conviver com Eduardito, embora todos nós o amássemos muito”6.

Desde sua etapa em Granada, e depois seguindo o conselho dos médicos de Pamplona, decidiu-se que ele nunca dormiria sozinho, para que pudessem reagir a tempo às suas crises. Era preciso ficar atento para evitar que ele caísse da cama, se machucasse ou mordesse a língua e avisar rapidamente Eduardo se a situação se complicasse. Os irmãos aprenderam a se revezar nessa vigilância noturna, tarefa que, embora cansativa, acabou se tornando uma forma natural de amar e cuidar uns dos outros.

Às vezes, a tensão em casa aumentava e Eduardito tinha reações bruscas ou momentos de frustração difíceis de controlar. Nesses episódios, como quando ele quebrou a louça na cozinha, a resposta de Laura não era drama nem reprovação, mas sim paciência e muito carinho. Ela simplesmente o acompanhava até o quarto e esperava que ele se acalmasse, tentando fazer com que o resto da família enxergasse essas situações com naturalidade e sem guardar rancor.

Com o passar dos anos, o desgaste físico e emocional deixou marcas, especialmente na mãe. Eduardito exigia atenção quase exclusiva e, às vezes, seus acessos de raiva se tornavam mais difíceis de controlar, chegando a situações de risco que preocupavam seriamente Eduardo.

Não se tratava de uma situação idílica; havia momentos de verdadeira angústia e dúvidas sobre como agir. Em um determinado momento, a mãe de Eduardo, a avó Eulogia, mudou-se para a casa da família. A convivência entre a avó e Eduardito gerava muita tensão; eles ficavam irritados e sentiam ciúmes um do outro, o que era compreensível, dadas as respectivas circunstâncias: os dois exigiam muita atenção7.

María Luisa lembra: "Meu pai rezava muito por Eduardito e enfrentava todas as situações causadas pela doença dele com muita confiança em Deus e serenidade".

Em 1969, após conversar com especialistas e sua esposa, Eduardo tomou a difícil decisão de internar o filho no Centro Psiquiátrico de Pamplona, pois a doença se manifestava com ataques epilépticos cada vez mais frequentes e reações de maior violência.

María Luisa se lembra de um episódio especialmente complexo que marcou um ponto de inflexão: em um momento de frustração, Eduardito teve uma reação brusca com uma faca de cozinha. Ao tentar acalmá-lo, Laura sofreu uma lesão nas costas. Embora ela tentasse minimizar o ocorrido, Eduardo percebeu que a situação já excedia as possibilidades de cuidados em casa e que eles deveriam buscar uma solução externa para o bem de todos8.

Eduardo conversou com os filhos, explicou a situação com sinceridade e, embora Laura tenha tido muita dificuldade em aceitar, todos entenderam que aquele era o passo necessário para o bem de todos. Foi um gesto doloroso, acompanhado de muita oração, e tomado com a convicção de que era a decisão mais responsável naquele momento.

Carlos, outro filho, lembra: "A maioria de nós, irmãos, foi com ele. Ficamos maravilhados ao observar que Eduardito não ofereceu qualquer resistência, aceitando sua nova situação com todas as suas consequências (...). Depois, meu pai quis que todos nós voltássemos para casa para contar à minha mãe que tudo havia corrido bem. Minha mãe ficou feliz com tudo o que lhe contamos, mas, naturalmente, foi um momento muito sofrido para ela”9.

Mesmo após a internação, ela demonstrou grande força de espírito ao aceitar as recomendações médicas de espaçar as visitas, a fim de não alterar a estabilidade do menino. Não se tratava de falta de afeto, mas de um exercício de fortaleza para garantir o bem-estar de Eduardito, mesmo que isso significasse ficar longe dele.

Anos mais tarde, em 29 de agosto de 1981, o Bem-Aventurado Álvaro del Portillo comentaria que “Ele lhes fez muito bem, e embora possa parecer impossível, ele os uniu ainda mais, e se ajudaram mutuamente. Às vezes não conseguimos entender, mas Deus nunca se engana”10. Eduardito faleceu em 18 de novembro de 201911

No fundo, a santidade consiste em aceitar o que a vida nos traz e viver isso como um chamado de Deus para amar. É a aceitação cheia de amor e esperança que transforma as dificuldades e as dores, presentes na cruz de Jesus, em um acontecimento de redenção.

Aceitar o que a vida nos traz e vivê-la como um chamado de Deus para amar cada vez mais é, em última análise, o que constitui a santidade.

Recordamos, nesse sentido, as palavras de São Josemaria: “Com que amor se abraça Jesus com o lenho que Lhe há de dar a morte! Não é verdade que, mal deixas de ter medo à Cruz, a isso que a gente chama de cruz, quando pões a tua vontade em aceitar a Vontade divina, és feliz, e passam todas as preocupações, os sofrimentos físicos ou morais?” (Via Sacra, II estação).

1 “Se tem interesse o meu testemunho pessoal, posso dizer que sempre concebi a minha atividade de sacerdote e de pastor de almas como uma tarefa dirigida a situar cada um em face das exigências totais da sua vida, ajudando as pessoas a descobrir aquilo que Deus lhes pedia em concreto, sem estabelecer qualquer limitação a essa independência santa e a essa abençoada responsabilidade individual, que são características de uma consciência cristã”.

2 Para evitar confusões com o pai, sempre nos referiremos como Eduardito ao filho, ainda que nos textos citados apareça o nome Eduardo. Com o nome Eduardo, porém, sempre vamos nos referir ao pai.

3 Casados em 1941, Laura e Eduardo viveram em Madri até 1949. Depois, Eduardo obteve a cátedra em Granada em 1949 e foram para lá. Em 1958 se mudaram para Pamplona.

4 MENDO, Hilario, La fortaleza de una mujer fiel. Laura Busca Otaegui, Ed. Palabra, Madri 2009, p. 29.

5 La casa del médico: una semblanza de la familia Ortiz de Landázuri Busca, livro inédito de Carlos, filho de Eduardo e Laura, que recolhe numerosos testemunhos de seus irmãos, além de seus próprios recursos.

6 Cfr. MENDO, Hilario, Distintos y unidos, Palabra, Madri 2023, p. 184s.

7 MENDO, Hilario, Distintos y unidos, Palabra, Madri 2023. p. 184

8 Ibid.

9 Cfr. Distintos y unidos, pág. 186.

10 Cfr. Distintos y unidos, pág. 235.

11 MENDO, Hilario, Distintos y unidos, Palabra, Madri 2023. p. 189.