Da compaixão à ação

Em 1987, o Bem-Aventurado Álvaro del Portillo testemunhou uma desigualdade gritante em Cebu, nas Filipinas, e respondeu com uma visão que transformaria gerações. Esta é a história do Instituto Técnico CITE.

Em um mundo onde os pobres são cada vez mais numerosos, vemos paradoxalmente crescer algumas elites ricas, que vivem numa bolha de condições demasiado confortáveis e luxuosas, quase num mundo à parte em relação às pessoas comuns... persiste uma cultura que descarta os outros sem sequer perceber” (Papa Leão XIV, Dilexi Te, 11).

Ao ler estas palavras da Exortação Apostólica Dilexi Te do Papa Leão XIV, lembro-me do legado silencioso, mas duradouro, do Bem-Aventurado Álvaro del Portillo durante sua visita às Filipinas em 1987.

Enquanto viajava por uma estrada em Mactan, Cebu, uma cidade costeira localizada no centro das Filipinas, Dom Álvaro observou uma paisagem de contrastes: casas frágeis de famílias pobres ao longo da estrada, ofuscadas por mansões nas colinas próximas. Impressionado com essa gritante desigualdade, ele se virou para seus companheiros e simplesmente disse que algo precisava ser feito pelos pobres.

Inspirado pelo provérbio “Dê um peixe a um homem e você o alimentará por um dia; ensine um homem a pescar e você o alimentará por toda a vida”, ele propôs a criação de uma escola técnica para jovens de famílias desfavorecidas, a fim de capacitá-los para o mercado de trabalho em Cebu e em outras regiões.

O Bem-aventurado Álvaro del Portillo em uma reunião realizada em 29 de janeiro de 1987 no então Cebu Plaza Hotel

Fiel à sua palavra, ao retornar a Roma, o B. Álvaro mobilizou pessoalmente o apoio necessário. Ele enviou consultores do Centro ELIS, um renomado centro de capacitação técnica localizado em Roma, para ajudar a lançar as bases do que se tornaria um projeto transformador.

Em 1991, o Centro de Tecnologia Industrial e Empreendedorismo (CITE) foi inaugurado em Talamban, um distrito da cidade de Cebu. Com a ajuda do Centro ELIS, o CITE desenvolveu um sólido currículo de treinamento e construiu laboratórios que combinavam instrução teórica com experiência prática, preparando os alunos para o mercado de trabalho real.

O CITE não foi construído apenas com boas intenções. Foram necessários recursos substanciais para construir edifícios, adquirir máquinas e oferecer bolsas de estudo. Esse desafio foi superado graças à generosidade de empresários locais, autoridades governamentais e famílias que acreditaram na missão da escola.

Para garantir sua sustentabilidade, o CITE firmou parcerias com indústrias locais que ofereciam estágios e empregos aos formandos. Essas colaborações continuam até hoje, construindo discretamente pontes entre aqueles que têm oportunidades e aqueles que mais precisam delas.

Edifício principal do Instituto Técnico CITE

Desde o início, o CITE abriu suas portas para alunos com deficiência física. Um dos primeiros inscritos foi um jovem os dedos da mão esquerda deformados. Durante a avaliação de admissão, ele demonstrou sua capacidade de trabalhar usando um simples elástico para segurar ferramentas. Ele se destacou academicamente e se tornou parte da turma pioneira de formandos do CITE.

Ao longo dos anos, muitas histórias semelhantes surgiram: formandos que garantiram meios de subsistência estáveis para suas famílias e outros que encontraram oportunidades de trabalhar no exterior.

No CITE, a formação vai além das habilidades técnicas. Os alunos — e até mesmo seus pais — recebem orientação sobre vida familiar, virtudes e doutrina católica. No centro do campus, há uma bonita capela onde os alunos podem fazer uma pausa, rezar e refletir. Durante uma visita em 1992, a ex-presidente Corazon Aquino passou alguns momentos em silêncio rezando nesta capela, encontrando consolo ali.

O impacto do CITE muitas vezes se estende muito além da formatura. Para alguns, tornou-se um lugar de discernimento vocacional. Pelo menos oito graduados do CITE tornaram-se padres diocesanos na cidade de Cebu, o mais recente ordenado em 2025. Outros, movidos pela gratidão, voltaram para ensinar, escolhendo transmitir o que eles mesmos receberam.

Mons. Fernando Ocariz, prelado do Opus Dei, visitou o CITE em julho de 2023 e viu o busto do Bem-Aventurado Álvaro no salão principal

Quase quatro décadas se passaram desde que Dom Álvaro percorreu aquela estrada em Mactan e se sentiu compelido a “fazer algo” pelos pobres de Cebu. Sua resposta traz à mente as palavras de São Josemaria Escrivá:

“És, entre os teus, alma de apóstolo, a pedra caída no lago. - Provoca, com o teu exemplo e com a tua palavra, um primeiro círculo…; e este, outro… e outro, e outro… Cada vez mais largo. Compreendes agora a grandeza da tua missão?” (Caminho, n.º 381).

No CITE, esse círculo de solidariedade continua a alargar-se. Inspirados pelo Papa Leão XIV e pelo B. Álvaro, que também nós encontremos a coragem não só de ver as necessidades à nossa volta, mas também de fazer algo por aqueles que mais precisam.

Dominador P. Leonida