Cristo presente nos cristãos

"Cristo vive. Esta é a grande verdade que enche de conteúdo a nossa fé." Homilia pronunciada por São Josemaria no domingo da Ressurreição e publicada em É Cristo que passa.

Opus Dei - Cristo presente nos cristãos

Cristo vive. Esta é a grande verdade que enche de conteúdo a nossa fé. Jesus, que morreu na cruz, ressuscitou, triunfou da morte, do poder das trevas, da dor e da angústia. Não temais, foi a invocação com que um anjo saudou as mulheres que se dirigiam ao sepulcro. Não temais. Vindes buscar Jesus Nazareno, que foi crucificado. Já ressuscitou; não está aqui. Haec est dies quam fecit Dominus, exsultemus et laetemur in ea: este é o dia que o Senhor fez, alegremo-nos.

O tempo pascal é tempo de alegria, de uma alegria que não se restringe a esta época do ano litúrgico, mas que habita sempre no coração do cristão. Porque Cristo vive. Não é Cristo uma figura que passou, que existiu num tempo e que se retirou, deixando-nos uma lembrança e um exemplo maravilhosos.

Não. Cristo vive. Jesus é o Emmanuel: Deus conosco. A sua Ressurreição revela-nos que Deus não abandona os seus. Pode a mulher esquecer-se do fruto do seu ventre, não se compadecer do filho de suas entranhas? Pois ainda que ela se esquecesse, eu não me esquecerei de ti , tinha Ele prometido. E cumpriu a sua promessa. Deus continua a achar suas delícias entre os filhos dos homens.

Porque Cristo vive. Não é Cristo uma figura que passou, que existiu num tempo e que se retirou, deixando-nos uma lembrança e um exemplo maravilhosos. Não. Cristo vive. Jesus é o Emmanuel: Deus conosco.

Cristo vive na sua Igreja. “Digo-vos a verdade: a vós convém que eu vá, porque, se não for, o Consolador não virá a vós. Mas, se for, eu vo-lo enviarei”. Tais eram os desígnios de Deus: Jesus, morrendo na Cruz, dava-nos o Espírito de Verdade e de Vida. Cristo permanece na sua Igreja: nos seus sacramentos, na sua liturgia, na sua pregação e em toda a sua atividade.

De modo especial, Cristo continua presente entre nós nessa entrega diária que é a Sagrada Eucaristia. Por isso, a Missa é o centro e a raiz da vida cristã. Em todas as Missas está sempre o Cristo Total, Cabeça e Corpo. Por Cristo, com Cristo e em Cristo. Porque Cristo é o Caminho, o Medianeiro; nEle encontramos tudo; fora dEle, a nossa vida fica vazia. Em Jesus Cristo, e instruídos por Ele, atrevemo-nos a dizer - audemus dicere - Pater noster, Pai nosso. Atrevemo-nos a chamar Pai ao Senhor dos céus e da terra.

A presença de Jesus vivo na Hóstia Santa é a garantia, a raiz e a consumação da sua presença no mundo.

Cristo vive no cristão. A fé diz-nos que o homem em estado de graça se encontra endeusado. Somos homens e mulheres, não anjos. Seres de carne e osso, com coração e paixões, com tristezas e alegrias. Mas a divinização repercute no homem inteiro, como uma antecipação da ressurreição gloriosa. Cristo ressuscitou dentre os mortos e constituiu-se como primícias dos defuntos; porque, assim como por um homem veio a morte, por um homem devia vir a ressurreição dos mortos. Assim como em Adão todos morrem, assim também em Cristo todos serão vivificados.

A vida de Cristo é a nossa vida, conforme Jesus prometera aos seus Apóstolos na Última Ceia: Todo aquele que me ama observa os meus mandamentos, e meu Pai o amará, e viremos a ele, e nele faremos a nossa morada. O cristão deve, pois, viver segundo a vida de Cristo, tornando próprios os sentimentos de Cristo, de tal maneira que possa exclamar com São Paulo: Non vivo ego, vivit vero in me Christus , não sou eu que vivo; é Cristo que vive em mim.

Jesus Cristo, fundamento da vida cristã

Quis recordar, embora brevemente, alguns dos aspectos dessa vida atual de Cristo - Iesus Christus heri et hodie, ipse et in saecula , Jesus Cristo ontem e hoje, o mesmo pelos séculos - por nela se achar o fundamento de toda a vida cristã. Se olharmos à nossa volta e considerarmos o curso da história da humanidade, observaremos progressos e avanços. A ciência deu ao homem maior consciência do seu poder. A técnica domina a natureza em maior grau que em épocas passadas e permite que a humanidade sonhe com um nível mais alto de cultura, de vida material e de unidade.



Talvez alguns se sintam inclinados a matizar esse quadro, recordando que os homens sofrem agora injustiças e guerras, inclusive piores que as do passado. Não lhes falta razão. Mas, por cima dessas considerações, prefiro recordar que, na ordem religiosa, o homem continua a ser homem e Deus continua a ser Deus. Neste terreno, o cume do progresso já se verificou: é Cristo, Alfa e Ômega, princípio e fim.



Na vida espiritual, não existe uma nova época a atingir. Já está tudo dado em Cristo, que morreu, e ressuscitou, e vive, e permanece para sempre. Mas é preciso unirmo-nos a Ele pela fé, deixando que a sua vida se manifeste em nós, de maneira a podermos dizer que cada cristão é não já alter Christus, outro Cristo, mas ipse Christus, o próprio Cristo!

quando for levantado ao alto sobre a terra, tudo atrairei a mim.

Instaurare omnia in Christo, é o lema que São Paulo dá aos cristãos de Éfeso informar o mundo inteiro com o espírito de Jesus, colocar Cristo na entranha de todas as coisas. Si exaltatus fuero a terra, omnia traham ad meipsum , quando for levantado ao alto sobre a terra, tudo atrairei a mim. Cristo, com a sua encarnação, com a sua vida de trabalho em Nazaré, com a sua pregação e milagres pelas terras da Judéia e da Galiléia, com a sua morte na Cruz, com a sua Ressurreição, é o centro da Criação, Primogênito e Senhor de toda a criatura.Nossa missão de cristãos é proclamar essa realeza de Cristo, anunciá-la com a nossa palavra e as nossas obras. O Senhor quer os seus em todas as encruzilhadas da terra. Chama alguns ao deserto, para que se desentendam dos avatares da sociedade dos homens e com o seu testemunho recordem aos demais que Deus existe. Confia a outros o ministério sacerdotal. Mas quer a grande maioria dos homens no meio do mundo, nas ocupações terrenas. Estes cristãos devem, pois, levar Cristo a todos os ambientes em que desenvolvem as suas tarefas humanas: à fábrica, ao laboratório, ao cultivo da terra, à oficina do artesão, às ruas das grandes cidades e aos caminhos de montanha.

Gosto de recordar a este propósito o episódio da conversa de Cristo com os discípulos de Emaús. Jesus caminha ao lado daqueles dois homens que perderam quase toda a esperança, a tal ponto que a vida começa a parecer-lhes sem sentido. Compreende a sua dor, penetra em seus corações, comunica-lhes um pouco da vida que nEle habita. Quando, ao chegarem à aldeia, Jesus faz menção de continuar viagem, os dois discípulos detêm-no e quase o obrigam a ficar com eles. Reconhecem-no depois, ao partir o pão; o Senhor, exclamam, esteve conosco. Então disseram um para o outro: Não é verdade que sentíamos o coração abrasar-se dentro de nós, enquanto nos falava pelo caminho e nos explicava as Escrituras?. Cada cristão deve tornar Cristo presente entre os homens; deve viver de tal modo que à sua volta se perceba o bonus odor Christi , o bom odor de Cristo; deve agir de tal modo que, através das ações do discípulo, se possa descobrir o rosto do Mestre.

O cristão sabe-se enxertado em Cristo pelo Batismo; habilitado a lutar por Cristo, pela Confirmação; chamado a atuar no mundo pela participação na função real, profética e sacerdotal de Cristo; transformado numa só coisa com Cristo pela Eucaristia, sacramento da unidade e do amor. Por isso, como Cristo, deve viver de rosto voltado para os outros homens, olhando com amor para todos e cada um dos que o rodeiam, para a humanidade inteira.



A fé leva-nos a reconhecer Cristo como Deus, a vê-lo como nosso Salvador, a identificar-nos com Ele, agindo como Ele agiu. O Ressuscitado, depois de tirar o Apóstolo Tomé de suas dúvidas, mostrando-lhe as chagas, exclama: Bem-aventurados os que não me viram e creram. E São Gregório Magno comenta: Aqui fala-se de nós de um modo particular, porque nós possuímos espiritualmente Aquele a quem não vimos corporalmente. Fala-se de nós, mas com a condição de que as nossas ações estejam de acordo com a nossa fé. Não crê verdadeiramente senão aquele que na sua conduta põe em prática o que crê. Por isso diz São Paulo daqueles que da fé só possuem palavras: professam conhecer Deus, mas negam-no com as obras.



Não é possível separar em Cristo o seu ser de Deus-Homem da sua função de Redentor. O Verbo se fez carne e veio à terra ut omnes homines salvi fiant , para salvar todos os homens. Com todas as nossas misérias e limitações pessoais, somos outros Cristos, o próprio Cristo, chamados também a servir a todos os homens.É necessário que ressoe muitas vezes aquele mandamento que continuará a ser novo através dos séculos. Caríssimos - escreve São João -, não pretendo escrever-vos um mandamento novo, mas um mandamento antigo, que recebestes desde o começo; o mandamento antigo é a palavra divina que ouvistes. E, não obstante, eu vos digo que o mandamento de que vos falo é um mandamento novo, que é verdadeiro em si mesmo e em vós, porque as trevas desapareceram e brilha já a luz verdadeira. Quem diz estar na luz, e aborrece seu irmão, está ainda em trevas. Quem ama o seu irmão mora na luz e nele não existe escândalo.



O Senhor veio trazer a paz, a boa nova, a vida, a todos os homens. Não apenas aos ricos, nem apenas aos pobres. Não apenas aos sábios, nem apenas à gente simples. A todos. Aos irmãos que somos, pois somos filhos de um mesmo Pai Deus. Não existe, pois, senão uma raça: a raça dos filhos de Deus. Não existe mais do que uma cor: a cor dos filhos de Deus. E não existe senão uma língua: essa que, falando ao coração e à cabeça, sem ruído de palavras, nos dá a conhecer Deus e faz com que nos amemos uns aos outros.

Contemplação da vida de Cristo

É esse amor de Cristo que cada um de nós deve esforçar-se por realizar na sua própria vida. Mas para sermos ipse Christus - o próprio Cristo -, é preciso que nos contemplemos nEle. Não basta ter uma idéia geral do espírito de Jesus, mas é preciso aprender dEle pormenores e atitudes. E sobretudo é preciso contemplar a sua passagem pela terra, as suas pisadas, para extrair daí força, luz, serenidade, paz.



Quando amamos uma pessoa, desejamos conhecer até os menores detalhes da sua existência, do seu caráter, para assim nos identificarmos com ela. É por isso que temos que meditar na história de Cristo, desde o seu nascimento num presépio até à sua morte e sua ressurreição. Nos meus primeiros anos de atividade sacerdotal, costumava oferecer exemplares do Evangelho ou livros em que se narrasse a vida de Jesus. Porque é preciso que a conheçamos bem, que a tenhamos toda inteira na cabeça e no coração, de modo que, em qualquer momento, sem necessidade de livro algum, fechando os olhos, possamos contemplá-la como num filme, de forma que, nas mais diversas situações da nossa existência, acudam à memória as palavras e os atos do Senhor.

Assim nos sentiremos integrados na sua vida. Porque não se trata apenas de pensar em Jesus, de imaginar as cenas que lemos. Temos que intervir plenamente nelas, ser protagonistas. Seguir Cristo tão de perto quanto Santa Maria, sua Mãe; quanto os primeiros Doze, as santas mulheres e aquelas multidões que se comprimiam ao seu redor. Se agirmos assim, se não criarmos obstáculos, as palavras de Cristo penetrarão até o fundo da alma e transformar-nos-ão. Porque a palavra de Deus é viva e eficaz, e mais penetrante que espada de dois gumes, e introduz-se até às dobras da alma e do espírito, até às articulações e medulas, e discerne os pensamentos e as intenções do coração.

Se queremos levar até o Senhor os outros homens, temos que abrir o Evangelho e contemplar o amor de Cristo. Poderíamos deter-nos nas cenas-cume da Paixão porque, como Ele mesmo disse, ninguém tem maior amor que aquele que dá a vida pelos seus amigos. Mas podemos também considerar o resto da sua vida, o seu modo habitual de lidar com os que se cruzavam com Ele.

Cristo, perfeito Deus e perfeito Homem, conduziu-se de um modo humano e divino para fazer chegar aos homens a sua doutrina de salvação e manifestar-lhes o amor de Deus. Deus condescende com o homem, assume a nossa natureza sem reservas, à exceção do pecado.

Causa-me uma profunda alegria considerar que Cristo quis ser plenamente homem, com carne como a nossa. Emociona-me contemplar a maravilha de um Deus que ama com coração de homem.

Entre tantas cenas narradas pelos evangelistas, detenhamo-nos a considerar algumas, começando pelos relatos dos momentos de convivência de Jesus com os Doze. O Apóstolo João, que derrama no seu Evangelho a experiência de uma vida inteira, narra a sua primeira conversa com Jesus, com o encanto das coisas que nunca mais se esquecem. Mestre, onde moras? Disse-lhes Jesus: Vinde e vede. Foram, pois, e viram onde morava, e ficaram com Ele aquele dia.



Diálogo divino e humano, que transformou as vidas de João e André, de Pedro, Tiago e tantos outros; que preparou seus corações para escutarem a palavra imperiosa que Jesus lhes dirigiu junto do mar da Galiléia. Caminhando Jesus pelas margens do mar da Galiléia, viu dois irmãos, Simão, chamado Pedro, e André, seu irmão, lançando as redes ao mar, pois eram pescadores. E disse-lhes: Segui-me, e farei que sejais pescadores de homens. Imediatamente os dois deixaram as redes e o seguiram.Nos três anos seguintes, Jesus convive com os seus discípulos, conhece-os, responde às suas perguntas, resolve as suas dúvidas. É verdadeiramente o Rabi, o Mestre que fala com autoridade, o Messias enviado por Deus. Mas é ao mesmo tempo acessível, íntimo. Um dia, retira-se em oração; os discípulos encontravam-se por perto, quem sabe olhando-o e procurando adivinhar as suas palavras. Quando volta, um deles pede-lhe: Domine, doce nos orare, sicut docuit et Ioannes discípulos suos; ensina-nos a orar, como João ensinou aos seus discípulos. E Jesus respondeu-lhes: quando vos puserdes a orar, haveis de dizer: Pai, santificado seja o teu nome...



Com a mesma autoridade de Deus e carinho de homem, o Senhor recebe os Apóstolos quando, admirados com os frutos da sua primeira missão, comentavam com Ele as primícias do seu apostolado: Retirai-vos comigo a um lugar isolado e descansai um pouco.



Uma cena muito similar se repete já no fim da permanência de Jesus sobre a terra, pouco antes da Ascensão. Chegada a manhã, Jesus apareceu na margem; mas os discípulos não o reconheceram. E Jesus disse-lhes: Rapazes, tendes alguma coisa que comer? Aquele que perguntara como homem, fala depois como Deus: Lançai as redes à direita da barca e achareis. Lançaram-nas, pois, e já não as podiam tirar pela quantidade de peixes que havia. Então o discípulo a quem Jesus amava disse a Pedro: É o Senhor.E Deus espera-os na margem: Ao saltarem para terra, viram preparadas umas brasas acesas com peixe em cima e pão. E Jesus disse-lhes: Trazei para cá os peixes que acabais de pescar. Simão Pedro subiu à barca e trouxe a rede para terra, cheia de cento e cinqüenta e três grandes peixes. E, apesar de serem tantos, a rede não se rompeu. Disse-lhes Jesus: Vinde, comei. E nenhum dos discípulos se atrevia a perguntar-lhe: Quem és?, sabendo que era o Senhor. Jesus aproximou-se, tomou o pão e o distribuiu, e o mesmo fez com o peixe.



Jesus manifesta essa delicadeza e carinho não só com um grupo pequeno de discípulos, mas com todos: com as santas mulheres, com representantes do Sinédrio - como Nicodemos - e com publicanos - como Zaqueu -, com doentes e sãos, com doutores da lei e pagãos, com as pessoas individualmente e com multidões inteiras.



Os Evangelhos contam-nos que Jesus não tinha onde reclinar a cabeça, mas contam-nos também que tinha amigos queridos e de confiança, desejosos de recebê-lo em sua casa. E falam-nos da sua compaixão pelos doentes, da sua dor pelos que ignoram e erram, da sua indignação perante a hipocrisia. Jesus chora a morte de Lázaro, ira-se com os mercadores que profanam o Templo, deixa que seu coração se enterneça perante a dor da viúva de Naim.Cada um desses gestos humanos é gesto de Deus. Em Cristo habita toda a plenitude da divindade corporalmente. Cristo é Deus feito homem, homem perfeito, homem cabal. E, nos seus aspectos humanos, dá-nos a conhecer a divindade.



Ao recordarmos esta delicadeza humana de Cristo, que gasta a sua vida a serviço dos outros, fazemos muito mais do que descrever um possível modo de nos comportarmos. Estamos descobrindo Deus. Toda a obra de Cristo tem um valor transcendente: dá-nos a conhecer o modo de ser de Deus, convida-nos a crer no amor de Deus, que nos criou e nos quer trazer à sua intimidade. Manifestei o teu nome aos homens que me deste no mundo; eles eram teus, e mos deste; e eles puseram em prática a tua palavra. Agora souberam que tudo o que me deste vem de Ti , exclamou Jesus na longa oração que o evangelista João nos conserva.



Por isso, o relacionamento de Jesus com os homens não fica em meras palavras ou em atitudes superficiais. Jesus toma a sério o homem e quer dar-lhe a conhecer o sentido divino da sua vida. Jesus sabe exigir, colocar cada um em face dos seus deveres, tirar os que o escutam do comodismo e conformismo, para levá-los a conhecer o Deus três vezes santo. A fome e a dor comovem Jesus, mas comove-o sobretudo a ignorância. Jesus viu a multidão que esperava por ele, e enterneceu-se no seu íntimo porque andavam como ovelhas sem pastor. Começou então a instruí-los sobre muitas coisas.

Aplicação à nossa vida corrente

Percorremos algumas páginas dos Santos Evangelhos para contemplar Jesus no seu convívio com os homens e aprender a levar a Cristo os nossos irmãos, sendo nós mesmos Cristo. É preciso aplicar essa lição à vida diária, à nossa própria vida. Porque a vida comum e normal, aquela que vivemos entre os demais concidadãos, nossos iguais, não é nenhuma coisa sem altura e sem relevo. É precisamente nessas circunstâncias que o Senhor quer que a imensa maioria de seus filhos se santifique.



É necessário repetir muitas e muitas vezes que Jesus não se dirigiu a um grupo de privilegiados, mas veio revelar-nos o amor universal de Deus. Todos os homens são amados por Deus, de todos espera amor. De todos. Sejam quais forem as suas condições pessoais, sua posição social, sua profissão ou ofício. A vida comum e vulgar não é coisa de pouco valor; todos os caminhos da terra podem ser ocasião de um encontro com Cristo, que nos chama à identificação com Ele para realizarmos - no lugar onde estivermos - a sua missão divina.



Deus chama-nos através das vicissitudes da vida diária, no sofrimento e na alegria das pessoas com quem convivemos, nas aspirações humanas dos nossos companheiros, nos pequenos acontecimentos da vida familiar. Chama-nos também através dos grandes problemas, conflitos e tarefas que definem cada época histórica e que atraem o esforço e os ideais de grande parte da humanidade.

Compreende-se muito bem a impaciência, a angústia e os anseios inquietos daqueles que, com alma naturalmente cristã , não se resignam perante as situações de injustiça pessoal e social que o coração humano é capaz de criar. Tantos séculos de convivência entre os homens, e ainda tanto ódio, tanta destruição, tanto fanatismo acumulado em olhos que não querem ver e em corações que não querem amar.

Os bens da terra, repartidos entre poucos; os bens da cultura, encerrados em cenáculos. E, lá fora, fome de pão e de sabedoria; vidas humanas - que são santas, porque vêm de Deus - tratadas como simples coisas, como números de uma estatística. Compreendo e partilho dessa impaciência, levantando os olhos para Cristo, que continua a convidar-nos a pôr em prática o mandamento novo do amor.

Todas as situações por que a nossa vida atravessa nos trazem uma mensagem divina, pedem-nos uma resposta de amor, de entrega aos outros. Quando vier o Filho do homem em toda a sua majestade e acompanhado de todos os seus anjos, sentar-se-á no trono da sua glória e fará comparecer diante de si todas as nações, e separará uns dos outros, como o pastor separa as ovelhas dos cabritos, pondo as ovelhas à sua direita e os cabritos à esquerda.

Então o rei dirá aos que estiverem à sua direita: Vinde, benditos de meu pai, tomai posse do reino que vos está preparado desde o princípio do mundo. Porque tive fome e me destes de comer; tive sede, e me destes de beber; era peregrino, e me hospedastes; estava nu, e me vestistes; doente, e me visitastes; preso, e viestes ver-me. Ao que os justos lhe responderão: Senhor, quando te vimos com fome, e te demos de comer; com sede, e te demos de beber; quando te vimos peregrino, e te hospedamos; nu, e te vestimos; ou quando te vimos doente ou na prisão, e te fomos visitar? E o rei, em resposta, dir-lhes-á: na verdade vos digo, sempre que o fizestes a um destes meus irmãos mais pequenos, a mim o fizestes.

Temos que reconhecer Cristo que nos sai ao encontro nos nossos irmãos, os homens. Nenhuma vida humana é uma vida isolada, mas entrelaça-se com as outras vidas. Nenhuma pessoa é um verso solto: fazemos todos parte de um mesmo poema divino, que Deus escreve com o concurso da nossa liberdade.

Não há nada que possa ser alheio ao interesse de Cristo. Falando com profundidade teológica, isto é, se não nos limitamos a uma classificação funcional; falando com rigor, não se pode dizer que haja realidades - boas, nobres ou mesmo indiferentes - que sejam exclusivamente profanas, uma vez que o Verbo de Deus estabeleceu a sua morada entre os filhos dos homens, teve fome e sede, trabalhou com suas mãos, conheceu a amizade e a obediência, experimentou a dor e a morte. Porque em Cristo aprouve ao Pai situar a plenitude de todo o ser, e reconciliar por Ele todas as coisas consigo, restabelecendo a paz entre o céu e a terra, por meio do sangue que derramou na cruz.



Temos que amar o mundo, o trabalho, as realidades humanas. Porque o mundo é bom: foi o pecado de Adão que quebrou a divina harmonia das coisas criadas. Mas Deus Pai enviou seu Filho Unigênito para que restabelecesse a paz; para que, convertidos em filhos por adoção, pudéssemos libertar a criação da desordem e reconciliar todas as coisas com Ele.



Cada situação humana é irrepetível, fruto de uma vocação única que se deve viver com intensidade, realizando nela o espírito de Cristo. Deste modo, vivendo cristãmente entre os nossos iguais, de uma maneira normal mas coerente com a nossa fé, seremos Cristo presente entre os homens.

Ao considerarmos a dignidade da missão a que Deus nos chama, talvez possa surgir na alma humana a presunção, a soberba. Seria uma falsa consciência da vocação cristã aquela que nos cegasse e nos fizesse esquecer que somos feitos de barro, que somos pó e miséria. Na verdade, não há mal apenas no mundo, à nossa volta; o mal está dentro de nós e aninha-se no nosso próprio coração, tornando-nos capazes de vilanias e egoísmos. Só a graça de Deus é rocha forte: nós somos areia, e areia movediça.

Se percorremos com o olhar a história dos homens ou a situação atual do mundo, é doloroso verificar como, depois de vinte séculos, existem tão poucos que se chamam cristãos e que os que se adornam com esse nome são tantas vezes infiéis à sua vocação. Faz alguns anos, uma pessoa que não tinha mau coração, mas não tinha fé, apontou para um mapa-múndi e comentou comigo: Eis o fracasso de Cristo. Tantos séculos procurando introduzir na alma dos homens a sua doutrina, e veja os resultados: não há cristãos.

Não falta quem pense assim nos nossos dias. Mas Cristo não fracassou; sua vida e sua palavra fecundam continuamente o mundo. A obra de Cristo, a tarefa que seu Pai lhe encomendou está-se realizando; sua força atravessa a história trazendo-nos a verdadeira vida, e quando já todas as coisas estiverem submetidas a Ele, então o próprio Filho ficará submetido, enquanto homem, Àquele que tudo lhe submeteu, a fim de que Deus seja tudo em todas as coisas.

Nessa tarefa que vai realizando no mundo, Deus quis que fôssemos seus cooperadores, quis correr o risco da nossa liberdade. Toca-me o fundo da alma a figura de Jesus recém-nascido em Belém: uma criança indefesa, inerme, incapaz de oferecer resistência. Deus entrega-se às mãos dos homens, aproxima-se e desce até nós.

Jesus Cristo, que tinha a natureza de Deus, não reivindicou o seu ser igual a Deus, mas aniquilou-se a si mesmo, tomando a forma de escravo. Deus condescende com a nossa liberdade, com a nossa imperfeição, com as nossas misérias. Consente que os tesouros divinos se contenham em vasos de barro, que os demos a conhecer misturando as nossas deficiências humanas com a sua força divina.

A experiência do pecado não nos deve, pois, fazer duvidar da nossa missão. É certo que os nossos pecados podem tornar difícil que se reconheça Cristo, e por isso devemos enfrentar as nossas próprias misérias pessoais, procurar a purificação. Porém, conscientes de que Deus não nos prometeu a vitória absoluta sobre o mal durante esta vida, mas nos pede luta. Sufficit tibi gratia mea, basta-te a minha graça, respondeu Deus a São Paulo, quando lhe pedia que o libertasse do aguilhão que o humilhava.



O poder de Deus manifesta-se na nossa fraqueza e incita-nos a lutar, a combater os nossos defeitos, mesmo que saibamos que nunca obteremos uma vitória completa durante o nosso peregrinar terreno. A vida cristã é um constante começar e recomeçar, um renovar-se cada dia.



Cristo ressuscitará em nós, se nos tornarmos co-participantes da sua Cruz e da sua Morte. Temos que amar a Cruz, a entrega, a mortificação. O otimismo cristão não é um otimismo meloso, nem a simples confiança humana de que tudo correrá bem. É um otimismo que mergulha suas raízes na consciência da liberdade e na fé na graça; é um otimismo que nos leva a ser exigentes conosco mesmos, a esforçar-nos por corresponder à chamada de Deus.

Desse modo, não já apesar da nossa miséria, mas de certo modo através da nossa miséria, da nossa vida de homens feitos de carne e de barro, Cristo se manifesta - no esforço por sermos melhores, por realizarmos um amor que aspira a ser puro, por dominarmos o egoísmo, por nos entregarmos plenamente aos outros, convertendo a nossa existência num serviço constante.

Não quero concluir sem uma última reflexão. O cristão - ao tornar Cristo presente entre os homens, sendo ele mesmo ipse Christus, o próprio Cristo -, não procura apenas viver numa atitude de amor, mas esforça-se por dar a conhecer o Amor de Deus através desse amor humano.

Jesus concebeu toda a sua vida como uma revelação desse amor: Filipe - respondeu a um de seus discípulos -, quem me vê, vê também o Pai. Na esteira desse ensinamento, o Apóstolo João convida os cristãos a manifestarem com obras o amor de Deus, depois de o terem conhecido: Caríssimos, amemo-nos uns aos outros, porque a caridade procede de Deus; e todo aquele que ama é filho de Deus e conhece a Deus. Quem não possui este amor não conhece a Deus, porque Deus é amor. Nisto se manifestou o amor de Deus por nós, em que enviou o seu Filho Unigênito ao mundo, para que por Ele tenhamos a vida. E nisto consiste o seu amor, em que não fomos nós que amamos a Deus, mas foi Ele que nos amou primeiro e enviou o seu Filho como vitima de propiciação por nossos pecados. Caríssimos, se assim nos amou Deus, também nós devemos amar-nos uns aos outros.

É necessário, pois, que a nossa fé seja viva, que nos leve realmente a crer em Deus e a manter um diálogo constante com Ele. A vida cristã deve ser vida de oração contínua, que procura estar na presença do Senhor da manhã até à noite e da noite até à manhã. O cristão não é nunca um homem solitário, porque vive num contínuo colóquio com Deus, que está junto de nós e nos céus.

Sine intermissione orate, prescreve o Apóstolo, orai sem interrupção. E Clemente Alexandrino escreve, recordando esse preceito apostólico: Manda-se que louvemos e honremos o Verbo, a quem conhecemos como salvador e rei; e por Ele ao Pai, não em dias escolhidos, como fazem os outros, mas constantemente, ao longo de toda a vida e de todas as formas possíveis.

No meio das ocupações de cada dia, no momento de vencer a tendência para o egoísmo, ao sentir a alegria da amizade com os outros homens, em todos esses instantes o cristão deve reencontrar Deus. Por Cristo e no Espírito Santo, o cristão tem acesso à intimidade de Deus Pai, e percorre o seu caminho em busca desse reino que não é deste mundo, mas que neste mundo se incoa e se prepara.

É preciso procurar Cristo na Palavra e no Pão, na Eucaristia e na Oração. E tratá-lo como se trata um amigo, um ser real e vivo como é Cristo, porque ressuscitou. Cristo, lemos na Epístola aos Hebreus, como permanece sempre, possui eternamente o sacerdócio. Daí que pode perpetuamente salvar aqueles que por seu intermédio se apresentam a Deus, posto que está sempre vivo para interceder por nós.

Cristo, Cristo ressuscitado, é o companheiro, o Amigo. Um companheiro que se deixa ver apenas entre sombras, mas cuja realidade inunda toda a nossa vida e nos faz desejar a sua companhia definitiva. O Espírito e a Esposa dizem: vem. Diga também quem escuta: vem. Por isso quem tem sede, venha; e o que quiser tome a água da vida, a felicidade eterna... E o que dá testemunho destas coisas diz: Certamente venho em breve. Assim seja. Vem, Senhor Jesus.