Contemplativos no meio do mundo

Este verbete explica a expressão “contemplativos no meio do mundo”, um traço essencial do espírito do Opus Dei, e mostra como o cristão comum pode alcançar a plenitude da contemplação no trabalho e nas atividades comuns e por meio deles.

Com a expressão “contemplativos no meio do mundo”, São Josemaria resumia um dos traços essenciais do espírito do Opus Dei, afirmando que o cristão comum, chamado a santificar-se no meio do mundo, pode alcançar a plenitude da contemplação sem necessidade de se afastar de sua condição secular, mas precisamente nas realidades temporais e através delas.

Esta doutrina não é fruto de uma reflexão abstrata, mas consequência de algo que São Josemaria havia vivido em sua própria existência, como diz o Decreto sobre a heroicidade de suas virtudes: “Os traços mais característicos da sua figura, porém, não se encontram apenas nos seus dotes extraordinários de homem de ação, mas também na sua vida de oração e numa assídua experiência unitiva que fez dele um contemplativo itinerante”1.

São Josemaria afirmou abertamente a contemplação no meio do mundo: “A contemplação não é coisa de privilegiados. Algumas pessoas, com conhecimentos elementares de religião, pensam que os contemplativos passam o dia inteiro em êxtase. Trata-se de uma grande ingenuidade. Os monges, nos conventos, ocupam-se o dia inteiro com mil trabalhos: limpam a casa e dedicam-se a tarefas com as quais ganham a vida. Religiosos e religiosas de vida contemplativa escrevem-nos frequentemente, com entusiasmo e carinho pela Obra, dizendo que rezam muito por nós. Compreendem o que muita gente não compreende: nossa vida secular de contemplativos no meio do mundo, no meio das atividades temporais”2.

De acordo com São Josemaria, o cristão comum deve ser contemplativo precisamente – como já dissemos – em sua vida comum e através dela, uma vez que a contemplação não deve se limitar a momentos concretos durante o dia: tempos dedicados expressamente à oração pessoal e litúrgica, à participação na santa Missa, etc., mas deve abarcar o dia inteiro, até chegar a ser uma oração contínua, na qual a alma “se sente e se sabe também fitada amorosamente por Deus, em todos os momentos”3. Afirma por isso: “Quereria que hoje, na nossa meditação, nos persuadíssemos definitivamente da necessidade de nos dispormos a ser almas contemplativas, no meio da rua, do trabalho, mantendo com o nosso Deus um diálogo contínuo, que não deve decair ao longo do dia. Se pretendemos seguir lealmente os passos do Mestre, esse é o único caminho”4.

De acordo com seu ensinamento, a possibilidade de alcançar a plenitude da contemplação no meio do mundo está unida a uma realidade que constitui o núcleo de sua mensagem espiritual: a santificação do trabalho e das atividades comuns, pois a chave para sermos contemplativos no meio do mundo consiste em transformar o trabalho em oração:

“Trabalhemos, e trabalhemos muito e bem, sem esquecer que a nossa melhor arma é a oração. Por isso, não me canso de repetir que temos que ser almas contemplativas no meio do mundo, que procuram converter o seu trabalho em oração”5; e também: “Nossa vida é trabalhar e rezar, e ao contrário, rezar e trabalhar. Porque chega um momento em que não se sabe distinguir esses dois conceitos, essas duas palavras, contemplação e ação, que acabam por significar a mesma coisa na mente e na consciência”6. Nesses textos desponta a ideia de que o trabalho pode não apenas transformar-se em oração, mas além disso, em oração contemplativa.

São Josemaria afirma assim que é possível alcançar a contemplação “nas ocupações diárias, que para mim não são estorvo; que são – pelo contrário – vereda e motivo para amar mais e mais, e mais e mais me unir a Deus”7. E ainda, quanto mais um cristão comum estiver imerso nas realidades temporais, mais profundamente deve sentir a necessidade de crescer na presença de Deus, pois do contrário não poderia santificar essas realidades. “A nossa condição de filhos de Deus levar-nos-á – insisto - a ter espírito contemplativo no meio de todas as atividades humanas - luz, sal e levedura, pela oração, pela mortificação, pela cultura religiosa e profissional – tornando realidade este programa: quanto mais dentro do mundo estivermos, tanto mais temos de ser de Deus”8.

A tradição espiritual cristã considera que a contemplação consiste essencialmente em “olhar para Deus sem descanso e sem cansaço”9, e ensina ao mesmo tempo que Deus concede sua graça para que se possa alcançá-la também em uma existência secular e laical: “Nunca compartilharei a opinião – embora a respeite – dos que separam a oração da vida ativa, como se fossem incompatíveis. Nós, os filhos de Deus, temos de ser contemplativos: pessoas que, no meio do fragor da multidão, sabem encontrar o silêncio da alma em colóquio permanente com o Senhor; e olhá-Lo como se olha para um Pai, como se olha para um Amigo, a quem se ama com loucura”10. O cristão comum pode reconhecer a Deus em seu trabalho cotidiano: “O trabalho nasce do amor, manifesta o amor, orienta-se para o amor. Reconhecemos Deus não apenas no espetáculo da natureza, mas também na experiência do nosso próprio trabalho, do nosso esforço”11. A atitude contemplativa está unida a uma revalorização da atividade diária em sentido teologal: “Deus os chama a servi-Lo em e a partir das tarefas civis, materiais, seculares da vida humana: no laboratório, na sala de operações de um hospital, no quartel, na cátedra universitária, na fábrica, na oficina, no campo, no seio do lar e em todo o imenso panorama do trabalho, Deus nos espera cada dia. Não esqueçamos nunca: há algo de santo, de divino, escondido nas situações mais comuns, algo que a cada um de nós compete descobrir (...). Já o lembrei: realizem as coisas com perfeição, ponham amor nas pequenas atividades da jornada. Descubram — insisto — esse algo divino que nos detalhes se encerra”12.

O ensinamento de São Josemaria pode ser sintetizado nestas palavras: “’Contemplativos no meio do mundo’, unidos a Deus e reconhecendo a sua realidade nas variadas ocupações e situações do mundo e através delas, este é, em suma, o ideal que Mons. Escrivá propõe como meta da vida de oração”13.

Com a expressão “contemplativos no meio do mundo” São Josemaria propõe aos cristãos comuns que cresçam na sua vida de oração, chegando a essa meta que é a contemplação. A segunda parte da expressão, “no meio do mundo”, deve, pois, ser entendida em pleno sentido teológico-espiritual, pressupondo que o mundo não é apenas um âmbito sociológico, mas também meio e instrumento para poder santificar-se e alcançar a plenitude da comunhão com Deus. Em suma, a afirmação da contemplação no meio do mundo leva às suas últimas consequências a valorização simultânea da oração contemplativa e da vida secular.

Manuel BELDA


1 Congregação para as Causas dos Santos, “Decreto pontifício sobre o exercício heroico das virtudes do Servo de Deus Josemaria Escrivá, 9/04/1990”, Romana. Boletim da Prelazia da Santa Cruz e Opus Dei, 10 (1990), pp. 22-25

2 Palavras em uma reunião familiar, 30 de outubro de 1964 (Arquivo Geral da Prelazia, AGP, p. 01 VII/67, p. 7). Citado em Manuel Belda, “Contemplativos no meio do mundo”, Romana. Boletim da Prelazia da Santa Cruz e Opus Dei, 27 (1998), pp. 326-340.

3 Amigos de Deus, n. 307

4 Amigos de Deus, n. 238.

5 Sulco, n. 497

6 Citado em Pedro Rodríguez, “Vocação, trabalho, contemplação”, Pamplona, EUNSA, 1986, p. 212

7 Amigos de Deus, n. 310

8 Forja, n. 740

9 Amigos de Deus, n. 296

10 Forja, n. 738

11 É Cristo que passa, n. 48

12 Entrevistas, 114 e 121.

13 ILLANES, “Iglesia en el mundo: la secularidad de los miembros del Opus Dei” em El Opus Dei en la Iglesia, pp. 269-270.

Manuel Belda