2.A doutrina de São Josemaria.
A linguagem comum identifica o termo “contemplação” com o ato físico de fixar o olhar em um objeto ou espaço material, e com sua derivação espiritual de concentrar a atenção em um assunto. No âmbito religioso, “a contemplação é o ato pelo qual a mente do crente penetra e saboreia a esfera luminosa das verdades divinas”1.
1.Distinção do conceito
A linguagem cristã adotou o termo “contemplação” da reflexão filosófica do pensamento greco-romano e o dotou de novos elementos: a passagem do mundo da contemplação das ideias ou da beleza para a consciência de estar em comunhão vital com a Trindade; a exclusão de todo panteísmo e a afirmação de um Deus criador e transcendente, que chama o homem a participar de sua vida divina e situa a contemplação como uma realidade nova, da qual deriva a influência recíproca entre conhecimento e amor no processo de aproximação de Deus; e a manifestação da contemplação na ação, no amor a Deus e ao próximo concretizadoem obras2.
Na história da espiritualidade, a contemplação foi objeto de estudo por parte dos teólogos e — no caso particular da contemplação mística — de descrição fenomenológica por parte dos místicos, oferecendo uma grande riqueza de reflexões, embora sem chegar, como é natural diante de um tema tão profundo, a dar resposta plena a todas as questões que a noção suscita. Da amplitude dessas contribuições dão testemunho as mais de quinhentas colunas que oDictionnaire de Spiritualité dedica ao tema. Essa mesma amplitude nos dispensa de oferecer aqui sequer uma síntese muito breve. Podemos, por isso, limitar-nos a assinalar, já em nossos dias, que, nas primeiras quatro décadas do século XX — e contemporaneamente à afirmação da teologia espiritual como disciplina científica —, diversos autores deram vida ao debate sobre a chamada “questão mística”: “os problemas levantados pela polêmica poderiam reduzir-se, essencialmente, ao chamado universal à contemplação e às relações entre o ascético e o místico na vida cristã”3. Esse debate e a doutrina do chamado universal à santidade, recordada e enfatizada pelo Concílio Vaticano II, conduziram à aceitação generalizada da contemplação como dimensão conatural da vocação cristã: todo batizado deve aspirar a ser contemplativo, a alcançar uma união íntima de conhecimento e amor com Deus que impregne todo o seu agir. Nessa linha se move o Catecismo da Igreja Católica, como demonstram o número 2014 e os números relativos à oração contemplativa (nn. 2709-2719). E esse mesmo princípio se encontra no coração da doutrina espiritual de São Josemaria.
2. A doutrina de São Josemaria
Nas obras publicadas de São Josemaria aparecem com certa frequência o substantivo “contemplação” (15 vezes) e o adjetivo “contemplativo/a” (25), bem como, com maior frequência, o verbo “contemplar” (116). Chama a atenção o uso repetido do verbo em comparação com o emprego do substantivo e do adjetivo. Em parte, isso pode ser justificado por seu uso com o significado genérico de “olhar”, “ver”, “presenciar”. Um estudo recente assinala, contudo, que em oitenta passagens se recorre ao verbo “contemplar” precisamente para aconselhar que, na oração ou meditação, “se considerem e revivam na presença de Deus as cenas do Evangelho”4, o que também explicaria essa diferença numérica. Nesses casos, São Josemaria usou com frequência a expressão “contemplativos no meio do mundo” para indicar que o cristão cresce na vida de oração, abre-se à contemplação também “nas atividades da vida cotidiana e por meio delas, constituindo, portanto, um modo específico, próprio da condição secular, de viver a oração contemplativa”5. Deixando um estudo mais detido do tema para outros verbetes doDicionário, sublinhemos, porém, desde já, que, para São Josemaria, a consciência da filiação divina, isto é, saber que é filho de Deus, leva o cristão a “contemplar com amor e admiração todas as coisas que saíram das mãos de Deus Pai Criador”6. E, consequentemente, a ver Deus em todas as coisas, com suas implicações práticas. Escreve, por exemplo: “Contempla o Senhor por trás de cada acontecimento, de cada circunstância, e assim saberás extrair de todos os acontecimentos mais amor de Deus e mais desejos de correspondência”7. E, no mesmo sentido, como algo próprio dos filhos de Deus, alude a falar “a língua das almas contemplativas, a dos homens que são espirituais por terem tomado consciência da sua filiação divina”8.
A santidade cristã, que se apoia necessariamente na oração, procura traduzir-se em vida contemplativa. Sendo universal o chamado dos batizados à santidade, pode-se também dizer que, por isso mesmo, todos são chamados à contemplação amorosa de Deus, quaisquer que sejam as circunstâncias em que sua existência se desenvolva. São Josemaria, que dirige seu ensinamento a todos os cristãos e, de modo particular, ao fiel cristão que denomina “cristão comum”, escreve: “A oração é o fundamento de toda a atividade sobrenatural; com a oração somos onipotentes e, se prescindíssemos desse recurso, nada conseguiríamos”9.
São Josemaria ensina também — como quem o experimentou profundamente — que, na base dessa atitude contemplativa ou oração contínua, devem existir alguns momentos especialmente dedicados, todos os dias, à oração mental. Une-se, assim, à Tradição cristã, da qual também se faz eco o Catecismo da Igreja Católica: “não se pode orar ‘em todo o tempo’ se não se reza, com particular dedicação, em alguns momentos: são os tempos fortes da oração cristã, em intensidade e duração”10. A mais alta expressão da oração é, de fato, a oração de contemplação11, cujo início se encontra, com a ajuda da graça, na busca constante da presença de Deus. São Josemaria o expressa, por exemplo, entre outros lugares, no itinerário espiritual que apresenta em sua homilia Rumo à santidade: “Começamos com orações vocais, que muitos de nós repetimos quando crianças: são frases ardentes e simples, dirigidas a Deus e à sua Mãe, (...) Não é isto — de algum modo — um princípio de contemplação, demonstração evidente de abandono confiante?”12.
A oração progride por meio dos atos de fé, esperança e amor, que informam a própria existência; e a meditação — segunda expressão da oração13 — tem no Evangelho, atualizado e revivido, seu alimento predileto: “Queres aprender de Cristo e tomar sua vida como exemplo? — Abre o Santo Evangelho e escuta o diálogo de Deus com os homens..., contigo”14. É nesse contexto que São Josemaria emprega mais vezes a noção de contemplar, com o significado de reviver e tornar presentes as cenas da vida de Jesus e de Maria: “A Igreja nos anima à contemplação dos mistérios: para que fique gravado em nossa mente e em nossa imaginação, com a alegria, a dor e a glória de Santa Maria, o exemplo admirável do Senhor, em seus trinta anos de vida oculta, em seus três anos de pregação, em sua Paixão afrontosa e em sua gloriosa Ressurreição”15.
E do convívio com a Santíssima Humanidade de Jesus, com Maria e José, passa-se ao convívio com as Pessoas divinas: “da trindade da terra à Trindade do céu”, segundo uma expressão que São Josemaria gostava de repetir. “O coração precisa, então, distinguir e adorar cada uma das Pessoas divinas. De algum modo, é uma descoberta que a alma realiza na vida sobrenatural, como a de uma criancinha que vai abrindo os olhos para a existência”16. São Josemaria tinha plena consciência da gratuidade da contemplação e, ao mesmo tempo, considerava que ela era meta e horizonte de todo cristão, pois implica união com Deus: “Se procuras meditar, o Senhor não te negará sua assistência. Fé e atos de fé, porque o Senhor (...) é cada dia mais exigente. Isso já é contemplação e é união; essa deve ser a vida de muitos cristãos (...)”17.
Vicente BOSCH
1 Tomás Álvarez - Ermanno Ancilli, “Contemplación”, en Ermanno Ancilli (dir.), Diccionario de Espiritualidad, I, Barcelona, Herder, 1983, pp. 472-480.
2 Cfr. José Luis Illanes, “Contemplación y acción cristiana en el mundo”, en Id., Existencia cristiana y mundo. Jalones para una reflexión teológica sobre el Opus Dei, Pamplona, EUNSA, 2003, pp. 308-309.
3 Vicente Bosch, “La noción de contemplación en el Catecismo de la Iglesia Católica”, en Laurent Touze (a cura di), La contemplazione, op. cit., pp. 477.
4 José Luis Illanes, “Contemplación y acción cristiana en el mundo”, en Id., Existencia cristiana y mundo. Jalones para una reflexión teológica sobre el Opus Dei, Pamplona, EUNSA, 2003, p. 313.
5 Manuel Belda, “La contemplazione in mezzo al mondo nella vita e nella doctrina di San Josemaría Escrivá de Balaguer”, en Laurent Touze (a cura di), La contemplazione cristiana. Esperienza e dottrina, Città del Vaticano, Libreria Editrice Vaticana, 2007, p. 175.
6 É Cristo que passa, n. 65.
7 Forja, n.96.
8 É Cristo que passa, n. 13.
9 Amigos de Deus, n. 238.
10 Catecismo da Igreja Católica, n. 2697.
11 Cfr. Catecismo da Igreja Católica, n. 2699.
12 Amigos de Deus, n. 296.
13 Cfr. Catecismo da Igreja Católica, n. 2699.
14 Forja, n. 322.
15 Amigos de Deus, n. 299.
16 Amigos de Deus, n. 306.
17 Amigos de Deus, n. 308.
