Catequese do Papa Bento XVI sobre os Apóstolos

Este livro eletrônico reúne as vinte e duas catequeses do Papa Bento XVI sobre os Apóstolos, proferidas nas audiências gerais de quarta-feira entre março e junho de 2006.

1. A vontade de Jesus sobre a sua Igreja e a escolha dos Doze

Quarta-feira, 15 de março de 2006

Queridos irmãos e irmãs!

Depois das catequeses sobre os Salmos e sobre os Cânticos das Laudes e das Vésperas, gostaria de dedicar os próximos encontros de quarta-feira ao mistério da relação entre Cristo e a Igreja, considerando-o a partir da experiência dos Apóstolos, à luz da missão que lhes foi confiada.

A Igreja foi constituída sobre o fundamento dos Apóstolos como comunidade de fé, esperança e caridade. Por meio dos Apóstolos, chegamos ao próprio Cristo. A Igreja começou a ser construída quando alguns pescadores da Galileia encontraram Jesus, deixaram-se conquistar pelo seu olhar, pela sua voz e pelo seu convite caloroso e firme: “Venham comigo, e eu farei de vocês pescadores de homens” (Mc 1,17; Mt 4,19).O meu amado predecessor João Paulo II propôs à Igreja, no início do terceiro milênio, que contemplasse o rosto de Cristo (cf. Novo millennio ineunte, 16ss.).

Seguindo essa mesma direção, na catequese que hoje inicio, gostaria de destacar como precisamente a luz daquele Rosto se reflete sobre o rosto da Igreja (cf. Lumen gentium, 1), apesar dos limites e das sombras da nossa humanidade frágil e pecadora. Depois de Maria, reflexo puro da luz de Cristo, são os Apóstolos, com sua palavra e seu testemunho, que nos ensinam a verdade de Cristo. Contudo, sua missão não está isolada, mas se insere em um mistério de comunhão, que envolve todo o Povo de Deus e se realiza por etapas, da Antiga à Nova Aliança.

A esse respeito, é preciso dizer que a mensagem de Jesus será mal compreendida se for separada do contexto da fé e da esperança do povo eleito. Assim como João Batista, seu precursor imediato, Jesus dirige-se, antes de tudo, a Israel (cf. Mt 15,24), para realizar ali a “colheita” no tempo escatológico. Assim como a de João, também a pregação de Jesus é, ao mesmo tempo, um chamado à graça, um sinal de contradição e um anúncio de juízo para todo o povo de Deus. Portanto, desde o início de sua missão salvadora, Jesus de Nazaré procura reunir o povo de Deus.

Embora sua pregação seja sempre um chamado à conversão pessoal, ela tem continuamente como objetivo formar o povo de Deus, que Ele veio reunir e salvar. Por isso, é unilateral e sem fundamento a interpretação individualista do anúncio do Reino feita por Cristo, resumida por Adolf von Harnack em suas lições sobre A essência do cristianismo: “O Reino de Deus vem porque chega aos indivíduos, encontra acesso à sua alma e eles o acolhem. O Reino de Deus é o senhorio de Deus, certamente, mas é o senhorio do Deus santo em cada coração” (Lição Terceira, 100s). Na realidade, esse individualismo da teologia liberal é uma característica tipicamente moderna. Na perspectiva da tradição bíblica e no horizonte do judaísmo, no qual a missão de Jesus se insere, mesmo com toda a sua novidade, é evidente que toda a missão do Filho de Deus feito homem tem uma finalidade universal. Ele veio precisamente para convocar a humanidade dispersa, para reunir e unir o povo de Deus.

Um sinal evidente da intenção de Jesus de reunir a comunidade da aliança, manifestando nela o cumprimento das promessas feitas aos patriarcas — promessas que sempre falam de convocação, unificação e unidade — é a instituição dos Doze. Ouvimos o Evangelho sobre essa instituição. Leio mais uma vez a parte central: “Jesus subiu a um monte, chamou os que Ele quis, e eles foram até Ele. Constituiu doze para ficarem com Ele e para enviá-los a pregar, com o poder de expulsar demônios. Constituiu estes doze...” (Mc 3,13-16; cf. Mt 10,1-4; Lc 6,12-16). No lugar da revelação, “o monte”, Jesus, com uma iniciativa que manifesta absoluta consciência de sua missão e plena determinação, constitui os Doze para que estejam com Ele como testemunhas e anunciadores do Reino de Deus.

Sobre a historicidade dessa escolha não existem dúvidas, não apenas pela antiguidade e pela variedade dos testemunhos, mas também pelo simples fato de que nela aparece o nome de Judas, o apóstolo traidor, apesar das dificuldades que essa presença poderia causar à comunidade cristã nascente. O número doze, que evidentemente recorda as doze tribos de Israel, já revela o significado profético e simbólico dessa iniciativa de restaurar o povo santo.

Como o sistema das doze tribos já havia desaparecido havia muito tempo, a esperança de Israel estava voltada para sua reconstituição como sinal da chegada do tempo escatológico (cf. Ez 37,15-19; 39,23-29; 40–48). Ao escolher os Doze, introduzindo-os em uma comunhão de anúncio do Reino por meio de palavras e ações (cf. Mc 6,7-13; Mt 10,5-8; Lc 6,13), Jesus quer dizer que chegou o tempo definitivo em que se constitui um novo povo de Deus: o povo das doze tribos, que agora se torna um povo universal, a sua Igreja.

Com sua própria existência, os Doze, chamados de origens diferentes, tornam-se um apelo para que todo Israel se converta e se deixe reunir na nova aliança, cumprimento pleno e perfeito da antiga. Ao confiar-lhes, na Última Ceia, antes de sua Paixão, a missão de celebrar sua memória, Jesus demonstra que desejava transmitir a toda a comunidade, representada em seus líderes, a missão de ser, na história, sinal e instrumento da reunião escatológica iniciada por Ele. Em certo sentido, podemos dizer que precisamente a Última Ceia é o ato de fundação da Igreja, porque Jesus oferece a si mesmo e, assim, cria uma nova comunidade, unida na comunhão com Ele.

Sob essa perspectiva, compreende-se que o Ressuscitado lhes conceda, com o dom do Espírito Santo, o poder de perdoar os pecados (cf. Jo 20,23). Dessa forma, os Doze Apóstolos são o sinal mais evidente da vontade de Jesus em relação à existência e à missão da sua Igreja. São a garantia de que entre Cristo e a Igreja não existe oposição alguma: ambos são inseparáveis, apesar dos pecados dos homens que pertencem à Igreja. Por isso, é totalmente incompatível com a intenção de Cristo aquele slogan que esteve em moda alguns anos atrás: “Jesus sim, Igreja não.” Esse Jesus individualista é um Jesus fruto da imaginação. Não podemos ter Jesus sem a realidade que Ele mesmo criou e por meio da qual continua a se comunicar.

Entre o Filho de Deus feito homem e a sua Igreja existe uma profunda, inseparável e misteriosa continuidade. Em virtude dela, Cristo está presente hoje no seu povo. Ele continua sendo nosso contemporâneo. É contemporâneo na Igreja construída sobre o fundamento dos Apóstolos e permanece vivo na sucessão apostólica. É essa sua presença na comunidade, na qual Ele continua a se oferecer a nós, que é o motivo da nossa alegria. Sim, Cristo está conosco. O Reino de Deus está presente.

2. Os Apóstolos, testemunhas e enviados de Cristo

Quarta-feira, 22 de março de 2006

Queridos irmãos e irmãs!

A Carta aos Efésios apresenta a Igreja como uma construção edificada “sobre o alicerce dos Apóstolos e dos profetas, tendo por pedra angular o próprio Cristo Jesus” (Ef 2,20). No Apocalipse, o papel dos Apóstolos, e mais especificamente dos Doze, é esclarecido na perspectiva escatológica da Jerusalém celeste, apresentada como uma cidade cujos muros “tinham doze alicerces, nos quais estavam gravados doze nomes, os nomes dos doze Apóstolos do Cordeiro” (Ap 21,14). Os Evangelhos concordam em afirmar que a vocação dos Apóstolos marcou os primeiros passos do ministério de Jesus, depois do batismo recebido de João Batista nas águas do Jordão.

Segundo a narrativa de Marcos (Mc 1,16-20) e de Mateus (Mt 4,18-22), o cenário da vocação dos primeiros Apóstolos é o lago da Galileia. Jesus acabara de iniciar a pregação do Reino de Deus quando seu olhar se voltou para dois pares de irmãos: Simão e André, Tiago e João. São pescadores, ocupados em seu trabalho cotidiano. Lançam as redes, consertam-nas. Mas outra pesca os espera. Jesus os chama com decisão, e eles o seguem imediatamente. Agora serão “pescadores de homens” (cf. Mc 1,17; Mt 4,19).

Lucas, embora siga a mesma tradição, apresenta uma narrativa mais elaborada (cf. Lc 5,1-11). Ele mostra o caminho de fé dos primeiros discípulos, esclarecendo que o convite para o seguimento lhes chega depois de terem ouvido a primeira pregação de Jesus e experimentado os primeiros sinais extraordinários realizados por Ele. Em particular, a pesca milagrosa constitui o contexto imediato e oferece o símbolo da missão de pescadores de homens que lhes foi confiada. O destino desses “chamados”, de agora em diante, estará intimamente ligado ao de Jesus. O apóstolo é um enviado, mas, antes de tudo, é alguém profundamente conhecedor de Jesus.

É precisamente esse aspecto que o evangelista João destaca desde o primeiro encontro de Jesus com os futuros Apóstolos. Aqui o cenário é diferente. A presença dos futuros discípulos, também eles provenientes da Galileia, como Jesus, para viver a experiência do batismo administrado por João Batista, revela o mundo espiritual em que viviam.

Eram homens que aguardavam o Reino de Deus, desejosos de conhecer o Messias, cuja vinda era anunciada como iminente. Para eles, basta a indicação de João Batista, que aponta Jesus como o Cordeiro de Deus (cf. Jo 1,36), para despertar o desejo de um encontro pessoal com o Mestre. As palavras do diálogo entre Jesus e os dois primeiros futuros Apóstolos são muito expressivas. À pergunta: “O que vocês procuram?”, eles respondem com outra pergunta: “Rabi (que quer dizer Mestre), onde moras?“. A resposta de Jesus é um convite: “Venham e verão” (cf. Jo 1,38-39). Venham para poder ver.

A aventura dos Apóstolos começa assim: como um encontro entre pessoas que se abrem mutuamente. Começa, para os discípulos, um conhecimento direto do Mestre. Eles veem onde Ele mora e começam a conhecê-lo. De fato, eles não deverão anunciar uma ideia, mas testemunhar uma pessoa. Antes de serem enviados para evangelizar, deverão “estar” com Jesus (cf. Mc 3,14), estabelecendo com Ele um relacionamento pessoal. Sobre essa base, a evangelização será o anúncio daquilo que foi vivido e experimentado, e um convite para entrar no mistério da comunhão com Cristo (cf. 1Jo 1,3).

A quem seriam enviados os Apóstolos? No Evangelho, parece que Jesus limita sua missão unicamente a Israel: “Não fui enviado senão às ovelhas perdidas da casa de Israel” (Mt 15,24). Da mesma forma, parece restringir a missão confiada aos Doze: “Jesus enviou estes Doze, depois de lhes dar as seguintes instruções: 'Não sigam pelo caminho dos gentios nem entrem em cidade de samaritanos. Vão, antes de tudo, às ovelhas perdidas da casa de Israel'” (Mt 10,5-6).

Uma certa crítica moderna, de inspiração racionalista, viu nessas expressões uma suposta falta de consciência universalista por parte de Jesus. Na realidade, elas devem ser compreendidas à luz de sua relação especial com Israel, o povo da aliança, em continuidade com toda a história da salvação.

Segundo a expectativa messiânica, as promessas divinas dirigidas a Israel se cumpririam quando o próprio Deus, por meio do seu Eleito, reunisse o seu povo, como um pastor reúne o seu rebanho: “Eu virei em socorro das minhas ovelhas, para que elas não sejam mais saqueadas... Estabelecerei sobre elas um único pastor, que as apascentará, o meu servo Davi; será ele quem as conduzirá e será o seu pastor. Eu, o Senhor, serei o seu Deus, e o meu servo Davi será um príncipe no meio delas” (Ez 34,22-24).

Jesus é o Pastor escatológico, que reúne as ovelhas perdidas da casa de Israel e vai ao encontro delas, porque as conhece e as ama (cf. Lc 15,4-7; Mt 18,12-14; cf. também a figura do Bom Pastor em Jo 10,11ss.). Por meio dessa reunião, o Reino de Deus é anunciado a todas as nações: “Manifestarei a minha glória entre as nações, e todas verão a minha justiça e o poder da minha mão” (Ez 39,21). É exatamente esse o caminho profético seguido por Jesus. O primeiro passo é reunir o povo de Israel para que, depois, todas as nações, chamadas a participar da comunhão com o Senhor, possam ver e crer.

Assim, os Doze, chamados a participar da mesma missão de Jesus, cooperam com o Pastor dos últimos tempos, indo, antes de tudo, às ovelhas perdidas da casa de Israel, isto é, ao povo da promessa, cuja reunião é sinal de salvação para todos os povos e o início da universalização da Aliança.

Longe de contradizer a abertura universal da missão messiânica de Jesus, essa limitação inicial de sua missão e da missão dos Doze a Israel torna-se, na verdade, o seu sinal profético mais eficaz. Depois da paixão e da ressurreição de Cristo, esse sinal será plenamente esclarecido. O caráter universal da missão dos Apóstolos tornar-se-á explícito. Cristo os enviará “a todo o mundo” (Mc 16,15), “a todas as nações” (Mt 28,19), “até os confins da terra” (At 1,8).

E essa missão continua. Continua sempre o mandato do Senhor de reunir os povos na unidade do seu amor. Essa é a nossa esperança e também a nossa missão: contribuir para essa universalidade, para essa verdadeira unidade na riqueza das culturas, em comunhão com o nosso verdadeiro Senhor Jesus Cristo.

3. O dom da comunhão

Quarta-feira, 29 de março de 2006

Queridos irmãos e irmãs!

Por meio do ministério apostólico, a Igreja, comunidade reunida pelo Filho de Deus que veio na carne, viverá ao longo dos tempos edificando e alimentando a comunhão em Cristo e no Espírito Santo, à qual todos são chamados e na qual todos podem fazer a experiência da salvação oferecida pelo Pai. De fato, os Doze — como afirmou o papa Clemente, terceiro sucessor de Pedro, no final do século I — tiveram a preocupação de constituir sucessores (cf. 1Clem 42,4), para que a missão que lhes havia sido confiada continuasse depois de sua morte.Ao longo dos séculos, a Igreja, organicamente estruturada sob a orientação dos legítimos pastores, continuou, assim, a viver no mundo como mistério de comunhão, no qual se reflete, em certa medida, a própria comunhão da Santíssima Trindade, o mistério do próprio Deus.

O apóstolo Paulo já faz referência a essa suprema fonte trinitária quando deseja aos cristãos: “A graça do Senhor Jesus Cristo, o amor de Deus e a comunhão do Espírito Santo estejam com todos vocês!” (2Cor 13,13). Essas palavras, provavelmente um eco da liturgia da Igreja nascente, mostram que o dom gratuito do amor do Pai, em Jesus Cristo, se concretiza e se expressa na comunhão realizada pelo Espírito Santo. Essa interpretação, baseada no estreito paralelismo que o texto estabelece entre os três genitivos (“a graça do Senhor Jesus Cristo... o amor de Deus... e a comunhão do Espírito Santo”), apresenta a comunhão como dom próprio do Espírito Santo, fruto do amor concedido por Deus Pai e da graça oferecida pelo Senhor Jesus.

Além disso, o contexto imediato, marcado pela insistência na comunhão fraterna, leva-nos a compreender a koinonia do Espírito Santo não apenas como participação na vida divina, vivida individualmente, mas também, e de modo inseparável, como a comunhão entre os fiéis, suscitada pelo próprio Espírito, seu autor e principal agente (cf. Fl 2,1).

Pode-se afirmar que a graça, o amor e a comunhão, atribuídos respectivamente a Cristo, ao Pai e ao Espírito Santo, são aspectos diversos da única ação divina em favor da nossa salvação, ação que cria a Igreja e faz da Igreja — como dizia São Cipriano, no século III — “um povo reunido pela unidade do Pai, do Filho e do Espírito Santo” (De Orat. Dom., 23: PL 4,536, citado em Lumen gentium, 4).

A ideia da comunhão como participação na vida da Trindade aparece com especial intensidade no Evangelho de João. Ali, a comunhão de amor que une o Filho ao Pai e aos homens é, ao mesmo tempo, o modelo e a fonte da comunhão fraterna, que deve unir os discípulos entre si: “Amem-se uns aos outros como eu os amei” (Jo 15,12; cf. 13,34). E ainda: “Para que todos sejam um... como nós somos um” (Jo 17,21-22). Temos, portanto, a comunhão dos homens com o Deus-Trindade e a comunhão dos homens entre si.

Durante a peregrinação terrena, o discípulo, por meio da comunhão com o Filho, já pode participar da vida divina do Filho e do Pai: “Nós estamos em comunhão com o Pai e com seu Filho, Jesus Cristo” (1Jo 1,3). Essa vida de comunhão com Deus e entre nós constitui a finalidade própria do anúncio do Evangelho, a finalidade da conversão ao cristianismo: “O que vimos e ouvimos, isso anunciamos a vocês, para que também vocês estejam em comunhão conosco” (1Jo 1,3).

Essa dupla comunhão — com Deus e entre nós — é inseparável. Onde se rompe a comunhão com Deus, que é comunhão com o Pai, com o Filho e com o Espírito Santo, destrói-se também a raiz e a fonte da comunhão entre os homens. E onde a comunhão entre nós não é vivida, também a comunhão com o Deus-Trindade não é viva nem verdadeira, como acabamos de ouvir.

Demos agora mais um passo. A comunhão — fruto do Espírito Santo — é alimentada pelo Pão Eucarístico (cf. 1Cor 10,16-17) e se expressa nas relações fraternas, como uma antecipação do mundo futuro. Na Eucaristia, Jesus nos alimenta, une-nos a si, ao Pai, ao Espírito Santo e também uns aos outros. Essa rede de unidade, que abraça o mundo inteiro, é uma antecipação, no tempo presente, do mundo que há de vir.

Justamente por ser antecipação desse mundo futuro, a comunhão é um dom que produz consequências muito concretas: faz-nos sair da solidão e do fechamento em nós mesmos e nos torna participantes do amor que nos une a Deus e também uns aos outros. É fácil compreender a grandeza desse dom quando pensamos nas divisões e nos conflitos que afligem as relações entre pessoas, grupos e até mesmo povos inteiros. Sem o dom da unidade do Espírito Santo, a fragmentação da humanidade torna-se inevitável.

A comunhão é verdadeiramente a Boa-Nova, o remédio que Deus nos deu contra a solidão que hoje ameaça tantas pessoas. É o precioso dom que nos faz sentir acolhidos e amados por Deus, na unidade do seu povo reunido em nome da Santíssima Trindade. É também a luz que faz resplandecer a Igreja como sinal elevado entre os povos: “Se dizemos que temos comunhão com Ele, mas caminhamos nas trevas, mentimos e não praticamos a verdade. Pelo contrário, se caminhamos na luz, como Ele está na luz, então temos comunhão uns com os outros” (1Jo 1,6-7). Assim, a Igreja se revela, apesar de todas as fragilidades humanas que fazem parte de sua realidade histórica, como uma maravilhosa obra de amor, destinada a aproximar Cristo de cada homem e de cada mulher que verdadeiramente deseja encontrá-lo, até o fim dos tempos.

E é na Igreja que o Senhor continua sendo nosso contemporâneo. A Sagrada Escritura não é apenas um relato do passado. O Senhor não fala somente de acontecimentos antigos: Ele fala hoje conosco, ilumina-nos, mostra-nos o caminho da vida, concede-nos a comunhão e, desse modo, prepara-nos e nos abre para a paz.

4. O serviço à comunhão

Quarta-feira, 29 de março de 2006

Queridos irmãos e irmãs!

Na nova série de catequeses, iniciada há poucas semanas, queremos considerar as origens da Igreja para compreender o plano original de Jesus e, assim, entender o essencial da Igreja, que permanece ao longo dos tempos. Desejamos, dessa forma, compreender também o porquê de estarmos na Igreja e como devemos nos comprometer a vivê-la no início de um novo milênio cristão.

Ao considerar a Igreja nascente, podemos descobrir dois aspectos. O primeiro é destacado, em grande medida, por Santo Irineu de Lyon, mártir e grande teólogo do fim do século II, o primeiro a nos oferecer uma teologia de certo modo sistemática. Santo Irineu escreve: “Onde está a Igreja, ali também está o Espírito de Deus; e onde está o Espírito de Deus, ali está a Igreja e todas as graças, porque o Espírito Santo é verdade” (Adversus haereses, III, 24, 1: PG 7, 966). Existe, portanto, um vínculo íntimo entre o Espírito Santo e a Igreja. O Espírito Santo constrói a Igreja e lhe comunica a verdade; infunde, como diz São Paulo, o amor nos corações dos fiéis (cf. Rm 5,5).

Há ainda um segundo aspecto. Esse vínculo profundo com o Espírito não elimina a nossa humanidade, com toda a sua fragilidade. Assim, desde o início, a comunidade dos discípulos conhece não apenas a alegria do Espírito Santo, a graça da verdade e do amor, mas também a prova, constituída sobretudo pelos conflitos em torno das verdades da fé, com as consequentes rupturas da comunhão.

Assim como a comunhão do amor existe desde o princípio e existirá até o fim (cf. 1Jo 1,1ss.), infelizmente também desde o começo existe a divisão. Não devemos nos admirar que ela continue existindo ainda hoje: “Eles saíram do nosso meio, mas não eram dos nossos. Porque, se fossem dos nossos, teriam permanecido conosco; mas isso aconteceu para que ficasse claro que nenhum deles era dos nossos” (1Jo 2,19).

Existe, portanto, sempre o perigo, nas vicissitudes do mundo e também nas fragilidades da Igreja, de perder a fé e, consequentemente, também o amor e a fraternidade. Assim, é um dever precioso de quem crê na Igreja do amor e deseja viver nela reconhecer esse perigo e aceitar que não é possível haver comunhão com quem se afasta da doutrina da salvação (cf. 2Jo 9-11).

O fato de a Igreja nascente estar plenamente consciente dessas tensões possíveis na experiência da comunhão é demonstrado de maneira clara pela Primeira Carta de João. Não há voz no Novo Testamento que se levante com mais vigor para destacar a realidade e o dever do amor fraterno entre os cristãos; mas a mesma voz também se dirige, com grande severidade, aos adversários que antes pertenciam à comunidade e agora já não pertencem mais.

A Igreja do amor é também a Igreja da verdade, entendida antes de tudo como fidelidade ao Evangelho confiado pelo Senhor. A fraternidade cristã nasce do fato de sermos constituídos filhos do mesmo Pai pelo Espírito da verdade: “De fato, todos os que são guiados pelo Espírito de Deus, esses são filhos de Deus” (Rm 8,14). Mas a família dos filhos de Deus, para viver na unidade e na paz, necessita de quem a mantenha na verdade e a conduza com discernimento sábio e competente: essa é precisamente a missão do ministério dos Apóstolos.

E assim chegamos a um ponto importante. A Igreja é toda do Espírito, mas possui uma estrutura: a sucessão apostólica, à qual cabe a responsabilidade de garantir que a Igreja permaneça fiel à verdade recebida de Cristo, da qual também deriva a capacidade de amar.

O primeiro resumo apresentado nos Atos dos Apóstolos expressa com grande clareza a convergência desses valores na vida da Igreja nascente: “Eles eram perseverantes no ensinamento dos Apóstolos, na comunhão fraterna (koinonìa), na fração do pão e nas orações” (At 2,42). A comunhão nasce da fé despertada pela pregação apostólica, alimenta-se pela fração do pão e pela oração, e se manifesta na caridade fraterna e no serviço. Temos aqui a descrição da comunhão da Igreja nascente, na riqueza de seus dinamismos internos e de suas expressões visíveis: o dom da comunhão é preservado e promovido, de modo especial, pelo ministério apostólico, que por sua vez é um dom para toda a comunidade.

Os Apóstolos e seus sucessores são, portanto, os guardiões e as testemunhas autorizadas do depósito da verdade confiado à Igreja, e também os ministros da caridade: dois aspectos que caminham juntos. Eles devem sempre recordar que esse duplo serviço é inseparável e, na realidade, constitui uma única missão: verdade e caridade, reveladas e concedidas pelo Senhor Jesus.

Nesse sentido, seu serviço é, antes de tudo, um serviço de amor. A caridade que devem viver e promover é inseparável da verdade que guardam e transmitem. Verdade e amor são duas faces do mesmo dom, que vem de Deus e que, graças ao ministério apostólico, é conservado na Igreja e chega até nós nos dias de hoje. Também por meio do serviço dos Apóstolos e de seus sucessores, o amor do Deus Trindade chega até nós para nos comunicar a verdade que nos torna livres (cf. Jo 8,32).

Tudo o que vemos na Igreja nascente nos incentiva a rezar pelos sucessores dos Apóstolos, por todos os bispos e pelos sucessores de Pedro, para que sejam verdadeiramente, juntos, guardiões da verdade e da caridade; para que sejam, nesse sentido, autênticos apóstolos de Cristo, a fim de que sua luz — a luz da verdade e da caridade — jamais se apague na Igreja e no mundo.

5. A comunhão no tempo: a Tradição

Quarta-feira, 26 de abril de 2006

Queridos irmãos e irmãs!

Obrigado pelo carinho de vocês!

Com a nova série de catequeses, iniciada há pouco tempo, procuramos compreender o plano original da Igreja querida pelo Senhor, para assim compreender melhor também o nosso lugar, a nossa vida cristã, na grande comunhão da Igreja. Até agora compreendemos que a comunhão eclesial é suscitada e alimentada pelo Espírito Santo, guardada e promovida pelo ministério apostólico. E essa comunhão, à qual chamamos Igreja, não se estende apenas a todos os fiéis de um determinado momento histórico, mas abrange também todos os tempos e todas as gerações.

Por conseguinte, temos uma dupla universalidade: a universalidade sincrônica — estamos unidos aos fiéis de todas as partes do mundo — e também uma universalidade chamada diacrônica, isto é: todos os tempos nos pertencem; também os fiéis do passado e os fiéis do futuro formam conosco uma única grande comunhão.É o Espírito quem garante a presença ativa do mistério na história, Aquele que garante a sua realização ao longo dos séculos. Graças ao Paráclito, a experiência do Ressuscitado, vivida pela comunidade apostólica nas origens da Igreja, poderá ser sempre vivida pelas gerações seguintes, porque transmitida e atualizada na fé, no culto e na comunhão do Povo de Deus, peregrino no tempo.

E assim, agora, no tempo pascal, vivemos o encontro com o Ressuscitado não apenas como uma realidade do passado, mas na comunhão presente da fé, da liturgia e da vida da Igreja. A Tradição apostólica da Igreja consiste nessa transmissão dos bens da salvação, que faz da comunidade cristã a atualização permanente, pela força do Espírito, da comunhão original. Ela é chamada assim porque surgiu do testemunho dos Apóstolos e da comunidade dos discípulos no tempo das origens; foi transmitida sob a guia do Espírito Santo nos textos do Novo Testamento, na vida sacramental e na vida da fé. E é a ela — a essa Tradição, que é toda a realidade sempre atual do dom de Jesus à Igreja — que a Igreja recorre continuamente como seu fundamento e sua norma, por meio da sucessão ininterrupta do ministério apostólico.

Jesus, ainda durante a sua vida histórica, limitava a sua missão à casa de Israel, mas já deixava claro que o dom era destinado não apenas ao povo de Israel, mas ao mundo inteiro e a todos os tempos. Depois, o Ressuscitado confia explicitamente aos Apóstolos (cf. Lc 6,13) a missão de fazer discípulos de todas as nações, garantindo sua presença e seu auxílio até o fim dos tempos (cf. Mt 28,19s.).

A universalidade da salvação exige, entre outras coisas, que a memória da Páscoa seja celebrada sem interrupção ao longo da história, até a vinda gloriosa de Cristo (cf. 1Cor 11,26). Quem tornará presente a ação salvadora do Senhor Jesus por meio do ministério dos apóstolos, chefes do Israel escatológico (cf. Mt 19,28), e por meio de toda a vida apostólica da nova aliança? A resposta é clara: o Espírito Santo.

Os Atos dos Apóstolos, em continuidade com o plano do Evangelho de Lucas, apresentam de forma viva a estreita relação entre o Espírito, os enviados de Cristo e a comunidade por eles reunida. Graças à ação do Paráclito, os Apóstolos e seus sucessores podem realizar, ao longo do tempo, a missão recebida do Ressuscitado: “Vocês são testemunhas dessas coisas. E eu enviarei sobre vocês a promessa de meu Pai...” (Lc 24,48s.). “Vocês receberão a força do Espírito Santo, que descerá sobre vocês, e serão minhas testemunhas em Jerusalém, em toda a Judeia e Samaria e até os confins da terra” (At 1,8). E essa promessa, que no início parecia inacreditável, já se realizou no tempo dos Apóstolos: “E nós somos testemunhas dessas coisas, juntamente com o Espírito Santo, que Deus concedeu aos que lhe obedecem” (At 5,32).

Portanto, é o próprio Espírito que, mediante a imposição das mãos e a oração dos Apóstolos, consagra e envia os novos missionários do Evangelho (assim, por exemplo, em At 13,3s. e 1Tm 4,14). É interessante observar que, enquanto em algumas passagens se diz que Paulo estabelece presbíteros nas Igrejas (cf. At 14,23), em outras se afirma que é o Espírito quem constitui os pastores do rebanho (cf. At 20,28).

A ação do Espírito e a de Paulo aparecem profundamente unidas. Nos momentos das decisões solenes para a vida da Igreja, o Espírito está presente para guiá-la. Essa presença orientadora do Espírito Santo manifesta-se de modo especial no Concílio de Jerusalém, em cujas palavras finais ressoa a afirmação: “O Espírito Santo e nós decidimos...” (At 15,28). A Igreja cresce e caminha “no temor do Senhor e, com a assistência do Espírito Santo...” (At 9,31).

Essa atualização permanente da presença ativa de Jesus Senhor no seu povo, realizada pelo Espírito Santo e expressa na Igreja por meio do ministério apostólico e da comunhão fraterna, é o que, em sentido teológico, se entende pela palavra Tradição. Ela não é a simples transmissão material daquilo que foi entregue no início aos Apóstolos, mas a presença eficaz do Senhor Jesus, crucificado e ressuscitado, que acompanha e guia, no Espírito, a comunidade reunida por Ele.

A Tradição é a comunhão dos fiéis em torno dos legítimos pastores ao longo da história, uma comunhão que o Espírito Santo alimenta, garantindo a ligação entre a experiência da fé apostólica, vivida na comunidade original dos discípulos, e a experiência atual de Cristo em sua Igreja. Em outras palavras, a Tradição é a continuidade orgânica da Igreja, Templo santo de Deus Pai, edificada sobre o fundamento dos Apóstolos e reunida em torno da pedra angular, Cristo, mediante a ação vivificante do Espírito: “Portanto, vocês já não são estrangeiros nem imigrantes, mas concidadãos dos santos e membros da família de Deus, edificados sobre o fundamento dos Apóstolos e dos Profetas, tendo como pedra angular o próprio Cristo Jesus. É nele que toda a construção, bem ajustada, cresce para formar um templo santo, no Senhor. É nele que também vocês são integrados na construção, para formar uma habitação de Deus, pelo Espírito” (Ef 2,19-22).

Graças à Tradição, garantida pelo ministério dos Apóstolos e de seus sucessores, a água da vida que brotou do lado de Cristo e o seu sangue salvador alcançam as mulheres e os homens de todos os tempos. Assim, a Tradição é a presença permanente do Salvador, que vem ao nosso encontro para nos redimir e santificar no Espírito, mediante o ministério da sua Igreja, para a glória do Pai.

Concluindo e resumindo, podemos afirmar, portanto, que a Tradição não é a transmissão de coisas ou palavras, uma coleção de coisas mortas. A Tradição é o rio vivo que nos liga às origens, o rio vivo no qual as origens permanecem sempre presentes. É o grande rio que nos conduz ao porto da eternidade. E, sendo assim, nesse rio vivo realiza-se continuamente a palavra do Senhor, que no início ouvimos dos lábios do leitor: “E saibam que eu estarei sempre com vocês até o fim dos tempos” (Mt 28,20).

6. A Tradição Apostólica

Quarta-feira, 3 de maio de 2006

Queridos irmãos e irmãs,

Nestas catequeses desejamos compreender o que é a Igreja. Na última vez meditamos sobre o tema da Tradição apostólica. Vimos que ela não é uma coleção de objetos, de palavras, como uma caixa que contém coisas mortas; a Tradição é o rio da vida nova que vem das origens, de Cristo até nós, e nos envolve na história de Deus com a humanidade. Esse tema da Tradição é tão importante que também hoje desejo deter-me sobre ele; de fato, ele é de grande importância para a vida da Igreja.

O Concílio Vaticano II destacou, a esse propósito, que a Tradição é apostólica antes de tudo em suas origens: “Dispôs Deus, em toda a sua bondade, que tudo quanto revelara para a salvação de todos os povos permanecesse íntegro para sempre e fosse transmitido a todas as gerações. Por isso, Cristo Senhor, em quem se consuma toda a revelação do Deus Altíssimo (cf. 2Cor 1,30; 3,16; 4,6), mandou aos Apóstolos que pregassem a todos os homens o Evangelho... como fonte de toda a verdade salutar e de toda a norma de conduta, comunicando-lhes os dons divinos” (Const. dogm. Dei Verbum, 7).

O Concílio prossegue, observando que tal compromisso foi fielmente seguido “pelos Apóstolos que, pela sua pregação oral, exemplos e instituições, transmitiram aquilo que tinham recebido pela palavra, convivência e obras de Cristo, ou aprendido por inspiração do Espírito Santo” (ibid.). Com os Apóstolos, acrescenta o Concílio, colaboraram também “homens apostólicos que, sob a inspiração do mesmo Espírito Santo, escreveram a Mensagem da salvação” (ibid.).

Como chefes do Israel escatológico, também eles doze, assim como doze eram as tribos do povo eleito, os Apóstolos continuam a “colheita” iniciada pelo Senhor, e o fazem, antes de tudo, transmitindo fielmente o dom recebido, a Boa-Nova do Reino que veio aos homens em Jesus Cristo. Seu número expressa não apenas a continuidade com a santa raiz, o Israel das doze tribos, mas também o destino universal do seu ministério, que leva a salvação até os confins da terra. É possível perceber isso pelo valor simbólico que os números têm no mundo semítico: doze resulta da multiplicação de três, número perfeito, por quatro, número que remete aos quatro pontos cardeais e, portanto, ao mundo inteiro.

A comunidade, que surgiu do anúncio evangélico, reconhece-se convocada pela palavra daqueles que foram os primeiros a fazer a experiência do Senhor e por Ele foram enviados. Ela sabe que pode contar com a orientação dos Doze, bem como com a daqueles que, pouco a pouco, se associam a eles como sucessores no ministério da Palavra e no serviço da comunhão. Por conseguinte, a comunidade sente-se comprometida a transmitir aos outros a “Boa-Nova” da presença atual do Senhor e do seu mistério pascal, que age no Espírito.

Isso fica bem evidente em alguns trechos das cartas de Paulo: “Transmiti-vos... aquilo que eu mesmo recebi” (1Cor 15,3). E isso é importante. São Paulo, como se sabe, originalmente chamado por Cristo com uma vocação pessoal, é um verdadeiro Apóstolo e, contudo, também para ele conta, acima de tudo, a fidelidade àquilo que recebeu. Ele não queria “inventar” um novo cristianismo, por assim dizer, “paulino”. Por isso insiste: “Transmiti-vos... aquilo que eu mesmo recebi”. Transmitiu o dom inicial que vem do Senhor e que é a verdade que salva. Depois, no fim da vida, escreve a Timóteo: “Guarda, pelo Espírito Santo que habita em nós, o precioso depósito que te foi confiado” (2Tm 1,14).

Isso também é mostrado com clareza neste antigo testemunho da fé cristã, escrito por Tertuliano por volta do ano 200: “(Os Apóstolos) no princípio anunciaram a fé em Jesus Cristo e estabeleceram Igrejas na Judeia e, logo em seguida, espalhados pelo mundo, anunciaram a mesma doutrina e a mesma fé às nações e, por conseguinte, fundaram Igrejas em cada cidade. Depois delas, as outras Igrejas receberam os ramos da sua fé e as sementes da doutrina, e continuam a recebê-los para serem precisamente Igrejas. Dessa forma, também elas são consideradas apostólicas como descendentes das Igrejas dos Apóstolos” (De praescriptione haereticorum, 20: PL 2,32).

O Concílio Vaticano II comenta: “Aquilo que os Apóstolos transmitiram compreende todas aquelas coisas que são necessárias para que o Povo de Deus viva santamente e para que aumente a sua fé. Desse modo, a Igreja, na sua doutrina, vida e culto, perpetua e transmite a todas as gerações tudo o que ela é, tudo o que ela crê” (Const. Dei Verbum, 8). A Igreja transmite tudo o que ela é e tudo o que crê; transmite isso no culto, na vida e na doutrina. A Tradição é, portanto, o Evangelho vivo, anunciado pelos Apóstolos em sua integridade, com base na plenitude da sua experiência única e irrepetível. Por meio da sua ação, a fé é comunicada aos outros, até nós, até o fim do mundo.

Por conseguinte, a Tradição é a história do Espírito que age na história da Igreja por meio dos Apóstolos e dos seus sucessores, em fiel continuidade com a experiência das origens. É isso que esclarece o Papa São Clemente Romano, no final do século I: “Os Apóstolos — escreve ele — anunciaram-nos o Evangelho enviados pelo Senhor Jesus Cristo; Jesus Cristo foi enviado por Deus. Cristo vem, portanto, de Deus; os Apóstolos, de Cristo. Ambos procedem ordenadamente da vontade de Deus... Os nossos Apóstolos chegaram ao conhecimento, por meio de Nosso Senhor Jesus Cristo, de que surgiriam contendas a respeito da função episcopal. Por isso, prevendo perfeitamente o futuro, estabeleceram os eleitos e deram-lhes a seguinte determinação: que, quando morressem, outros homens comprovados assumissem o seu serviço” (Ad Corinthios, 42.44: PG 1,292.296).

Essa corrente de serviço continua até hoje e continuará até o fim do mundo. De fato, o mandato conferido por Jesus aos Apóstolos foi por eles transmitido aos seus sucessores. Além da experiência do contato pessoal com Cristo, experiência única e irrepetível, os Apóstolos transmitiram aos sucessores o envio solene ao mundo recebido do Mestre.

Apóstolo deriva precisamente da palavra grega apostéllein, que significa “enviar”. O envio apostólico, como mostra o texto de Mt 28,19-20, exige um serviço pastoral (“fazei discípulos de todas as nações…”), litúrgico (“batizai-as…”) e profético (“ensinando-lhes a cumprir tudo quanto vos tenho mandado”), garantido pela proximidade do Senhor até a consumação dos tempos (“eis que Eu estarei convosco todos os dias até o fim dos tempos”).

Assim, de forma diferente da dos Apóstolos, também nós temos uma experiência verdadeira e pessoal da presença do Senhor ressuscitado. Por meio do ministério apostólico é o próprio Cristo quem alcança aqueles que são chamados à fé. A distância dos séculos é superada e o Ressuscitado oferece-se vivo e atuante para nós, no hoje da Igreja e do mundo. Esta é a nossa grande alegria. No rio vivo da Tradição, Cristo não está distante dois mil anos, mas está realmente presente entre nós, concedendo-nos a Verdade, dando-nos a luz que nos faz viver e encontrar o caminho para o futuro.

7. A Sucessão Apostólica

Quarta-feira, 10 de maio de 2006

Queridos irmãos e irmãs!

Nas últimas duas audiências meditamos sobre o que é a Tradição na Igreja e vimos que ela é a presença permanente da palavra e da vida de Jesus no seu povo. Mas a palavra, para estar presente, necessita de uma pessoa, de uma testemunha. E assim nasce essa reciprocidade: por um lado, a palavra necessita da pessoa; por outro, a pessoa, a testemunha, está ligada à palavra que lhe foi confiada e que ela não inventou. Essa reciprocidade entre o conteúdo — a palavra de Deus, a vida do Senhor — e a pessoa que lhe dá continuidade é característica da estrutura da Igreja, e hoje queremos meditar sobre esse aspecto pessoal da Igreja.

O Senhor havia iniciado isso convocando, como vimos, os Doze, nos quais estava representado o futuro Povo de Deus. Na fidelidade ao mandamento recebido do Senhor, primeiro os Doze, depois da sua Ascensão, completam o seu número com a eleição de Matias no lugar de Judas (cf. At 1,15-26) e, depois, associam progressivamente outros às funções que lhes foram confiadas, para que continuem o seu ministério. O próprio Ressuscitado chama Paulo (cf. Gl 1,1), mas Paulo, mesmo tendo sido chamado pelo Senhor, confronta o seu Evangelho com o Evangelho dos Doze (cf. Gl 1,18), preocupa-se em transmitir aquilo que recebeu (cf. 1Cor 11,23; 15,3-4) e, na distribuição das tarefas, é associado aos Apóstolos, juntamente com outros, por exemplo Barnabé (cf. Gl 2,9).

Assim como, no início, a condição de apóstolo nasce de um chamado e de um envio do Ressuscitado, também o posterior chamado e envio de outros acontecerá, pela força do Espírito, por obra daqueles que já foram constituídos no ministério apostólico. Esse é o caminho pelo qual continuará o ministério, que depois, a partir da segunda geração, passará a ser chamado ministério episcopal, o episcopé.

Talvez seja útil explicar brevemente o que significa “bispo”. “Bispo” é a forma portuguesa da palavra grega epíscopos. Essa palavra indica alguém que tem uma visão do alto, alguém que olha com o coração. Assim, o próprio São Pedro, na sua Primeira Carta, chama o Senhor Jesus de “Pastor e Bispo, guarda das vossas almas” (1 Pe 2,25). E, segundo esse modelo do Senhor, que é o primeiro Bispo, guarda e pastor das almas, os sucessores dos Apóstolos passaram a ser chamados sucessivamente de bispos, epíscopoi. A eles foi confiada a função do episcopé.

Essa função própria do bispo foi se desenvolvendo progressivamente, em relação ao seu início, até assumir a forma já claramente confirmada por Inácio de Antioquia, no início do século II (cf. Ad Magnesios, 6,1: PG 5,668), do tríplice ministério de bispo, presbítero e diácono. Trata-se de um desenvolvimento guiado pelo Espírito de Deus, que assiste a Igreja no discernimento das formas autênticas da sucessão apostólica, sempre mais bem definidas entre uma pluralidade de experiências e de formas carismáticas e ministeriais presentes nas comunidades das origens.

Dessa forma, a sucessão na função episcopal apresenta-se como continuidade do ministério apostólico, garantia da perseverança na Tradição apostólica, palavra e vida que o Senhor nos confiou. O vínculo entre o Colégio dos Bispos e a comunidade originária dos Apóstolos deve ser compreendido, antes de tudo, na perspectiva da continuidade histórica.

Como vimos, aos Doze foram depois associados Matias, Paulo, Barnabé e, em seguida, outros, até a formação, na segunda e na terceira geração, do ministério do bispo. Portanto, a continuidade se expressa nessa sucessão histórica. E é na continuidade da sucessão que se encontra a garantia da permanência, na continuidade eclesial, do Colégio apostólico reunido por Cristo. Mas essa continuidade, que vemos primeiramente na continuidade histórica dos ministros, deve ser compreendida também em sentido espiritual, porque a sucessão apostólica no ministério é considerada como lugar privilegiado da ação e da transmissão do Espírito Santo.

Temos um reflexo claro dessas convicções, por exemplo, no seguinte texto de Santo Irineu de Lião (segunda metade do século II): “A tradição dos Apóstolos, manifestada em todo o mundo, mostra-se em cada Igreja a todos os que desejam ver a verdade, e nós podemos enumerar os bispos estabelecidos pelos Apóstolos nas Igrejas e os seus sucessores até nós... Os Apóstolos, de fato, quiseram que aqueles que deixavam como sucessores fossem absolutamente perfeitos e irrepreensíveis em tudo, transmitindo-lhes a própria missão de ensinamento. Se eles a tivessem compreendido corretamente, dela teriam tirado grande proveito; se, ao contrário, falhassem, teriam causado um dano gravíssimo.” (Adversus haereses, III, 3,1: PG 7,848).

Depois, Irineu, indicando essa rede da sucessão apostólica como garantia da permanência na palavra do Senhor, concentra-se naquela Igreja “sumamente antiga e conhecida por todos”, que foi “fundada e constituída em Roma pelos gloriosíssimos Apóstolos Pedro e Paulo”, dando destaque à Tradição da fé, que nela chega até nós por meio dos Apóstolos mediante a sucessão dos bispos.

Dessa forma, para Irineu e para a Igreja universal, a sucessão episcopal da Igreja de Roma torna-se o sinal, o critério e a garantia da transmissão ininterrupta da fé apostólica: “A esta Igreja, por causa da sua peculiar primazia (propter potiorem principalitatem), é necessário que convirjam todas as Igrejas, isto é, os fiéis de todas as partes, porque nela a tradição dos Apóstolos sempre foi preservada...” (Adversus haereses, III, 3,2: PG 7,848). A sucessão apostólica verificada com base na comunhão com a Igreja de Roma é, portanto, o critério da permanência de cada uma das Igrejas na Tradição da comum fé apostólica, que, através desse canal, pôde chegar até nós desde as origens: “Com esta ordem e com esta sucessão chegaram até nós a tradição que existe na Igreja desde os Apóstolos e a pregação da verdade. Esta é a prova mais completa de que uma e única é a fé vivificante dos Apóstolos, que foi conservada e transmitida na verdade.” (Ibid., III, 3,3: PG 7,851).

Segundo esses testemunhos da Igreja antiga, a apostolicidade da comunhão eclesial consiste na fidelidade ao ensinamento e à prática dos Apóstolos, por meio dos quais é garantido o vínculo histórico e espiritual da Igreja com Cristo. A sucessão apostólica do ministério episcopal é o caminho que garante a fiel transmissão do testemunho apostólico. Aquilo que os Apóstolos representam na relação entre o Senhor Jesus e a Igreja das origens, representa-o, de modo análogo, a sucessão ministerial na relação entre a Igreja das origens e a Igreja atual. Não se trata de uma simples sucessão material; é o instrumento histórico do qual o Espírito se serve para tornar presente o Senhor Jesus, Cabeça do seu povo, por meio daqueles que são ordenados para o ministério mediante a imposição das mãos e a oração dos bispos.

Por meio da sucessão apostólica é Cristo quem nos alcança: na palavra dos Apóstolos e dos seus sucessores é Ele quem nos fala; por meio das suas mãos é Ele quem age nos sacramentos; no olhar deles é o seu olhar que nos envolve e nos faz sentir amados, acolhidos no coração de Deus. E também hoje, como no início, o próprio Cristo é o verdadeiro Pastor e Guarda das nossas almas, a quem seguimos com grande confiança, gratidão e alegria.

8. Pedro, o pescador

Quarta-feira, 17 de Maio de 2006

Amados Irmãos e Irmãs,

Na nova série de catequeses começamos antes de tudo a compreender melhor o que é a Igreja, qual é a ideia do Senhor sobre esta sua nova família. Depois dissemos que a Igreja existe nas pessoas. E vimos que o Senhor confiou esta nova realidade, a Igreja, aos doze Apóstolos. Agora queremos vê-los um por um, para compreender nas pessoas o que significa viver a Igreja, o que significa seguir Jesus. Começamos com São Pedro.

Depois de Jesus, Pedro é a personagem mais conhecida e citada nos escritos neotestamentários: é mencionado 154 vezes com o cognome de Pétros, “pedra”, “rocha”, que é a tradução grega do nome aramaico que lhe foi dado diretamente por Jesus: Kefa, afirmado nove vezes sobretudo nas cartas de Paulo; depois, deve-se acrescentar o nome frequente Simòn (75 vezes), que é a forma helenizada do seu original nome hebraico Simeon (2 vezes: At 15, 14; 2 Pd 1, 1).

Simão, Filho de João (cf. Jo 1, 42) ou, na forma aramaica, bar-Jona, filho de Jonas (cf. Mt 16, 17), Simão era de Betsaida (cf. Jo 1, 44), uma cidadezinha a leste do mar da Galileia, da qual provinha também Felipe e naturalmente André, irmão de Simão. O seu modo de falar revelava o sotaque galileu. Também ele, como o irmão, era pescador: com a família de Zebedeu, pai de Tiago e de João, dirigia uma pequena empresa de pesca no lago de Genesaré (cf. Lc 5, 10). Por isso devia desfrutar de um certo bem-estar econômico e era animado por um sincero interesse religioso, por um desejo de Deus (ele queria que Deus interviesse no mundo), um desejo que o estimulou a ir com o irmão até a Judeia para seguir a pregação de João Batista (cf. Jo 1, 35-42).

Era um judeu crente e praticante, confiante na presença ativa de Deus na história do seu povo, e sofria por não ver a sua ação poderosa nas circunstâncias das quais ele era, naquele momento, testemunha. Era casado e a sogra, curada um dia por Jesus, vivia na cidade de Cafarnaum, na casa onde também Simão vivia quando estava naquela cidade (cf. Mt 8, 14 s; Mc 1, 29 s; Lc 4, 38 s). Recentes escavações arqueológicas permitiram trazer à luz, sob o piso em mosaicos octogonais de uma pequena igreja bizantina, os vestígios de uma igreja mais antiga existente naquela casa, como afirmam os grafites com invocações a Pedro.

Os Evangelhos nos informam que Pedro é um dos primeiros quatro discípulos do Nazareno (cf. Lc 5, 1-11), aos quais se junta um quinto, segundo o costume de cada Rabino de ter cinco discípulos (cf. Lc 5, 27: chamada de Levi). Quando Jesus passa de cinco para doze discípulos (cf. Lc 9, 1-6), será clara a novidade da sua missão: Ele já não é um entre tantos rabinos, mas veio para reunir o Israel escatológico, simbolizado pelo número doze, como doze eram as tribos de Israel.

Simão aparece nos Evangelhos com um caráter decidido e impulsivo; ele está disposto a fazer valer as próprias razões também com a força (pense-se no uso da espada no Horto das Oliveiras: cf. Jo 18, 10 s). Ao mesmo tempo, por vezes é também ingênuo e medroso e, contudo, honesto, até o arrependimento mais sincero (cf. Mt 26, 75).

Os Evangelhos permitem seguir passo a passo o seu itinerário espiritual. O ponto de partida é a chamada da parte de Jesus. Acontece num dia qualquer, enquanto Pedro está empenhado no seu trabalho de pescador. Jesus encontra-se junto do lago de Genesaré e a multidão reúne-se ao seu redor para escutá-lo.

O número dos ouvintes gera uma certa confusão. O Mestre vê duas barcas ancoradas à margem; os pescadores desceram e lavam as redes. Então Ele pede para entrar na barca, na de Simão, e pede-lhe que vá para águas mais profundas. Sentado naquela cátedra improvisada, da barca, começa a ensinar à multidão (cf. Lc 5, 1-3). E assim a barca de Pedro torna-se a cátedra de Jesus. Quando terminou de falar, diz a Simão: “Vá para águas mais profundas e lance as redes para a pesca”. Simão responde: “Mestre, trabalhamos durante toda a noite e nada apanhamos; mas, porque tu o dizes, lançarei as redes” (Lc 5, 4-5).

Jesus, que era um carpinteiro, não era perito em pesca: mas Simão, o pescador, confia neste Rabino, que não lhe dá respostas, mas o chama a ter confiança. A sua reação diante da pesca milagrosa é de admiração e de trepidação: “Afasta-te de mim, Senhor, porque sou um homem pecador” (Lc 5, 8). Jesus responde convidando-o a ter confiança e a abrir-se a um projeto que ultrapassa qualquer perspectiva sua: “Não tenha medo; de agora em diante, serás pescador de homens” (Lc 5, 10).

Pedro ainda não podia imaginar que um dia teria chegado a Roma e seria nessa cidade “pescador de homens” para o Senhor. Ele aceita esta chamada surpreendente, de se deixar envolver nesta grande aventura: é generoso, reconhece os seus limites, mas crê n'Aquele que o chama e segue o sonho do seu coração. Diz sim – um sim corajoso e generoso – e torna-se discípulo de Jesus.

Pedro vive outro momento significativo no seu caminho espiritual nas redondezas de Cesareia de Felipe, quando Jesus faz aos discípulos uma pergunta concreta: “Quem dizem os homens que Eu sou?” (Mc 8, 27). Mas para Jesus não era suficiente a resposta do ter ouvido dizer. Daqueles que aceitaram comprometer-se pessoalmente com Ele pretende uma tomada de posição pessoal. Por isso insiste: “E vós, quem dizeis que Eu sou?” (Mc 8, 29). Responde Pedro também em nome dos outros: “Tu és o Messias” (ibid.), isto é, Cristo. Esta resposta de Pedro, que não veio “da carne e do sangue” dele, mas foi-lhe concedida pelo Pai que está no céu (cf. Mt 16, 17), tem em si como que em germe a futura confissão de fé da Igreja. Contudo, Pedro ainda não tinha compreendido o conteúdo profundo da missão messiânica de Jesus, o novo sentido desta palavra: Messias.

Demonstra-o pouco depois, deixando compreender que o Messias que perseguia nos seus sonhos é muito diferente do verdadeiro projeto de Deus. Diante do anúncio da paixão escandaliza-se e protesta, suscitando uma reação enérgica de Jesus (cf. Mc 8, 32-33).

Pedro quer um Messias “homem divino”, que cumpra as expectativas do povo impondo a todos o seu poder: é também nosso desejo que o Senhor imponha o seu poder e transforme imediatamente o mundo; Jesus apresenta-se como o “Deus humano”, o servo de Deus, que altera as expectativas da multidão seguindo por um caminho de humildade e de sofrimento. É a grande alternativa, que também nós devemos aprender sempre de novo: privilegiar as próprias expectativas recusando Jesus ou acolher Jesus na verdade da sua missão e abandonar as expectativas demasiado humanas.

Pedro, impulsivo como é, não hesita em repreender Jesus em particular. A resposta de Jesus abala todas as suas falsas expectativas, quando o chama à conversão e ao seguimento: “Afasta-te de mim, Satanás, porque os teus pensamentos não são os de Deus, mas os dos homens” (Mc 8, 33). Não me indiques tu o caminho, eu sigo o meu percurso e tu fica atrás de mim.

Pedro aprende desta forma o que significa verdadeiramente seguir Jesus. É a sua segunda chamada, análoga à de Abraão em Gn 22, depois de Gn 12: “Se alguém quer vir depois de mim, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me! Pois quem quiser salvar sua vida a perderá; mas quem perder sua vida por causa de mim e do Evangelho, a salvará” (Mc 8, 34-35). É a lei exigente do seguimento: é preciso saber renunciar, se for necessário, ao mundo inteiro para salvar os verdadeiros valores, para salvar a alma, para salvar a presença de Deus no mundo (cf. Mc 8, 36-37). Mesmo com dificuldade, Pedro aceita o convite e prossegue o seu caminho seguindo os passos do Mestre.

Parece-me que estas diversas conversões de São Pedro e toda a sua figura são de grande conforto e um forte ensinamento para nós. Também nós sentimos o desejo de Deus, também nós queremos ser generosos, mas também nós esperamos que Deus seja forte no mundo e transforme imediatamente o mundo segundo as nossas ideias, segundo as necessidades que vemos. Deus escolhe outro caminho. Deus escolhe o caminho da transformação dos corações no sofrimento e na humildade. E nós, como Pedro, devemos converter-nos sempre de novo. Devemos seguir Jesus em vez de ir à sua frente. É Ele quem nos indica o caminho. Assim Pedro diz-nos: Tu pensas que tens a receita e que deves transformar o cristianismo, mas é o Senhor quem conhece o caminho. É o Senhor que diz a mim, diz a ti: segue-me! E devemos ter coragem e humildade para seguir Jesus, porque Ele é o caminho, a Verdade e a Vida.

9. Pedro, o apóstolo

Quarta-feira, 24 de Maio de 2006

Queridos irmãos e irmãs!

Nestas catequeses estamos meditando sobre a Igreja. Dissemos que a Igreja vive nas pessoas e, por isso, na última catequese, começamos a meditar sobre as figuras de cada um dos Apóstolos, começando por São Pedro. Vimos duas etapas decisivas da sua vida: a chamada junto ao Lago da Galileia e, depois, a profissão de fé: “Tu és Cristo, o Messias”.

Uma confissão, dissemos, ainda insuficiente, inicial e, contudo, aberta. São Pedro coloca-se num caminho de seguimento. E assim, esta confissão inicial tem em si, como em germe, já a futura fé da Igreja. Hoje queremos considerar outros dois acontecimentos importantes na vida de Pedro: a multiplicação dos pães – ouvimos no trecho agora lido a pergunta do Senhor e a resposta de Pedro – e depois o Senhor que chama Pedro para ser pastor da Igreja universal.

Comecemos com o episódio da multiplicação dos pães. O povo tinha ouvido o Senhor durante horas. No fim, Jesus diz: estão cansados, têm fome, devemos dar de comer a este povo. Os Apóstolos perguntam: Mas como? E André, irmão de Pedro, chama a atenção de Jesus para um jovem que levava consigo cinco pães e dois peixes. Mas o que são para tantas pessoas, interrogam-se os Apóstolos. Mas o Senhor faz sentar as pessoas e distribuir estes cinco pães e os dois peixes e todos ficam saciados. Além disso, o Senhor encarrega os Apóstolos, e entre eles Pedro, de recolher o que sobrou em abundância: doze cestos de pão (cf. Jo 6, 12-13).

Em seguida o povo, vendo este milagre – que parece ser a renovação, tão esperada, de um novo “maná”, do dom do pão do céu – deseja fazer dele o seu rei. Mas Jesus não aceita e retira-se para o monte a fim de rezar sozinho. No dia seguinte, Jesus, na outra margem do lago, na Sinagoga de Cafarnaum, interpretou o milagre – não no sentido de uma realeza sobre Israel com um poder deste mundo, do modo esperado pela multidão, mas no sentido da doação de si: “o pão que Eu darei é a minha carne, pela vida do mundo” (Jo 6, 51). Jesus anuncia a cruz e, com a cruz, a verdadeira multiplicação dos pães, o pão eucarístico – o seu modo absolutamente novo de ser rei, um modo totalmente contrário às expectativas do povo.

Nós podemos compreender como estas palavras do Mestre – que não deseja realizar todos os dias uma multiplicação dos pães, que não quer oferecer a Israel um poder deste mundo – pareciam verdadeiramente difíceis, aliás, inaceitáveis para a multidão. “Da sua carne”: O que significa? E também para os discípulos é inaceitável o que Jesus diz neste momento. Era e é, para o nosso coração e para a nossa mentalidade, um sermão “duro”, que colocava a fé à prova (cf. Jo 6, 60).

Muitos dos discípulos se afastaram. Queriam alguém que realmente restaurasse o Estado de Israel, do seu povo, e não alguém que dizia: “Eu dou a minha carne”. Podemos imaginar como as palavras de Jesus eram difíceis também para Pedro, que em Cesareia de Felipe se tinha oposto à profecia da cruz. E, contudo, quando Jesus perguntou aos doze: “Quereis retirar-vos vós também?”, Pedro reagiu com o impulso do seu coração generoso, guiado pelo Espírito Santo. Em nome de todos respondeu com palavras imortais, que são também nossas: “Senhor, a quem iremos? Tu tens palavras de vida eterna; nós cremos e conhecemos que tu és o Santo de Deus” (cf. Jo 6, 66-69).

Aqui, como em Cesareia, com as suas palavras Pedro começa a profissão da fé cristológica da Igreja e torna-se também o intérprete dos outros Apóstolos e também de nós, crentes de todos os tempos. Isto não significa que já tivesse compreendido o mistério de Cristo em toda a sua profundidade. A sua fé ainda estava no início, uma fé a caminho; teria chegado à verdadeira plenitude apenas mediante a experiência dos acontecimentos pascais. Mas, contudo, já era fé, aberta a uma realidade maior – aberta sobretudo porque não era fé em algo, era fé em Alguém: n'Ele, Cristo. Assim, também a nossa fé é sempre uma fé inicial, e devemos percorrer ainda um longo caminho. Mas é fundamental que seja uma fé aberta e que nos deixemos guiar por Jesus, porque Ele não só conhece o Caminho, mas é o Caminho.

Mas a generosidade impetuosa de Pedro não o protege dos riscos relacionados com a debilidade humana. De resto, é o que também nós podemos reconhecer com base na nossa vida. Pedro seguiu Jesus com ímpeto, superou a prova da fé, abandonando-se a Ele. Contudo, chega o momento em que também ele cede ao medo e cai: trai o Mestre (cf. Mc 14, 66-72). A escola da fé não é uma marcha triunfal, mas um caminho repleto de sofrimentos e de amor, de provas e de fidelidade a ser renovada todos os dias. Pedro, que já tinha prometido fidelidade absoluta, conhece a amargura e a humilhação da renegação: o atrevido aprende por experiência própria a humildade. Também Pedro deve aprender a ser frágil e carente de perdão. Quando finalmente perde a máscara e compreende a verdade do seu coração frágil de pecador crente, cai num libertador choro de arrependimento. Depois deste choro ele já está pronto para a sua missão.

Numa manhã de primavera esta missão lhe será confiada por Jesus ressuscitado. O encontro será à margem do lago de Tiberíades. O evangelista João narra-nos o diálogo que naquela circunstância se realiza entre Jesus e Pedro. Nele revela-se um jogo de verbos muito significativo. Em grego o verbo filéo expressa o amor de amizade, terno, mas não totalizante, enquanto o verbo agapáo significa o amor sem reservas, total e incondicional.

Jesus pergunta a Pedro pela primeira vez: “Simão... tu amas-Me? (agapâs-me)” com este amor total e incondicional (cf. Jo 21, 15)? Antes da experiência da traição o Apóstolo teria certamente respondido: “Amo-Te (agapô-se) incondicionalmente”. Agora, que conheceu a amarga tristeza da infidelidade, o drama da própria debilidade, diz apenas: “Senhor... tu sabes que sou deveras teu amigo (filô-se), isto é, “amo-te com o meu pobre amor humano”. Cristo insiste: “Simão, tu amas-Me com este amor total que Eu quero?”. E Pedro repete a resposta do seu humilde amor humano: “Kyrie, filô-se”, “Senhor, tu sabes que eu sou deveras teu amigo“. Pela terceira vez Jesus pergunta a Simão: “Fileîs-me?”, “tu amas-Me?”. Simão compreende que para Jesus é suficiente o seu pobre amor, o único de que é capaz e, contudo, sente-se entristecido porque o Senhor teve que lhe falar daquele modo. Por isso, responde: “Senhor, Tu sabes tudo; Tu bem sabes que eu sou deveras teu amigo! (filô-se)”.

Seria como dizer que Jesus se adaptou a Pedro, e não Pedro a Jesus!

É precisamente esta adaptação divina que dá esperança ao discípulo, que conheceu o sofrimento da infidelidade. Surge daqui a confiança que o torna capaz do seguimento até ao fim: “E disse isso para dar a entender com que morte Pedro iria glorificar a Deus. E acrescentou: “Segue-Me!” (Jo 21, 19).

A partir daquele dia Pedro “seguiu” o Mestre com a clara consciência da própria fragilidade; mas esta consciência não o desencorajou. De fato, ele sabia que podia contar com a presença do Ressuscitado. Dos ingênuos entusiasmos da adesão inicial, passando pela experiência dolorosa da negação e pelo choro da conversão, Pedro alcançou a confiança naquele Jesus que se adaptou à sua pobre capacidade de amor. E mostra assim também a nós o caminho, apesar da nossa debilidade. Sabemos que Jesus se adapta a esta nossa debilidade.

Nós o seguimos com a nossa capacidade de amor e sabemos que Jesus é bom e nos aceita. Para Pedro foi um longo caminho que fez dele uma testemunha de confiança, “pedra” da Igreja, porque permaneceu constantemente aberto à ação do Espírito de Jesus. O próprio Pedro qualificar-se-á como “testemunha dos sofrimentos de Cristo, participante da glória que está para se revelar” (1 Pd 5, 1). Quando escreveu estas palavras já era idoso, aproximando-se do fim da vida, que selou com o martírio.

Então, foi capaz de descrever a alegria verdadeira e de indicar de onde ela pode ser obtida: a fonte é Cristo, acreditado e amado com a nossa fé frágil, mas sincera, apesar da nossa fragilidade. Por isso escreveu aos cristãos da sua comunidade, e o diz também a nós: “Sem terdes visto o Senhor, vós o amais. Sem que agora o estejais vendo, credes nele. Isto será para vós fonte de alegria inefável e gloriosa, pois obtereis aquilo em que acreditais: a vossa salvação” (1 Pd 1, 8-9).

10. Pedro, a rocha sobre a qual Cristo fundou sua Igreja

Quarta-feira, 7 de junho de 2006

Queridos irmãos e irmãs!

Retomamos as catequeses semanais que iniciamos nesta primavera. Na última, há quinze dias, falei de Pedro como o primeiro dos Apóstolos; hoje, queremos voltar a refletir sobre esta grande e importante figura da Igreja. O evangelista João, narrando o primeiro encontro de Jesus com Simão, irmão de André, relata um acontecimento singular: Jesus, “olhando para ele: ‘Tu és Simão, filho de João. Tu te chamarás Cefas!’ (que quer dizer Pedro)” (Jo 1, 42). Jesus não costumava mudar o nome dos seus discípulos. Se excluirmos o apelido de “filhos do trovão”, dirigido numa circunstância precisa aos filhos de Zebedeu (cf. Mc 3, 17), que não voltou a usar posteriormente, Ele nunca atribuiu um novo nome a um discípulo seu. Mas fê-lo com Simão, chamando-o Cefas, nome que depois foi traduzido em grego Petros, em latim Petrus. E foi traduzido precisamente porque não era só um nome; era uma “missão” que Pedro recebia daquele modo do Senhor. O novo nome Petrus voltará várias vezes nos Evangelhos e terminará por substituir o nome originário, Simão.

O fato adquire relevo particular se se considera que, no Antigo Testamento, a mudança do nome anunciava em geral a designação de uma missão (cf. Gn 17, 5; 32, 28ss, etc.). De fato, a vontade de Cristo de atribuir a Pedro um papel especial no âmbito do Colégio apostólico manifesta-se em numerosos indícios: em Cafarnaum o Mestre é hospedado na casa de Pedro (cf. Mc 1, 29); quando a multidão se comprime às margens do lago de Genesaré, entre as duas barcas ali ancoradas, Jesus escolhe a de Simão (Lc 5, 3); quando, em circunstâncias particulares, Jesus se faz acompanhar apenas por três discípulos, Pedro é sempre lembrado como o primeiro do grupo: assim na ressurreição da filha de Jairo (cf. Mc 9, 2; Mt 17, 1; Lc 9, 28), e por fim durante a agonia no Horto do Getsêmani (cf. Mc 14, 33; Mt 26, 37).

E ainda: dirigem-se a Pedro os cobradores do imposto para o Templo e o Mestre paga para si e somente para ele (cf. Mt 17, 24-27); a quem lava primeiro os pés é Pedro (cf. Jo 13, 6) e reza unicamente por ele para que não lhe venha a faltar a fé e possa depois confirmar nela os outros discípulos (cf. Lc 22, 30-31).

Além disso, o próprio Pedro tem consciência desta sua posição particular: com frequência é ele que, também em nome dos outros, toma a palavra para pedir a explicação de uma parábola difícil (cf. Mt 15, 15), ou o sentido exato de um preceito (cf. Mt 18, 21), ou a promessa formal de uma recompensa (cf. Mt 19, 27). Em particular, é ele quem resolve o embaraço de determinadas situações intervindo em nome de todos. E também quando Jesus, desanimado pela incompreensão da multidão depois do discurso sobre o “pão da vida”, pergunta: “Também vós quereis vos retirar?”, a resposta de Pedro é peremptória: “Senhor, a quem iremos? Tu tens palavras de vida eterna” (cf. Jo 6, 67-69).

Igualmente decidida é a profissão de fé que, ainda em nome dos Doze, ele faz nas proximidades de Cesareia de Felipe. A Jesus que pergunta: “Vós quem dizeis que Eu sou?”, Pedro responde: “Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo” (Mt 16, 15-16). Em resposta, Jesus pronuncia então a declaração solene que define, de uma vez para sempre, o papel de Pedro na Igreja: “Também Eu te digo: Tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja (...) Dar-te-ei as chaves do Reino do Céu; tudo o que ligares na terra ficará ligado no Céu e tudo o que desligares na terra será desligado no Céu” (Mt 16, 18-19).

As três metáforas às quais Jesus recorre são em si muito claras: Pedro será o fundamento rochoso sobre o qual se apoiará o edifício da Igreja; ele terá as chaves do Reino dos Céus para abrir ou fechar a quem melhor julgar; por fim, ele poderá ligar ou desligar no sentido de que poderá estabelecer ou proibir o que considerar necessário para a vida da Igreja, que é e permanece Cristo. É sempre Igreja de Cristo e não de Pedro. Deste modo, é descrito com imagens de grande força aquilo que a reflexão posterior qualificará com a expressão “primazia de jurisdição”.

Esta posição de preeminência que Jesus decidiu conferir a Pedro verifica-se também depois da ressurreição: Jesus encarrega as mulheres de ir anunciar a Pedro, distintamente dos outros Apóstolos (cf. Mc 16, 7); Madalena vai até ele e João para os informar de que a pedra tinha sido removida da entrada do sepulcro (cf. Jo 20, 2) e João lhe dá a precedência quando chegam diante do túmulo vazio (cf. Jo 20, 4-6); será depois Pedro, entre os Apóstolos, a primeira testemunha de uma aparição do Ressuscitado (cf. Lc 24, 34; 1 Cor 15, 5). Este seu papel, destacado com clareza (cf. Jo 20, 3-10), marca a continuidade entre a preeminência obtida no grupo apostólico e a preeminência que continuará a ter na comunidade que nasceu depois dos acontecimentos pascais, como afirma o Livro dos Atos (cf. 1, 15-26; 2, 14-40; 3, 12-26; 4, 8-12; 5, 1-11.29; 8, 14-17; 10; etc.).

O seu comportamento é considerado tão decisivo que está no centro de observações e também de críticas (cf. At 11, 1-18; Gl 2, 11-14). No chamado Concílio de Jerusalém, Pedro desempenha uma função de liderança (cf. At 15, 3; Gl 2, 1-10) e, precisamente por este seu papel como testemunha da fé autêntica, o próprio Paulo reconhece nele uma certa condição de “primeiro” (cf. 1 Cor 15, 5; Gl 1, 18; 2, 7s.; etc.).

Além disso, o fato de que vários textos-chave relativos a Pedro possam ser relacionados com o contexto da Última Ceia, na qual Cristo confere a Pedro o ministério de confirmar os irmãos (cf. Lc 22, 31s.), mostra como a Igreja que nasce do memorial pascal celebrado na Eucaristia tenha no ministério confiado a Pedro um dos seus elementos constitutivos.

Esta contextualização da Primazia de Pedro na Última Ceia, no momento da instituição da Eucaristia, Páscoa do Senhor, indica também o sentido último desta Primazia: Pedro deve ser, para todos os tempos, o guardião da comunhão com Cristo; deve conduzir à comunhão com Cristo; deve preocupar-se para que a rede não se rompa e, assim, possa perdurar a comunhão universal. Somente juntos podemos estar com Cristo, que é o Senhor de todos. A responsabilidade de Pedro é garantir, assim, a comunhão com Cristo por meio da caridade de Cristo, conduzindo à realização desta caridade na vida de todos os dias.

Rezemos para que a Primazia de Pedro, confiada a pobres pessoas humanas, possa ser sempre exercida neste sentido originário querido pelo Senhor e, assim, possa ser cada vez mais reconhecida no seu verdadeiro significado pelos irmãos que ainda não estão em plena comunhão conosco.

11. André, o próclito

Quarta-feira, 14 de junho de 2006

Queridos irmãos e irmãs!

Nas últimas duas catequeses falamos da figura de São Pedro. Agora queremos, na medida em que as fontes permitem, conhecer mais de perto também os outros onze Apóstolos. Portanto, falamos hoje do irmão de Simão Pedro, Santo André, também ele um dos Doze.

A primeira característica que em André chama a atenção é o nome: não é hebraico, como poderíamos pensar, mas grego, sinal de que não deve ser minimizada uma certa abertura cultural da sua família. Estamos na Galileia, onde a língua e a cultura gregas estão bastante presentes. Nas listas dos Doze, André ocupa o segundo lugar, como em Mateus (cf. Mt 10, 1-4) e em Lucas (cf. Lc 6, 13-16), ou o quarto lugar, como em Marcos (cf. Mc 3, 13-18) e nos Atos (cf. At 1, 13-14). Contudo, ele gozava certamente de grande prestígio nas primeiras comunidades cristãs.

O laço de sangue entre Pedro e André, assim como a comum chamada que Jesus lhes faz, destacam-se explicitamente nos Evangelhos. Neles lê-se: “Caminhando ao longo do mar da Galileia, Jesus viu os dois irmãos: Simão, chamado Pedro, e seu irmão André, que lançavam as redes ao mar, pois eram pescadores. Disse-lhes: ‘Vinde comigo e Eu farei de vós pescadores de homens’” (Mt 4, 18-19; Mc 1, 16-17). Do Quarto Evangelho tiramos outro pormenor: num primeiro momento, André era discípulo de João Batista; e isto mostra-nos que era um homem que procurava, que partilhava a esperança de Israel, que queria conhecer mais de perto a palavra do Senhor, a realidade do Senhor presente.

Era verdadeiramente um homem de fé e de esperança; e certa vez, de João Batista ouviu proclamar Jesus como “o cordeiro de Deus” (Jo 1, 36); então ele se voltou e, juntamente com outro discípulo que não é nomeado, seguiu Jesus, Aquele que era chamado por João o “Cordeiro de Deus”. O evangelista narra: eles “viram onde morava e ficaram com Ele nesse dia” (Jo 1, 37-39).

Portanto, André viveu momentos preciosos de familiaridade com Jesus. A narração continua com uma anotação significativa: “André, o irmão de Simão Pedro, era um dos dois que ouviram João e seguiram Jesus. Encontrou primeiro o seu irmão Simão e disse-lhe: “Encontramos o Messias”, que quer dizer Cristo. E levou-o até Jesus” (Jo 1, 40-43), demonstrando imediatamente um espírito apostólico incomum.

Portanto, André foi o primeiro dos Apóstolos a ser chamado para seguir Jesus. Precisamente sobre esta base, a liturgia da Igreja Bizantina o honra com o título de Protóklitos, que significa exatamente “primeiro chamado”. E não há dúvida de que, devido ao relacionamento fraterno entre Pedro e André, a Igreja de Roma e a Igreja de Constantinopla se sentem irmãs entre si de modo especial. Para destacar este relacionamento, o meu Predecessor, o Papa Paulo VI, em 1964, restituiu as insignes relíquias de Santo André, até então conservadas na Basílica Vaticana, ao Bispo metropolita ortodoxo da cidade de Patrasso, na Grécia, onde, segundo a tradição, o Apóstolo foi crucificado.

As tradições evangélicas recordam particularmente o nome de André em outras três ocasiões, que nos fazem conhecer um pouco mais este homem. A primeira é a da multiplicação dos pães na Galileia. Naquele momento foi André quem indicou a Jesus a presença de um jovem que tinha cinco pães de cevada e dois peixes: era muito pouco — observou ele — para todas as pessoas reunidas naquele lugar (cf. Jo 6, 8-9). Vale a pena destacar, neste caso, o realismo de André: ele viu o jovem, portanto já se tinha perguntado: “mas o que é isto para tantas pessoas?” (ibid.), mas percebeu a insuficiência dos seus poucos recursos. Contudo, Jesus soube fazê-los bastar para a multidão de pessoas que vieram ouvi-lo.

A segunda ocasião foi em Jerusalém. Saindo da cidade, um discípulo fez notar a Jesus o espetáculo dos muros sólidos sobre os quais o Templo se apoiava. A resposta do Mestre foi surpreendente: disse que não ficaria em pé nem sequer uma pedra daqueles muros. Então André, juntamente com Pedro, Tiago e João, perguntou-lhe: “Diz-nos quando tudo isto acontecerá e qual o sinal de que tudo está para acabar” (Mc 13, 1-4). Para responder a esta pergunta, Jesus pronunciou um importante discurso sobre a destruição de Jerusalém e sobre o fim do mundo, convidando os seus discípulos a ler com atenção os sinais dos tempos e a permanecer sempre vigilantes. Podemos deduzir deste episódio que não devemos ter medo de fazer perguntas a Jesus, mas, ao mesmo tempo, devemos estar prontos para receber os ensinamentos, até surpreendentes e difíceis, que Ele nos oferece.

Por fim, nos Evangelhos está registrada uma terceira iniciativa de André. O cenário ainda é Jerusalém, pouco antes da Paixão. Para a festa da Páscoa — narra João — tinham vindo à cidade santa alguns gregos, provavelmente prosélitos ou tementes a Deus, que vinham para adorar o Deus de Israel na festa da Páscoa. André e Felipe, os dois apóstolos com nomes gregos, servem como intérpretes e mediadores deste pequeno grupo de gregos diante de Jesus. A resposta do Senhor à sua pergunta parece, como muitas vezes no Evangelho de João, enigmática, mas precisamente por isso revela-se rica de significado. Jesus diz aos dois discípulos e, por meio deles, ao mundo grego: “Chegou a hora de se revelar a glória do Filho do Homem. Em verdade, em verdade vos digo: se o grão de trigo, lançado à terra, não morrer, fica ele só; mas, se morrer, dá muito fruto” (Jo 12, 23-24).

O que significam estas palavras neste contexto? Jesus quer dizer: sim, o encontro entre mim e os gregos acontecerá, mas não como simples e breve diálogo entre mim e algumas pessoas, estimuladas sobretudo pela curiosidade. Com a minha morte, comparável à queda na terra de um grão de trigo, chegará a hora da minha glorificação. A minha morte na cruz originará grande fecundidade: o “grão de trigo morto”, símbolo de mim crucificado, se tornará na ressurreição pão de vida para o mundo; será luz para os povos e para as culturas. Sim, o encontro com a alma grega, com o mundo grego, realizar-se-á naquela profundidade à qual faz alusão o episódio do grão de trigo que atrai para si as forças da terra e do céu e se torna pão. Em outras palavras, Jesus profetiza a Igreja dos gregos, a Igreja dos pagãos, a Igreja do mundo como fruto da sua Páscoa.

Tradições muito antigas veem em André, que transmitiu aos gregos esta palavra, não só o intérprete de alguns gregos no encontro com Jesus agora recordado, mas consideram-no como apóstolo dos gregos nos anos que sucederam ao Pentecostes; fazem-nos saber que, no restante da sua vida, ele foi anunciador e intérprete de Jesus para o mundo grego. Pedro, seu irmão, de Jerusalém, passando por Antioquia, chegou a Roma para ali exercer a sua missão universal; André, ao contrário, foi o apóstolo do mundo grego: assim, eles são vistos, na vida e na morte, como verdadeiros irmãos, uma irmandade que se exprime simbolicamente no relacionamento especial das Sedes de Roma e de Constantinopla, Igrejas verdadeiramente irmãs.

Uma tradição posterior, como foi mencionado, narra a morte de André em Patrasso, onde também ele sofreu o suplício da crucifixão. Mas, naquele momento supremo, de modo análogo ao do irmão Pedro, ele pediu para ser colocado numa cruz diferente da de Jesus. No seu caso tratou-se de uma cruz decussada, isto é, cruzada transversalmente e inclinada, que por isso foi chamada “cruz de Santo André”.

Eis o que o Apóstolo dissera naquela ocasião, segundo uma antiga narração (início do século VI) intitulada Paixão de André: “Salve, ó Cruz, inaugurada por meio do corpo de Cristo e que se tornou adorno dos seus membros, como se fossem pérolas preciosas. Antes que o Senhor fosse elevado sobre ti, tu incutias um temor terreno. Agora, ao contrário, dotada de um amor celeste, és recebida como um dom. Os crentes sabem, a teu respeito, quanta alegria possuis, quantos dons tens preparados. Portanto, certo e cheio de alegria venho a ti, para que também tu me recebas exultante como discípulo daquele que em ti foi suspenso..Ó Cruz bem-aventurada, que recebestes a majestade e a beleza dos membros do Senhor! ... Toma-me e leva-me para longe dos homens e entrega-me ao meu Mestre, para que por teu intermédio me receba quem por ti me redimiu. Salve, ó Cruz; sim, salve verdadeiramente!”.

Como se vê, há aqui uma profundíssima espiritualidade cristã, que vê na Cruz não tanto um instrumento de tortura, mas, ao contrário, o meio incomparável de uma plena assimilação ao Redentor, ao grão de trigo que caiu na terra. Nós devemos aprender com isso uma lição muito importante: as nossas cruzes adquirem valor se forem consideradas e aceitas como parte da cruz de Cristo, se forem alcançadas pelo reflexo da sua luz. Somente daquela Cruz também os nossos sofrimentos são enobrecidos e adquirem o seu verdadeiro sentido.

Portanto, o apóstolo André ensina-nos a seguir Jesus com prontidão (cf. Mt 4, 20; Mc 1, 18), a falar com entusiasmo dele a quantos encontramos e, sobretudo, a cultivar com Ele um relacionamento de verdadeira familiaridade, bem conscientes de que somente nele podemos encontrar o sentido último da nossa vida e da nossa morte.

12. Tiago, o maior

Quarta-feira, 21 de junho de 2006

Queridos irmãos e irmãs!

Prosseguimos a série de retratos dos Apóstolos escolhidos diretamente por Jesus durante a sua vida terrena. Falamos de São Pedro e de seu irmão, André. Encontramos hoje a figura de Tiago.

As listas bíblicas dos Doze mencionam duas pessoas com este nome: Tiago, filho de Zebedeu, e Tiago, filho de Alfeu (cf. Mc 3, 17.18; Mt 10, 2-3), que são usualmente distinguidos com os nomes de Tiago, o Maior e Tiago, o Menor. Sem dúvida, estas designações não querem medir a sua santidade, mas apenas distinguir o destaque que eles recebem nos escritos do Novo Testamento e, em particular, no contexto da vida terrena de Jesus. Hoje dedicamos a nossa atenção à primeira destas duas personagens homônimas.

O nome Tiago é a tradução de Iákobos, forma helenizada do nome do célebre patriarca Jacó. O apóstolo assim chamado é irmão de João e, nas listas acima mencionadas, ocupa o segundo lugar logo depois de Pedro, como em Marcos (cf. Mc 3, 17), ou o terceiro lugar depois de Pedro e André no Evangelho de Mateus (cf. Mt 10, 2) e de Lucas (cf. Lc 6, 14), enquanto que nos Atos vem depois de Pedro e de João (cf. At 1, 13). Este Tiago pertence, juntamente com Pedro e João, ao grupo dos três discípulos privilegiados que foram admitidos por Jesus em momentos importantes da sua vida.

Como está muito calor, gostaria de abreviar e mencionar aqui apenas duas destas ocasiões. Ele pôde participar, juntamente com Pedro e João, no momento da agonia de Jesus no Horto do Getsêmani e no acontecimento da Transfiguração de Jesus. Trata-se, portanto, de situações muito diversas uma da outra: num caso, Tiago, com os outros dois Apóstolos, experimenta a glória do Senhor, vê-o no diálogo com Moisés e Elias, vê transparecer o esplendor divino de Jesus; no outro, encontra-se diante do sofrimento e da humilhação, vê com os próprios olhos como o Filho de Deus se humilha tornando-se obediente até a morte.

Certamente a segunda experiência constitui para ele a ocasião de um amadurecimento na fé, para corrigir a interpretação unilateral, triunfalista, da primeira: ele teve que perceber que o Messias, esperado pelo povo judeu como um triunfador, na realidade não era apenas cercado de honra e de glória, mas também de sofrimentos e fraqueza. A glória de Cristo realiza-se precisamente na Cruz, na participação dos nossos sofrimentos.

Este amadurecimento da fé foi realizado pelo Espírito Santo no Pentecostes, de forma que Tiago, quando chegou o momento do testemunho supremo, não recuou. No início dos anos 40 do século I, o rei Herodes Agripa, neto de Herodes, o Grande, como nos informa Lucas, “maltratou alguns membros da Igreja. Mandou matar Tiago, irmão de João, à espada” (At 12, 1-2). A notícia, tão breve e desprovida de qualquer detalhe narrativo, revela, por um lado, quanto era normal para os cristãos testemunhar o Senhor com a própria vida e, por outro, como Tiago ocupava uma posição de destaque na Igreja de Jerusalém, também devido ao papel desempenhado durante a vida terrena de Jesus.

Uma tradição posterior, que remonta pelo menos a Isidoro de Sevilha, fala de uma sua estada na Espanha para evangelizar aquela importante região do Império Romano. Segundo outra tradição, ao contrário, o seu corpo teria sido transportado para a Espanha, para a cidade de Santiago de Compostela.

Como todos sabemos, aquele lugar tornou-se objeto de grande veneração e ainda hoje é destino de numerosas peregrinações, não só da Europa, mas de todo o mundo. É assim que se explica a representação iconográfica de São Tiago, que tem na mão o cajado do peregrino e o rolo do Evangelho, típicos do apóstolo itinerante e dedicado ao anúncio da “boa nova”, características da peregrinação da vida cristã.

Portanto, de São Tiago podemos aprender muitas coisas: a abertura para aceitar a chamada do Senhor também quando nos pede que deixemos a “barca” das nossas seguranças humanas, o entusiasmo em segui-lo pelos caminhos que Ele nos indica além de qualquer presunção ilusória, a disponibilidade para testemunhá-lo com coragem, se for necessário, até o sacrifício supremo da vida. Assim, Tiago, o Maior, apresenta-se diante de nós como exemplo eloquente de adesão generosa a Cristo. Ele, que inicialmente tinha pedido, por meio de sua mãe, para se sentar com o irmão ao lado do Mestre no seu Reino, foi precisamente o primeiro a beber o cálice da paixão, a partilhar com os Apóstolos o martírio.

E, no final, resumindo tudo, podemos dizer que o caminho não só exterior, mas sobretudo interior, do monte da Transfiguração ao monte da agonia simboliza toda a peregrinação da vida cristã, entre as perseguições do mundo e os confortos de Deus, como diz o Concílio Vaticano II. Seguindo Jesus como São Tiago, sabemos que, também nas dificuldades, seguimos o caminho certo.

13. Tiago, o menor

Quarta-feira, 28 de junho de 2006

Queridos irmãos e irmãs!

Ao lado da figura de Tiago “o Maior”, filho de Zebedeu, da qual falamos na quarta-feira passada, nos Evangelhos aparece outro Tiago, que é chamado “o Menor”. Também ele faz parte das listas dos doze Apóstolos escolhidos pessoalmente por Jesus, e é sempre identificado como “filho de Alfeu” (cf. Mt 10, 3; Mc 3, 18; Lc 5; At 1, 13). Com frequência ele foi identificado com outro Tiago, chamado “o Menor” (cf. Mc 15, 40), filho de uma Maria (cf. ibid.), que poderia ser a “Maria de Cléofas”, presente, segundo o Quarto Evangelho, aos pés da Cruz juntamente com a Mãe de Jesus (cf. Jo 19, 25).

Também ele era natural de Nazaré e provavelmente parente de Jesus (cf. Mt 13, 55; Mc 6, 3), do qual, à maneira semítica, é considerado “irmão” (cf. Mc 6, 3; Gl 1, 19). Deste último Tiago, o livro dos Atos destaca o papel de destaque desempenhado na Igreja de Jerusalém. No Concílio apostólico ali celebrado depois da morte de Tiago, o Maior, afirmou juntamente com os outros que os pagãos podiam ser acolhidos na Igreja sem antes terem que se submeter à circuncisão (cf. At 15, 13).

São Paulo, que lhe atribui uma aparição específica do Ressuscitado (cf. 1Cor 15, 7), por ocasião de sua ida a Jerusalém menciona-o inclusive antes de Cefas-Pedro, qualificando-o como “coluna” daquela Igreja, assim como ele (cf. Gl 2, 9). Em seguida, os judeus-cristãos consideraram-no seu principal ponto de referência. A ele também é atribuída a Carta que leva o nome de Tiago e que está incluída no cânon neotestamentário. Ele não se apresenta nela como “irmão do Senhor”, mas como “servo de Deus e do Senhor Jesus Cristo” (Tg 1, 1).

Entre os estudiosos, debate-se a questão da identificação destas duas personagens com o mesmo nome: Tiago, filho de Alfeu, e Tiago, “irmão do Senhor”. As tradições evangélicas não nos conservaram nenhuma narrativa sobre um nem sobre o outro referente ao período da vida terrena de Jesus. Os Atos dos Apóstolos, ao contrário, mostram-nos que um “Tiago” desempenhou um papel importante, como já mencionamos, depois da ressurreição de Jesus, na Igreja primitiva (cf. At 12, 17; 15, 13-21; 21, 18).

O ato mais relevante por ele realizado foi a intervenção na questão do difícil relacionamento entre os cristãos de origem judaica e os de origem pagã: nisso ele contribuiu, juntamente com Pedro, para superar, ou melhor, integrar a dimensão originária judaica do cristianismo com a exigência de não impor aos pagãos convertidos a obrigação de se submeterem a todas as normas da Lei de Moisés.

O livro dos Atos preservou-nos a solução de compromisso proposta precisamente por Tiago e aceita por todos os Apóstolos presentes, segundo a qual aos pagãos que acreditassem em Jesus Cristo se devia pedir apenas que se abstivessem do uso idolátrico de comer carne de animais oferecidos em sacrifício aos deuses e da “impureza sexual”, palavra que provavelmente se referia às uniões matrimoniais não permitidas. Na prática, tratava-se de aderir apenas a algumas proibições, consideradas bastante importantes, da legislação mosaica.

Deste modo, obtiveram-se dois resultados significativos e complementares, ambos ainda hoje válidos: por um lado, reconheceu-se a relação inseparável que une o cristianismo à religião hebraica como sua marca permanentemente viva e válida; por outro, permitiu-se que os cristãos de origem pagã conservassem sua própria identidade sociológica, que teriam perdido se tivessem sido obrigados a observar os chamados “preceitos cerimoniais” mosaicos: eles já não deviam ser considerados obrigatórios para os pagãos convertidos.

Em resumo, iniciava-se uma prática de estima e respeito recíprocos que, apesar das lamentáveis incompreensões posteriores, tinha por sua própria natureza a finalidade de preservar tudo o que caracterizava cada uma das duas partes.

A informação mais antiga sobre a morte deste Tiago é-nos oferecida pelo historiador judeu Flávio Josefo. Nas suas Antiguidades Judaicas (20, 201s), redigidas em Roma por volta do ano 93, ele narra que o fim de Tiago foi decidido por uma iniciativa ilegítima do sumo sacerdote Anano, filho de Anás, mencionado nos Evangelhos, o qual aproveitou o intervalo entre a destituição de um procurador romano (Festo) e a chegada de seu sucessor (Albino) para decretar sua lapidação no ano 62.

Em nome deste Tiago, além do apócrifo Protoevangelho de Tiago, que exalta a santidade e a virgindade de Maria, Mãe de Jesus, está particularmente relacionada a Carta que leva seu nome. No cânon do Novo Testamento ela ocupa o primeiro lugar entre as chamadas “Cartas católicas”, isto é, destinadas não a uma única Igreja particular — como Roma, Éfeso etc. —, mas a muitas Igrejas. Trata-se de um escrito bastante importante, que insiste muito na necessidade de não reduzir a própria fé a uma mera declaração verbal ou abstrata, mas de expressá-la concretamente em obras de bem.

Entre outras coisas, ele nos convida à perseverança nas provações alegremente aceitas e à oração confiante para obter de Deus o dom da sabedoria, graças ao qual chegamos à compreensão de que os verdadeiros valores da vida não consiste nas riquezas passageiras, mas antes em saber compartilhar os próprios bens com os pobres e necessitados (cf. Tg 1, 27).

Assim, a Carta de São Tiago mostra-nos um cristianismo muito concreto e prático. A fé deve realizar-se na vida, sobretudo no amor ao próximo e, particularmente, no compromisso com os pobres. É com base nisso que deve ser lida também a famosa frase: “Assim como o corpo sem espírito está morto, assim também a fé sem obras está morta” (Tg 2, 26).

Por vezes esta declaração de Tiago foi contraposta às afirmações de Paulo, segundo as quais somos justificados por Deus não em virtude das nossas obras, mas graças à nossa fé (cf. Gl 2, 16; Rm 3, 28). Contudo, as duas afirmações, aparentemente contraditórias em suas diferentes perspectivas, na realidade, se forem bem interpretadas, completam-se. São Paulo opõe-se ao orgulho do homem que pensa não precisar do amor de Deus, que sempre nos precede; opõe-se ao orgulho da autojustificação, sem a graça gratuitamente concedida e não merecida. Ao contrário, São Tiago fala das obras como fruto natural da fé: “A árvore boa produz bons frutos”, diz o Senhor (Mt 7, 17). E São Tiago repete e transmite-nos esse ensinamento.

Por fim, a Carta de Tiago exorta-nos a abandonar-nos nas mãos de Deus em tudo o que fazemos, pronunciando sempre as palavras: “Se o Senhor quiser” (Tg 4, 15). Assim, ele nos ensina a não presumirmos que planejamos a nossa vida de modo autônomo e interessado, mas a dar espaço à vontade insondável de Deus, que conhece o verdadeiro bem para nós. Desta forma, São Tiago permanece um mestre de vida sempre atual para cada um de nós.

14. João, filho de Zebedeu

Quarta-feira, 5 de julho de 2006

Queridos irmãos e irmãs!

Dedicamos o encontro de hoje à recordação de outro membro muito importante do colégio apostólico: João, filho de Zebedeu e irmão de Tiago. O seu nome, tipicamente judaico, significa “o Senhor fez a graça”. Estava consertando as redes na margem do lago de Tiberíades quando Jesus o chamou, juntamente com o irmão (cf. Mt 4, 21; Mc 1, 19).

João pertence também ao grupo restrito que Jesus chama em determinadas ocasiões. Está com Pedro e com Tiago quando Jesus, em Cafarnaum, entra na casa de Pedro para curar sua sogra (cf. Mc 1, 29); com os outros dois segue o Mestre à casa de Jairo, chefe da sinagoga, cuja filha será trazida de volta à vida (cf. Mc 5, 37); segue-o quando sobe ao monte para ser transfigurado (cf. Mc 9, 2); está ao lado dele no Monte das Oliveiras quando, diante da imponência do Templo de Jerusalém, pronuncia o discurso sobre o fim da cidade e do mundo (cf. Mc 13, 3); e, finalmente, está ao seu lado quando, no Horto do Getsêmani, se retira para rezar ao Pai antes da Paixão (cf. Mc 14, 33). Pouco antes da Páscoa, quando Jesus escolhe dois discípulos para enviar a preparar a sala para a Ceia, confia a ele e a Pedro essa tarefa (cf. Lc 22, 8).

Essa sua posição de destaque no grupo dos Doze torna, de certa forma, compreensível a iniciativa tomada um dia por sua mãe: ela aproximou-se de Jesus para lhe pedir que os dois filhos, precisamente João e Tiago, pudessem sentar-se um à sua direita e outro à sua esquerda no Reino (cf. Mt 20, 20-21). Como sabemos, Jesus respondeu fazendo, por sua vez, uma pergunta: quis saber se eles estavam dispostos a beber do cálice que ele mesmo estava para beber (cf. Mt 20, 22). A intenção por trás dessas palavras era despertar os dois discípulos, introduzi-los no conhecimento do mistério da sua pessoa e levá-los a refletir sobre o futuro chamado para serem suas testemunhas até a prova suprema do sangue. De fato, pouco depois Jesus esclareceu que não veio para ser servido, mas para servir e dar a própria vida em resgate por muitos (cf. Mt 20, 28). Nos dias seguintes à ressurreição, encontramos “os filhos de Zebedeu” trabalhando com Pedro e outros discípulos em uma noite de pesca sem resultado, à qual se segue, pela intervenção do Ressuscitado, a pesca milagrosa: será “o discípulo que Jesus amava” quem reconhecerá primeiro “o Senhor” e o indicará a Pedro (cf. Jo 21, 1-13).

Na Igreja de Jerusalém, João ocupou um lugar de destaque na liderança do primeiro grupo de cristãos. De fato, estava incluído entre aqueles que São Paulo chama de “colunas” daquela comunidade (cf. Gl 2, 9). Nos Atos dos Apóstolos, Lucas o apresenta juntamente com Pedro quando vão orar no Templo (cf. At 3, 1-4.11) ou quando comparecem diante do Sinédrio para testemunhar sua fé em Jesus Cristo (cf. At 4, 13.19). Juntamente com Pedro, é enviado pela Igreja de Jerusalém para confirmar aqueles que, na Samaria, aceitaram o Evangelho, impondo-lhes as mãos para que recebessem o Espírito Santo (cf. At 8, 14-15). Em particular, deve-se recordar o que afirma, juntamente com Pedro, diante do Sinédrio que os estava julgando: “Quanto a nós, não podemos deixar de falar do que vimos e ouvimos” (At 4, 20). Precisamente essa coragem em confessar a própria fé permanece como exemplo e advertência para todos nós, para estarmos sempre prontos a declarar com firmeza a nossa inabalável adesão a Cristo, colocando a fé acima de qualquer cálculo ou interesse humano.

Segundo a tradição, João é “o discípulo amado”, que, no Quarto Evangelho, reclina a cabeça sobre o peito do Mestre durante a Última Ceia (cf. Jo 13, 21), encontra-se aos pés da Cruz juntamente com a Mãe de Jesus (cf. Jo 19, 25) e, por fim, é testemunha tanto do túmulo vazio quanto da própria presença do Ressuscitado (cf. Jo 20, 2; 21, 7).

Sabemos que essa identificação hoje é debatida pelos estudiosos, alguns dos quais veem nele simplesmente o modelo do discípulo de Jesus. Deixando aos exegetas a tarefa de resolver a questão, contentamo-nos em acolher uma lição importante para a nossa vida: o Senhor deseja fazer de cada um de nós um discípulo que vive uma amizade pessoal com Ele. Para realizar isso, não basta segui-lo e ouvi-lo exteriormente; é preciso também viver com Ele e como Ele. Isso só é possível no contexto de uma relação de grande intimidade, repleta do calor de uma confiança total. Por isso, um dia Jesus disse: “Ninguém tem amor maior do que aquele que dá a vida por seus amigos... Já não vos chamo servos, porque o servo não sabe o que faz o seu senhor. Eu vos chamo amigos, porque vos dei a conhecer tudo o que ouvi de meu Pai” (Jo 15, 13.15).

Nos apócrifos Atos de João, o Apóstolo é apresentado não como fundador de Igrejas nem sequer como líder de comunidades já constituídas, mas em contínua missão itinerante como anunciador da fé no encontro com “almas capazes de ter esperança e de ser salvas” (18, 10; 10, 8).

Tudo é movido pela intenção paradoxal de tornar visível o invisível. De fato, ele é chamado pela Igreja oriental simplesmente de “o Teólogo”, isto é, aquele que é capaz de falar das coisas divinas em termos acessíveis, revelando um misterioso acesso a Deus mediante a adesão a Jesus. O culto a João Apóstolo consolidou-se a partir da cidade de Éfeso, onde, segundo uma antiga tradição, trabalhou durante muito tempo, falecendo ali em idade muito avançada, sob o imperador Trajano. Em Éfeso, o imperador Justiniano, no século VI, mandou construir em sua honra uma grande basílica, da qual ainda permanecem imponentes ruínas. Precisamente no Oriente ele gozou — e ainda goza — de grande veneração. Na iconografia bizantina é representado com frequência já muito idoso; segundo a tradição, morreu sob o imperador Trajano em profunda contemplação, quase na atitude de quem convida ao silêncio.

De fato, sem um adequado recolhimento não é possível aproximar-se do mistério supremo de Deus e da sua revelação. Isso explica por que, há anos, o Patriarca Ecumênico de Constantinopla, Atenágoras, aquele que o Papa Paulo VI abraçou em um memorável encontro, afirmou: “João está na origem da nossa mais alta espiritualidade. Como ele, os ‘silenciosos’ conhecem aquele misterioso intercâmbio dos corações; invocando a presença de João, o seu coração inflama-se” (O. Clément, Diálogos com Atenágoras, Turim, 1972, p. 159). Que o Senhor nos ajude a colocar-nos na escola de João para aprender a grande lição do amor, de modo que nos sintamos amados por Cristo “até o fim” (Jo 13, 1) e empreguemos a nossa vida por Ele.

15. João, o teólogo

Quarta-feira, 9 de agosto de 2006

Queridos irmãos e irmãs!

Antes das férias eu tinha começado a fazer pequenos retratos dos doze Apóstolos. Os Apóstolos eram companheiros de vida de Jesus, amigos de Jesus, e este caminho deles com Jesus não era só um caminho exterior, da Galileia a Jerusalém, mas um caminho interior no qual aprenderam a fé em Jesus Cristo, não sem dificuldades, porque eram homens como nós. Mas, precisamente por isso, porque eram companheiros de vida de Jesus, amigos de Jesus que, num caminho não fácil, aprenderam a fé, são também guias para nós, que nos ajudam a conhecer Jesus Cristo, a amá-lo e a ter fé nele.

Eu já tinha falado sobre quatro dos doze Apóstolos: de Simão Pedro, do seu irmão André, de Tiago, o irmão de São João, e do outro Tiago, chamado “o Menor”, que escreveu uma Carta que encontramos no Novo Testamento. E eu tinha começado a falar de João, o evangelista, mencionando na última audiência antes das férias os dados essenciais que traçam o perfil deste Apóstolo. Agora gostaria de concentrar a atenção no conteúdo do seu ensinamento. Por conseguinte, os escritos dos quais hoje desejamos tratar são o Evangelho e as Cartas que têm o seu nome.

Se existe um assunto característico que mais sobressai nos escritos de João, é o amor. Não foi por acaso que quis iniciar a minha primeira Carta encíclica com as palavras deste Apóstolo: “Deus é amor (Deus caritas est); quem permanece no amor permanece em Deus e Deus permanece nele” (1Jo 4,16). É muito difícil encontrar textos desse tipo em outras religiões. Portanto, tais expressões colocam-nos diante de uma realidade verdadeiramente peculiar do cristianismo.

Certamente João não é o único autor das origens cristãs que fala do amor. Sendo este um elemento essencial do cristianismo, todos os escritores do Novo Testamento falam dele, ainda que com diferentes ênfases. Se agora nos detemos para refletir sobre este tema em João, é porque ele nos apresentou, com insistência e de modo incisivo, suas linhas principais. Portanto, confiemo-nos às suas palavras.

Uma coisa é certa: ele não reflete de modo abstrato, filosófico ou até teológico sobre o que é o amor. Não, ele não é um teórico. De fato, o verdadeiro amor, por sua natureza, nunca é meramente especulativo, mas faz referência direta, concreta e verificável a pessoas reais. Pois bem, João, como apóstolo e amigo de Jesus, mostra-nos quais são os componentes, ou melhor, as etapas do amor cristão, um movimento caracterizado por três momentos.

O primeiro refere-se à própria fonte do amor, que o Apóstolo situa em Deus, chegando, como ouvimos, a afirmar que “Deus é amor” (1Jo 4,8.16). João é o único autor do Novo Testamento que nos dá uma espécie de definição de Deus. Ele diz, por exemplo, que “Deus é Espírito” (Jo 4,24) ou que “Deus é luz” (1Jo 1,5). Aqui proclama, com intuição resplandecente, que “Deus é amor”. Observe-se bem: não é simplesmente afirmado que “Deus ama”, nem sequer que “o amor é Deus”! Em outras palavras, João não se limita a descrever a ação divina, mas vai até as suas raízes.

Além disso, não pretende atribuir uma qualidade a um amor genérico e talvez impessoal; não parte do amor para chegar a Deus, mas dirige-se diretamente a Deus para definir a sua natureza com a dimensão infinita do amor. Com isso, João quer dizer que o elemento constitutivo essencial de Deus é o amor e, portanto, toda a ação de Deus nasce do amor e está orientada para o amor: tudo o que Deus faz é por amor, mesmo que nem sempre possamos compreender imediatamente que Ele é amor, o verdadeiro amor.

Mas, neste ponto, é indispensável dar um passo à frente e esclarecer que Deus demonstrou concretamente o seu amor entrando na história humana por meio da pessoa de Jesus Cristo, que encarnou, morreu e ressuscitou por nós. Este é o segundo momento constitutivo do amor de Deus. Ele não se limitou às declarações verbais, mas, podemos dizer, comprometeu-se verdadeiramente e “pagou” em primeira pessoa. Como escreve precisamente João: “Deus amou tanto o mundo (isto é: todos nós), que deu o seu Filho Unigênito” (Jo 3,16). Agora, o amor de Deus pelos homens concretiza-se e manifesta-se no amor do próprio Jesus.

João escreve ainda: Jesus, “tendo amado os seus que estavam no mundo, amou-os até o fim” (Jo 13,1). Em virtude deste amor oblativo e total, somos radicalmente resgatados do pecado, como escreve ainda São João: “Filhinhos meus... se alguém pecar, temos junto do Pai um Advogado, Jesus Cristo, o Justo. Ele é a vítima de expiação pelos nossos pecados, e não somente pelos nossos, mas também pelos de todo o mundo” (1Jo 2,1-2; cf. 1Jo 1,7).

Eis até onde chegou o amor de Jesus por nós: até o derramamento do próprio sangue para a nossa salvação! O cristão, detendo-se em contemplação diante deste “excesso” de amor, não pode deixar de refletir sobre qual deve ser a sua resposta. E penso que, sempre de novo, cada um de nós deve interrogar-se sobre isso.

Esta pergunta introduz-nos no terceiro momento da dinâmica do amor: de destinatários receptivos de um amor que nos precede e nos envolve, somos chamados ao compromisso de uma resposta ativa, que, para ser adequada, só pode ser uma resposta de amor. João fala de um “mandamento”. De fato, ele transmite estas palavras de Jesus: “Eu vos dou um novo mandamento: amai-vos uns aos outros. Assim como eu vos amei, também vós deveis amar-vos uns aos outros” (Jo 13,34).

Onde está a novidade à qual Jesus se refere? Ela consiste no fato de que não se contenta em repetir o que já era exigido no Antigo Testamento e que lemos nos outros Evangelhos: “Amarás o teu próximo como a ti mesmo” (Lv 19,18; cf. Mt 22,37-39; Mc 12,29-31; Lc 10,27). No antigo preceito, o critério normativo era tomado do próprio homem (“como a ti mesmo”), enquanto, no preceito mencionado por João, Jesus apresenta como motivo e norma do nosso amor a sua própria pessoa: “Assim como eu vos amei”.

É assim que o amor se torna verdadeiramente cristão, trazendo em si a novidade do cristianismo: tanto no sentido de que deve dirigir-se a todos, sem distinção, quanto no sentido de que deve chegar até às últimas consequências, tendo como única medida o amor sem limites.

Aquelas palavras de Jesus, “Assim como eu vos amei”, convidam-nos e, ao mesmo tempo, desafiam-nos; são uma meta cristológica que pode parecer inalcançável, mas são também um estímulo que não nos permite acomodar-nos ao que conseguimos realizar. Não permitem que nos contentemos com o que somos, mas estimulam-nos a permanecer a caminho rumo a essa meta.

Aquele texto clássico da espiritualidade, que é o pequeno livro do final da Idade Média intitulado Imitação de Cristo, escreve a esse propósito: “O nobre amor de Jesus estimula-nos a realizar grandes coisas e a desejar coisas sempre mais perfeitas. O amor quer elevar-se e não ser aprisionado por nenhuma baixeza. O amor quer ser livre e separado de qualquer apego mundano... De fato, o amor nasceu de Deus, e só pode repousar em Deus, acima de todas as coisas criadas. Quem ama voa, corre e se alegra; é livre, e nada o prende. Dá tudo a todos e tem tudo em todas as coisas, porque encontra repouso no Único grande que está acima de todas as coisas, do qual brota e procede todo bem” (Livro III, cap. 5).

Que comentário poderia ser melhor ao “mandamento novo”, anunciado por João? Peçamos ao Pai que possamos vivê-lo, ainda que sempre de modo imperfeito, com tanta intensidade que contagiemos todos aqueles que encontrarmos em nosso caminho.

16. João, o vidente de Patmos

Quarta-feira, 23 de agosto de 2006

Queridos irmãos e irmãs!

Na última catequese tínhamos chegado à meditação sobre a figura do Apóstolo João. Primeiro, tínhamos procurado ver quanto se pode saber da sua vida. Depois, numa segunda catequese, tínhamos meditado acerca do conteúdo central do seu Evangelho, das suas Cartas: a caridade, o amor. E hoje estamos ainda empenhados com a figura de João, desta vez para meditar sobre o Vidente do Apocalipse.

E fazemos imediatamente uma observação: enquanto nem o Quarto Evangelho nem as Cartas atribuídas ao Apóstolo trazem o seu nome, o Apocalipse faz referência ao nome de João por quatro vezes (cf. 1, 1.4.9; 22, 8). É evidente que o Autor, por um lado, não tinha nenhum motivo para não mencionar o próprio nome e, por outro, sabia que os seus primeiros leitores o podiam identificar claramente. Sabemos também que, já no século III, os estudiosos discutiam sobre a verdadeira identidade anagráfica do João do Apocalipse. Contudo, poderíamos também chamá-lo “o Vidente de Patmos”, porque a sua figura está ligada com o nome desta ilha do Mar Egeu, onde, segundo o seu próprio testemunho autobiográfico, ele se encontrava exilado “por causa da palavra de Deus e do testemunho de Jesus” (Ap 1, 9).

Precisamente em Patmos, “no dia do Senhor, o espírito arrebatou-me” (Ap 1, 10), João teve visões grandiosas e ouviu mensagens extraordinárias, que influenciarão bastante a história da Igreja e toda a cultura cristã. Por exemplo, do título do seu livro Apocalipse, Revelação foram introduzidas na nossa linguagem as palavras “apocalipse, apocalíptico”, que recordam, embora de modo impróprio, a ideia de uma catástrofe iminente.

O livro deve ser compreendido no quadro da dramática experiência das sete Igrejas da Ásia (Éfeso, Esmirna, Pérgamo, Tiatira, Sardes, Filadélfia, Laodicéia), que no final do século I tiveram que enfrentar grandes dificuldades**,** perseguições e tensões também internas no seu testemunho a Cristo. João dirige-se a elas mostrando profunda sensibilidade pastoral em relação aos cristãos perseguidos, que ele exorta a permanecer firmes na fé e a não se identificarem com o mundo pagão, tão forte. O seu objeto é constituído pela revelação, a partir da morte e ressurreição de Cristo, do sentido da história humana.

De fato, a primeira e fundamental visão de João refere-se à figura do Cordeiro, que é imolado, mas que está de pé (cf. Ap 5, 6), colocado no meio do trono onde já está sentado o próprio Deus. Com isto, João quer dizer-nos antes de tudo duas coisas: a primeira é que Jesus, mesmo tendo sido morto com um ato de violência, em vez de cair no chão, paradoxalmente está bem firme sobre os seus pés, porque com a ressurreição venceu definitivamente a morte; a outra é que o próprio Jesus, precisamente porque morto e ressuscitado, já é plenamente partícipe do poder real e salvífico do Pai.

Esta é a visão fundamental. Jesus, o Filho de Deus, nesta terra é um Cordeiro indefeso, ferido, morto. E, contudo, está erguido, de pé, está diante do trono de Deus e é partícipe do poder divino. Ele tem nas suas mãos a história do mundo. E assim o Vidente quer dizer-nos: “tenham confiança em Jesus, não tenham medo dos poderes contrastantes, da perseguição! O Cordeiro ferido e morto vence! Sigam o Cordeiro Jesus, confiem em Jesus, caminhem pelo seu caminho! Mesmo se neste mundo é só um Cordeiro que parece frágil, é Ele o vencedor!”

Uma das principais visões do Apocalipse tem por objeto este Cordeiro no ato de abrir um livro, primeiro fechado com sete selos que ninguém tinha sido capaz de abrir. João é inclusive apresentado no gesto de abrir o livro e de o ler (cf. Ap 5, 4). A história permanece indecifrável, incompreensível. Ninguém a pode ler. Talvez este pranto de João diante do mistério da história tão obscuro expresse a perturbação das Igrejas asiáticas pelo silêncio de Deus diante das perseguições a que estavam expostas naquele momento. É uma perturbação na qual se pode refletir bem o nosso horror diante das graves dificuldades, incompreensões e hostilidades que também hoje a Igreja sofre em várias partes do mundo. São sofrimentos que a Igreja sem dúvida não merece, assim como o próprio Jesus não mereceu esse suplício. Contudo eles revelam quer a maldade do homem, quando se abandona às sugestões do mal, quer a orientação superior dos acontecimentos por parte de Deus.

Pois bem, só o Cordeiro imolado é capaz de abrir o livro selado e de revelar o seu conteúdo, de dar sentido a esta história aparentemente com tanta frequência absurda. Só Ele pode tirar indicações e ensinamentos para a vida dos cristãos, aos quais a sua vitória sobre a morte traz o anúncio e a garantia da vitória que também eles sem dúvida obterão. Toda a linguagem intensamente imaginária da qual João se serve oferece este conforto.

No centro das visões que o Apocalipse expõe estão também aquelas muito significativas da Mulher que dá à luz um Filho varão, e a complementar do Dragão precipitado do céu, mas que ainda é muito poderoso. Esta Mulher representa Maria, a Mãe do Redentor, mas representa ao mesmo tempo toda a Igreja, o Povo de Deus de todos os tempos, a Igreja que em todos os tempos, com grande sofrimento, dá à luz Cristo sempre de novo. E está sempre ameaçada pelo poder do Dragão. Parece indefesa, frágil. Mas enquanto está ameaçada, perseguida pelo Dragão, está também protegida pela consolação de Deus. E esta Mulher no final vence. O Dragão não vence. Eis a grande profecia deste livro, que nos dá confiança! A Mulher que sofre na história, a Igreja que é perseguida no final torna-se a Esposa maravilhosa, figura da nova Jerusalém onde não há mais lágrimas nem pranto, imagem do mundo transformado, do novo mundo cuja luz é o próprio Deus, cuja lâmpada é o Cordeiro.

Por este motivo o Apocalipse de João, mesmo estando cheio de referências contínuas a sofrimentos, tribulações e pranto, a face obscura da história está de igual modo repleto de frequentes cantos de louvor, que representam a face luminosa da história. Assim, por exemplo, lê-se nele que uma grande multidão, que canta quase gritando: “Aleluia! O Senhor nosso Deus, o Todo-Poderoso, começou o seu reinado! Alegremo-nos, rejubilemos, demos-lhe glória, porque chegou a hora das núpcias do Cordeiro, a sua esposa já está pronta” (Ap 19, 6-7). Estamos diante do típico paradoxo cristão, segundo o qual o sofrimento nunca precipita como última palavra, mas é visto como ponto de passagem para a felicidade. Aliás, ele mesmo já está misteriosamente cheio da alegria que brota da esperança.

Precisamente por isto João, o Vidente de Patmos, pode encerrar o seu livro com uma última aspiração, palpitante de expectativa trepidante. Ela invoca a vinda do Senhor: “Venha, Senhor Jesus!” (Ap 22, 20). É uma das orações centrais da cristandade nascente, traduzida também por São Paulo na forma aramaica: “Marana tha”. E esta oração “Venha, Senhor Jesus!” (1 Cor 16, 22) tem diversas dimensões. Naturalmente é antes de tudo expectativa da vitória definitiva do Senhor, da nova Jerusalém, do Senhor que vem e transforma o mundo. Mas, ao mesmo tempo, é também oração eucarística: “Venha, Jesus, agora!”. E Jesus vem, antecipa esta sua chegada definitiva. Assim com alegria dizemos ao mesmo tempo: “Venha agora e de modo definitivo!”. Esta oração tem também um terceiro significado: “Já viestes, Senhor! Temos a certeza da sua presença entre nós. É uma experiência jubilosa. “Mas venha de modo definitivo!”. E assim, com São Paulo, com o Vidente de Patmos, com a cristandade nascente, também nós rezamos: “Venha, Jesus! Venha e transforme o mundo! Venha já hoje e vença a paz!” Amém

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17. Mateus

Quarta-feira, 30 de agosto de 2006

Queridos irmãos e irmãs!

Prosseguindo a série de retratos dos doze Apóstolos, que começamos há algumas semanas, hoje vamos nos deter em Mateus. Na verdade, apresentar completamente a sua figura é quase impossível, porque as notícias que lhe dizem respeito são poucas e fragmentadas. Mas o que podemos fazer não é tanto um esboço da sua biografia, mas, ao contrário, o perfil que o Evangelho transmite.

Entretanto, Mateus está sempre presente nas listas dos Doze escolhidos por Jesus (cf. Mt 10, 3; Mc 3, 18; Lc 6, 15; At 1, 13). O seu nome hebraico significa “dom de Deus”. O primeiro Evangelho canônico, que tem o seu nome, apresenta-o na lista dos Doze com uma qualificação bem clara: “o publicano” (Mt 10, 3). Desta forma ele é identificado com o homem sentado no banco dos impostos, que Jesus chama ao seu seguimento: “Partindo dali, Jesus viu um homem chamado Mateus, sentado no posto de cobrança, e disse-lhe: ‘Segue-me!’. Ele levantou-se e o seguiu” (Mt 9, 9). Também Marcos (cf. 2, 13-17) e Lucas (cf. 5, 27-30) narram a chamada do homem sentado no posto de cobrança, mas chamam-no “Levi”. Para imaginar o cenário descrito em Mt 9, 9 é suficiente recordar a magnífica tela de Caravaggio, conservada aqui em Roma, na Igreja de São Luís dos Franceses.

Dos Evangelhos sobressai um outro pormenor biográfico: no trecho que precede imediatamente a narração da chamada é referido um milagre realizado por Jesus em Cafarnaum (cf. Mt 9, 1-8; Mc 2, 1-12) e é mencionada a proximidade do Mar da Galiléia, isto é, do Lago de Tiberíades (cf. Mc 2, 13-14). Disso pode deduzir-se que Mateus desempenhasse a função de cobrador em Cafarnaum, situada precisamente “à beira-mar” (Mt 4, 13), onde Jesus era hóspede fixo na casa de Pedro.

Com base nestas simples constatações que resultam do Evangelho podemos fazer algumas reflexões. A primeira é que Jesus acolhe no grupo dos seus íntimos um homem que, segundo as concepções em vigor em Israel naquele tempo, era considerado um pecador público. De fato, Mateus não só administrava dinheiro considerado impuro devido à sua procedência de pessoas estranhas ao povo de Deus, mas colaborava também com uma autoridade estrangeira odiosamente ávida, cujos tributos podiam ser determinados também de modo arbitrário. Por estes motivos, mais de uma vez os Evangelhos falam conjuntamente de “publicanos e pecadores” (Mt 9, 10; Lc 15, 1), de “publicanos e prostitutas” (Mt 21, 31). Além disso, veem nos publicanos um exemplo de mesquinhez (cf. Mt 5, 46: amam os que os amam) e mencionam um deles, Zaqueu, como “chefe dos publicanos e rico” (Lc 19, 2), enquanto a opinião popular os associava a “ladrões, injustos, adúlteros” (Lc 18, 11).

Ressalta-se um primeiro dado com base nestes elementos: Jesus não exclui ninguém da própria amizade. Ao contrário, precisamente porque se encontra à mesa em casa de Mateus-Levi, em resposta aos que falavam de escândalo pelo fato de ele frequentar companhias pouco recomendáveis, pronuncia a importante declaração: “Não são os que têm saúde que precisam de médico, mas sim os enfermos. Eu não vim chamar os justos, mas os pecadores” (Mc 2, 17).

O bom anúncio do Evangelho consiste precisamente nisto: na oferta da graça de Deus ao pecador! Em outro texto, com a célebre parábola do fariseu e do publicano que foram ao Templo para rezar, Jesus indica inclusive um anônimo publicano como exemplo apreciável de confiança humilde na misericórdia divina: enquanto o fariseu se vangloria da própria perfeição moral, “o cobrador de impostos... nem sequer ousava levantar os olhos para o céu, mas batia no peito, dizendo: ‘Ó Deus, tem piedade de mim, que sou pecador’”. E Jesus comenta: “Digo-vos: Este voltou justificado para sua casa, e o outro não. Porque todo aquele que se exalta será humilhado, e quem se humilha será exaltado” (Lc 18, 13-14). Na figura de Mateus, portanto, os Evangelhos propõem-nos um verdadeiro paradoxo: quem aparentemente está afastado da santidade pode até tornar-se um modelo de acolhimento da misericórdia de Deus e deixar entrever os seus maravilhosos efeitos na própria existência.

Em relação a isto, São João Crisóstomo faz uma significativa observação: ele observa que só na narração de algumas chamadas se menciona o trabalho que as pessoas em questão desempenhavam. Pedro, André, Tiago e João são chamados quando estão pescando, Mateus precisamente quando cobra os impostos. Trata-se de trabalhos de pouca importância — comenta Crisóstomo — “porque não há nada mais detestável do que um cobrador de impostos e nada de mais comum do que a pesca” (In Matth. Hom.: PL 57, 363). A chamada de Jesus chega, portanto, também a pessoas de baixo nível social, enquanto desempenham o trabalho cotidiano.

Outra reflexão, que provém da narração evangélica, é que, à chamada de Jesus, Mateus responde imediatamente: “ele levantou-se e o seguiu”. A concisão da frase ressalta claramente a prontidão de Mateus ao responder à chamada. Isso significava para ele o abandono de todas as coisas, sobretudo do que lhe garantia uma fonte de lucro seguro, embora muitas vezes injusto e desonesto. Evidentemente Mateus compreendeu que a familiaridade com Jesus não lhe permitia perseverar em atividades desaprovadas por Deus.

Percebe-se facilmente a aplicação ao presente: também hoje não é admissível o apego a coisas incompatíveis com o seguimento de Jesus, como é o caso das riquezas desonestas. Certa vez Ele disse sem rodeios: “Se queres ser perfeito, vai, vende o que tens, dá o dinheiro aos pobres e terás um tesouro no Céu; depois, vem e segue-me” (Mt 19, 21). Foi precisamente isso que Mateus fez: levantou-se e o seguiu! Neste “levantar-se” é legítimo ver o abandono de uma situação de pecado e, ao mesmo tempo, a adesão consciente a uma existência nova, reta, na comunhão com Jesus.

Por fim, recordamos que a tradição da Igreja antiga concorda em atribuir a Mateus a autoria do primeiro Evangelho. Isso acontece já a partir de Papias, Bispo de Hierápolis, na Frígia, por volta do ano 130. Ele escreve: “Mateus reuniu as palavras (do Senhor) em língua hebraica, e cada um as interpretou como podia” (em Eusébio de Cesareia, Hist. eccl. III, 39, 16). O historiador Eusébio acrescenta esta notícia: “Mateus, que primeiro tinha pregado aos hebreus, quando decidiu ir também a outros povos, escreveu na sua língua materna o Evangelho por ele anunciado; assim, procurou substituir com a escrita, junto daqueles dos quais se separava, aquilo que eles perdiam com a sua partida” (ibid., III, 24, 6).

Já não temos o Evangelho escrito por Mateus em hebraico ou em aramaico, mas, no Evangelho grego que ainda continuamos a ouvir, de certa forma, a voz persuasiva do publicano Mateus que, tendo-se tornado Apóstolo, continua a anunciar-nos a misericórdia salvadora de Deus. Ouvimos esta mensagem de São Mateus e a meditamos sempre de novo para aprender também nós a levantar-nos e a seguir Jesus com determinação.

18. Felipe

Quarta-feira, 12 de setembro de 2006

Queridos irmãos e irmãs:

Ao seguir traçando o semblante dos diferentes apóstolos, como temos feito há algumas semanas, nos encontramos hoje com Felipe. Nas listas dos Doze, sempre aparece em quinto lugar (cf. Mt 10, 3; cf. Mc 3, 18; cf. Lc 6, 14; cf. At 1, 13), ou seja, fundamentalmente entre os primeiros.

Ainda que Felipe fosse de origem judaica, seu nome é grego, como o de André, o que constitui um pequeno gesto de abertura cultural que não podemos subestimar. As notícias que nos chegam dele procedem do Evangelho de João. Era do mesmo lugar de Pedro e André, ou seja, Betsaida (cf. Jo 1, 44), uma pequena cidade que pertencia à tetrarquia de um dos filhos de Herodes, o Grande, que também se chamava Felipe (cf. Lc 3, 1).

O quarto Evangelho conta que, depois de ter sido chamado por Jesus, Felipe se encontra com Natanael e lhe diz: “Esse de quem escreveram Moisés, na Lei, e também os profetas, nós encontramos: Jesus, o filho de José, de Nazaré” (Jo 1, 45). Diante da resposta mais cética de Natanael — “De Nazaré pode sair coisa boa?” —, Felipe não se rende e responde com decisão: “Vem e vê” (Jo 1, 46). Com esta resposta, seca mas clara, Felipe demonstra as características da autêntica testemunha: não se contenta em apresentar o anúncio como uma teoria, mas interpela diretamente o interlocutor, sugerindo-lhe que ele mesmo faça a experiência pessoal do anunciado. Jesus utiliza esses dois mesmos verbos quando dois discípulos de João Batista se aproximam dele para perguntar onde mora: Jesus respondeu: “Vinde e vede” (cf. Jo 1, 38-39).

Podemos pensar que Felipe nos interpela com esses dois verbos que supõem uma participação pessoal. Também a nós diz o que disse a Natanael: “Vem e vê”. O apóstolo nos chama a conhecer Jesus de perto. De fato, a amizade, conhecer verdadeiramente o outro, requer proximidade e, mais ainda, vive dela.

De fato, não podemos esquecer que, segundo escreve Marcos, Jesus escolheu os Doze com o objetivo primário de que “estivessem com ele” (Mc 3, 14), ou seja, de que compartilhassem a sua vida e aprendessem diretamente dele não só o estilo de seu comportamento, mas, antes de tudo, quem era Ele realmente. Só assim, participando de sua vida, podiam conhecê-lo e anunciá-lo.

Mais tarde, na carta de Paulo aos Efésios, pode ler-se que o importante é “o Cristo que vós aprendestes” (Ef 4, 20), ou seja, o importante não é só, nem sobretudo, escutar seus ensinamentos, suas palavras, mas conhecê-lo pessoalmente, isto é, a sua humanidade e divindade, o mistério da sua beleza. Ele não é só um Mestre, mas um Amigo e, mais do que isso, um Irmão. Como poderíamos conhecê-lo se estamos distantes dele? A intimidade, a familiaridade, o convívio nos fazem descobrir a verdadeira identidade de Jesus Cristo. Isto é precisamente o que nos recorda o apóstolo Felipe. Por isso, nos convida a “vir” e a “ver”, ou seja, a entrar em um contato de escuta, de resposta e de comunhão de vida com Jesus, dia após dia.

Por ocasião da multiplicação dos pães, ele recebeu de Jesus um pedido preciso, bastante surpreendente: onde era possível comprar o pão necessário para dar de comer a todas as pessoas que o seguiam (cf. Jo 6, 5). Então, Felipe respondeu com muito realismo: “Duzentos denários de pão não bastam para que cada um receba um pouco” (Jo 6, 7). Aqui se podem ver o realismo e o espírito prático do apóstolo, que sabe julgar as implicações de uma situação. Sabemos o que aconteceu depois. Sabemos que Jesus tomou os pães e, depois de ter rezado, os distribuiu. Desse modo, realizou a multiplicação dos pães. Mas é interessante o fato de que Jesus se dirigisse precisamente a Felipe para ter uma primeira impressão sobre a solução do problema: sinal evidente de que fazia parte do restrito grupo que o rodeava.

Em outro momento, muito importante para a história futura, antes da Paixão, alguns gregos que se encontravam em Jerusalém por ocasião da Páscoa “se dirigiram a Felipe e lhe rogaram: “Senhor, queremos ver Jesus”. Felipe foi dizer isso a André; André e Felipe foram dizer a Jesus” (Jo 12, 20-22). Mais uma vez, encontramos um indício de seu prestígio particular dentro do colégio apostólico. Neste caso, em particular, exerce a função de intermediário entre o pedido de alguns gregos — provavelmente falava grego e pôde ser o intérprete — e Jesus; ainda que se una a André, o outro apóstolo de nome grego, de qualquer forma os estrangeiros dirigem-se a ele. Isso nos ensina a estar, também nós, dispostos tanto a acolher os pedidos e invocações, venham de onde vierem, quanto a orientá-los para o Senhor, pois só Ele pode satisfazê-los plenamente. É importante, de fato, saber que não somos nós os destinatários finais dos pedidos de quem se aproxima, mas o Senhor. Temos que orientar para Ele quem se encontre em dificuldade. Cada um de nós tem que ser um caminho aberto para Ele!

Há outra oportunidade muito particular em que Felipe intervém. Durante a Última Ceia, depois de Jesus afirmar que conhecê-lo significa também conhecer o Pai (cf. Jo 14, 7), Felipe, quase ingenuamente, lhe pediu: “Senhor, mostra-nos o Pai e isso nos basta” (Jo 14, 8). Jesus lhe respondeu com um tom de benévola reprovação: “Há tanto tempo estou convosco e não me conheces, Felipe? Quem me viu, viu o Pai. Como tu dizes: “Mostra-nos o Pai”? Não crês que eu estou no Pai e o Pai está em mim? [...] Crê em mim: eu estou no Pai e o Pai está em mim” (Jo 14, 9-11). São algumas das palavras mais sublimes do Evangelho de João. Contêm uma autêntica revelação.

No final do “Prólogo” de seu Evangelho, João afirma: “Ninguém jamais viu a Deus: o Filho único, que está no seio do Pai, ele o revelou” (Jo 1, 18). Pois bem, essa declaração, que é do evangelista, é retomada e confirmada pelo próprio Jesus. Mas com um detalhe. De fato, enquanto o “Prólogo” de João fala de uma intervenção explicativa de Jesus através das palavras de seu ensinamento, na resposta a Felipe, Jesus faz referência à sua própria pessoa como tal, dando a entender o paradoxo da Encarnação. Podemos dizer que Deus assumiu um rosto humano, o de Jesus, e, por conseguinte, a partir de agora, se realmente queremos conhecer o rosto de Deus, só nos resta contemplar o rosto de Jesus! Em seu rosto vemos realmente quem é Deus e como é Deus!

O Evangelista não nos diz se Felipe compreendeu plenamente a frase de Jesus. O certo é que entregou totalmente sua vida a Ele. Segundo algumas narrações posteriores (“Atos de Felipe” e outros), nosso apóstolo teria evangelizado em um primeiro momento a Grécia e depois a Frígia, e ali teria enfrentado a morte, em Hierápolis, com um suplício que alguns mencionam como crucificação e outros, lapidação.

Queremos concluir nossa reflexão recordando o objetivo para o qual deve orientar-se nossa vida: encontrar Jesus, como Felipe o encontrou, tentando ver nele o próprio Deus, Pai celestial. Se faltar esse compromisso, nos encontraremos apenas conosco mesmos, como diante de um espelho, e cada vez ficaremos mais sozinhos! Felipe nos convida, ao contrário, a deixar-nos conquistar por Jesus, a estar com Ele e a compartilhar essa companhia indispensável. Desse modo, vendo e encontrando a Deus, podemos encontrar a verdadeira vida.

19. Tomé

Quarta-feira, 27 de setembro de 2006

Queridos irmãos e irmãs,

Prosseguindo os nossos encontros com os doze Apóstolos escolhidos diretamente por Jesus, hoje dedicamos a nossa atenção a Tomé. Sempre presente nas quatro listas do Novo Testamento, ele, nos primeiros três Evangelhos, é colocado ao lado de Mateus (cf. Mt 10, 3; Mc 3, 18; Lc 6, 15), enquanto nos Atos está próximo de Felipe (cf. At 1, 13). O seu nome deriva de uma raiz hebraica, ta'am, que significa “gêmeo”. De fato, o Evangelho chama-o várias vezes pelo sobrenome de “Dídimo” (cf. Jo 11, 16; 20, 24; 21, 2), que em grego significa precisamente “gêmeo”. Não é claro o porquê desse apelido.

Sobretudo o Quarto Evangelho oferece-nos informações que reproduzem alguns traços significativos da sua personalidade. O primeiro refere-se à exortação que ele fez aos outros Apóstolos quando Jesus, num momento crítico da sua vida, decidiu ir a Betânia para ressuscitar Lázaro, aproximando-se assim perigosamente de Jerusalém (cf. Mc 10, 32). Naquela ocasião Tomé disse aos seus companheiros: “Vamos nós também, para morrermos com Ele” (Jo 11, 16). Esta sua determinação em seguir o Mestre é deveras exemplar e oferece-nos um precioso ensinamento: revela a disponibilidade total para aderir a Jesus, até identificar o próprio destino com o dele e querer partilhar com Ele a prova suprema da morte.

De fato, o mais importante é nunca se separar de Jesus. Por outro lado, quando os Evangelhos usam o verbo “seguir”, é para significar que, para onde Ele se dirige, para lá deve ir também o seu discípulo. Desse modo, a vida cristã define-se como uma vida com Jesus Cristo, uma vida a ser vivida juntamente com Ele. São Paulo escreve algo semelhante, quando tranquiliza os cristãos de Corinto com estas palavras: “estais no nosso coração para a vida e para a morte” (2 Cor 7, 3). O que se verifica entre o Apóstolo e os seus cristãos deve, obviamente, valer antes de tudo para a relação entre os cristãos e o próprio Jesus: morrer juntos, viver juntos, estar no seu coração como Ele está no nosso.

Uma segunda intervenção de Tomé está registrada na Última Ceia. Naquela ocasião Jesus, predizendo a sua partida iminente, anuncia que vai preparar um lugar para os discípulos, para que também eles estejam onde Ele estiver; e esclarece: “E, para onde Eu vou, vós sabeis o caminho” (Jo 14, 4). É então que Tomé intervém e diz: “Senhor, não sabemos para onde vais; como podemos nós saber o caminho?” (Jo 14, 5). Na realidade, com esta expressão ele coloca-se em um nível de compreensão bastante limitado; mas estas suas palavras fornecem a Jesus a ocasião para pronunciar a célebre definição: “Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida” (Jo 14, 6).

Portanto, Tomé é o primeiro a quem é feita esta revelação, mas ela é válida também para todos nós e para sempre. Todas as vezes que ouvimos ou lemos estas palavras, podemos colocar-nos em pensamento ao lado de Tomé e imaginar que o Senhor fala também conosco como falou com ele. Ao mesmo tempo, a sua pergunta confere também a nós o direito, por assim dizer, de pedir explicações a Jesus. Com frequência nós não o compreendemos. Temos a coragem de dizer: “Não te compreendo, Senhor; ouve-me, ajuda-me a compreender”. Dessa forma, com esta franqueza, que é o verdadeiro modo de rezar, de falar com Jesus, exprimimos a insuficiência da nossa capacidade de compreender e, ao mesmo tempo, colocamo-nos na atitude confiante de quem espera luz e força daquele que é capaz de concedê-las.

Depois, muito conhecida e até proverbial é a cena de Tomé incrédulo, que aconteceu oito dias depois da Páscoa. Num primeiro momento, ele não tinha acreditado em Jesus, que apareceu na sua ausência, e dissera: “Se eu não vir o sinal dos pregos nas suas mãos e não meter o meu dedo nesse sinal dos pregos e a minha mão no seu lado, não acreditarei” (Jo 20, 25). No fundo, destas palavras sobressai a convicção de que Jesus já é reconhecível não tanto pelo rosto quanto pelas chagas. Tomé considera que os sinais qualificadores da identidade de Jesus são agora sobretudo as chagas, nas quais se revela até que ponto Ele nos amou. Nisso o Apóstolo não se engana.

Como sabemos, oito dias depois Jesus aparece no meio dos seus discípulos, e, desta vez, Tomé está presente. E Jesus interpela-o: “Põe teu dedo aqui e vê minhas mãos! Estende tua mão e põe-na no meu lado e não sejas incrédulo, mas crê!” (Jo 20, 27). Tomé reage com a profissão de fé mais maravilhosa de todo o Novo Testamento: “Meu Senhor e meu Deus!” (Jo 20, 28). A esse propósito, Santo Agostinho comenta: “Tomé via e tocava o homem, mas confessava a sua fé em Deus, que não via nem tocava. Mas o que via e tocava levava-o a crer naquilo de que até aquele momento tinha duvidado” (In Iohann. 121, 5). O evangelista prossegue com uma última palavra de Jesus a Tomé: “Porque me viste, acreditaste. Felizes os que, sem terem visto, crerão” (Jo 20, 29).

Esta frase também se pode conjugar no presente: “Bem-aventurados os que creem sem terem visto”. Contudo, aqui Jesus enuncia um princípio fundamental para os cristãos que viriam depois de Tomé, portanto para todos nós. É interessante observar como o grande teólogo medieval Tomás de Aquino compara, com esta fórmula de bem-aventurança, aquela aparentemente oposta citada por Lucas: “Felizes os olhos que veem o que estais a ver” (Lc 10, 23). Mas o Aquinate comenta: “Merece muito mais quem crê sem ver do que quem crê porque vê” (In Johann. XX, lectio VI, 2566).

De fato, a Carta aos Hebreus, recordando toda a série dos antigos patriarcas bíblicos, que acreditaram em Deus sem ver o cumprimento das suas promessas, define a fé como “fundamento das coisas que se esperam e comprovação das que não se veem” (Hb 11, 1). O caso do Apóstolo Tomé é importante para nós pelo menos por três motivos: primeiro, porque nos conforta nas nossas inseguranças; segundo, porque nos demonstra que qualquer dúvida pode levar a um desfecho luminoso além de qualquer incerteza; e, por fim, porque as palavras dirigidas a ele por Jesus nos recordam o verdadeiro sentido da fé madura e nos encorajam a prosseguir, apesar das dificuldades, pelo nosso caminho de adesão a Ele.

Uma última anotação sobre Tomé é-nos conservada no Quarto Evangelho, que o apresenta como testemunha do Ressuscitado no momento seguinte à pesca milagrosa no Lago de Tiberíades (cf. Jo 21, 2). Naquela ocasião ele é mencionado inclusive logo depois de Simão Pedro: sinal evidente da grande importância de que gozava no âmbito das primeiras comunidades cristãs. Com efeito, em seu nome foram escritos depois os Atos de Tomé e o Evangelho de Tomé, ambos apócrifos, mas, contudo, importantes para o estudo das origens cristãs.

Por fim, recordamos que, segundo uma antiga tradição, Tomé evangelizou primeiro a Síria e a Pérsia (assim refere já Orígenes, citado por Eusébio de Cesareia, Hist. eccl. 3, 1); depois foi até a Índia ocidental (cf. Atos de Tomé 1-2 e 17ss.), de onde enfim alcançou também a Índia meridional. Nesta perspectiva missionária terminamos a nossa reflexão, expressando o desejo de que o exemplo de Tomé fortaleça cada vez mais a nossa fé em Jesus Cristo, nosso Senhor e nosso Deus.

20. Bartolomeu

Quarta-feira, 4 de outubro de 2006

Queridos irmãos e irmãs!

Na série dos Apóstolos chamados por Jesus durante a sua vida terrena, hoje quem atrai a nossa atenção é o apóstolo Bartolomeu. Nos antigos elencos dos Doze ele é sempre colocado antes de Mateus, enquanto varia o nome daquele que o precede e que pode ser Felipe (cf. Mt 10, 3; Mc 3, 18; Lc 6, 14) ou Tomé (cf. Act 1, 13). O seu nome é claramente um patronímico, porque é formulado com uma referência explícita ao nome do pai. De fato, trata-se de um nome provavelmente com uma marca aramaica, bar Talmay, que significa precisamente “filho de Talmay”

Não temos notícias de relevo acerca de Bartolomeu; com efeito, o seu nome aparece sempre e apenas no âmbito dos elencos dos Doze acima citados e, por conseguinte, nunca está no centro de narração alguma.

Mas, tradicionalmente ele é identificado com Natanael: um nome que significa “Deus deu”. Este Natanael era de Caná (cf. Jo 21, 2), e, portanto, é possível que tenha sido testemunha do grande “sinal” realizado por Jesus naquele lugar (cf. Jo 2, 1-11). A identificação das duas personagens provavelmente é motivada pelo fato de que este Natanael, no episódio da vocação narrada pelo Evangelho de João, é colocado ao lado de Felipe, isto é, no lugar que Bartolomeu ocupa nos elencos dos Apóstolos narrados pelos outros Evangelhos.

Felipe tinha comunicado a este Natanael que encontrara “aquele sobre quem escreveram Moisés, na Lei, e os profetas: Jesus, filho de José de Nazaré” (Jo 1, 45). Como sabemos, Natanael manifestou um preconceito bastante pesado: “De Nazaré pode vir alguma coisa boa?” (Jo 1, 46a). Esta espécie de contestação é, à sua maneira, importante para nós. De fato, ela mostra-nos que, segundo as expectativas judaicas, o Messias não podia provir de uma aldeia tão obscura como era precisamente Nazaré (veja também Jo 7, 42). Mas, ao mesmo tempo realça a liberdade de Deus, que surpreende as nossas expectativas fazendo-se encontrar precisamente onde não o esperávamos. Por outro lado, sabemos que Jesus na realidade, não era exclusivamente “de Nazaré”, pois tinha nascido em Belém (cf. Mt 2, 1; Lc 2, 4) e que por fim, provinha do céu, do Pai que está no céu.

Outra reflexão sugere-nos a história de Natanael: na nossa relação com Jesus não devemos contentar-nos unicamente com as palavras. Felipe, na sua resposta, faz um convite significativo: “Vem e verás!” (Jo 1, 46b).

O nosso conhecimento de Jesus precisa sobretudo de uma experiência viva: o testemunho de outrem é certamente importante, porque normalmente toda a nossa vida cristã começa com o anúncio que chega até nós por obra de uma ou de várias testemunhas. Mas depois devemos ser nós próprios a deixar-nos envolver pessoalmente numa relação íntima e profunda com Jesus; de maneira análoga os samaritanos, depois de terem ouvido o testemunho da sua conterrânea que Jesus tinha encontrado ao lado do poço de Jacó, quiseram falar diretamente com Ele e, depois desse diálogo, disseram à mulher: “Já não é pelas tuas palavras que acreditamos, nós próprios ouvimos e sabemos que Ele é verdadeiramente o Salvador do mundo” (Jo 4, 42).

Voltando ao cenário da vocação, o evangelista refere-nos que, quando Jesus vê Natanael aproximar-se exclama: “Aqui está um verdadeiro israelita, em quem não há fingimento” (Jo 1, 47). Trata-se de um elogio que recorda o texto de um Salmo: “Feliz o homem a quem Iahweh não atribui iniquidade” (Sl 32, 2), mas que suscita a curiosidade de Natanael, o qual responde com admiração: “Como me conheces?” (Jo 1, 48a). A resposta de Jesus não é imediatamente compreensível. Ele diz: “Antes que Felipe te chamasse, eu te vi quando estavas sob a figueira” (Jo 1, 48b). Não sabemos o que aconteceu sob esta figueira. É evidente que se trata de um momento decisivo na vida de Natanael.

Ele sente-se comovido com estas palavras de Jesus, sente-se compreendido e compreende: este homem sabe tudo de mim, Ele sabe e conhece o caminho da vida, a este homem posso realmente confiar-me. E assim responde com uma confissão de fé límpida e bela, dizendo: “Rabi, tu és o Filho de Deus, tu és o Rei de Israel” (Jo 1, 49). Nela é dado um primeiro e importante passo no percurso de adesão a Jesus. As palavras de Natanael ressaltam um aspecto duplo e complementar da identidade de Jesus: Ele é reconhecido quer na sua relação especial com Deus Pai, do qual é Filho unigênito, quer na relação com o povo de Israel, do qual é proclamado rei, qualificação própria do Messias esperado. Nunca devemos perder de vista nenhuma destas duas componentes, porque se proclamamos apenas a dimensão celeste de Jesus, corremos o risco de o transformar num ser sublime e evanescente; por outro lado, se reconhecemos apenas a sua colocação concreta na história, acabamos por descuidar a dimensão divina que propriamente o qualifica.

Da sucessiva atividade apostólica de Bartolomeu-Natanael não temos notícias claras. Segundo uma informação referida pelo historiador Eusébio do século IV, um certo Panteno teria encontrado até na Índia os sinais de uma presença de Bartolomeu (cf. Hist. eccl., V 10, 3). Na tradição posterior, a partir da Idade Média, impôs-se a narração da sua morte por esfolamento, que se tornou muito popular. Pense-se na conhecidíssima cena do Juízo Universal na Capela Sistina, na qual Michelangelo pintou São Bartolomeu que segura com a mão esquerda a sua pele, sobre a qual o artista deixou o seu autorretrato.

As suas relíquias são veneradas aqui em Roma, na Igreja a ele dedicada na Ilha Tiberina, para onde teriam sido levadas pelo imperador alemão Otão III no ano de 983. Para concluir, podemos dizer que a figura de São Bartolomeu, mesmo sendo escassas as informações acerca dele, permanece, contudo, diante de nós para nos dizer que a adesão a Jesus pode ser vivida e testemunhada também sem realizar obras sensacionais. Extraordinário é e permanece o próprio Jesus, ao qual cada um de nós está chamado a consagrar a própria vida e a própria morte.

21. Simão o Cananeu e Judas Tadeu

Quarta-feira, 11 de outubro de 2006

Queridos irmãos e irmãs!

Hoje tomamos em consideração dois dos doze Apóstolos: Simão o Cananeu e Judas Tadeu (que não se deve confundir com Judas Iscariotes). Consideramo-los juntos, não só porque nas listas dos Doze são sempre mencionados um ao lado do outro (cf. Mt 10, 4; Mc 3, 18; Lc 6, 15; Act 1, 13), mas também porque as notícias que a eles se referem não são muitas, exceto o fato de que o Cânon neotestamentário conserva uma carta atribuída a Judas Tadeu.

Simão recebe um epíteto que varia nas quatro listas: Mateus qualifica-o como “cananeu”, Lucas define-o como “zelote”. Na realidade, as duas qualificações equivalem-se, porque significam a mesma coisa: na língua hebraica, de fato, o verbo qanà' significa “ser zeloso”, “dedicado” e pode referir-se quer a Deus, porque é zeloso do povo por ele escolhido (cf. Êx 20, 5), quer a homens que são zelosos no serviço ao Deus único com dedicação total, como Elias (cf. 1 Rs 19, 10).

Portanto, é possível que este Simão, se não pertencia exatamente ao movimento nacionalista dos Zelotes, tivesse pelo menos como característica um fervoroso zelo pela identidade judaica, por conseguinte, por Deus, pelo seu povo e pela Lei divina. Sendo assim, Simão coloca-se no antípoda de Mateus, que, ao contrário, sendo publicano, provinha de uma atividade considerada totalmente impura. Sinal evidente de que Jesus chama os seus discípulos e colaboradores das mais diversas camadas sociais e religiosas, sem excluir ninguém. Ele interessa-se pelas pessoas, não pelas categorias sociais ou pelas atividades!

E o mais belo é que, no grupo dos seus seguidores, todos, mesmo sendo diferentes, coexistiam, superando dificuldades inimagináveis. De fato, era o próprio Jesus o motivo de coesão, no qual todos se reencontravam unidos. Isto constitui claramente uma lição para nós, com frequência propensos a destacar as diferenças e talvez as contraposições, esquecendo que em Jesus Cristo, nos é dada a força para superar os nossos conflitos.

Tenhamos também presente que o grupo dos Doze é a prefiguração da Igreja, na qual devem ter espaço todos os carismas, os povos, as raças, todas as qualidades humanas, que encontram a sua harmonia e a sua unidade na comunhão com Jesus.

No que se refere a Judas Tadeu, ele é chamado assim pela tradição, unindo ao mesmo tempo dois nomes diferentes. De fato, enquanto Mateus e Marcos o chamam simplesmente “Tadeu” (Mt 10, 3; Mc 3, 18), Lucas chama-o “Judas de Tiago” (Lc 6, 16; Act 1, 13). O sobrenome Tadeu tem uma derivação incerta e é explicado ou como proveniente do aramaico taddà', que significa “peito” e, por conseguinte, significaria “magnânimo”, ou como abreviação de um nome grego como “Teodoro” ou “Teódoto”.

Dele são transmitidas poucas coisas. Só João assinala um seu pedido feito a Jesus durante a Última Ceia. Diz Tadeu ao Senhor: “Senhor, como aconteceu que te deves manifestar a nós e não ao mundo?”. É uma pergunta de grande atualidade, que também nós fazemos ao Senhor: por que o Ressuscitado não se manifestou em toda a sua glória aos seus adversários para mostrar que o vencedor é Deus? Por que se manifestou só aos discípulos? A resposta de Jesus é misteriosa e profunda. O Senhor diz: “Se alguém me ama, guardará a minha palavra; e o meu Pai o amará, e nós viremos a ele e faremos nele morada” (Jo 14, 22-23). Isto significa que o Ressuscitado deve ser visto, sentido também com o coração, de modo que Deus possa habitar em nós. O Senhor não se mostra como uma coisa. Ele quer entrar na nossa vida e por isso a sua manifestação é uma manifestação que exige e pressupõe o coração aberto. Só assim vemos o Ressuscitado.

Foi atribuída a Judas Tadeu a paternidade de uma das Cartas do Novo Testamento, que são chamadas “católicas” porque não se destinam a uma determinada Igreja local, mas a um círculo muito amplo de destinatários. De fato, ele dirige-se “aos eleitos amados por Deus Pai e guardados para Jesus Cristo” (v. 1). A preocupação central deste escrito é advertir os cristãos contra todos os que, com o pretexto da graça de Deus, desculpam a própria devassidão e procuram desviar outros irmãos com ensinamentos inaceitáveis, introduzindo divisões dentro da Igreja, “deixando-se levar pelo seu delírio” (v. 8), assim define Judas estas suas doutrinas e ideias especiais. Ele compara-os inclusive aos anjos caídos, e com palavras fortes diz que “seguiram pelo caminho de Caim” (v. 11). Além disso, classifica-os sem reticências como “nuvens sem água que os ventos levam; árvores de outono sem fruto, duas vezes mortas, desarraigadas; ondas furiosas do mar que repelem a espuma da sua torpeza; estrelas errantes condenadas à negrura das trevas eternas” (vv. 12-13).

Talvez hoje nós já não estejamos habituados a usar uma linguagem tão polêmica, que, contudo, nos diz uma coisa importante. No meio de todas as tentações que existem, com todas as correntes da vida moderna, devemos conservar a identidade da nossa fé. Certamente, o caminho da indulgência e do diálogo, que o Concílio Vaticano II felizmente empreendeu, deve ser sem dúvida prosseguido com uma constância firme. Mas este caminho do diálogo, tão necessário, não deve fazer esquecer o dever de reconsiderar e de evidenciar sempre com igual força, as linhas-mestras e irrenunciáveis da nossa identidade cristã.

Por outro lado, é necessário ter bem presente que esta nossa identidade exige força, clareza e coragem diante das contradições do mundo em que vivemos. Por isso o texto epistolar prossegue assim: “Mas vós, caríssimos — fala a todos nós —, mantende-vos no amor de Deus, esperando que a misericórdia de Nosso Senhor Jesus Cristo vos conceda a vida eterna. Tratai com misericórdia aqueles que vacilam...” (vv. 20-22). A Carta conclui-se com estas bonitas palavras: “Àquele que é poderoso para vos livrar das quedas e vos apresentar diante da sua glória, imaculados e cheios de alegria, ao Deus único, nosso Salvador, por meio de Jesus Cristo, Senhor nosso, seja dada glória, a majestade, a soberania e o poder, antes de todos os tempos, agora e por todos os séculos. Amém” (vv. 24-25).

Vê-se bem que o autor destas frases vive plenamente a própria fé, à qual pertencem realidades grandes como a integridade moral e a alegria, a confiança e por fim o louvor, sendo motivado em tudo apenas pela bondade do nosso único Deus e pela misericórdia de nosso Senhor Jesus Cristo. Por isso, tanto Simão o Cananeu como Judas Tadeu nos ajudam a redescobrir sempre de novo e a viver incansavelmente a beleza da fé cristã, sabendo dar um testemunho dela forte e ao mesmo tempo sereno.

22. Judas Iscariotes e Matias

Quarta-feira, 18 de outubro de 2006

Queridos irmãos e irmãs!

Terminando hoje de percorrer a galeria de retratos dos Apóstolos chamados diretamente por Jesus durante a sua vida terrena, não podemos omitir a menção daquele que é sempre nomeado por último nas listas dos Doze: Judas Iscariotes. A ele queremos associar a pessoa que depois é eleita para substituí-lo, Matias.

Já o simples nome de Judas suscita entre os cristãos uma reação instintiva de reprovação e de condenação. O significado do apelativo “Iscariotes” é controverso: a explicação mais aceita compreende esta palavra como “homem de Queriot”, referindo-se à sua aldeia de origem, situada nas proximidades de Hebron e mencionada duas vezes na Sagrada Escritura (cf. Js 15, 25; Am 2, 2). Outros o interpretam como uma variação da palavra “sicário”, como se aludisse a um guerrilheiro armado com um punhal, que em latim se chama sica. Por fim, há quem veja no sobrenome a simples transcrição de uma raiz hebraico-aramaica que significa: “aquele que estava para entregá-lo”. Esta designação aparece duas vezes no quarto Evangelho, ou seja, depois de uma confissão de fé de Pedro (cf. Jo 6, 71) e depois durante a unção em Betânia (cf. Jo 12, 4).

Outras passagens mostram que a traição estava sendo realizada, dizendo: “aquele que o traía”; assim, durante a Última Ceia, depois do anúncio da traição (cf. Mt 26, 25) e depois no momento da prisão de Jesus (cf. Mt 26, 46.48; Jo 18, 2.5). Ao contrário, as listas dos Doze recordam a traição como um fato já consumado: “Judas Iscariotes, o que o traiu”, assim diz Marcos (Mc 3, 19); Mateus (Mt 10, 4) e Lucas (Lc 6, 16) usam fórmulas equivalentes. A traição como tal aconteceu em dois momentos: antes de tudo no planejamento, quando Judas entra em acordo com os inimigos de Jesus por trinta moedas de prata (cf. Mt 26, 14-16), e depois na execução, com o beijo dado ao Mestre no Getsêmani (cf. Mt 26, 46-50).

Contudo, os evangelistas insistem na condição de apóstolo, que competia a Judas para todos os efeitos: ele é repetidamente chamado “um dos Doze” (Mt 26, 14.47; Mc 14, 10.20; Jo 6, 71) ou “do número dos Doze” (Lc 22, 3). Aliás, por duas vezes Jesus, dirigindo-se aos Apóstolos e falando precisamente dele, indica-o como “um de vós” (Mt 26, 21; Mc 14, 18; Jo 6, 70; 13, 21). E Pedro dirá de Judas que “era do nosso número e tinha recebido o nosso mesmo ministério” (At 1, 17).

Trata-se, portanto, de uma figura pertencente ao grupo dos que Jesus tinha escolhido como companheiros e colaboradores íntimos. Isso suscita duas perguntas na tentativa de dar uma explicação aos acontecimentos que ocorreram. A primeira consiste em perguntar por que Jesus escolheu este homem e confiou nele. Apesar de Judas ser de fato o responsável pela bolsa do grupo (cf. Jo 12, 6b; 13, 29a), na realidade é qualificado também como “ladrão” (Jo 12, 6a). Permanece o mistério da escolha, até porque Jesus pronuncia um juízo muito severo sobre ele: “Ai daquele por quem o Filho do Homem vai ser entregue” (Mt 26, 24). O mistério acerca do seu destino eterno torna-se ainda mais profundo, sabendo que Judas “se arrependeu e devolveu as trinta moedas de prata aos sumos sacerdotes e aos anciãos, dizendo: ‘Pequei, entregando sangue inocente’” (Mt 27, 3-4). Mesmo que em seguida ele tenha se afastado para ir se enforcar (cf. Mt 27, 5), não compete a nós julgar o seu gesto, substituindo-nos a Deus, infinitamente misericordioso e justo.

Uma segunda pergunta refere-se ao motivo do comportamento de Judas: por que traiu Jesus? A questão é objeto de várias hipóteses. Alguns recorrem ao fator da sua avidez por dinheiro; outros dão uma explicação de ordem messiânica: Judas teria ficado desiludido ao ver que Jesus não incluía em seu programa a libertação político-militar do seu próprio país.

Na realidade, os textos evangélicos insistem sobre outro aspecto: João diz expressamente que “o diabo já tinha posto no coração de Judas Iscariotes que entregasse Jesus” (Jo 13, 2); analogamente escreve Lucas: “Satanás entrou em Judas, chamado Iscariotes, um dos doze” (Lc 22, 3). Dessa forma, vai-se além das motivações históricas e explica-se o acontecimento com base na responsabilidade pessoal de Judas, que cedeu miseravelmente a uma tentação do maligno. A traição de Judas permanece, contudo, um mistério. Jesus tratou-o como um amigo (cf. Mt 26, 50), mas, em seus convites a segui-lo pelo caminho das bem-aventuranças, não forçava a vontade de ninguém nem os preservava das tentações de Satanás, respeitando a liberdade humana.

De fato, as possibilidades de perversão do coração humano são verdadeiramente muitas. O único modo de evitá-las consiste em não cultivar uma visão das coisas apenas individualista e autônoma, mas, ao contrário, colocar-se sempre de novo ao lado de Jesus, assumindo o seu ponto de vista. Devemos procurar, dia após dia, estar em plena comunhão com Ele.

Recordemo-nos de que também Pedro quis se opor a Ele e ao que o esperava em Jerusalém, mas recebeu uma forte repreensão: “Tu não pensas as coisas de Deus, mas as dos homens!” (Mc 8, 32-33). Pedro, depois da sua queda, arrependeu-se e encontrou perdão e graça. Também Judas se arrependeu, mas o seu arrependimento degenerou em desespero e assim tornou-se autodestruição. Para nós, isso é um convite a ter sempre presente o que diz São Bento no final do fundamental capítulo 5 da sua “Regra”: “Nunca desesperar da misericórdia divina”. Na realidade, “Deus é maior que o nosso coração”, como diz São João (1 Jo 3, 20).

Por conseguinte, tenhamos presentes duas coisas. A primeira: Jesus respeita a nossa liberdade. A segunda: Jesus espera a nossa disponibilidade para o arrependimento e para a conversão; é rico em misericórdia e perdão. Afinal, quando pensamos no papel negativo desempenhado por Judas, devemos inseri-lo no plano superior dos acontecimentos por parte de Deus. A sua traição levou à morte de Jesus, que transformou este tremendo suplício em espaço de amor salvífico e em entrega de si ao Pai (cf. Gl 2, 20; Ef 5, 2.25). O verbo “trair” deriva de uma palavra grega que significa “entregar”. Às vezes, o seu sujeito é o próprio Deus: foi Ele que, por amor, “entregou” Jesus por todos nós (cf. Rm 8, 32). No seu misterioso projeto de salvação, Deus assume o gesto imperdoável de Judas como ocasião da doação total do Filho para a redenção do mundo. Em conclusão, queremos recordar também aquele que, depois da Páscoa, foi eleito no lugar do traidor. Na Igreja de Jerusalém, a comunidade apresentou dois para serem escolhidos por sorteio: “José, chamado Barsabás, de sobrenome Justo, e Matias” (At 1, 23).

Foi precisamente este o escolhido, de modo que “foi associado aos onze Apóstolos” (At 1, 26). Dele nada mais sabemos, a não ser que também tinha sido testemunha de toda a trajetória terrena de Jesus (cf. At 1, 21-22), permanecendo-lhe fiel até o fim. À grandeza dessa sua fidelidade acrescenta-se depois o chamado divino para ocupar o lugar de Judas, como que para compensar a sua traição.

Tiramos disso mais uma lição: mesmo que na Igreja não faltem cristãos indignos e traidores, cabe a cada um de nós equilibrar o mal que eles praticam com o nosso testemunho transparente de Jesus Cristo, nosso Senhor e Salvador.