Esta aula é composta por duas partes, uma sobre a disponibilidade dos numerários e outra, relacionada a esta, sobre o celibato. As ideias que surgirem servirão tanto para a reflexão pessoal quanto para o trabalho de formação que vocês fazem com os seus irmãos. Que cada um veja como as vive, como as aplica, como servem para ajudar os outros.
Quanto à disponibilidade, a primeira coisa que podemos fazer é relembrar algumas palavras do nosso Padre: “Todos com vocação divina, os numerários devem dar-se diretamente e imediatamente ao Senhor em holocausto, entregando tudo o que é deles, seu coração inteiro, suas atividades sem limite, seus bens, sua honra” (Instrução para a obra de São Gabriel, n. 113).
Reparemos no que nos diz primeiro: “coração inteiro”. A disponibilidade do coração não consiste em ter o coração aberto para qualquer coisa entrar, mas para que nele caibam todas as pessoas que estão ao nosso redor, confiadas aos nossos cuidados. Entregar um coração inteiro significa evitar análises exaustivas e classificações, para amar a todos igualmente; para amar o trabalho da Obra como expressão do nosso amor a Deus; para entregar ao Senhor tudo o que somos e tudo o que temos.
A disponibilidade do coração se manifesta na disponibilidade eficaz, real e concreta do nosso tempo. É uma disponibilidade para as tarefas que nos são confiadas. Não se trata apenas de uma disponibilidade material, mas principalmente do coração, que consiste em dedicar a vontade e o afeto à essa atividade; mesmo quando é difícil, estando disposto a todas as mudanças necessárias.
Habitualmente, na Obra, cada um desempenha seu trabalho profissional em seu ambiente, santificando as realidades temporais. No entanto, como lembrava dom Javier em uma carta, às vezes “Não há outro remédio a não ser que algumas filhas e alguns filhos meus diminuam a sua atividade profissional – ou inclusive a deixem de lado completamente, ao menos por algum tempo – para se dedicarem a ajudar os seus irmãos na vida espiritual e dirigir o trabalho apostólico” (Javier Echevarría, Carta pastoral, 28/11/1995, n. 16). A isso deve-se acrescentar que, como o próprio Dom Javier explicava tantas vezes, o trabalho de direção das tarefas e o próprio trabalho de direção espiritual — que é o fundamental confiado às pessoas que formam os conselhos locais — são tarefas que também podem ser chamadas de profissionais em termos de seriedade e necessidade de preparação.
Por outro lado, a disponibilidade não é apenas uma atitude passiva, um “estar disposto para fazer tudo o que me pedirem”: mudar de centro, de encargo apostólico, de cidade, de país, de continente – porque por enquanto não podemos mudar de planeta… Certamente, é isso também, mas não basta. É preciso ter iniciativa e interesse, colocar o nosso coração e os nossos talentos a serviço da Obra, ou seja, disponibilizar o que temos e quem somos para viver a nossa vocação. De fato, parte da disponibilidade consiste em pensar em como melhorar, o que sugerir… São detalhes que manifestam que sentimos o Opus Dei como algo nosso.
Sem outros laços além do amor
No sentido bíblico, o coração não se refere apenas ao que é sensível, mas à pessoa inteira, e especialmente à sua vontade, ou seja, à sua liberdade. Um aspecto fundamental da nossa disponibilidade é que ela deve ser vivida como liberdade, e não como falta de liberdade. Podemos dizer: “Estou aqui, pronto para fazer tudo o que me disserem”, e depois, ao receber um novo encargo, sentir isso como uma limitação à própria liberdade. Quando, na realidade, a maior liberdade consiste em não ter outros laços além do amor.
Isso se aplica a todos nós no Opus Dei, mas especialmente, de forma mais completa e material, aos numerários: não ter nenhum laço, nem de trabalho, nem com um centro, nem com um país. Não se sentir atados a nada. E esse sentimento de não se sentir atado a nada é liberdade, liberdade espiritual, liberdade da alma.
Logicamente, isso não significa viver desarraigados, ser pessoas que vivem flutuando no ar. Estar profundamente enraizado no que fazemos, com os pés no chão e no nosso trabalho, assumindo a responsabilidade pela nossa missão e obrigações, e nos dedicando ao que fazemos com todas as nossas capacidades humanas, com entusiasmo profissional, como se fosse sempre a coisa definitiva, é compatível com não estar atado a nada. Porque a liberdade não consiste na ausência de limitações externas, mas em não estar vinculado a nada além do amor a Deus e, consequentemente, ao amor ao próximo, à Obra, às almas.
Talvez em algum momento — porque todos experimentaremos fraquezas até o momento da morte - percebamos certas exigências, mudanças, cargos e assim por diante como uma falta de liberdade. Então será uma oportunidade renovada para aprofundar nosso amor, para que a liberdade da alma seja fortalecida.
Nosso Padre falava de um grupo pregado na cruz: “Nosso Senhor não quer uma personalidade efêmera para a sua Obra: pede-nos uma personalidade imortal, porque quer que nela – na Obra – haja um grupo pregado na Cruz: a Santa Cruz nos tornará perduráveis, sempre com o mesmo espírito do Evangelho, que trará o apostolado de ação como fruto saboroso da oração e do sacrifício” (Instrução sobre o Espírito Sobrenatural da Obra, n. 28). Aqui não diz quem é esse grupo pregado na cruz, mas, pelo contexto, entende-se que sejam os numerários. De fato, todos nós temos que ser pregados na cruz, de alguma forma. Neste caso, porém, nosso Padre fala de uma maneira específica e especial de ser pregado à cruz: a dos numerários, que devem estar sempre disponíveis para mudar de trabalho...; todas essas, ocasiões de se unir à cruz. E quando unimos intencionalmente à cruz do Senhor as coisas que nos custam, elas deixam de pesar, embora ainda continuem pesando. Há uma aparente contradição.
Vimos tantas vezes na vida de nosso Padre como ele foi capaz, pela graça de Deus, de sofrer muito e, ao mesmo tempo, de estar muito contente. E nós também temos a possibilidade de viver a entrega, mesmo quando custa, como fonte de alegria.
É importante que, ao falar com alguém sobre a possibilidade de apitar como numerário, esse aspecto essencial do caminho seja explicado. Também é bom que essa ideia seja enfatizada na formação que recebem durante os primeiros anos, mesmo que possa parecer muito distante para a pessoa naquele momento.
Naturalmente, os diretores levarão em consideração as circunstâncias e a capacidade real de cada pessoa de empreender uma mudança. Graças a Deus, na Obra não funcionamos a base de ordens militares, porque, dentro da natureza radical do nosso compromisso, somos ao mesmo tempo família e milícia.
Em relação a essa disponibilidade radical, podemos lembrar também algumas palavras de nosso Padre na terceira de suas campanadas*. São palavras preciosas, mesmo do ponto de vista literário, e ao mesmo tempo tão expressivas que não há risco de nos prendermos somente ao que é bonito:
“Tenho que agradecer ao Senhor por sua grande bondade, porque minhas filhas e filhos me proporcionaram, neste quase meio século, tantas e tantas alegrias, precisamente por sua firme adesão à fé, sua vida cristã vigorosa e sua total disponibilidade – dentro dos deveres de seu estado pessoal, no mundo – para o serviço de Deus no Opus Dei. Jovens ou menos jovens, foram de lá para cá com a maior naturalidade, ou perseveraram fiel e incansavelmente no mesmo lugar; mudaram de ambiente quando necessário, suspenderam uma tarefa e concentraram seus esforços em outra que lhes fosse interessava mais por razões apostólicas; aprenderam coisas novas, aceitaram de bom grado se ocultar e desaparecer, abrindo caminho para outros: subir e descer”.
“É o jogo divino da entrega, ao qual meus filhos responderam, conscientes de sua responsabilidade perante Deus de levar adiante a Obra para o bem das almas. O Senhor brilhou e, sobre a vossa generosidade, derramou eficácia santificadora: conversões, vocações, fidelidade à Igreja em todos os cantos do mundo. Assim brota o fruto sobrenatural de uma entrega sem condições. E isso se pede a todos na Obra, porque deve ser sempre o cotidiano, o natural” (De nosso Padre, Carta 14/02/1974, n. 5).
Uma paternidade sem limites
Após esta primeira parte, começar a falar sobre o celibato acarreta um risco: poderia dar a impressão de que a disponibilidade constitui sua dimensão mais fundamental. Certamente, a pessoa célibe está muito mais disponível do que quem é casado e tem filhos, mas seu caminho não consiste apenas nisso, e nem mesmo principalmente. O celibato é, acima de tudo, um dom de Deus de identificação especial com Jesus Cristo. E é assim que devemos vê-lo, pois disso deriva tudo o mais, inclusive a disponibilidade. Os numerários e, no que se refere ao celibato, também os adscritos, têm a função de ser testemunhos vivos da entrega a Deus no meio do mundo.
O celibato não é uma limitação do humano. Basta olhar para Jesus Cristo para se convencer disso, pois se há alguém que encarnou a humanidade perfeita, esse alguém é Ele. E sendo ele a plenitude do homem, não se pode dizer que o matrimônio seja uma condição indispensável para alcançar essa plenitude. Embora, para quem tem vocação matrimonial — geralmente a maioria das pessoas —, o matrimônio constitui um autêntico caminho de santificação e de plenitude.
Por isso, no trabalho apostólico, não vale a pena entrar em comparações. Na realidade, o importante é o que Deus quer de cada pessoa. Não podemos cair no erro de fazer avaliações utilitárias sobre o que é mais e o que é menos. A questão fundamental, ao contrário, é a seguinte: o que Deus quer de mim? Porque o que Deus quer para cada pessoa será o que a fará feliz, o que a conduzirá à plenitude. Além disso — afastando-nos um pouco do tema do celibato — que ninguém pense que o casamento é mais fácil do que o celibato. Embora o celibato envolva inicialmente uma renúncia maior, óbvia e evidente, o casamento envolve um sacrifício, um compromisso e dificuldades que podem ser muito maiores do que as da vida no celibato. É precisamente por isso que não é aconselhável fazer comparações: o melhor será sempre o que Deus quer para cada pessoa. Para os numerários e adscritos, o celibato tem uma dimensão de disponibilidade. Não se trata apenas de uma disponibilidade factual, uma questão de tempo, mas de uma disponibilidade marcada pela paternidade espiritual. O celibato implica uma maior capacidade de se dedicar a uma família maior. No Opus Dei, temos uma família imensa, e o celibato contribui para criar esse ambiente familiar tão essencial. Viver plenamente o significado do celibato, segundo o espírito do Opus Dei, não implica diminuir a paternidade, mas aumenta-la. Por isso todos os numerários, estejam ou não nos conselhos locais, têm a responsabilidade de cuidar das pessoas de Casa.
Não é surpreendente que às vezes surjam tentações no coração — e não apenas na carne. Todos as experimentam em algum momento, e isso é normal. Portanto, não seria lógico ter dúvidas pelo fato de, ocasionalmente, sentir essa atração natural por uma mulher. Ao trabalhar em ambientes profissionais com colegas mulheres, é preciso exercer prudência e proteger os sentidos, pois a atração pelas mulheres não desaparece. Esta é uma luta no sentido positivo: não se trata de viver com o coração fechado. Em certo sentido, sim, mas, ao mesmo tempo, ele deve estar muito aberto ao mundo inteiro, por meio do amor a Jesus Cristo. Não renunciamos a uma vida de amor e a tudo o que isso implica: afetos, desejos, paixão, criatividade, abnegação… Uma pessoa que vive o celibato dirige todas essas energias, típicas de alguém apaixonado, para Deus e para as pessoas e tarefas específicas que nos são confiadas na Obra.
Talvez nos lembremos daquela passagem em Caminho: “Como vai esse coração? - Não te inquietes; os santos - que eram seres bem constituídos e normais, como tu e como eu - sentiam também essas ‘naturais’ inclinações. E se não as tivessem sentido, a sua reação ‘sobrenatural’ de guardar o coração - alma e corpo - para Deus, em vez de entregá-lo a uma criatura, pouco mérito teria tido. Por isso, uma vez visto o caminho, creio que a fraqueza do coração não deve ser obstáculo para uma alma decidida e ‘bem enamorada’” (Caminho, n. 164).
Guardar o coração implica guardar os sentidos, prudência, perseverança e luta – mas uma luta de amor, para crescer na amizade com Deus, com a sua graça. Requer sinceridade consigo mesmo e na direção espiritual, para que nos ajudem; e cultivar a disponibilidade no celibato. E, acima de tudo, que não falte alegria, um bem muito necessário para alcançar a fidelidade: no amor desinteressado aos outros, muitas vezes encontraremos uma profunda felicidade, que nos levará a ter um coração cada vez mais semelhante ao de Jesus Cristo.
Romana, n. 78, janeiro-junho 2024, p. 77-81.
* NT: Campanada: toque do sino. São Josemaria designou com este nome três cartas que escreveu na década de 70 porque era costume – e continua sendo em alguns lugares – chamar para a missa com três repiques de sinos devidamente espaçados, o último dos quais imediatamente antes da celebração litúrgica.
